Arquivo de março, 2008
31/03/2008 - 16:52
No momento em que o PSDB de São Paulo se contorce com um parto extra-uterino, torna-se bem oportuno o lançamento de “O Legado de Franco Montoro”, livro coordenado pelo sociólogo e escritor José Augusto Guillon de Albuquerque, editado pela Fundação Memorial e pela Imprensa oficial.
Na primeira parte colaboram FHC, Serra, Rubens Barbosa, Eduardo Muylaerte e o Marcos Gianetti.
FHC fala do estadista; Serra, da arte de governar; Rubens, da abertura de Montoro para o mundo, especialmente para a América Latina; Eduardo, sob o compromisso do ex-governador com a justiça e Marcos, do governo como prática da participação. Além do primoroso texto de Guillon e dos depoimentos de todos os seus auxiliares, o livro testemunha o relevante papel de Montoro na formação de toda uma geração acidentada pelo golpe de 64.
Percebe-se a falta que faz Montoro. Homem de princípios, nunca colocava seus interesses pessoais acima dos interesses da sociedade, da nação e de seu partido. Era siderado pela democracia, pelo direito natural e pelo bem comum.
Autor: Jorge da Cunha Lima - Categoria(s): Sem categoria
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30/03/2008 - 17:23
NAVEGA SAO PAULO
Ontem naveguei no Tietê. Todos podem fazê-lo, pois há um barco disponível e um projeto didático: o Navega São Paulo. Sob os ecos dos projetos artísticos do Itaú Cultural, H2OLHOS e QUASE LIQUIDO, embarcamos no rio ainda lodoso de esgoto, detritos e dejetos químicos, mas felizmente corrigido nas margens e desassoreado em todo o seu leito. Faltam apenas 30km de tratamento de esgoto, uma atitude urgente da prefeitura de Guarulhos e a ajuda cidadã. Pois todo o lixo que se joga nas ruas, acaba no leito dos rios.
É importante navegar o Tietê entre suas pontes urbanas. O passeio nos dá uma perspectiva nova da cidade, um retrato desconhecido, visto das margens. Pena que as marginais estejam repletas de caminhões enquanto não se termina o rodoanel. Pena que gastaram tanto dinheiro e plantaram umas árvores anoréticas em suas margens, quando se sabe que o transplante de grandes árvores já é tecnicamente corriqueiro. Mas, dentro de alguns anos, voltaremos a navegar rotineiramente pelo rio, hidrovia turística que abrigará um metrô fluvial com barcos movidos a energia solar, como no Lac Leman, na Suiça.
Quando cheguei em casa li o longo e mais belo poema de Mario de Andrade, “Meditação sobre o Tietê”, que ele levou uns dois anos escrevendo. transcrevo o começo, para despertar a vontade. Quem o desejar inteiro basta acessar o Google.
ÁGUA DO MEU TIETÊ,
ONDE ME QUERES LEVAR?
-RIO QUE ENTRAS PELA TERRA
E QUE ME AFASTAS DO MAR…
É NOITE E TUDO É NOITE. DEBAIXO DO ARCO ADMIMIRÁVEL
DA PONTE DAS BANDEIRAS O RIO
MURMURA NUM BANZEIRO DE ÁGUA PESADA E OLIOSA.
MAS PORÉM, RIO, MEU RIO, DE CUJAS ÁGUAS EU NASCI,
EU NEM TENHO DIREITO MAIS DE SER MELANCÓLICO E FRÁGIL,
NEM DE ME ESTRELAR NAS VOLÚPIAS INÚTEIS DA LÁGRIMA.

Autor: Jorge da Cunha Lima - Categoria(s): Sem categoria
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28/03/2008 - 11:53
NAVEGAR É PRECISO
Recebi a visita, na fundação Padre Anchieta de Javier Firpo e Rosângela Mellato, presidente e diretora para a América Latina da Intel Foundation, instituição filantrópica destinada a criar programas tecnológicos de educação.
