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Arquivo de outubro, 2008

17/10/2008 - 20:19

QUANDO A PREFEITURA VAI CEDER A OCA PARA O MAM ?

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O ACERVO DA INTELIGÊNCIA PAULISTANA

Ontem quando saí do Paulistano achei muito bonita uma casa recém construída em puro estilo de castelo normando. Fiquei tão assustado com o meu súbito entusiasmo com o arcaico que resolvi tomar uma vacina urgente contra o mimetismo urbano do mau gosto.
Corri para a exposição dos 60 anos de MAM, na OCA do Ibirapuera.
Desde que Ciccillo Matarazzo comprou o primeiro quadro moderno para o MAM, o Museu se transformou num mostruário da inteligência modernista em São Paulo.
Antes mesmo da Segunda Bienal, que foi o mais importante marco de modernização da sociedade brasileira, o MAM já se transformara em profecia desse surto permanente.
Contudo, a incrível exposição que abriu ontem no Ibirapuera, conta até as dificuldades iniciais. O prefeito Abrão Ribeiro, de família culta e ele mesmo muito bem formado, ainda era um parnasiano em termos de pintura. Monteiro Lobato, que era um gênio como escritor infantil e empresário que acreditava no petróleo brasileiro, em matéria de arte, era uma zebra. Além de sua anterior difamação de Anita Malfatti, afirmava que os modernistas pediam a instalação de um museu de arte moderna, para não solicitar um espaço de lixo mais adequado.
Quem percorre a exposição percebe o equívoco. Tudo é de uma beleza progressiva e meridiana. Quando vemos na saída, que também é entrada, o móbile de Calder, no suporte de uma mesa, o sentimento de alegria, diante da arte, se ilumina.
Mas o MAM ainda não foi totalmente compreendido. Por mais incrível que pareça, teve de pagar aluguel para fazer essa exposição no próprio da prefeitura, quando há muito tempo o prefeito já deveria ter feito a transferência da OCA para o MAM.
A OCA é o espaço adequado para exibir a modernidade oculta da inteligência paulistana e internacional em caráter permanente.
Deixo essa pergunta suspensa no ar e não deixarei prefeito tranqüilo enquanto não der uma resposta positiva.
Quando a prefeitura vai ceder a OCA para o MAM?

Autor: Jorge da Cunha Lima - Categoria(s): Sem categoria Tags:
16/10/2008 - 16:20

A SELEÇÃO IMITA A CRISE

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JOGADOR DETESTA JOGAR EM CASA

O Brasil, paÍs do futebol, parece que esgotou o seu talento, de tanto acreditar no mercado. Verdade. Depois que o futebol transformou-se num grande negócio e os jogadores em produtos, não temos mais uma seleção brasileira de futebol. Temos jogadores emprestados por clubes internacionais, para convocações compulsórias em disputas oficiais, de caráter internacional.
Esses campeonatos mundiais assemelham-se muito a feiras de automóvel, de livros, de lanchas, de gastronomia e mesmo Olimpíadas, em menor escala, porque essas ainda colam os atletas à sacrossanta bandeira do país.
O único momento mais ou menos nacional do futebol está na execução do hino, quando os jogadores aparentam saudades do Brasil. Ficam com aquela cara de quem está com saudades da mãe, do morro e da feijoada.
Durante a disputa a coisa complica. Não estão habituados uns aos outros. Pensam em si e não no coletivo. Protegem as canelas e demais atributos porque valem ouro no mercado internacional. Se a retaguarda do adversário tem as calcinhas frágeis (como dizia o Jânio Quadros), tudo bem, entra-se facilmente. Se, se fecham um pouco, o jogo acaba. E baixa aquela angústia, não se entra pelas laterais nem pelo centro. Como a nossa defesa é sempre profissional e os adversários igualmente desmotivados, fica-se no empate. Estrugem vaias no Vale de Josapha.
Políticos existem para catar votos e jogadores de futebol para marcar gols. Seleção do mundo tem que ganhar em casa. Mas em casa, por incrível que pareça, o time piora. O jogador fica louco para voltar. A Itália está esperando. A Espanha está esperando. A Arábia Saudita está esperando. Longe da pátria não há deveres amorosos com a seleção, nem históricos; ninguém, fica sendo comparado com Pelé, Tostão, Garrincha, Domingos da Guia. Na Europa é só Euro e louros.
O Brasil é chato, exigente, não deixa nem a gente empatar. A torcida está ficando muito sem educação com essa mania de mandar o Dunga voltar para a Branca de Neve.
Até agora o Primeiro Ministro inglês não deu nenhuma idéia para se mudar o futebol

