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Arquivo de julho, 2008

21/07/2008 - 12:18

DERCY GONÇALVES

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ACLAMADA ATÉ DEPOIS DE MORTA

Minha família era careta, como seus amigos próximos, mas não perdiam estréia da Dercy Gonçalves. Creio que essas estréias os aliviavam e purificavam dos odores do Colégio Sion, no caso das mulheres e da Politécnica no caso dos homens. Nos idos tempos, no Sion, as meninas tinham que tomar banho de camisola, para não expor o corpo à sanha devoradora das águas. Já os moços, na Poli, aprendiam calculo integral para não traírem nem o Augusto Comte, nem o Euclides da Cunha.
Vivíamos a contradição do positivismo agnóstico com a religiosidade francesa das freirinhas educadoras.
Uma única coisa rodava a baiana, virava o balde, abria os espíritos: Dercy Gonçalves.
Qualquer que fosse a partitura ela embaralhava a nota. Não respeitava roteiros nem dicas. Reinventava os personagens e criava textos seus, religiosamente seus.
A última vez que a vi foi na abertura do Centro Cultural do Tribunal Superior Eleitoral, no Rio de Janeiro, um belo palacete de mármore, que hoje abriga exposições, seminários e outras coisas austeras. Lá estava Dercy Gonçalves, painel vivo, entre inúmeros painéis impressos de mulheres famosas.
Dercy entrou no recinto, repleto de juízes togados, um pouco atrasada e foi recebida de pé, quase aclamada pela magistratura brasileira e seus convidados.
Trazia a gravidade do tempo, cem anos e a autenticidade do rosto, pintada como uma vedete de 19 anos. Ninguém naquela sala produzira tantos acordãos pornográficos, mas todos concordavam com a pureza artística de sua pornografia.

Autor: Jorge da Cunha Lima - Categoria(s): Sem categoria Tags:
20/07/2008 - 23:55

POESIA A MEIA NOITE

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PENSÃO FAMILIAR

Petrópolis 1925

Jardim da pensãozinha burguesa.
Gatos espaçados ao sol.
A tiririca sitia os canteiros chatos.
O sol acaba de crestar os gosmilhos que murcharam.
Os girassóis
amarelo!
resistem.
E as dálias, rechonchudas, plebéias, dominicais.

Um gatinho faz pipi.
Com gestos de garcon de restaurant-Palace
encobre cuidadosamente a mijadinha.
Sai vibrando com elegância a patinha direita:
- É a única criatura fina na pensãozinha burguesa.

Manuel Bandeira

Autor: Jorge da Cunha Lima - Categoria(s): Sem categoria Tags:
19/07/2008 - 18:44

REQUIEM PARA UM LIBIDINOSO VIVO

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João Gilberto Noll

Quando João Gilberto, na FLIP, anunciou que faria uma leitura libidinosa e implacável, imaginei-o com a doce voz da sedução, afastando para a margem todas as interpretações marxistas de Machado de Assis.
Noll começou com uma voz soturna a leitura de seu livro ACENOS E AFAGOS, da Ed. Record: -” Lutávamos no frio do corredor…”. Logo transmitia mais uma obsessão do que um laivo erótico. E foi assim até o fim do capítulo, deixando-nos aflitos com o tom, mas deslumbrados com a literatura.
Noll tem uma propriedade narrativa que absolve os mais preconceituosos de seus leitores, e não é fácil ser conceituoso diante da tranqüilidade com ele narra todas as suas experiências homoeróticas como se ele estivesse contando histórias para crianças.
Além das saunas emblemáticas, percorre uma cabra com deleite digno de Virgílio e, por fim, leva à loucura uma velha de oitenta anos que absorve o sêmen ejaculado, com pudor religioso.
Intriga a permanência da paixão por um mesmo homem, através da esposa, do filho, de uma vida sem glórias além do erotismo implacável.
No mais conclusivo estilo evangélico, é ressuscitado pelo amigo engenheiro, pois afinal: amigo não é o que dá vida ao amigo…
Surpreende o fato de que o pobre herói narrador, conformado em ser a donzela do arrebatador dos mares nazistas, que comera toda a tripulação de um submarino pós moderno do terceiro reich, se revele um garanhão atrás das saias.
Mas o livro ainda contem surpresas descritivas que honram a narrativa e seu autor.
A impressão taciturna de Paraty se converte numa única conclusão: trata-se de um escritor, um grande escritor.

