Arquivo de janeiro, 2009
31/01/2009 - 00:31
O CALÇADÃO REPAGINADO
Em almoço dos diretores da Associação Viva o Centro com o Sub-Prefeito da Sé, entre outras, tivemos a boa notícia de reforma do calçadão. A idéia-projeto vai propor uma renovação completa do calçadão como ele é hoje. Teria um piso carroçável para a circulação necessária feita de concreto. Teria uma caixa contínua de concreto para abrigar todos os serviços de gás, luz, telefone, água e iluminação subterrânea. Teria uma calçada como a da Avenida Paulista. Isso depende ainda de um projeto detalhado e um projeto de execução. O custo estimado é de 35 milhões.
O calçadão projetado por Setubal há mais de 30 anos teve sua razão de ser, como ele ainda é, tanto por razões técnicas como políticas. Havia na época um movimento de repúdio ao privilégio do automóvel, que estimulou a construção de um calçadão contínuo e radical em muitas ruas do centro velho como a Rua Direita, a 15 de Novembro, a São Bento, a Álvares de Azevedo. Os calçadões foram feitos de um combinado de ladrilho português e granito. Quase um milhão de pessoas transitava a pé por essas ruas e a aparência estética do calçadão era muito bonita.
Logo surgiram problemas. O espaço público não foi respeitado. Imensas bancas de jornal e outros equipamentos mobiliários ocuparam os espaços dificultando o trânsito de pedestres e de veículos indispensáveis: ambulâncias, bombeiros, carros de segurança de bancos, radio patrulhas etc. A instalação de condutores de fibra ótica e a renovação de outras enfiações elétricas e sanitárias, acabaram por desfigurar a combinação de granito e mosaicos. Esses se mostraram inadequados à circulação. A falta de rebaixamento para o tráfego de emergência criou um caos na circulação.
Com o novo projeto, todas essas situações ficarão bastante controladas e os materiais previstos serão muito adequados ao seu uso.
Queira Deus e o Prefeito, o projeto da Sub-Prefeitura seja executado, apesar da crise.
Autor: Jorge da Cunha Lima - Categoria(s): Sem categoria
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27/01/2009 - 23:51
UM ENSAIO DE UTOPIAS PARA O TERRENO DO JOCKEY CLUB
Manoel Bandeira, escreveu sobre o Jockey Club do Rio de Janeiro, este verso intrigante:
“OS CAVALINHOS CORRENDO E NÓS CAVALÕES COMENDO”
Em São Paulo, agora que estão querendo desapropriar o Jockey Club, poderiamos dizer:
” OS CAVALINHOS COMENDO E NÓS CAVALÕES CORRENDO”.
Uma das idéias é transformar o terreno mais importante de São Paulo num parque no qual a burguesia saudável iria fazer cooper. Tudo bem. Todo mundo tem direto de fazer seu cooper num parque arborizado.
Mas aquele local, espaço público por excelência, LOCALIZADO entre os bairros mais bonitos da cidade, os Jardins e o Morumbi, servido por carros, trens, ónibus e metro, deve ser pensado como o grande espaço republicano. O grande presente do estado municipal aos doze milhões de habitantes neste aniversário da cidade.
Poderia ser um parque sim, mas com atributos de equipamentos olímpicos. Poderia ser um parque sim, mas com equipamentos culturais de fácil acesso e programação constante. Poderia ser um parque ao lado de um centro de convenções da dimensão de São Paulo.
A enorme praça que é o Jockey Club poderia ser o grande ponto de encontro dessa imensa sociedade multirracial que se comunica dentro de um ” jean” como se todos fossem iguais a voce. Por perto já temos o Ágora dos muito ricos, a Daslu, clonado no shopping da Cidade Jardim. Vamos, senhor prefeito, fazer o Ágora do cidadão normal que tem ou sonha com um emprego. Que tem anseios criativos e culturais. Que tem vontade de ver gente e ser surpreendido pelo acaso de um encontro. Que tem necessidade da estética do espaço público porque a sua estética pessoal é geralmente muito, muito modesta mesmo.
