2008 novembro | Jorge da Cunha Lima
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Arquivo de novembro, 2008

30/11/2008 - 20:00

MARCELO PORTUGAL GOUVEIA – DO SÃO PAULO

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UM HOMEM INTEIRO
“Tudo o que voce for, seja inteiro,sem divisão e sem dúvida” Ibsen

Os jovens ficam muito chocados quando morre um colega de sua geração. Posso afirmar que nós velhos também ficamos, apesar de ser mais natural que isso aconteça. Contudo, raramente a morte nos convence da sua oportunidade.
Este ano o ceifeiro tem sido implacável. Desde a morte inesperada da Ruth Cardoso, a morte trágica de Joaquim Guedes, a morte serena de Silvio Pereira, a morte de Tereza Lara e ainda outros, vimos sofrendo essas baixas em uma geração tão cheia de ideais e mesmo de princípios.
Hoje, quando estávamos, alguns muitos, entusiasmados com o jogo do São Paulo, recebi a triste notícia da morte do Marcelo Portugal Gouveia, do São Paulo Futebol Clube até o fundo do coração. Foi presidente do clube. Sofreu e se alegrou sentado no banquinho em milhares de jogos. Sempre dizia que, quando morresse, queria ser velado no clube bem amado. Pois foi enterrado neste domingo, poucas horas antes do jogo. Seu féretro não pode sair do Morumbi, só o espírito. Mas estavam lá todos os amigos do clube e da vida, porque além de torcedor exemplar, foi sempre um bom amigo. Juvenal, Marco Aurélio, Abílio, os jogadores que choraram no vestiário, e milhares de gentes.
Não ganhamos o jogo. As alegrias não podem se confundir com a morte. A vitória foi adiada.
Mas quero dizer uma única coisa. Marcelo foi sempre um homem inteiro. O profissional, o pai, o torcedor e o amigo. Tem no DNA, do velho Portugal e da Zenaide, essa virtude rara de ser o mesmo, aliás, como suas irmãs, Gilda e Silvinha.

Autor: Jorge da Cunha Lima - Categoria(s): Sem categoria Tags:
29/11/2008 - 16:48

SARAMAGO E FUENTES

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SEMANA ABENÇOADA

Posso considerar-me um bem aventurado. Na terça feira desta semana, na Ciudad de México e nesta quinta Feira, em São Paulo, assisti, respectivamente, às palestras de Carlos Fuentes e José Saramago.
No Auditório Nacional do México, em comemoração aos oitenta anos de Carlos Fuentes, o escritor realizou uma leitura de capítulos de seus livros antecedendo essas leituras com apreciações pessoais sobre as obras e sobre a vida. 3.500 pessoas em silêncio, um silêncio ritual e emocionado, sorvendo cada palavra de seu ídolo vivo e consagrado. O auditório estava repleto de brancos, mestiços e índios. Desde a revolução a metade de todos os espaços culturais está reservada gratuitamente para o povo. No Teatro Paulo Autran, do SESC Pinheiros, José Saramago teve o lançamento internacional de seu último livro, A Viagem do Elefante. Auditório repleto de brancos. No Brasil ainda não houve a revolução do acesso cultural. Mas Saramago estava deslumbrante. Falou com propriedade o Danilo do Sesc, falou o editor Schwarcz, com emoção e também falou Pilar, com a graça que Deus lhe deu e a qual ela acrescentou sua criação pessoal. A consagrada Corveloni ” representou” com talento um bom trecho do romance, prejudicada pelo microfone invisível que insistia em comparecer com chiados.
Por fim, falou Saramago. Toda a eloquencia da sabedoria e da qualidade de uma vida literária fluiu da voz rouca do escritor, nesse retorno à vida após longa internação hospitalar. Foi um privilégio ouvir o relato do gênio sobre a gênese dessa obra alegre e singular. Foi incrível ouvir do ancião que, depois das glórias literárias a única coisa que ele afirma desejar é tempo, mais tempo e vida, para escrever ainda e amar até o fim sua Pilar e seu pilar.

