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28/09/2008 - 12:00

AS ARTES DE ELISA BRACHER

LICÓ E A FAVELA

Elisa Bracher não é uma personalidade qualquer. É um misto de Sacy Pererê, Madre Teresa de Calcutá e Mira Schendel. Na arte tem um traço minimalista, mas forte. Lida com volumes de madeira nas esculturas que retêm o carbono até as vísceras. Coloca manchas expressivas em suas gravuras. Mas tudo com a clareza de uma sintaxe sem circunflexos.
A ACAIA, associação que eleva a condição humana dos moradores da favela, lá no Ceasa, é sua matéria prima. Alí, uma juventude sociologicamente transviada, se ocupa de coisas belas, uma das quais é reconstruir a própria vida. Para que a elevação humana não seja chocante aos demais familiares, Licó também participa do crescimento dos mesmos.
Elisa luta contra os poderosos que desejam abocanhar pelas bordas os espaços sociais que os planos urbanos reservam para os pobres.
Recentemenste, Elisa Bracher teve que fazer ás pressas o levantamento documental das moradias da favela. Fê-lo com uma simples Nikon digital. Utilizou as fotos no relatório burocrático, mas percebeu que elas continham um olhar e uma luminosidade próxima de suas outras obras artísticas. Mandou ampliá-las com cuidado e imprimi-las em papel algodão. O resultado é a exposição que realiza agora no Museu da Casa Brasileira.
Senti, com clareza, naquela exposição, além da enorme emoção, que as artes plásticas tão empacadas na mesmice e num mercado medíocre tanto nos gastos quanto nas exigências, está diante de uma grande novidade: o olhar transfigurante de Elisa Bracher.
Percebi isso na série de fotografias das casas da favela e nas casas do nordeste, geneticamente interligadas. Elas contêm uma impressionante trajetória da própria arte brasileira, sobretudo da gravura. Vemos o figurativo contido, o abstracionismo relevante, a metáfora da miséria sublimada em arte.
Gostei da alegria dos favelados, presentes à exposição, ao reconhecer suas casas orgulhosamente expostas nas paredes de um museu. Não há nada que mais represente o homem do que a sua casa, ela constitui a sua segunda identidade, depois da cara.
Elisa é talvez a maior revelação artística de toda a sua geração. Mas como todo bom inventor tem raízes, uma delas é o rigor que herdou de outra artista: Ana Mariani.

Autor: Jorge da Cunha Lima - Categoria(s): Sem categoria Tags:

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2 comentários para “AS ARTES DE ELISA BRACHER”

  1. Elisa Bracher disse:

    Tio querido, obrigada. Você fala de coisas que são muito importantes e foram muito conquistadas.

    beijo grande Licó

  2. margarida Cintra Gor disse:

    A expo da Licó é um deslumbramento! é plena de emoção na simplicidade e realidade.
    Lindo Jorge e eu relembrei a emoção que as fachadas da Anna me trouxeram.
    Mas a favela da Licó está aqui.

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