Autor: Jorge da Cunha Lima - Categoria(s): Sem categoria Tags:
18/07/2008 - 23:35

POESIA A MEIA NOITE

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1964 RECADO GERAL

Agora é tade, minha gente.
Já acusaram o que falava
e todos calaram a boca.
Já despediram o que trabahava
e todos continuaram trabalhando.
Já prenderam o homem.
Já queimaram a palavra.
Deus foi alugado
para lutar contra nós.
Agora é tarde, minha gente,
mas isto não tem importância.
O que silenciou, continuará falando.
O que morreu, continuará trabalhando.
Porque em nome deles
o Homem será libertado,
a Palavra voltará às ruas
e Cristo não mais será invocado
para acusar o seu povo!

Carlos de Queiroz Telles

Autor: Jorge da Cunha Lima - Categoria(s): Sem categoria Tags:
18/07/2008 - 13:36

MANDELA – UM HERÓI MODERNO

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OS NOVENTA ANOS DE MANDELA

Há heróis que convencem e heróis que comovem. Mandela convence e nos comove. Aos noventa anos, o grande líder da África do Sul, transparece em sua inteireza. Formou-se no conflito e dele extraiu duas virtudes dialéticas: a resistência e a abertura.
Resistência não é uma atitude meramente moral, é uma atitude corporal. Resistência se produz no púlpito, na trincheira e na cadeia. Mandela participou de todas essas etapas até ver sua África do Sul libertada. A virtude da abertura se produz quando se retoma o poder, e ficamos predispostos ao exercício da tirania e da vingança. Nessa hora é que os grandes estadistas se revelam e mostram sua capacidade de conciliação, elemento indispensável à reconstrução. Podemos creditar à Mandela a reconstrução de sua pátria, o que sempre pareceu impossível aos olhos do mundo. A mais conflitante geografia de raças costurou, com linha grossa, um pacto democrático. Assim, Mandela tornou-se um exemplo internacional, pouco assimilado pelos fundamentalistas de toda a parte que acreditam que a única religião que vale é a sua, e que a única democracia convincente também é a sua. Bushs e komeines ainda existem, mas como uma raça em extinção, enquanto houver mandelas. E esse é o significado dos heróis: reduzir a pó o brilho dos tiranos.

Autor: Jorge da Cunha Lima - Categoria(s): Sem categoria Tags:
17/07/2008 - 23:55

POESIA A MEIA NOITE

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A ESQUINA

QUIZERA O ORGULHO
ME ORDENASSE
A AGULHA
DA PARÁFRASE
COM FIOS DE LINHA
COLORIDA E FOSCA
PARA BORDAR
A ALMOFADA
DE GARCIA LORCA.

QUIZERA LIBERTAR
A INFÃNCIA
DESTE CASCO OPACO
DEIXÁ-LA NA INSTÂNCIA
MAIS SOLTA
DE OUTRO OLFATO
REDIMIDOS EU E ELA
DO CONTATO.

ENVELHECER É ASSIM:
DESVENCILHAR-SE
DAS VELAS FUMEGANTES
DO PULMÃO EM CHAMAS
DO CORAÇÃO CLEMENTE
DA ARTÉRIA COM ARDÊNCIAS.

QUIZERA O ORGULHO
NÃO ME DEIXASSE
A CONTEMPLAR
O MEIO FIO.

PREFIRO O FIO INTEIRO
DE UMA QUINA
ONDE SÓ RESTA
O INEXORÁVEL DEPOIS
DE QUEM DOBROU
A ESQUINA.

Autor: Jorge da Cunha Lima - Categoria(s): Sem categoria Tags:
17/07/2008 - 09:00

QUEM É O PALHAÇO?

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O CIRCO CONTINUA

O delegado Protógenes foi fazer especialização. No entanto, já nos parecia bem especializado nas ações delituosas de terceiros. Participou com sucesso de investigações, processos e prisões espetaculares. Sempre abusou das algemas, mas não dos motivos de seu uso.
Sua remoção, do processo para o cursinho federal da PF, não agradou aos gregos nem aos troianos. Lula, sempre atento à opinião pública, quase conclamou o delegado a desistir do cursinho e voltar à luta ou, pelo menos mostrar as razões de seu súbito interesse pela pós graduação.
Os que o removeram devem ter seus motivos, válidos ou perversos. Os advogados da defesa devem estar comemorando, mesmo sob o risco do bafômetro.
Agora prepara-se um novo capítulo, a remoção do juiz De Sanctis. Está cansado, argumentam, emocionalmente envolvido com o processo. O público ficará de novo perplexo. Os interessados satisfeitos.
O que poderia ser uma lição de civismo judiciário se transforma num pastelão, adjetivo que antecede o substantivo pizza no anedotário político.
O circo continua, mas é um pobre circo no qual ninguém se diverte, porque o palhaço somos nós, os espectadores, outrora denominados cidadãos