Autor: Jorge da Cunha Lima - Categoria(s): Sem categoria Tags:
27/11/2008 - 16:10

SANTA CATARINA E O ENSAIO SOBRE A CEGUEIRA

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UMA ÉTICA DO SOFRIMENTO

As fotos de primeira página dos jornais brasileiros são impressionantes. Cidades inundadas, cidadãos semi-afogados, mercados sendo saqueados. -Nunca fiz isto em minha vida, mas todo mundo está fazendo. Logo, não teremos mais mantimentos.
Meu filho me alertou: – Pai! Parece o livro do Saramago. O caos produzindo um comportamento inédito. Todo mundo se igualando na barbárie produzida pelo sofrimento.
De fato, o caos é o pior dos conselheiros: na cegueira, nas guerras e nas catástrofes da natureza. O maremoto que atingiu Nova Orleans mostrou-nos a face desconhecida dos Estados Unidos, onde uma miséria africana parecia impossível de ser constatada. Os mesmos desesperados nas ruas, abaixo da lei e de qualquer ética. Bangladesh é uma tormenta permanente, na qual qualquer tipo de ordem sucumbe aos imperativos da miséria. As guerras destroem todo o senso moral, seja nas trincheiras, seja na retaguarda das cidades, dos quartéis e dos comandos políticos.
Agora foi a vez do Vale do Itajaí. As pessoas não são responsáveis pelo dilúvio que, em duas horas, fez transbordar os rios e destruiu símbolo mais concreto de vida que são as moradias das pessoas. Pode ser que algumas pessoas estivessem morando em lugares de risco, mas não se pode dizer isso de uma cidade inteira. A velocidade da catástrofe surpreendeu da defesa civil. A água padronizou as consciências humanas e materiais. O sofrimento nos transforma em bichos, a desordem, numa selva.
Nesse contexto só restam algumas poucas alternativas: verbas públicas e solidariedade humana.

Autor: Jorge da Cunha Lima - Categoria(s): Sem categoria Tags:
24/11/2008 - 12:12

MEXICO – A DISTÂNCIA ENTRE A CULTURA E A POLÍTICA

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O SERVIÇO E AS DISTÂNCIAS NO MÉXICO

Todas as impressões que temos de um país são instantâneas. Isso nos leva a grandes erros de interpretação. Generalizamos demais e cometemos, não raro, injustiças de interpretação.
Cada vez mais acho que a prestação de serviços, no México, tem desempenho modesto. Mesmo em hotéis de quatro ou cinco estrelas os empregados nos tratam com uma distância monumental. Quase não olham para os clientes, respondem em voz baixa, com alguma má vontade e sorriem muito pouco, a exceção das arrumadeiras. Em primeiro lugar pensei que falta um bom SENAC para a formação desse tipo de pessoal. Aos poucos fui percebendo que não. Trata-se de uma distância enorme, e acentuada a cada dia, de nós, da burguesia branca. Não é uma questão de preconceito declarado, mas uma cultura enraizada no DNA, que carrega uma revolta secular contra o que o nosso Cláudio Lembo denominava: “elite branca e cruel”.
Nos países em que a população indígena manteve uma razoável preservação da raça e cujo passado histórico induz a um orgulho justificável, como o México, o Peru, a Bolívia, a Guatemala e tantos outros de colonização espanhola, a exceção da Argentina, os índios assimilaram em boa escala a cultura européia. Mesclaram essa cultura com os próprios conhecimentos e formaram um amálgama que produziu uma coisa muito positiva, no plano cultural.
Contudo, essa simbiose que marca a cultura da América Espanhola, como afirmava Carlos Fuentes, não produziu o mesmo efeito na escala política e econômica. Aí a distância continuou profunda e impermeável. Se nas telas de pinturas, temos o mesmo valor, assim como na música, na dança e até na poesia popular, o mesmo não acontece no emprego, no comercio e na produção industrial. Essa distância desqualifica a ambos os segmentos. Todo mundo sai perdendo na geografia, na política e na economia das discriminações. A aproximação cultural pode ser um bom caminho para uma nova revolução mexicana.

Autor: Jorge da Cunha Lima - Categoria(s): Sem categoria Tags:
24/11/2008 - 04:46

UM SUCESSOR PARA CHAVES?

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LEDEZMA NÃO É UM DIREITISTA RAIVOSO

Soube, por uma amiga historiadora, com grande vivência política na América Latina, Caribe e Espanha, que Ledezma, o vencedor de Caracas, está se preparando para uma sucessão democrática de Chaves. A oposição, nas recentes eleições, esperava ganhar mais estados; não conseguiu, mas ficou com estados importantes e com a prefeitura de Caracas, centro político do país. Maria Eugenia, que conviveu em alguns projetos sociais com o próprio Obama, me afirmou que Ledezma, que tem cinqüenta anos, é um homem de centro, convicto e que possui uma grande capacidade de diálogo e conciliação. Não pretende fazer de sua carreira um desafio a Chaves, mas um elemento de consolidação política da Venezuela. Não será fácil ao atual presidente consolidar uma política populista, com o caixa baixo. O petróleo é a única fonte da economia venezuelana e seu barril baixou para cinqüenta dólares.
Contudo, o mais difícil na Venezuela é produzir uma ideologia política e econômica para enfrentar a crise mundial. Nem a esquerda de Chaves, sem petróleo para vender caro, nem a ultra direita (agora órfã da decantada eficiência econômica do capitalismo) e muito menos o centro do novo protagonista, Lezdema, tem qualquer alternativa macro econômica ou financeira, para que a Venezuela, sob o comando de Chaves, possa atravessar a crise com um mínimo de segurança.
Importante é que a Venezuela se comporte como um país democrático. Que todos se unam para superar a crise e permitam que a democracia não seja violentada no futuro próximo e remoto.