Como o espaço não dá para fazer um Central Parque, podemos fazer um presépio sem grades, onde cada dia nasça uma novidade para alegrar os cidadãos. Vamos encher os e-mails de idéias, os you tube de idéias, os blog de idéias, para que 300 milhões de reais não sejam gastos numa paisagem para os que já estão empanturrados de paisagens.
Autor: Jorge da Cunha Lima - Categoria(s): Sem categoria
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26/01/2009 - 10:28
OS CICLISTAS DE SÃO PAULO
Ontem mais de cinco mil ciclistas se reuniram para um passeio comemorativo. Demonstraram que São Paulo gosta de pedalar. Os paulistanos só não fazem da bicicleta um meio habitual de transporte porque a cidade não deixa. Há um risco de vida muito alto. Por diversas razões. Não há as ciclovias prometidas em todas as eleições e não há educação por parte dos motoristas de automóveis e dos caminhões.
Educar é difícil, mas a adoção de punições severas contra os abusos ajudaria um pouco. Fazer ciclovias faz parte de um planejamento civilizado. A cidade tem declives fortes, mas possui áreas imensas que são planas. Do Ceasa ao aeroporto de Congonhas a cidade é plana. No alto da Paulista a cidade é plana. Nas marginais dos rios a cidade é plana. Mas pedalar nesses planos é quase um suicídio.
Uma experimentada ciclista morreu na Paulista. Virou símbolo recente do descaso público pelo assunto.
A vereadora Soninha já lidera a questão e tem condições de levar adiante sua luta. Kassab não será insensível a uma pressão para que as ciclovias entrem nas prioridades de sua gestão.
Então nós poderemos repetir os versos do poeta Vinicius, mas versos cariocas: “-Bicicletai meninas do Leblon!.”
Autor: Jorge da Cunha Lima - Categoria(s): Sem categoria
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25/01/2009 - 11:23
A COMPREENSÃO DE SÃO PAULO
” São Paulo! Comoção da minha vida” .
Estes versos de Mario de Andrade revelam tudo o que se pode sentir por São Paulo. Mas, cada um tem sua maneira de sentir São Paulo. Eu diria de forma diferente. Para mim seria: São Paulo! Compreensão da minha vida.
O que há de importante numa cidade não é o que ela nos revela, mas o quanto ela nos revela, como um filme velado que, aos poucos, fosse surgindo na tela da existência.
São Paulo da minha infância foi na Aclimação. Tinha um parque lindo, com animais ferozes e um silo. Tinha um lago e quermesses beneficientes. Para se construir a paróquia. Com belos sanduíches de churrasquinho.
O colégio primário tinha professoras cujos nomes e cujo caráter me lembro até hoje. Lá fiz meu primeiro discurso com sete anos em prol dos aliados. Lá a primeira comunhão e o primeiro deslumbramento, pela Maria Silvia, vestida de Nossa Senhora para receber a hóstia.
No São Bento, no centro de São Paulo, descobri três coisas definitivas: a fé, a cultura e a amizade. Não é pouco para um segundo grau.
Na Faculdade de Direito, no largo de São Francisco, foi um tempo de engajamento político e religioso. Nas aulas de direito aprendi literatura. Mas sobrou um resíduo indestrutível de apreço à justiça, à democracia e à convicção de que na política, nada se conquista sem um esforço duplicado.
Um pouco de poesia e boemia vem dessa época. No Pari Bar convivíamos com Juliette Greco,a existencialista e Etiènne Gilson, o teólogo, sem esquecer Sergio Milliet no cantinho do bar. Os poetas explícitos Roberto Piva e Celso Paulini e os poetas implícitos da turma da biblioteca, FHC, Gianotti e outros de igual calibre. Deixava minha lambreta na calçada com a Lettera Olivetti amarrada na garupa e ninguém se lembrava de roubá-la
O escritório da família de empreiteiros era em frente à Biblioteca. Não era bem a minha vocação, mas éramos poderosos. Almoçávamos no Paddock; Happy Hour, na Baiúca; encontros no relógio do Mappin e noitadas etílico-culturais no Cave.
