LINHA DE IMPASSE
PARA ONDE NOS LEVA O RETRATO DA POBREZA?
Waltinho Moreira Salles lembra-me um pouco Jacques Thibault, personagem de Roger Martin Du Gard (Prêmio Nobel de Literatura – 1937), que, sendo filho da mais alta burguesia parisiense do começo do século XX, em 1914 torna-se um militante pacifista e
Membro engajado da Internacional Socialista.
Se Jacques optara pelo engajamento explícito, Walter optou pelo engajamento artístico. Como cineasta sempre voltou-se para os temas populares da pobreza, com todas as suas nuances humanas, a busca do pai, do emprego, da convivência e, no mais corriqueiro, essa luta incessante pela própria sobrevivência.
Quando uma vez lhe perguntei porque ele nunca fazia filmes sobre sua classe, como Thomas Mann, fez em seus romances ele me respondeu: – Mas a nossa classe é ridícula. Assim, não queria tratar em seus filmes dessa caricatura sociológica que é a burguesia brasileira.
Hoje, tenho a impressão de que a pobreza e, mesmo a classe operária, sem utopia e sem qualquer envolvimento revolucionário, é tão ridícula ou caricata, quanto o adjetivo que Waltinho apõe à nossa classe social, a burguesia.
Por isso mesmo, Linha de Passe é na verdade uma linha de impasse. Como todos os filmes de Walter Salles é rigorosa estética, nas tomadas, nos cortes, na condução, quase sempre documental de seus enredos. Mas a vida, a vida mesma de seus personagens, é sempre um beco sem saída. Qualquer das opções dos filhos da prolífera empregada doméstica, obstinadamente dedicada a esses filhos de diversos pais, os leva a nada.
O caçula, como a mãe, já merecia um prêmio de ator, mas seu destino, em busca do pai, na direção de um ônibus urbano enorme, é tão simbólica quanto patética. O gol que fica no ar, como o destino de Dario… O crente, entorpecido pela droga da histeria evangélica, dá com os burros na água batismal. O motoqueiro, símbolo da vida urbana paulistana, para agüentar a infecção do trânsito, torna-se bandido, bandidinho sem destino. A mãe desdobra-se em serviços de parto, como se a única razão de sua existência, além da obstinação materna e do cigarro, fosse parir. Parir, enquanto houver homens na redondeza.
Não é que a vida não nos leve a nada. Essa vida é que não nos leva a nada.
E esta foi a penosa sentença que o liberalismo do século XX inoculou em toda a sociedade, inclusive nos seus artistas.
O belo retrato da pobreza não leva a nada, assim como o retrato fútil da burguesia.