Autor: Jorge da Cunha Lima - Categoria(s): Sem categoria Tags:
23/11/2008 - 13:09

A CRISE E O MOTORISTA MEXICANO

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NINGUÉM ESCAPA DESTA

Tomei um táxi no aeroporto Benito Juarez, em Cidade do México, e logo fui abrindo um papo com o motorista. Perguntei sobre a crise e ele me respondeu: – Já chegou. E o pior. Todos nós vamos pagar essa conta. Como eu desse alguma corda, prosseguiu animado: – Os gringos armaram essa e deviam pagar a conta. Mas “en los Estados Unidos”, quando o negócio dá lucro o capitalismo ganha, quando dá prejuízo todos os paises do mundo vão pagar. Eles descobriram essa forma de socialismo. Você não acha que a coisa vai melhorar com o Obama, perguntei. – Vai mudar o estilo. O sistema continua o mesmo, respondeu-me com bastante convicção. E partiu para a digressão, com a cabeça de cinco quilos bem colada no pescoço, – O mundo é todo igual. Ninguém está por fora. Se a bolsa dos gringos cai lá em Nova York, temos menos cliente aqui. O valor do peso está caindo muito. Comprava-se um dólar com dez pesos. Agora já está em quinze. Isso o senhor poderia me explicar, porque vejo tratar-se de um homem “distinguido”. Como num país falido, que estaria lá embaixo se as outras nações tivessem força, a moeda pode subir durante a crise. Pode me explicar, por favor. Respondi com humildade que eu também não entendia. Então, comecei eu a divagar, no percurso entre Benito e o Holliday Inn de Zócalo. Quem nos faz entender ainda menos é a mídia. Nunca, ninguém nos advertiu sobre os riscos da globalização de uma macroeconomia liberal. Todos os editoriais exaltavam o enriquecimento do mundo, apesar da péssima distribuição de rendes. Tanto quanto os heróis da novela, os meninos bem sucedidos das bolsas ou das mesas de fundos eram considerados gênios. Os executivos tinham todo o direito de enriquecer com ganhos em atividades temerárias. Nem o Grinspun chamou a atenção dos malandros. Ninguém culpou ninguém, a crise fica por conta da conjuntura. Em vinte dias conseguiram reunir dois trilhões de dólares para salvar o sistema financeiro. Não deram um tostão para salvar a biosfera. Quando o carro parou em frente ao hotel eu ainda estava discursando. O motorista apenas falou – O senhor é muito caloroso.

Autor: Jorge da Cunha Lima - Categoria(s): Sem categoria Tags:
22/11/2008 - 12:00

A DUQUESA

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UM FILME PARA INGLÊS VER

O absolutismo do Século XVIII, pouco antes da Revolução Francesa, não era apenas político. Imperava com o mesmo ímpeto na vida familiar. Não foi diferente no castelo do Duque de Devonshire, quando levou ao altar a bela Georgina, com a finalidade precípua de lhe dar um herdeiro homem. Georgina era um barato. Conquistou todo o mundo: as mulheres, ao propor-lhes uma renovação completa da moda e do vestuário; os homens, ao discutir política e revelar uma precocidade enorme, sobretudo com a ajuda do jovem Grey, seu apaixonado. Georgina crescia em idade e sabedoria, sem, contudo, brindar o intragável Duque de Devonshire com um filho homem. Só paria mulheres.
O duque tratava-lhe mal, enfiou-lhe nas fuças e na convivência uma amante, Lady Foster, e seus três filhos homens. Quando a duquesa, mulher avançada, pretendeu fazer um pacto, permitindo-se abertamente conviver com o amante, Lord Grey, o Duque fechou o tempo e a jovem esposa num quarto onde praticamente a estuprou de novo. Veio um filho homem e a única gentileza do duque, em êxtase, foi dar-lhe um cheque quase em branco para que ela gastasse como bem entendesse.
A duquesa insiste em acalentar o Grey na corte do marido, como ele fazia com a sua amante. O Duque ficou irado. A duquesa confessou-lhe que estava grávida de Grey. O Duque internou-a numa fazenda por 10 meses, tirou-lhe o filho e remeteu-o ao general Grey, pai do pai. Georgina foi instada a voltar para o Castelo de Devonshire e lá viveu até o fim da vida, ao lado dos filhos e de Lady Foster. Morreu e Lady Foster virou Lady Devonshire. Grey casou com outra mulher, teve filhos e uma sobrinha que, por conveniência era sua própria filha. Respeitando as regras e a tirania, virou primeiro ministro da Inglaterra.
Tudo isso hoje em dia, num cinema do Iguatemi, repleto de jovens punk, pode parecer idiota, mas não é. Fino desempenho de Finney, fino desempenho da duquesa. Uma verdadeira bíblia de prepotência e preconceitos. Um belo mostruário de hipocrisia e personalidades. Só mesmo uma duquesa do Século XVIII.