Fiz meu estagio de Sub Chefe da Casa Civil nos Campos Elyseos, com Carvalho Pinto. Aprendi tudo o que significa competência e correção, planejamento de governo, estratégia de comunicação e, paralelamente a ascensão e queda do império paranóico, com Jânio Quadros
No Vale do Anhangabaú dirigi a ULTIMA HORA, por um gesto calculado de Samuel Wainer, que precisava de um paulista, católico, ligado à burguesia política e econômica e ainda por cima poeta. Lá paguei os pecados de traidor da burguesia no dia 31 de março de 1954.
Sempre São Paulo desovando seu feto e seu afeto.
Tinha casado na Igreja de São Bento com pompas e circunstância com a menina mais linda e mais inteligente da cidade.Pena que morreu tão cedo.
Só duas vezes não morei em São Paulo. Numa vez, pela primeira vez fui a Europa e fiquei na Rue Madame, morando em Paris no Hotel de L´Avenir, o mesmo do Axel Munthe e do Alain Moreau. Depois foi em 64 quando fugi para o Rio para evitar a os aborrecimentos com a PM , os mackenzistas e o meu sogro. Embora eu adorasse o Rio dos anos sessenta (o melhor momento da minha vida), eu só escrevia sobre São Paulo.
Voltei com a democracia. Fiz a campanha do Montoro e me vi de novo no centro de São Paulo, secretário de Montoro,o maior democrata que o Brasil conheceu. N Secretaria da Cultura, no prédio Art Deco do Bahiana, na Líbero Badaró, o mesmo arquiteto do Viaduto do Chá, voltei ao centro de São Paulo.
Em São Paulo, fiz a melhor coisa da minha vida: coordenar a Campanha das Diretas. Quando vi a cidadania em corpo e alma na Praça da Sé, chorei. Chorei em presença da vida. Não decepcionaria o cacique aimoré.
Paro por aqui. São Paulo é uma das cidades mais fascinantes do mundo, não pelo acumulo de beleza e de virtudes, mas por sua humanidade. São Paulo nos sabe educar, como uma mãe condescendente.
Autor: Jorge da Cunha Lima - Categoria(s): Sem categoria
Tags: O aniversário de São Paulo
23/01/2009 - 00:02
O ESPETÁCULO DEVE CONTINUAR
Quando a OSESP ganhou um corpo novo de recursos, de músicos e a perspectiva de ter uma sede própria precisou, para se concretizar o sonho de São Paulo possuir uma grande orquestra sinfônica, contratar um grande maestro.
A gestão administrativa, incluindo o pagamento dos recursos humanos, ficou por conta da Fundação Padre Anchieta, a partir de convênio feito com a Secretaria da Cultura.
Preferíamos todos, um maestro nacional. A busca levou-nos a John Neschling, que estava na Suíça regendo a orquestra de um dos cantões. As negociações não foram fáceis. Os salários internacionais eram altos, as passagens aéreas de primeira, muito caras, e a independência de comando requerida pelo maestro era absoluta. O Advogado, Dr. Fortes conseguiu montar um contrato adequado aos interesses da orquestra e do maestro.
Logo, Neschling revelou ter carisma, comando, formação técnica e administrativa, além de ser um regente inspirado e muito exigente.
Enriqueceu todos os naipes com músicos nacionais e internacionais selecionados. Elaborou um repertório amplo e variado, mesclando musica clássico com música moderna, música internacional com autores brasileiros. Montou uma agenda, junto com seu assistente, o jovem maestro Roberto Minczuc, que preenchia semanas e meses de concertos na Sala São Paulo, criada por Covas para abrigar a orquestra.
Paralelamente ao talento do maestro, todos constataram que a nova sala de concertos era uma das melhores do mundo, em acústica e beleza.
Além dos concertos nacionais a orquestra, já consagrada, percorreu a Europa e os Estados Unidos, em excursão consagradora.
Mas, o temperamento do maestro é bastante salgado, suas atitudes e pronunciamentos bastante temperamentais, como a de quase todos os artistas que se consideram responsáveis por uma grande obra.