A Intel, indústria de microcomputadores, mais conhecida por seu produto Pentium, foi criada por um jovem professor Craig Barret, hoje com 67 anos e que dedica seu tempo às questões da educação. Enquanto isso , sua empresa gasta seis bilhões de dólares anuais em pesquisas para desenvolvimento de microcomputadores. Craig costumava dizer: “- Ninguém pergunta qual é a marca do motor do seu carro, mas todo mundo pergunta qual é a marca do processador de seu computador”. Porisso mesmo, Craig imagina que é indispensável ligar essa marca à educação.
Assim, quem queira participar de seus projetos, tem quatro caminhos abertos:
- Fomento a qualquer pesquisa universitária de caráter tecnológico, com o fornecimento de informações disponíbilizadas pelos estudos da Intel.
- Participação nas Férias de Ciências promovida pela empresa, anualmente, para 4 mil estudantes de todo mundo,a partir de concursos realizados em cada país. Nesse encontro participam os maiores técnicos e cientistas ligados à área.
- Capacitação de professores no uso pedagógico da Internet, a partir de cursos que envolvem sistemas e metodologia pedagógica e navegação dirigida para ajudar a elaboração de aulas, em todos os níveis, básico, intermediário e superior.
- Educação não formal, ensinando jovens a utilizar ferramentas tecnológicas fora da sala de aula. Elaboração de projetos, seleção de informações recolhidas na navegação e estímulo ao empreendedorismo tecnológico.
Informações a respeito poderão ser obtidas com Rosângela Mellato, encarregada das iniciativas educacionais da Intel, no seguinte e-mail: rosangela.mellato@intel.com .
Autor: Jorge da Cunha Lima - Categoria(s): Sem categoria
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27/03/2008 - 18:02
A SECRETÁRIA LINAMARA RIZZO BATISTELLA
A Secretaria de Estado dos Direitos da Pessoa com Deficiência já tem um bom nome de batismo, pois o deficiente não é um coitado, mas um senhor de direitos como qualquer cidadão.
A secretária escolhida foi uma ótima opção. O prestigio que Linamara desfruta entre os deficientes físicos, suas lideranças e as instituições que os representam, ficou claro na ovação que a nova secretaria recebeu no saguão do Palácio dos Bandeirantes quando seu nome foi anunciado. Além disso, comentavam alguns políticos presentes, Linamara é muito amiga de Alckmin, o que indica um gesto politicamente amigável.
Linamara é membro do conselho curador da Fundação Padre Anchieta. Nós a conhecemos das reuniões, nas quais ela sempre se manifesta com entusiasmo e idéias novas. Creio que nunca faltou a uma reunião desde que foi escolhida, muito antes de ser secretária. Demonstrou sempre um temperamento crítico e ardente. Não deixa ponto nem vírgula para trás. Será perfeita dentro da máquina política do estado.
Antes da cerimônia, Linamara me mostrou alguns deficientes sentados na platéia. Eram todos diretores, presidentes, superintendentes, de grandes empresas, de instituições importantes ou jornalistas e intelectuais graduados.
Tive o gosto de rever uma amiga de tantos anos, Dorina Nowell, cuja luta pelos direitos dos cegos não abalou em nada a sua juventude, e ela tem incríveis oitenta e oito anos.
Pelo visto, a dificiência física não é mais uma aposentadoria compulsória, mas há muito o que percorrer. A infraestrutura de metrópole e de suas edificações públicas e privadas foi inteiramente prevista para uma população não apenas normal, mas quase atlética. Os preconceitos não foram inteiramente banidos. E o preconceito é uma ilegalidade da alma, de difícil manejo.
Autor: Jorge da Cunha Lima - Categoria(s): Sem categoria
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26/03/2008 - 14:39
UMA VELHA EPIDEMIA
Azul é uma cor romântica. Lembra o céu infinito e alguns olhos finitos. Geralmente se lhe atribuem sonhos e tentações. Minha geração não se esquece do livro de Mann, irmão de Thomas, que virou tema do célebre filme “Anjo Azul”, com Marlene Dietrich.