Autor: Jorge da Cunha Lima - Categoria(s): Sem categoria Tags:
16/10/2008 - 12:30

DA ÉTICA NA DERROTA

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NEM O LULA ENTENDEU O FORA DELIBERADO

Mais difícil do que a compostura na vitória é a compostura na derrota. A política, por maior que seja a sua razão democrática de existir e, portanto, competir, só entende a vitória. Seria normal o confronto de duas propostas e a aceitação do endosso que lhe desse o povo a partir da votação livre e independente. Mas não é assim. Só a vitória é aceita em política. Daí deriva que se deve ganhar a qualquer custo. O primeiro é o custo da campanha que dá pretexto às maiores roubalheiras na arrecadação de fundos. Depois o custo do vazio de propostas. O custo do horário gratuito e compulsório, o pior programa que se inventou para a televisão até hoje. Depois ainda e, principalmente, o custo moral. O candidato é obrigado a dizer coisas que não pensa e coisas sem pensar. O candidato, mesmo quando terno, agride. Quando agressivo, descamba. O custo mais sutil é o dos marqueteiros. Têm sempre soluções infalíveis para o desespero: a baixaria programada.
Marta passou a vida a defender a diversidade social, os comportamentos alternativos, os impulsos de liberdade, sobretudo no campo erótico e amoroso.
Quando os 16 pontos de diferença pareceram surgir do nada para ela, do absoluto vazio moral da campanha, surgiu a indagação luminosa. Kassab é casado? Tem filhos?
Todo mundo sabe que Kassab é solteiro, como centenas de políticos em todo mundo.
Mas a pergunta, sozinha e solta no ar, haveria de desmoronar o adversário quase vencedor, e Marta venceria em São Paulo. Seria aclamada no PT como sucessora viável de Lula. Mas a indagação caiu como um tiro no dedão do pé da candidata.
E isso foi percebido pela crônica política, pelos ideólogos do PT, pelos intelectuais de esquerda e de direita, por todos os movimentos alternativos do país. E fez com que os marqueteiros dessem o dito pelo quase não dito e o gozo pelo não gozo.
Mas como ninguém é bobo em matéria de política e de sexo, até as mais crédulas periferias entenderam o recado inútil. E como pensava Covas: As urnas sempre escrevem correto, mesmo que por linhas tortas.

Autor: Jorge da Cunha Lima - Categoria(s): Sem categoria Tags:
15/10/2008 - 12:08

RECESSÁO – QUEM SABE SABE.

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DOS BANCOS À RECESSÁO

FLASH GORDON – O primeiro ministro inglês tornou-se a figura mais importante da crise. Foi o primeiro dirigente, com formação econômica, a quebrar o tabu liberal da não intervenção do estado. Paulson admiitiu dar dinheiro em nome do estado, mas não para estatizar parte dos bancos. Agora está aceitando a tese e a prática de Gordon.

KRUGMAN – O vencedor do Prêmio Nobel de Economia já vinha falando há mais de um ano que Bush e o mercado imobiliário levariam os Estados Unidos a uma situação insustentável. No memorável Roda Viva que fez na Cultura no mês passado, reiterou as mesmas advertências e temores. Infelizmente, as instituições mais fechadas a escutar previsões que contrariem a infalibilidade do mercado, são as agências medidoras de ratting.

GALBRAITH – O maior dos economistas americanos e, mais criticado pela mídia, previu há dez anos a crise atual. Foi considerado um derrotista. Ele dizia que desde a crise das tulipas, na Holanda, o mercado tem memória fraca. Dura o tempo de morrerem os diretamente atingidos pela débâcle. Diz ainda que ninguém passa recibo certo. Ninguém culpa a ambição e o mecanismo perverso das alavancagens. Chegam até a acusar São Pedro, o Neptuno dos Tsunamis contemporâneos.