Autor: Jorge da Cunha Lima - Categoria(s): Sem categoria Tags:
16/07/2008 - 23:55

POESIA A MEIA NOITE

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ELOGIO DO LIVRO

O AMIGO É DE QUEM
SE ESPERA TUDO,
O MOVIMENTO, O MUNDO
E A NARRATIVA DO SEU CONTEÚDO.
A COMPANIA, POR CERTO,
BARULHENTA OU MUDA.
A INFORMAÇÃO, O CONSÔLO
E A NEGAÇÃO, SEM DOLO.
IMPOSSÍVEL DESCREVER
O SEU VAZIO E
O SEU PREENCHIMENTO.

SÓ O LIVRO
É MELHOR QUE O AMIGO.
NOS TRÁS, EM SILÊNCIO,
O DOBRO.
O LIVRO NÃO SE ARREPENDE
DE QUEM O LÊ OU TRAI.
NÃO COBRA DE QUEM NÃO O ENTENDE
OU DE QUEM O SABE DEMAIS.

SE ESQUECIDO
NO PÓ DA PRATELEIRA
VOLTA MAIS JOVEM
E MAIS CURIOSO
À MÃO INGRATA.

SÓ NUMA COISA O LIVRO
É TÃO HUMANO,
SENTE CIÚMES DOS
LIVROS LIDOS.
NÃO PERCEBE, TEIMOSO,
QUE UM SÓ LIVRO NÃO FAZ VERÃO
NEM BIBLIOTECAS.

E QUE UM AMIGO
SEM O MUNDO
NÃO LEVA A NADA
MAIS PROFUNDO.

Autor: Jorge da Cunha Lima - Categoria(s): Sem categoria Tags:
16/07/2008 - 14:35

COMO JÁ FOMOS MODERNOS

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MARCEL DUCHAMP ARRASA NO MAM

O MAM comemora bem seus 60 anos. Traz-nos a exposição que Duchamp já teria trazido, se pudesse, no velho século XX. Maria Bonomi reclama que as peças principais não são originais, mas isso não importa, pois a mais emblemática bicicleta do planeta, obra original de Duchamp foi jogada no lixo por sua irmão.
O valor de Duchamp está mesmo nisso: a invenção. Invenção em latim quer dizer descobrir (in venire), chegar ao novo, ao desconhecido. Assim, o artista se apropriava sem a menor cerimônia de objetos corriqueiros encontrados nas ruas, nos armários e nos depósitos. Com eles produzia esculturas. Enfim, conferia transcendência às descobertas do olhar. Mas quem pensar que Duchamp viveu dessas ¨brincadeiras¨, se engana. Suas caixas, um espécie de FILE, não eletrônico, recolhia todos os elementos de sua criatividade. Uma criatividade ótica., uma criatividade erótica, uma criatividade cubista. Quanta gente bebeu nessa fonte, inclusive nosso Lasar Segall.
A expô do MAM, de cunho altamente didático, mostra, para quem já esqueceu, a coragem, desses modernistas que revolucionaram a pintura e até o modo de viver e pensar. Tiveram, no começo do século XX o mesmo papel que alguns filósofos tiveram no fim do século XIX.
A inauguração estava repleta, de um público novo, que o MAM está sendo capaz de criar. Quem jogar no desinteresse dos jovens pela arte moderna, está redondamente enganado. Os jovens estão cansados é da caretice. E isso a exposição nos mostra com certa ironia. As artes contemporâneas andam muito caretas, com raríssimas exceções. Não há um só ato de rebeldia no distante horizonte das artes.
Assim, nós temos que os contentar com os centenários, para constatar no passado, que já fomos capazes de ser modernos.
Vamos com humildade à FONTE de Duchamp (um mictório para os íntimos). Um jornalista me questionou diante da FONTE que a gente poderia comprar aquela obra em qualquer depósito de construção. Não concordo, pois esta é a FONTE de Duchamp, a outra seria apenas um mictório de louça.

Autor: Jorge da Cunha Lima - Categoria(s): Sem categoria Tags:
15/07/2008 - 23:55

POESIA A MEIA NOITE

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NA DÚVIDA
O RÉU DUVIDA
DA VIDA

NA VIDA
O RÉU DUVIDA
DA DÚVIDA

NA DÚVIDA
O JUIZ DÁ VIDA
AO RÉU

DÁ VIDA
MAS DUVIDA
DA VIDA DADA

OH! DÚVIDA CRUEL
ESSE
IN DUBIO PRO RÉU

Autor: Jorge da Cunha Lima - Categoria(s): Sem categoria Tags:
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