TODOS MUITO PIEDOSOS
O novo cardeal de São Paulo, D. Odilo Scherer, foi homenageado pelos monges do Mosteiro de São Bento e por uma seleta parcela da comunidade católica de São Paulo e até por religiosos de outras crenças. Na primeira fila do culto religioso estavam o governador José Serra, a prefeita Marta Suplicy, representando o Lula, Gilberto Kassab, o prefeito candidato e o presidente da Câmara dos Deputados, o ex Fernando Henrique Cardoso, além de chefes dos outros poderes, secretários e presidentes de instituições importantes de São Paulo.
Atravessei com saudades o longo corredor do Colégio São Bento onde estudei.Chegamos ao refeitório, no qual uma cuidadosa recepção, com drinks e jantar, estava muito bem preparada. As autoridades levantaram um brinde ao homenageado aniversariante e começaram os discursos. Kassab falou dos compromissos recíprocos da cidade e da Igreja e o quanto esta tem participado do trabalho social na diocese cidade. Parecia um membro fervoroso da comunidade católica. José Serra, num tom histórico e piedoso, lembrou das missas da JUC que ele assistia aos domingos naquele mesmo mosteiro, apesar de não ter sido membro da instituição. Marta evocou as nossas senhoras, padroeiras de todos os rincões do país, a cujas procissões ela tem comparecido, como ministra do turismo e devota. Já na Igreja, um piedoso Fernando Henrique, acompanhava cantarolando as notas do canto gregoriano. Enfim, todos em ordem unida, em torno da Igreja Católica e seu pastor. No plano político a ordem não está tão unida assim.
RODIZIO CULTURAL
Pela quarta vez a cidade acorda para a virada cultural. Em toda a dimensão da comarca pululam eventos artísticos. Principalmente no Centro. Os políticos perceberam que, hoje, só a convocação cultural sensibiliza a população. Assim foram erguidos 26 palcos só na região central. A Paulista abre a Casa das Rosas. O Ibirapuera, abre o Planetário com um DJ francês descobrindo as estrêlas atlânticas. O MAM faz marcha noturna, com luminárias artísticas. No Municipal, Melodia retorna à maternidade do
Samba. Na São João com Aurora, as grandes divas: Gal Costa e Cesária Évora. Nos palcos, bailes e danças. Na Rua da Quitanda, música eletrônica. Roda de Samba no Largo Santa Efigiênia. No Vale do Anhangabaú mais de 70 músicos. Na República, o rock pauleira, do Terrêno Baldio ao Ultraje a Rigor. A Praça Roosevelt já tem donos que estarão na rua para oferecer teatro: os Satyros, os Parlapatões, o Estudio 184. Tom Zé anima a Paulista e a dupla José Miguel e Arthur dará aulas de música no Centro Vergueiro. Os restaurantes, a pinacoteca, os institutos culturais, os botecos, as cervejarias etc. etc estarão abertos para o distinto público diurno e noturno. Inicio 18hs de hoje até as 18hs de domingo. E viva a virada cultural.
A MALDIÇÃO DO CARRO
Os carros, em São Paulo, comem muito mais do que os pobres. E não adianta estrilar. A cidade foi concebida para eles, desde os anos 50. Não faltou a advertência do padre Lebret, urbanista, quando afirmou que não adiantava fazer ruas, metrôs, ónibus se não se aproximassem o trabalho da moradia. Hoje, quase 80% dos trabalhadores moram a mais de 2 hs dos locais de trabalho e isso mesmo com pistas de ónibus, metrôs em alguns percursos etc. O centro está pouco adensado, apesar de dispor da melhor infra da cidade e as moradias vão pros fins das periferias. Perguntei ao pedreiro de uma obra em minha casa. Ele me disse que saia as 6hs da manhã para chegar ao trabalho as nove. E gastava um pouco menos para voltar. Tive a vergonha de testemunhar que em sua marmita só havia arroz e farinha. O empreiteiro me disse que ele ganha cerca de 60 reais por dia. Nos projetos dos candidatos à prefeito, dos últimos vinte anos, nunca se pensou numa solução urbana e humana para o problema. As soluções são apenas de transporte e, assim mesmo, mais para o transporte individual do que para o transporte coletivo.