Os humores governamentais também não são muito dóceis e um conflito subliminar criou uma atmosfera e um desejo manifestado pela Secretaria da Cultura, de substituição do maestro. Fernando Henrique, presidente do conselho da OSESP, conseguiu contemporizar a crise e evitar a demissão de Neschling. O maestro previu e anunciou sua futura aposentadoria da orquestra.
Tudo corria nesse trilho áspero quando, ainda em dezembro Neschling
fez duras críticas ao comando da instituição, arvorando-se em único responsável pela existência e sucesso do empreendimento. As declarações foram excessivas e difíceis de serem toleradas, mesmo por um espírito conciliador como o de Fernando Henrique, que o demitiu por e-mail.
Os concertos programados, até que seja escolhido um novo regente, serão regidos por maestros diversos.
Melhor seria que os ânimos não prevalecessem sobre a anima e o destempero não desafinasse a regência.
Mas apesar disso podemos aplaudir o maestro de pé, com tristeza.
P.S. Em tempo: Tortelier foi convidado para reger por um tempo determinado, até 2011, a OSESP. É um grande maestro e bastante aceito peos músicos da OSESP.
Autor: Jorge da Cunha Lima - Categoria(s): Sem categoria
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22/01/2009 - 09:57
DOIS PRA LÁ TRÊS PRA CÁ
Impossível tirar o foco do presidente Obama. Cada passo seu, de dança ou não, é mídia hollywoodeana. Não é o problema do charme ou do carisma, é que ele tem ginga, tem swing. Isso é muito raro num homem de estado. O estado petrifica. Paralisa a coluna vertebral (dobrada ou não). Paralisa o sorriso.
É verdade que os Estados Unidos, a ginga é qualidade de negro. Como o culto africano entre os escravos era proibido, os negros, convertidos e evangélicos, caiaram no gospell dentro dos templos e no”blues” nas salas de dança, um século mais tarde, No Brasil, o culto africano, sempre discretamente consentido nas senzalas, misturou-se aos sons brasileiros e o rebolado tomou conta do país, entre mulatos brancos e estrangeiros.
O flash de Obama e Michelle, dançando no baile numero dez das comemorações, é antológico . Parecia cena final de filme, quando o herói confirma o amor e a plenitude do status dramático. .
Obama não é um ator, como Ronald Reagan, é um protagonista. Não desempenha a figura do presidente. É o presidente. Quando Reagan pronunciava um discurso a imprensa dizia: Reagan estava muito bem no palanque. Quando Obama pronuncia os seus discursos, a imprensa avalia seu conteúdo.
Essa é a diferença entre um líder que fala pela nação e um ator que representa os interesses de lobbies.
Autor: Jorge da Cunha Lima - Categoria(s): Sem categoria
Tags: OBAMA DANÇARINO
20/01/2009 - 18:24
BARACK HUSSEIN OBAMA
Imaginem vocês um indiano Primeiro Ministro da Inglaterra; um argelino Presidente da França; um sueco Presidente do Egito; um decasségui Primeiro Ministro do Japão; um russo presidente da China; um argentino Presidente do Brasil ou um negro Presidente dos Estados Unidos.
Difícil até de imaginar. Pois isso, meus filhos, eu vi hoje na televisão. Barack Hussein Obama tomando posse como primeiro presidente negro dos Estados Unidos, ao lado da elegantíssima advogada formada em Harvard, senhora Michelle Obama, também negra e de duas lindas filhas menores, envolvidas em belos casacos de pelúcia, porque em Washington fazia zero grau centígrado.
Vi e me comovi, como centena de milhões de pessoas em todo o mundo. Vi e ouvi Areta Franklin cantando em baixo de um fantástico chapéu com um laço de lã surrealista como a própria posse. Vi a mão do presidente negro sobre a bíblia de Abraham Lincoln, jurando fidelidade à constituição, fidelidade que andava meio frágil no governo que se encerra, de um texano mental, branco da gema.