DELFIM NETO – Com seu sarcasmo habitual, Delfim, o homem da real politik, acusa de insensibilidade o Diretor do Tesouro Americano, Paulson, quando se recusou a auxiliar o Lehmann Brothers. A cascata desabou em menos de 24 horas.

STRAUSS – O presidente do FMI ao ver que suas próprias ações estavam desabando, pronunciou a frase memorável para um diretor de FMI: o mercado está derretendo. No dia seguinte, por ordens vindas de toda a parte, botou a manteiga na geladeira. E fechou o bico.

LULA – já começa a perceber que a marola está dando para surfar. Meirelles já tinha colocado a prancha na onda muito antes. Só não entendo porque ainda não baixou o juros.

TODOS OS ECONOMISTAS – É unânime a crença que depois do ajuste bancari-financeiro não escaparemos de uma recessão, com maiores e menores danos, conforme a geografia econômica, mas globalmente. Ninguém escapará da recessão.

IRONIA – Enquanto o ocidente liberal começa a estatização do patrimônio dos bancos, a China cogita de dar terra à cooperados para suprir de alimentos o mercado interno.

Autor: Jorge da Cunha Lima - Categoria(s): Sem categoria Tags:
12/10/2008 - 11:53

REPUBLICANOS AFUNDAM OS ESTADOS UNIDOS

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AS ADVERTÉNCIAS INUTEIS DE GALBRAITH

John Kenneth Galbraith, num notável ensaio que escreveu há mais de dez anos ” Uma breve história da euforia financeira”, nos relata dois fenômenos complementares. Um, é o que sempre um presidente republicano está no poder, quando as crises se formatam. Outro é de que a sociedade econômica não aceita nunca a idéia que o mercado e as ambições especulativas são responsáveis pelas crises.
Como a memória dos eventos financeiros é fraca, não dura mais de dez anos, em todas as crises posteriores, ninguém se lembra do papel do partido republicano nem do surto de alavancagem, impulsionado pela ganância dos aumentos irresponsáveis dos valores relativos.
As vésperas de 1929, o presidente dos Estados Unidos era, inevitavelmente (como diz Galbraith), republicano, e seu secretário do tesouro, Andrew W. Mellon.
Sessenta anos depois vem o inefável Ronald Regan, o maior apóstolo da infalibilidade do mercado. Como os investidores também fazem parte do partido republicano “é fácil para aqueles que parecem assim tão abençoados deixarem-se levar pelas oportunidades novas e quase infinitas de enriquecimento inerentes numa era republicana sob um regime republicano.”
Assim veio a crise de 1987, sobre a qual houve advertências desprezadas e justificativas ridículas.
Não precisamos dizer que esta, a maior crise depois de 1929, foi precedida e estimulada por George Bush, tão republicano quanto se possa ser no espírito e na prática.
O livro de Galbraith nos mostra que as crises são idênticas, da mesma forma que as suas causas escamoteadas pelos intelectuais economistas e pelos gênios do período de bonança. Voltaremos ao livro.

Autor: Jorge da Cunha Lima - Categoria(s): Sem categoria Tags:
10/10/2008 - 23:13

