SARAMAGO E FUENTES
SEMANA ABENÇOADA
Posso considerar-me um bem aventurado. Na terça feira desta semana, na Ciudad de México e nesta quinta Feira, em São Paulo, assisti, respectivamente, às palestras de Carlos Fuentes e José Saramago.
No Auditório Nacional do México, em comemoração aos oitenta anos de Carlos Fuentes, o escritor realizou uma leitura de capítulos de seus livros antecedendo essas leituras com apreciações pessoais sobre as obras e sobre a vida. 3.500 pessoas em silêncio, um silêncio ritual e emocionado, sorvendo cada palavra de seu ídolo vivo e consagrado. O auditório estava repleto de brancos, mestiços e índios. Desde a revolução a metade de todos os espaços culturais está reservada gratuitamente para o povo. No Teatro Paulo Autran, do SESC Pinheiros, José Saramago teve o lançamento internacional de seu último livro, A Viagem do Elefante. Auditório repleto de brancos. No Brasil ainda não houve a revolução do acesso cultural. Mas Saramago estava deslumbrante. Falou com propriedade o Danilo do Sesc, falou o editor Schwarcz, com emoção e também falou Pilar, com a graça que Deus lhe deu e a qual ela acrescentou sua criação pessoal. A consagrada Corveloni ” representou” com talento um bom trecho do romance, prejudicada pelo microfone invisível que insistia em comparecer com chiados.
Por fim, falou Saramago. Toda a eloquencia da sabedoria e da qualidade de uma vida literária fluiu da voz rouca do escritor, nesse retorno à vida após longa internação hospitalar. Foi um privilégio ouvir o relato do gênio sobre a gênese dessa obra alegre e singular. Foi incrível ouvir do ancião que, depois das glórias literárias a única coisa que ele afirma desejar é tempo, mais tempo e vida, para escrever ainda e amar até o fim sua Pilar e seu pilar.
