SARAMAGO E A CRUELDADE HUMANA
AINDA O ENSAIO SOBRE A CEGUEIRA
A cada página que avancei na leitura de “Ensaio Sobre a Cegueira”, de Saramago, fui-me convencendo de que o mundo sem organização conduz o mais nobre dos animais, o homem, a mais torpe degradação.
Sempre tive uma enorme antipatia pela palavra ordem, apesar de ter enviado meus primeiros poemas para a revista católica A ORDEM, editada no Rio pelo Centro D. Vital. Ordem sempre me deu a idéia de autoritarismo, uma tentativa de substituir os outros valores da sociedade, por esse valor de controle da liberdade, que a ordem pressupõe.
Não é afinal a ordem que justifica todas as organizações policiais e militares? Não é a ordem que pretende unificar e mesmo padronizar todos os comportamentos, deixando o homem engessado num único perfil, nem sempre o melhor?
Pois, á medida que o universo da ficção de Saramago vai ganhando concretude com a progressão da cegueira no romance, percebemos que os cegos desorganizados e desordenados, em sua luta pela busca do leito, da comida, da privada, do prazer sexual, tornam-se repelentes animais, destruindo-se uns aos outros.
A mínima satisfação das necessidades primárias de cegos aprisionados pelo sistema político num manicômio, para evitar o contagio (causa presumível da expansão da cegueira), se transforma num tumulto incontrolável e, o que é pior, numa inimaginável exploração do cego pelo cego, o que nos parece romanticamente impossível.
Saramago nos mostra que é. Numa certa altura da leitura temos vontade de jogar o livro pela janela. Vontade de fechar os olhos para não ver aquela metáfora de um mundo impiedoso. Mas prosseguimos até o fim e terminamos a leitura, exaustos de nós mesmos, exaustos da condição humana.
Não vi ainda o filme do Meirelles. Mas ele devia estar louco quando decidiu filmar o romance. Soube que na primeira exibição dezenas de pessoas se retiraram da sala. Meirelles teve de simplificar o roteiro e retirar algumas cenas insuportáveis.
Pois é, torna-se necessário que uma sociedade fique cega para enxergarmos a sua crueldade.

“Pois é, torna-se necessário que uma sociedade fique cega para enxergarmos a sua crueldade. ”
Sr. Jorge, sempre fui seu admirador pelo trabalho executado à frente de assuntos culturas. Parabéns.
Esta frase deveria ser colocada em placa de prata à frente do palácio de Delfos.