O PROBLEMA DE LULA É 2009

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LULA E A CRISE

As pessoas têm reclamado de Lula um pouco mais de realismo diante da crise. Hoje mesmo ele afirmou que a situação está boa e que todo mundo pode continuar comprando. Ao mesmo tempo o BANCO CENTRAL se arma de instrumentos jurídicos e estratégias para dar conta do recado, seja na crise do crédito, seja na do câmbio. Henrique Meirelles está atento e forte, como dizia a música popular.
Essa postura de Lula vai durar até o dia 27 de outubro, quando o segundo turno já estiver inteiramente jogado. Lula não pode fazer a síntese depressiva adequada, três semanas antes das eleições de segundo turno. Além de que o derrotismo não faz parte de sua personalidade, nem é conveniente ao seu carisma popular.
Lula sabe que a crise é de alçada mais alta do que ele e, esperar umas semanas para ver o que vai acontecer com o mundo e com os Estados Unidos, coincidirá com seus prazos eleitorais. Há ainda as eleições dos Estados Unidos, que não resolverá a crise qualquer que seja o seu resultado, mas nos dirá que país sairá dela. Com Obama, por certo, será outro país.
O problema de Lula não é mais 2010, é 2009. Só um 2009 bem governado lhe garantirá um retorno em 2014, e Lula ainda é bastante jovem, para conformar-se com um exílio definitivo em São Bernardo do Campo.
Quando um homem, durante oito anos nunca precisou abrir uma maçaneta, ele adquire um gosto diferente do poder. Está pronto para uma continuidade permanente. Como isso não é possível numa democracia, a estratégia do retorno torna-se necessária.

Autor: Jorge da Cunha Lima - Categoria(s): Sem categoria Tags:
08/10/2008 - 22:40

BENDITA CRISE

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ATÉ O PAPA JÁ ESTÁ ABENÇOANDO A CRISE

A grande reclamação mundial dos últimos tempos era o risco do fim dos tempos, não o fim da história, como afirmava o Fujyama, mas o fim da vida no planeta.
O fim dos tempos que a economia e a produção capitalista ameaçavam está, como se sabe ligada ao consumo desenfreado, às emissões de carbono, ao esgotamento das matérias primas energéticas, tudo enfim que além de tornar o homem cada dia ” mais feliz” , ameaça sobremodo a sua sobrevivência.
O fim dos tempos está ligado à idéia de que a economia globalizada não resolveu o problema da redistribuição de rendas, da miséria, da fome e de todas as injustiças sociais espalhadas pelo mundo, apesar das safras agrícolas serem cada vez maiores.
O fim dos tempos está em que não resolveu , mesmo com as Bolsas de Valor nos píncaros de seus índices e os ” ratting” canonizando economias emergidas e emergentes, as questões sociais em parte alguma, mesmo nos países desenvolvidos.
As guerras sem razão aumentaram em todo o mundo.
A violência ocupou o espaço da polis, idealmente pensado para a convivência política dos homens.
A especulação transformou as finanças num casino e o câmbio numa gangorra desvairada.
Os ricos ficaram mais ricos e os pobres mais sofredores.
Do Muro de Berlim ao Muro Street a única coisa estável no Ocidente é a Madona.
No Brasil achava-se que o real estava supervalorizado, que o consumo andava desenfreado, tanto é que puseram os juros nas nuvens. Achavam que a inflação nos estava ameaçando de novo, que os aumentos do salário mínimo poderiam acabar com a estabilidade econômica, que as eventuais crises nunca nos atingiriam, porque temos reservas. No Brasil, já estávamos brigando pelo uso dos lucros petrolíferos dos gases represados no pré-sal, porque os galões estavam e ficariam nas alturas dos 150 dólares.
No mundo, o Baile da Ilha Fiscal se repetia em todas as esquinas. Nos EUA se oferecia dinheiro para financiar iates, com a mesma garantia de uma casa mal avaliada. Os diretores de bancos e empresas ganhavam sobre os volumes negociados, independentemente dos riscos dos mesmos. A escala do Século XXI não é mais o milhão, mas o bilhão. O sofrimento também.
Eis que chega a crise e todos esses riscos acabam como que por milagre. O risco do carbono, da inflação, do esgotamento das matérias primas, da distribuição injusta das rendas (posto que inexistentes), do consumo conspícuo, da inveja, do desperdício das safras. Tudo que a razão desenvolvimentista não soube resolver resolveu-se em dez pregões das Bolsas de Valores e algumas falências.
O mundo reclamava a criação de novos polos econômicos, eles estão criados. O mundo reclamava a participação dos BRIC, eles já foram chamados. O mundo reclamava uma regulamentação do mercado fiannceiro, ele tornou-se imprescindível. O mundo reclamava a diminuição dos lucros artificiais dos executivos, isso será atendido.
Claro que sobraram uns probleminhas: o câmbio, a violência e as guerras, mas como se dizia no antológico filme: “Quanto Mais Quente Melhor”: nada neste mundo é perfeito.