Um professor maduro, estável como uma boa pedra alemã, lapidada na razão e na inteligência, apaixona-se perdidamente por uma prostituta irresistível. A razão, a inteligência e o corpo submetem-se insopitavelmente (como diria Janio Quadros) às tentações primitivas do instinto.
Creio que a Mosca Azul, tão aguda Quanto o Anjo Azul e a “Aedes Aegipty”, morde seletivamente os predestinados.
OS DOIS ZÉ
JOSÉ DIRCEU
Zé dirceu e Serra foram líderes estudantis, em épocas diversas. Zé Dirceu tinha a beleza da juventude e uma camisa desembainhada de sangue, para eletrizar os jovens estudantes. Já no congresso reprimido de Ibiuna era lider. De Cuba ao Planalto percorreu caminhos incontáveis: foi terroista, foi exilado, viveu clandestinamente com outra cara, no Paraná, teceu com denodo a vitória de Lula, foi seu principal ministro, mas saiu do posto para desagravar a honra do governo. Muito antes, se saiu de Ibiuna destinado ao exilio, à clandestinidade e à luta armada, também saiu candidato putativo à Presidência de República.
JOSÉ SERRA
Foi lider estudantil: UEE e UNE. Exerceu essa liderança com sua obstinação e seus dois olhos muito abertos e iluminados. Vinha da Moóca e era o mais mimado dos filhos únicos de toda uma família de italianos. Desde o berço torcia pro Palestra Itália (leia-se Palmeiras). Tinha medo de Avião e só viajava no Trem de Prata, noturno, para ir à UNE, que ficava na praia do Flamengo, no Rio. Mesmo duro, comprava duas passagens da cabine, para viajar sozinho. Foi exilado, migrou da engenharia para a economia. No governo Montoro liderou o planejamento. Foi deputado. Governa São Paulo depois de ter sido prefeito. Mas já antes de entrar para AP, braço esquerdo da JUC, era candidato à Presidência da República. Aliás, desde que o conheço, há 50 anos, é candidato.
OS OUTROS
AÉCIO NEVES
Menino bonito, brilhante e inteligente, foi jogado muito cedo no micro-clima da política, por seu avô, Tancredo Neves. A democratização, o Governo de Minas, a Campanha das Diretas e a Eleição Indireta fizeram do Aecinho um secretário íntimo de Tancredo. Com a morte do avô, Sarney o nomeou Presidente da Caixa. Inexoravelmente jogado na arena política foi eleito Deputado Federal. Com jogo de cintura e simpatia se elegeu Presidente da Câmara, contra o seu próprio partido. Elegeu-se governador, conquistou os mineiros e recuperou o caixa vazio. Quando lhe perguntei, nas últimas eleições presidenciais, se ele seria candidato, respondeu-me “que a coisa ainda não estava madura”. Mas, desde a morte de Tancredo é candidato à presidência.
MARTA SUPLICY
Marta foi uma menina linda, dançava rock como ninguém, pertencia a uma família muito rica de tradição, por um lado e, de dinheiro, por outro. Poderia na ocasião, ter sido Glamour Girl do Harmonia, clube da alta burguesia paulistana. Mas preferiu casar com Eduardo Suplicy. Muito , muito cedo, demonstrou sua fibra, quando o noivo voltou da Russia, meio fora do eixo, e ela segurou uma barra, como só as mulheres sabem segurar. Casou-se e aos poucos alimentou-se de todos os ideais do marido. Muito equilibrada, fez o próprio caminho na profissão de psicóloga. Consagrou-se com o programa do Carlos Espera, na Globo, “O Mundo é das Mulheres”, fazendo educação sexual aberta em plena televisão. Tornou-se política com vôo e mandatos próprios. Elegeu-se prefeito de São Paulo. Desde então é candidata à presidência.