Autor: Jorge da Cunha Lima - Categoria(s): Sem categoria Tags:
21/11/2008 - 12:10

O DIA DA VINGANÇA NEGRA

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ONTEM – O FERIADO MUNICIPAL DO NEGRO

Tudo estava preparado para que a mais exuberante exaltação da civilização branca, Kaká e Cristiano Ronaldo, se transformassem num Aquiles da Ilíada de Homero. Mas naquele subúrbio de Brasília, depois do seis a dois, o herói não foi Kaká nem a sua versão portuguesa, o belo Cristiano Ronaldo. Foi Luis Fabiano, um mulato mais modesto, contudo com o timbre visual de Obama.
O século está mesmo para os negros. Num único mês: o piloto inglês – negro, o candidato à presidência dos Estados Unidos – negro, o marcador do Bezerrão – negro.
Não preciso falar que de cada três campeões brasileiros, em qualquer modalidade, dois são negros; não preciso lembrar que de cada três cantores, dois são negros; de cada três grandes rapper(s), 3 são negros.
Não preciso falar que o museu mais instigante da nova safra museológica paulista é o Museu da Raça Negra, do Manoel Araújo, um dos maiores escultores brasileiros – negro.
Por contraste, também poderíamos dizer que o maior número de desempregados é de negros, que os piores salários vão para os negros, que o menor números de universitários também é de negros e que na fotogenia do crime o número de presos também é de negros, enquanto 90% dos pornô heróis das novelas são brancos.
Os brasileiros são abertos à raças que vêm de fora e muito fechados à raça negra, que vem de dentro. Não porque não haja uma afetividade história e uma sensualidade carnal com essa raça de babás e mulheres lindas. Mas porque o brasileiro tem preconceito contra o pobre, e o negro, no Brasil, é estrutural e historicamente pobre. Imigrante rico no Brasil é quatrocentos anos (basta ler as colunas sociais). Negro rico é recebido com aplausos e festas. Até terrorista rico aparece nas banheiras da CARAS.
O maior preconceito de uma sociedade é não dar oportunidade ao outro. É manter e preservar o gueto neoliberal dos que já estão inseridos: sejam brancos, negros ou amarelos. E no Brasil, quem tem menos oportunidades de inserção social, educacional, financeira e política, são os negros.
Enfim, só há a comemorar a virtude dos negros, e o esforço de se transformarem em exceção, quando há oportunidade. A generosidade dos brancos fica para outra data.

Autor: Jorge da Cunha Lima - Categoria(s): Sem categoria Tags:
20/11/2008 - 18:40

SUZY, VICK E PENÉLOPE CRUZ

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WOODY ALEN E A VIRTUDE DA PAIXÃO