Autor: Jorge da Cunha Lima - Categoria(s): Sem categoria Tags:
07/10/2008 - 18:19

LULA ELEGEU O KASSAB

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MELHOR, A CLASSE MEDIA DE LULA ELEGEU O KASSAB

Lula tem a preferência majoritária da nação porque manteve os ricos no conforto estável da ortodoxia, agradou os pobres com renda mínima mensal que mudou o panorama de consumo dos muito pobres e, com a estabilidade da moeda e algum desenvolvimento, produziu uma ampla classe média, capaz de consumir a crédito bens de consumo conspícuo e até bens de consumo duráveis.
PARADOXALMENTE essa classe média de primeira viagem, quer manter esses privilégios recém conquistados, e quem sabe manter privilégios são o DEM e o PSDB.
Assim o eleitorado ascendente, DE lULA, voltou no KASSAB, representante real desses dois partidos.
Marta é o candidato dos pobres, da periferia, do que foram os novos tempos oito anos atrás, antes de Lula. O Brasil agora é um país de classe media com vistas à social democracia. Por mais que o PT seja a social democracia brasileira, essa nova classe media ainda pensa que é o PSDB.
Não sei se haverá tempo, no segundo turno, para que esses sentimentos familiares que tanto influenciam o voto voltarão para o leito petista.
E mesmo a crise internacinal não haverá de jogar o país, com facilidade, no colo do PT, por mais que Henrique Meirelles ande de braços dados com o Mantega no trottoir das segundas feiras negras.
Se o Carvalho Pinto estivesse vivo nós íamos colocar o pé de meia no cofrinho do mago das finanças; em sua ausência, a classe media do Lula vai pro cofrinho do Serra.

Autor: Jorge da Cunha Lima - Categoria(s): Sem categoria Tags:
06/10/2008 - 12:59

O THIBAULT – QUARTO CAPÍTULO

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A CLÍNICA

Este capítulo mostra como um jovem tão agradável quanto respeitável, Antoine, o irmão mais velho, pode confundir o brilho de uma carreira, com os valores de um destino pessoal. Às vezes, a potencialidade humana edifica grandes obras sem nos colocar adequadamente dentro. Ficamos a contemplar a grandeza que imaginamos ser nossa, nessa miragem do homem bem sucedido.
Mas não deixa de ser admirável o cotidiano de um médico francês naqueles anos que precederam a Grande Guerra, sem que ninguém daquela burguesia atinasse para a tragédia que avolumava suas nuvens num céu de brigadeiro. Antoine era tão obstinado com sua própria figura que só se apaixonava por mulheres tão corajosas quanto avulsas no universo burguês da estabilidade. Apaixonava-se exatamente porque não as retinha além do tempo amoroso, implacável amor de cama e confidências. Grandes mulheres, sem dúvida, dignas de qualquer romance, mas evasivas. Com elas Antoine desfrutava a mesma prisão e liberdade que Jacques encontrara na Internacional Comunista.
O incrível, na literatura de Roger Martin, é que nenhuma dessas considerações está na estrutura do livro, como um fim ou opção narrativa, mas no relato romanesco, isto é, tudo surge numa seqüencia narrativa que produz e desenvolve a história.
É o avesso do que seria o “Nouveau Roman”, cujo roteiro não tem a menor importância, desde que a sintaxe literária seja expressiva. Não há uma única coisa no relato da Clínica, que não se desenvolva e se redescubra na continuidade, mesmo que alternada, como nas novelas atuais de televisão.
Com exceção dos grandes desconstrutores da literatura, como Joyce, o melhor do que se escreveu no decorrer dos séculos XIX e XX foram os romances com história. E disso, Roger é um mestre.
Antoine, como médico, acompanha algumas mortes antológicas, sobretudo a do próprio pai, cuja enorme piedade, enquanto vivo, se transforma num medo quase indigno, da morte. A morte da filha do amigo traz a sentença inexorável do vazio que não se preenche com tal ausência. A morte de Fontanin, o pai aventureiro de Daniel, parece a moldura funerária do estróina delicado, que a morte absolve prontamente. Antoine se mantêm um médico diante de todas as mortes, a metafísica não sobrepondo-se ao bisturi.

