iG
iBest BrTurbo

Publicidade

Publicidade
23/06/2008 - 10:26

AINDA O HAMLET DE WAGNER MOURA

SER OU NÃO SER EIS A QUESTÃO

Ser ou não ser não é o único grande monólogo de Hamlet, mas é o mais impactante. A prisão metafísica do pensamento ocidental coloca esta indagação no centro mesmo da compreensão da humanidade e de seus protagonistas.
Voltando ao meu próprio testemunho, lembro-me que Jean Louis Barrault, súdito da razão e do velho Descartes, é só metafísica. O distinto público perdia a respiração, não pelo desempenho do ator, mas pela ameaça. Não ser. Que desgraça.
Em Sergio Cardoso, o monólogo era uma indagação da própria sombra. O ser ou não ser queria dizer vingança. Matar ou não matar o tio. Mesmo na sombra o ser seria uma decorrência da inação.
Não sei o que dizer de Laurence Olivier, apenas que a língua é tanto dele quanto de Shakespeare, e um pobre latino americano, cuja segunda língua é o francês, não tem competência para avaliar as sutilezas de um dos maiores atores do mundo.
Na montagem de Aderbal Freire, que tem um realismo quase brejeiro, que nos conduz às maiores profundidades pelas portas mais abertas, o monólogo de Wagner Moura ainda não se descolou totalmente da metafísica, apesar da tradução renovadora “esta é a questão”. Poderia.
O problema é se considerar o “ser ou não ser eis a questão” uma única frase. São três. “Ser” é uma coisa. Dirigida à humanidade, ao público inteiro da platéia, porque pertence a todos. Ninguém escapa de ser. ” Não ser” é uma opção pessoal. Pertence à pessoa. Pertence ao ator. Ele se permite não ser. Revela no gesto o não ser. ” Eis a questão” é uma indagação óbvia, não faz parte da gravidade da essência. É uma conclusão singela, solta no ar.
Imagino que a cena, representada pelo mímico Marcel Marceau, teria três tempos, lentos e diversos. No ser, ele apontaria levemente a mão para o público aterrado. No não ser, após uma pausa de tempo, porque o não ser não está colado ao ser, ele traria as duas mãos até o peito e abaixaria a cabeça, porque o não ser vai da cabeça aos pés. Eis a questão teria os dois braços abertos a uma conclusão que dispensa qualquer solenidade. Poderia ser anunciada num botequim. O resto , ainda não é silêncio, mas requer entonações segundo a opção do diretor.
O desdobrar-se do monólogo vai bem na montagem e na representação de Wagner Moura. A primeira frase pede mais tempo e uma pequena desconstrução. O calvário tinha três cruzes. O parágrafo de Shakespeare também.

Autor: Jorge da Cunha Lima - Categoria(s): Sem categoria Tags:

Deixe um comentário:

Antes de escrever seu comentário, lembre-se: o iG não publica comentários ofensivos, obscenos, que vão contra a lei, que não tenham o remetente identificado ou que não tenham relação com o conteúdo comentado. Dê sua opinião com responsabilidade!

Os campos com * são de preenchimento obrigatório






Voltar ao topo