DILMA ROUSSEF
Não tenho a intimidade nem o conhecimento que tenho dos candidatos acima. Mas, todos sabem, Dilma pertence ao núcleo de uma geração política que optou pela luta armada contra a ditadura militar. Pertenceu ao PDT, por admiração ao lider e por ser gaúcha. Sempre teve muita fibra e demonstrou-se boa administradora, quando Ministra de Minas e Energia, de Lula. Com a queda de José Dirceu, assumiu seu posto no Planalto, para segurar a administração do governo e recuperar-lhe a imagem. Num vazio de candidatos do PT, visto que a maioria deles se inviabilizou pela desqualificação política e moral, Dilma tornou-se uma candidata natural à presidência. Quando Lula conferiu-lhe a maternidade do PAC, tornou-se irresistivelmente candidata à Presidência da República.
GERALDO ALCKMIN
Geraldo reteve de Montoro a idéia de que todos os que desejam fazer uma carreira política devem ser candidatos: a vereador, a deputado ou a qualquer posto.
De fato, eleição legitima o própósito ou a ambição. Geraldo foi um bom prefeito de sua cidade natal, foi bom deputado estadual. Um zeloso deputado federal. Por toda essa discuplina foi escohido vice de Mario Covas. Foi um vice fiel e silencioso, e mesmo, um sucessor discreto. Eleito para um mandato próprio demonstrou vontade política e montou seu íntimo governo. Zelou obstinadamente pelo erário. Conquistou a malha partidária e liderou-a, tanto que tornou-se candidato à presidência, contra Lula, num partido que tinha um candidato e cacique fortíssimo: a José Serra. Deu-se bem na campanha, sobretudo no primeiro turno, quando era uma absoluta novidade para o eleitorado brasileiro. Perdeu, mas perdeu bem. Virou nome nacional. Desde então tornou-se candidato, permanente, à Presidência da República.
E AINDA: ARTHUR VIRGÍLIO. Desde que tornou-se promotor nas Cpis e começou a frequentar a midia foi picado irresistivelmente pela mosca azul. PATRUS ANANIAS. É o lado social do PT. O que entende de povo. Não pensava nisso, mas desde que tornou-se peça estratégica para desmontar o esquema de conciliação mineira, pode ser candidato à prefeitura de Belo Horizonte, com a promessa do partido lhe indicar em 2010. ETC.ETC. TEMPORÃO é um nome, mas falta ainda debelar as epidemias de terceiro mundo que atingem este paradoxal membro do BRIC. HADDAD também, mas ainda tropeça na crise do segundo grau.
Autor: Jorge da Cunha Lima - Categoria(s): Sem categoria
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25/03/2008 - 10:42
A PÁSCOA DA GIGI
Escrevi durante três dias sobre a eucaristia, a paixão e a malhação do Judas, vistos no prisma de minhas vivências pessoais. No Domingo de Páscoa travei. A Ressurreição me paralizou e eu não consegui escrever nada. Não sabia nem pressentia que seria a passagem da Gigi.
Regina Helena da Cunha Lima era a doce figura do poeta. E todo poeta é um pouco anjo.E todo anjo é terrível. Como todos nós, ela conheceu a morte. Viu de perto a morte trágica da irmã, a morte trágica da tia, que também era terrível e poeta. Conheceu o amor e o desamor.
Conheceu as glórias e a dor.
Vivia, como atesta seu quarto íntimo, cercada de orações, poesia, unguentos e fumaças santas. Tinha o mesmo paladar requintado para as iguarias e para os venenos. Era insaciável de amor e de destino.
Um dia cruzou a poesia e a poeta Ana Cristina Cesar, e lhe dedicou sua tese acadêmica. Dai em diante desceu ao inferno. Confraternizou-se com todos os poetas solitários e com muitos solitários não poetas.
E eu tive a felicidade de testemunhar seu batismo e de estimular esse caminho sombrio da poesia.
Ela sabia e dizia que seu desespero era particular, mas reconhecia de público, o bem que lhe fazia o zelo obstinado dos pais, dos irmãos, dos filhos e de toda a família. Mas sabia inteira e pessoalmente que suas estações no céu e no inferno lhe, exclusivamente, pertenciam.