Autor: Jorge da Cunha Lima - Categoria(s): Sem categoria Tags:
04/10/2008 - 23:44

OS BONS CANDIDATOS EM SÃO PAULO

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BONS CANDIDATOS – UM MILAGRE

Podemos dizer que estas eleições paulistanas, apesar de não terem apresentado nenhum projeto relevante pra a cidade de São Paulo, apresenta cinco bons candidatos: Marta, Kassab, Geraldo, Ivan Valente e Soninha. Cada um deles tem passado, pensamento e convicções políticas. As experiências administrativas são diversas, assim como as convicções políticas mais profundas, mas não se pode dizer que não sejam pessoas razoavelmente preparadas para governar a maior e mais complexa cidade cidade da América do Sul.

MARTA SUPLICY, psicóloga, sabe lidar com as emoções populares, sobretudo e, paradoxalmente, com o sentimento dos pobres. É uma política nata, conviveu nupcialmente com a ética durante anos e tem experiência de governo, como prefeita e ministra. Até o presidente afirma que está mais madura e pronta para governar São Paulo. Ganhando, se transformará na figura mais importante de seu partido, depois de Lula. E importância política só tem um nome: candidatura

GILBERTO KASSAB é o novo fenômeno político. Depois de passagens menos abonadoras, ao lado de Maluf e Pitta, Kassab acomodou-se com tranqüilidade, fidelidade e empenho, ao lado de Serra, como vice e como sucessor. Teve a coragem de enfrentar algumas máfias na prefeitura e podemos dizer que a cidade vai bem. Traz embutida a convicção de que continuará uma parceria política e administrativa com o governador, candidato à presidência da república. Não tinha nada a perder, até agora só ganhou, destacando seu partido num vácuo paulistano que nunca foi preenchido. Se ganhar, vai ter que amadurecer depressa, para não cair no conto da ingratidão ambiciosa.

GERALDO ALCKIMIN é um político calado, no sentido que tem lastro. Seu ar humilde, quase pastoral, nunca escondeu uma tremenda vocação política. Um dos prefeitos mais moços do interior paulista. Deputado estadual e federal, sempre cultivou o eleitorado. Lembro-me de quantas vezes passou pelo meu gabinete na Secretaria da Cultura, para fazer demandas regionais. Foi vice, governador, candidato a prefeito de São Paulo e candidato forte à presidência da república. Pivô de uma enorme crise partidária é detentor de uma sólida bagagem administrativa. Embora não haja isso em política, jogou o tudo ou nada, pois não acreditava que sua candidatura a governador estaria garantida, em 2010, se estivesse solto na planície.

IVAN VALENTE pertence à tribo dos idealistas militantes, juntamente com Luiza Helena, Plínio Sampaio e mais uma dezena de intelectuais de esquerda que endossam e recomendam sua candidatura. Suas propostas para educação e saúde são sérias. Mas o principal de sua personalidade política é o fervor ideológico, a crença de que, em qualquer posto político, o principal é produzir soluções ou conquistas de caráter socialista.Terá uma votação modesta, mas vai afirmando nos parcos horários, que existe uma solução, além das baladas de Wall Street.

SONINHA FRANCINE, paradoxalmente, manipula com talento o lugar comum e a inovação. É o único candidato que aparenta alguma novidade, não porque seja saudável e mesmo bonita, mas porque apresenta soluções de bom senso para qualquer problema. Tem uma modernidade jovem estampada na cara e nas propostas. Do uso coloquial da bicicleta até a convicção de que trânsito só se resolve quando o trabalhador mora perto do trabalho, Soninha vai inoculando, como vacina, seus conhecimentos e aumentando o cacife para uma tranqüila eleição de deputado federal.

Autor: Jorge da Cunha Lima - Categoria(s): Sem categoria Tags:
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