Sei que o que vi não receberia nota dois de nenhuma agencia de ratting de Wall Street, mas recebeu a confiança de 90% dos pesquisados.
Sei que amanhã mesmo, em todos os jornais do Brasil, haverá uma cobrança desmedida, porque o novo presidente não reatou com Cuba, não bombardeou Israel, não acabou com a crise, não prendeu Bin Laden, não reconstruiu o World Trade Center, não devolveu as casas a milhares de americanos e o emprego a todos os pais de família, não fechou os diques de Nova Orleans e não restabeleceu o casamento gay na Califórnia.
Não importa. O céu estava azul em Washington. E a parede da escola que Obama pintou também era azul. Obama só ofereceu decência, trabalho e diálogo em seu discurso. Obama sorriu sem euforia em sua posse E em seu discurso não pronunciou um só vez a palavra eu. Falou em nome dos Estados Unidos.
Autor: Jorge da Cunha Lima - Categoria(s): Sem categoria
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19/01/2009 - 19:44
FLORA – A LUCIDEZ DO MAL
A maldade de Flora não está em matar todo mundo, mas em avaliar cada um com uma lucidez perversa. Só Flora entendeu Irene, só Flora avaliou Lara, só Flora queria tirar dos bobocas a única coisa que eles poderiam oferecer, uma boa cama. Pelo menos ela queria experimentar, de Marcelo a Halley. Só Flora colocou o cão que não ladra nem morde a seu lado, como um capacho da literatura russa. Só Flora tinha um passado freudiano, sem a concessão secular da histeria. Era emoção a flor da pele.
No jargão novelesco era uma frustrada. Uma frustração com data e enredo. Isso lhe envenenou a vida e mais ainda, quando a irmã adicionou adrenalina no frasco frágil de sua existência. Abandonou-a pela primeira vez na boca do palco. Abandonou-a na segunda para casar-se com um milionário. Abandonou-a quando ela foi condenada e presa. Solta, só poderia vingar-se. Fê-lo com felonia. Desdobrou-se em maldades. Mas nunca perdeu a lucidez.
Confundia ódio e amor, como todo personagem de Dostoievski. Era a um só tempo, Dimitri e Ivã. Só queria o que nunca teve e destruía tudo o que possuía. Não queria de volta o que Donatella lhe tirou, queria a própria Donatella. Calçada nessa realidade e em uma conclusão própria, Donatella, insinuou-se como o anjo do perdão. Ofereceu bonecas, prendas e canções. Levou Flora ao perigoso delírio da felicidade. Ofereceu o espetáculo do passado, mas como uma cilada da traição.
Flora, a malvada, sucumbiu à compaixão. Acreditou. Entregou-se. Afinou o beijinho doce para o espetáculo da reconciliação.
Mas…a santinha insossa armou o golpe final. Parou a canção no meio, quebrou todos os parâmetros éticos da dramaturgia, obteve à confissão chantageada e abriu a cortina para o auditório de patetas.
Que final fantástico a Globo desperdiçou. Que maravilha se a novela terminasse com as irmãs reconciliadas cantando Que Beijinho Doce, diante do auditório perplexo e do público perplexo, sem cadeia, sem casamentos finais, sem cavalgadas, sem Chopin. Apenas deixando para cada um de nós a maravilhosa oportunidade de criar, como em toda grande dramaturgia.