O que nos preserva do envelhecimento é a paixão e uma relativa capacidade de assumirmos riscos. Isso quer dizer que o burguês, cuja capacidade de riscos é mínima, envelhece muito cedo. Nós, os apaixonados crônicos, damos prejuízo ao seguro.
Já na juventude, a paixão nos amadure e nos liquida. Latimos, sofremos e envelhecemos um pouco, diante de uma paixão fomentada ou inesperada.
Para entender melhor, paixão é aquele sentimento no qual, em presença ou ausência de seu objeto, a boca do estômago incendeia como um etanol de carne,
O único artista contemporâneo que coloca a paixão no seu devido lugar é o Woody Allen. Não trata a paixão pelas suas causas, mas pelas suas conseqüências. Os apaixonados de Woody Allen passam da ulcera ao bofetão com uma espantosa velocidade. Não leva desaforo para casa nem para a cama.
Mas a paixão é um sentimento com geografias bem determinadas: a paixão de uma espanhola difere, na gestualidade, da paixão de uma americana em férias na Espanha. A de uma loira de olhos ambivalentes, entre o azul e o verde, não tem nada a ver com a paixão das morenas, mais evangélicas, quase Wall Street.
A impulsividade da paixão não supera as raízes antropológicas da mente. O que unifica o mundo de Vick e Cristina em Barcelona são duas coisas: a paisagem urbana mais sedutora deste começo de século e o diálogo de Woody Allen que fala por todo mundo. Assim, todos os personagens desse diretor são nteligentíssimos, mesmo quando falam em nome de um casal medíocre de freqüentadores de antiquário.
Entre Vick e Cristina realça a pistola de Penélope Cruz, vulgo Maria Emília, genial de beleza,a paixão em carne e osso. Detalhe. A língua da paixão é o espanhol, da mesma forma que o italiano é a língua do melodrama e o inglês, a língua da tragédia. Em espanhol, porque se recusa a falar inglês, Maria Emilia prova que a paixão só se resolve no triângulo amoroso, não dá para viver a paixão a dois, acaba na porrada.
É tal a exaltação da figura feminina neste filme que me dispenso de falar do herói, um tremendo bom caráter.

Autor: Jorge da Cunha Lima - Categoria(s): Sem categoria Tags:
18/11/2008 - 14:28

AVISO AOS NAVEGANTES

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UM ESTADO PARALELO NO BRASIL

Vinte e três homens armados e bem escoltados assaltaram um condomínio fechado de “Segurança absoluta”, com muros altos, vigias, cerca eletrônica etc, etc. Os assaltantes estavam garbosamente vestidos com uniformes de polícia civil e afirmaram aos porteiros estarem em caça de drogados, o que abriu-lhes as portas do condomínio.
Isso já está se tornando corriqueiro, como assassinar e estuprar adolescentes, assaltar bancos, caminhões e até mesmo carros-fortes.
Trágico é o que está por detrás disso tudo. Os grupos criminosos possuem um serviço de inteligência mais eficiente do que a polícia, sabem quem, quando e onde assaltar. Estão melhores aparelhados do que a política. Trabalham sempre com armamentos de última geração. Possuem um sistema de comunicação que, além de interceptar as freqüências policiais, impedem o acesso dos policiais a seus códigos. Utilizam-se de carros blindados em ataques mais sofisticados e ensinam os neófitos a usarem carros roubados durante a ação criminosa. Mais do que isso: têm comando unificado. Utiliza-se de processos judiciários sumários dentro da corporação. Seus recursos financeiros ainda não foram afetados pela crise, pois não costumam aplicar seus fundos nas bolsas de valores.
Assim, constituem um aparato de poder paralelo ao poder constitucional. Não um poder derivado da proliferação das individualidades criminosas, mas um poder real derivado do sistema de tráfico, produção e circulação de droga. O que unifica o exército paralelo do crime não é nem mesmo a manipulação ou uso conspícuo do dinheiro, é a arte da manipulação social, e o poder que disso deriva. Um bom ponto de drogas confere status ao distinto. A arapongagem dá poder dentro da geografia do crime. Um mensageiro que leva droga do ponto ao consumidor, geralmente menor de idade, transforma-se no chefe da família, jovem provedor que é. Assistência social , médica, financeira, para sobreviver, construir barracos, deslocar-se, tudo isso é garantido pelo estado paralelo do crime.
Há uma geografia confinada, uma espécie de gueto inviolável e uma geografia expandida. Há ainda a geografia e o quartel general do crime, ás vezes dentro das penitenciárias de segurança máxima.
Isso tudo quer dizer que o estado brasileiro já perdeu o pé. E, junto, perdeu a consciência do problema, que se transformou em manchete permanente do Jornal Nacional. Tanto que não toma providências adequadas. Beira o ridículo o conjunto das ações policiais e militares.
Quando julgou conveniente acabar com a subversão e o terrorismo, foi implacável, quase eficiente, apesar dos métodos utilizados. Contra o crime comum é de uma incompetência notável, em todos os níveis: federal, estadual, municipal e condominial.
Hoje deixo este meu aviso aos navegantes neste utensílio democrático que é o BLOG.
Amanhã, é possível, que não se possa nem mesmo navegar, sem a autorização do PCC.

Autor: Jorge da Cunha Lima - Categoria(s): Sem categoria Tags:
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