No decurso de uma depressão sem limites, essa válvula desatinada do espírito, conheceu, antes do fim, a alegria de Sofia e o casamento do Chico, que conduziu pelos braços ao cenário nupcial.
O destino estava traçado, como um cálculo infinito, na calçada do centro de São Paulo, alegoria que ela tanto amava.
Num livro aberto em seu quarto, havia um salmo gasto de tanto ser lido, o salmo 90, chamado “Da Confiança”. Não sei bem se referia-se a este ou ao outro mundo.
Esta foi a páscoa da Gigi, que nós amamos tanto e que descansa em paz.
Autor: Jorge da Cunha Lima - Categoria(s): Sem categoria
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22/03/2008 - 16:07
SÁBADO DE ALELUIA
Havia Judas para ser malhado em muitas esquinas, mas o melhor deles era malhado bem longe de casa, na rua Lavapés, no Cambuci. O pessoal lá era mais pobre a batia no Judas com muito mais gosto. Janio Quadros, que morava lá, certamente participou desse malho.
Essa malhação de Judas era um divã muito melhor do que as análises de Freud. Descontava-se, nos fantasmas conscientes e inconscientes, todas as culpas e castigos. Promovia-se toda sorte de vinganças que a pasmaceira burguesa nos impedia até de imaginar. Professores injustos, amigos displicentes, irmãos egoistas que não emprestavam a bicicleta, empregadas que davam beliscões doídos, o dono do empório que não servia fiado.
Eu gostava de ver o boneco linchado e completamente desintegrado pois isso nos dava uma sensação de alívio. Estariamos durante um ano livre de todos os males.
Voltava para casa. O rádio já estava ligado. Todo mundo falava em Páscoa e no almoço de domingo. Já começava uma pequena confusão entre a grandeza da Ressurreição e os Ovos de Páscoa. Esses últimos prevaleceram muito sobre a outra nos últimos tempos.
Tudo é mercado neste reino de passagem que deus nos legou. Não adiantou Jesus ter escorraçado os vendilhões do templo.
Os homens foram salvos e a cada ano comemora-se essa luz do fim do tunel. Mas, feliz ou infelizmente, a cada ano voltamos para as trevas, para o banquete, para o calvário e para a redenção. Até o último dia Deus não nos dá descanso.
Autor: Jorge da Cunha Lima - Categoria(s): Sem categoria
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21/03/2008 - 18:51
A PROCISSÃO DO ENCONTRO
Gosto desse nome, diz tudo o que significa a entrega e a morte. Nossa casa, na infância, também ficava soturna. Não se podia ligar o rádio. Não se podia falar alto nem rir. Comia-se discretamente coisas do mar, pois carne, nem pensar. Tínhamos que percorrer sete igrejas e em cada uma delas nos ajoelharmos diante do caixão do Cristo morto. Essa fotografia nunca saiu nem jamais sairá da minha retina.
Mas o que nos excitava era a perspectiva noturna da Procissão do Encontro. Minha avó, que nunca saia de casa, pois pensava que ainda morava na fazenda, ao lado da senzala urbana, se preparava durante o dia todo para a procissão. Já tarde da noite saíamos de casa. No percurso, a procissão era marcada pelos passos da paixão. Na moldura das janelas ou nos terraços, as famílias colocavam tapetes ou toalhas de linho branco e os símbolos da via crucis. Uma banda, dessas de coreto, tocava a Marcha Fúnebre de Chopin. Para mim isso foi a emoção máxima que a tristeza poderia produzir. Num determinado momento duas procissões se encontravam, a que trazia Jesus carregando a cruz e a que trazia as imagens das Marias: Nossa Senhora e Maria Madalena. Era o ponto culminante. Até os anjos tremiam.
Depois voltavamos e eu dormia na casa de minha avó. Ia logo para a cama porque na manhã seguinte era o dia de malhar o Judas.
