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29/09/2008 - 12:19

LINHA DE IMPASSE

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PARA ONDE NOS LEVA O RETRATO DA POBREZA?

Waltinho Moreira Salles lembra-me um pouco Jacques Thibault, personagem de Roger Martin Du Gard (Prêmio Nobel de Literatura – 1937), que, sendo filho da mais alta burguesia parisiense do começo do século XX, em 1914 torna-se um militante pacifista e
Membro engajado da Internacional Socialista.
Se Jacques optara pelo engajamento explícito, Walter optou pelo engajamento artístico. Como cineasta sempre voltou-se para os temas populares da pobreza, com todas as suas nuances humanas, a busca do pai, do emprego, da convivência e, no mais corriqueiro, essa luta incessante pela própria sobrevivência.
Quando uma vez lhe perguntei porque ele nunca fazia filmes sobre sua classe, como Thomas Mann, fez em seus romances ele me respondeu: – Mas a nossa classe é ridícula. Assim, não queria tratar em seus filmes dessa caricatura sociológica que é a burguesia brasileira.
Hoje, tenho a impressão de que a pobreza e, mesmo a classe operária, sem utopia e sem qualquer envolvimento revolucionário, é tão ridícula ou caricata, quanto o adjetivo que Waltinho apõe à nossa classe social, a burguesia.
Por isso mesmo, Linha de Passe é na verdade uma linha de impasse. Como todos os filmes de Walter Salles é rigorosa estética, nas tomadas, nos cortes, na condução, quase sempre documental de seus enredos. Mas a vida, a vida mesma de seus personagens, é sempre um beco sem saída. Qualquer das opções dos filhos da prolífera empregada doméstica, obstinadamente dedicada a esses filhos de diversos pais, os leva a nada.
O caçula, como a mãe, já merecia um prêmio de ator, mas seu destino, em busca do pai, na direção de um ônibus urbano enorme, é tão simbólica quanto patética. O gol que fica no ar, como o destino de Dario… O crente, entorpecido pela droga da histeria evangélica, dá com os burros na água batismal. O motoqueiro, símbolo da vida urbana paulistana, para agüentar a infecção do trânsito, torna-se bandido, bandidinho sem destino. A mãe desdobra-se em serviços de parto, como se a única razão de sua existência, além da obstinação materna e do cigarro, fosse parir. Parir, enquanto houver homens na redondeza.
Não é que a vida não nos leve a nada. Essa vida é que não nos leva a nada.
E esta foi a penosa sentença que o liberalismo do século XX inoculou em toda a sociedade, inclusive nos seus artistas.
O belo retrato da pobreza não leva a nada, assim como o retrato fútil da burguesia.

Autor: Jorge da Cunha Lima - Categoria(s): Sem categoria Tags:

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3 comentários para “LINHA DE IMPASSE”

  1. Teca disse:

    Jorge
    Não sei se foi de propósito, mas acho que a saída para o filme do Waltinho é a exposição da Elisa. Espero que o Reginaldo conduza o seu ônibus até o Acaia. Só há saída na arte e no trabalho generoso e que está presente na exposição da Elisa. Ficar mostrando esse vazio existencial sem esperança é o tipo de arte que não me interessa.
    Teca

  2. jorge da cunha lima disse:

    De fato Teca.

    Uma visação transcendente do universo da pobreza sempre foi um belo caminho para as artes. Licó tem esse toque. Também pertence à burguesia Thibaulteana, mas põe a mão na massa e não apenas o dedo no digital.

  3. margarida Cintra Gor disse:

    gostei muito do filme e da denúncia da falta de saída. Mulher sozinha, responsável, conta apenas com ela mesma e se limita a sobrevivência. Sem bolsa família e sem futuro

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