Autor: Jorge da Cunha Lima - Categoria(s): Sem categoria
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18/01/2009 - 18:19
EM TRIUNFO TUDO TERMINA EM CASAMENTO
Triunfo deveria ser um programa permanente da Globo. Aquilo é a grande família de classe média de uma realidade urbana em fase de extinção, mas que produz nostalgia, como uma quadro de Volpi. Shiva transita entre essa quermesse urbana e o haras argentino e é um personagem extraordinário, capaz de comover uma pedra. Ele é humano e eficiente em qualquer situação. Foi o único capaz de tirar Donatella da bobeira. Comportava-se com simpatia diante de uma situação mais terrível do que não ter pai, tinha dois pais. Um era hyppie fora do tempo, o outro um prefeito bem intencionado e publicamente corneado. As três irmãs, que não se dedicam a surfs nem surfistas podem ficar no ar indefinidamente. A caçula linda, motorista de caminhão, namora um off Road, drogado e sensual, com quatro marchas, mas acaba domando a fera. A do meio é do tipo que passa por todas e tira lições. Catarina é um fenômeno, seja como artista e como personagem. Não preciso falar do que todos viram, mas do comportamento autêntico, da ingenuidade que tanto os olhos como a boca revelam. Catarina é uma mulher adulta e docilmente sofrida nas mãos de um bêbado machista, mas quando vislumbra uma luzinha de liberdade é capaz de se assumir e mesmo se mandar para Argentina com outra mulher. Cassiano é um Hamlet afetivo, bom caráter, capaz de se apaixonar pela primeira bicicleta que passe pelo asfalto. Mas já falamos dele. O avô, um misto de Tarcisio Meira e Copolla, embora desquitado, é o melhor pai de família de Triunfo, líder operário, animador de festas, galanteador bem sucedido, conselheiro universal e privado, está sempre presente com textos de serestas para consolar os infortunados. É tão generoso que é apaixonado por Irene, do começo ao fim da novela. Em Triunfo, como nas novelas, tudo termina em casamento.
Autor: Jorge da Cunha Lima - Categoria(s): Sem categoria
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17/01/2009 - 15:28
DONATELLA E A QUADRILHA DO BEM
Acompanhei o calvário até o ultimo segundo. Sou profissional. Gostei e detestei, o que é sempre lisonjeiro para o autor. Mas Joáo Emanoel Carneiro deveria ser processado por formação de quadrilha: a quadrilha do bem. Nunca vi o bem ser tão desmoralizado. Nunca vi as pessoas boas serem tão caricatas, tão idiotas. O bando do bem na novela A Favorita melhor estaria entre os Trapalhões. Só armam idiotices na perseguição a Flora e se comportam como débeis mentais. Não salva um na quadrilha do grupo principal da novela. Donatella não é generosa. Não pratica um ato de solidariedade a não ser fazer um mexidinho para o Shiva. Vive chorando, cada vez nos braços de um membro da quadrilha. Como não tem o que dizer, blasfemando contra a irmã, continua chorando. Até no orgasmo final, no Guarujá, Donatella chora.
Donatella não conseguiu perceber a hipótese dostoievskiana armada pelo roteirista. Desperdiçou o seu momento de compaixão freudiana. Aliás dispensa o bom senso e a piedade em todos os momentos. É só ódio. Donatella é o grande bandido da novela, mas isso não se percebe porque é meio sonsa.
Irene não faz jus ao personagem. A alta burguesia paulistana produz mulheres sagazes, não uma romântica de periferia incapaz de perceber o status moral de ninguém. Ela é tão boba quanto inverossímil. Uma quatrocentona mandava bala naquele momento crucial. Zé Bob é delicado demais para aquele papel. Um 00 (nada). Parece uma foca de redação a procura de uma grande matéria. Quando se aproxima daquele mulherão que é Donatella parece um bebê mamando. E a indefectível Lara? Está linda quando lhe aplicam o baton final no casamento de Donatella. Naquela hora nem parece marca do purgante que nos foi servido durante dezenas de capítulos. Harley, candidato permanente a patricinho, faz tudo como se deve. Revela o impulso moral de todo adolescente. Quando está com a mãe falsa é magnífico. Com a mãe verdadeira é falso. Mas dessa forma, o bastardo revela que Cauã é um grande artista, não mais o prepúcio de Malhação. Silveirinha é interessante. Uma espécie de Smerdiakov (personagem dos Irmáos Karamazov). Balança entre o bem e o mal, não por dúvidas metafísicas, mas por instinto e o instinto é a melhor virtude dos animais. Cassiano fez bem. Voltou para o núcleo bom da novela e ainda mais com a recompensa da afro descendente mais linda do hemisfério sul. Aguardem o próximo capítulo.
Autor: Jorge da Cunha Lima - Categoria(s): Sem categoria
Tags: a Favorita
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