Autor: Jorge da Cunha Lima - Categoria(s): Sem categoria
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21/03/2008 - 16:27
TRAIÇÃO E RESSURREIÇÃO
Eramos criança e moravamos na Aclimação.A Semana Santa começava na quarta feira, com o Oficio de Trevas. Não estavamos em São João del Rey, mas cada bairro da maior cidade industrial da América Latina parecia um cidade do interior. Semana Santa era uma coisa séria, mudava o hábito das casas. Desde o dia de trevas as igrejas se revestiam de luto, todos os santos cobertos com panos pretos, só a imagem de Jesus Cristo morto, num caixão, era terrivelmente visível. Na quinta íamos à missa.
Eu já percebia que a Quinta Feira era a quina do cristianismo. Jesus anuncia a sua morte, em pleno banquete. Não seria rei, como desejavam os judeus. Seria um condenado. Mas nos consolava com uma frase incompreensível: “-Todas as vêzes que vocês se reunirem eu estarei no meio de vós”. Nos consolava com declarações absurdas, pegando o pão e o vinho. “-Isto é meu corpo. Isto é meu sangue”. O celebrante dizia essas coisas em latim, mas nós sabiamos de cor o que aquilo significava.
Quinta feira também era o dia da traição. Cristo seria trocado por algumas moedas de ouro, por um cara que o amava como os outros. Judas, predestinado a ser o que propocia o destino, foi talvez o mais generoso dos apóstolos, pois se perdeu para que a humanidade fosse salva. Pedro também traiu, mas foi uma traição menor, sem grandeza. Grandeza teve quem o perdoou, dando-lhe até o comando da Igreja.
Foi um dia alegre, apesar das aparências, porque Jesus prometeu a ressurreição, e nós ficamos todos quase perdidos, sem compreender o mistério, mas sabendo que no fim do tunel havia luz. Muito mais tarde, quem me esclareceu o mistério foi Mahler , quando
produziu a Ressurreição, a mais humana das sinfonias.
Autor: Jorge da Cunha Lima - Categoria(s): Sem categoria
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20/03/2008 - 12:00
CYMBELINI
Essa peça de Shakespeare é desconhecida no Brasil e a que menos frequentou os palcos do mundo. Talvez porque seja de difícil montagem ou porque, nela, o lirismo suplanta a tragédia. Em ROMEU E JULIETA a conjuntura é contra o amor, e o impulso amoroso termina em tragédia. Em CYMBELINI, a conjuntura também é adversa, mas o amor suplanta todas as vicissitudes. Mais que isso, triunfam a identidade da pátria, o ideal da família e a liberdade individual. Tudo isso entremeado de monólogos candentes do grande Shakespeare. O inglês atualizado é de fácil compreensão e ainda há tradução numa tela em cima do palco.
Até aí estamos apenas em Shakespeare. A novidade é a montagem que a Royal Shakespeare Company encomendou ao grupo de teatro da Cornuália, “KNEEHIGH THEATER” e dirigida por Emma Rice. O jornal INDEPENDENT diz da peça o seguinte:
“Cymbelini é uma peça louca. E Kneehigh é uma companhia louca. Definitivamente foram feitas uma para a outra.”
A montagem é surpeendente e encantadora. Os atores conquistam e interagem com o público de uma forma tão natural que parece estarmos todos a falar a mesma lingua. O lirismo do desencontro entre nações e pessoas é conduzido com humor. Rimos o tempo todo, porque a aventura humana é mesmo uma comédia risível. A montagem é louca, chocante e revolucionária, mas sem a pretensão metafisica das montagens do Teatro Oficina, que atua em análogo patamar criativo.
Isso até o dia 30, no Teatro da FIESP, na avenida Paulista.
O patrocinio inaugura uma boa parceria entre o SESI-SP e o BRITISH COUNCIL.

foto: guia da semana
Autor: Jorge da Cunha Lima - Categoria(s): Sem categoria
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