1968 PROCLAMOU A POESIA – HÁ 40 ANOS
Cada um de nós tem sua memória pessoal dos grandes acontecimentos que se cristalizaram em 1968 do inesquecível Século XX.
Para mim 68 foi a tomada das ruas pela poesia.
Todos os parâmetros ideológicos estavam esgotados, ainda que sobrevivessem seus adeptos. O discurso econômico do leste se afundava no Gulag. A prática econômica do Império Americano se alastrava no campo indomável do mercado.
Os partidos políticos estavam esgotados apesar da guerra fria mantê-los escancarados na vitrine de formol. A caretice imperava na Rússia e nos Estados Unidos.
Nós, latino americanos, vivíamos embalsamados na gaze importada da repressão. Em cada país ela era mais ou menos cruel.
Mas um vento do norte balançava as mini saias saudando a beleza das pernas. Um grupo de Liverpool casou poesia, melodia, gesto, sorriso, ritmo, harmonia, beleza e nostalgia e reinventou, para a eternidade, o rock. Benditos sejais vós, Beetles, entre os jovens.
Em Paris, talvez só pudesse ser Paris, a juventude fez barricada em torno da Sorbonne, para proclamar o fim do proibido. A mesma universidade, que nas trevas plenas da Idade Média, já proclamava o espaço da razão contra a tirania da superstição politizada.
As paredes negras da Sorbonne serviram de lousa ao circulo de giz da poesia mural. Do proibido proibir à tudo o que rimasse com o consentimento.
Jovens burgueses e jovens operários, que não se falavam entre si nem entre eles, se apaixonaram pelas passeatas e se apaixonaram por eles mesmos no camping onírico.
Nunca se fotografou tanto a felicidade. As barricadas pareciam instalações de prazer e paixão. Não havia o discurso oficial mas a poesia libertária.
O susto pregado na burguesia quase se transformou em vitoria revolucionária, mas De Gaulle estava atento. Pediu emprestado os dizeres de um país que ele não considerava sério: ORDEM E PROGRESSO. Da fronteira onde arregimentou o passado, invadiu a França de novo. Pôs ordem no circo sem soleil. Abriu a Bastilha dos preconceitos. E mandou os jovens, rabo entre as pernas, de volta para a burrice doméstica.
De Gaulle está bem enterrado como um herói de guerra, APENAS.
1968 e todos os seus sonhadores mudaram o mundo. Tudo é novo nesse reino sem Dinamarca: a roupa, o paladar, o gosto, o prazer, o sexo, o julgamento, o perdão. Tudo está quieto, acumulando juros. Por causa de 68 o Século XXI não será a pasmaceira programada pelo Consenso de Washington.

Muito linda e maravilhosa saudade.