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Arquivo de fevereiro, 2008

15/02/2008 - 17:05

TODOS VESTIDOS DE NOIVA NO ITAU CULTURAL

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VESTIDO DE NOIVA

Quando a peça termina, no teatro do Itaú Cultural, o pai, a mãe, os repórteres, as mortas, os vivos, os meninos e a gloriosa madame Clessi (Norma Benguel), estão todos vestidos de noiva. De branco, com buquês de rosas vermelhas. O insólito final de Nelson Rodrigues recebe aplausos calorosos do público jovem.
Não podemos, não devemos e não precisamos fazer comparações. Vestido de Noiva, encenado por Ziembinski nos anos 40, foi uma revolução no teatro, antecipou o “roll” e a montagem midiática, modernizou o teatro no mundo inteiro. A história e os delírios oníricos de Alaíde, dirigida por Rodolfo Garcia Vasquez, não vão mudar o teatro, mas apresentam um ótimo teatro, com humor, imaginação e boa pontuação dramática. Os atores estão excelentes e Norma Benguel é a prova cabal de que a metamorfose do corpo não atinge o espirito que permanece inteiro, em sua condição de atriz. O que mais me encanta nesse Nelson Rodrigues é a compreensão genial desse momento que medra entre a vida e a morte, no qual o quase morte é capaz de sintetizar a vida, despojado de qualquer pudor. Alaíde não é verdadeira, ela é a própria verdade. Clessi carrega todo o realismo da “belle époque”. ” – De dia ele veste roupa caqui, de noite não” , referindo-se ao amor de 17 anos que acabaria assassinando-a. E a irmã? Que só queria transar com o cunhado enquanto a Alaíde estivesse viva. Nem Tchecov.esse Vestido de Noiva se descola do rio de Janeiro e do tempo, torna-se universal.
O Itaú cultural valorizou-se muito ao tranformar seu auditório num bom teatro de câmara. Encontrou um veio novo para sua intensa programação.
Onde: Itaú cultural. Av. Paulista 149.
Quando: Até domingo (duas sessões).
Com quem: Com os Satyros

Autor: Jorge da Cunha Lima - Categoria(s): Sem categoria Tags:
12/02/2008 - 18:24

CAMPUS PARTY

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INTERNAUTAS INVADEM A BIENAL

Antes mesmo da instalação da próxima Bienal de Artes, os internautas presentes ao “Campus Party”, produziram uma instalação de barracas mais expressiva do que as instalações de arte já realizadas naquele mesmo local. Além da beleza plástica, as oitocentas barracas têm um conteudo indiscutível: vai abrigar o sono dos nerds presentes à feira. Vindos de distâncias imensuráveis, com seus computadores e inventivos modems, para participar desse Woodstock de Chips, acamparam no coração do Ibirapuera. Como já aconteceu na Espanha, sob o mesmo patrocínio da Telefônica, os navegadores querem estar próximos uns dos outros. Querem saber que existem, muito além dos e-mails. São de carne e osso. São muito jovens. Um mundo que eu desconhecia. Trabalham em relativo silêncio, estão vestidos como o comum dos mortais, sua libido é eletrônica, não se interessam por drogas como bandeira do que fazem, e não são especialmente chegados em bebida. Não são yuppies nem punks, mas são extremamente criativos. Basta ver os modems que carregam, verdadeiros totens da imaginação delirante. Há uma seriedade no ambiente, mas com muita alegria. Cada um sabe o que faz, pois adquiriu quase sozinho esse conhecimento.
Qualquer pessoa mais velha que entre naquele “campus” terá, como eu tive, a sensação de estar diante de um mundo inteiramente novo. Não é apenas uma nova tribo, mas uma nova ordem de coisas. Fez bem a TV Cultura de instalar um stand de 136 ms2 e de criar a primeira rádio pirata legalizada de nosso País e da América Latina, inteiramente produzida pelo ouvinte, com as sugestões do ouvinte e o gosto do ouvinte. Pela primeira vez a oferta de cultura interagiu com a demanda de cultura.

Autor: Jorge da Cunha Lima - Categoria(s): Sem categoria Tags:
11/02/2008 - 17:53

O MUSICAL WEST SIDE STORY EM SÃO PAULO

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WEST SIDE STORY

A primeira vez que fui a New York, ainda jovem, perguntei ao porteiro do Hotel Roosevelt o que havia de bom para se ver. Sem hesitação ele me respondeu:”- West Side Story. Um musical de Berstein. Está lotado mas a gente dá um jeito se o senhor estiver interessado”. Manifestei imediatamente o meu interesse e entrei com cem dólares, que na época era uma fortuna para mim. Nunca tinha assistido um musical na minha vida. Quando sentei na sala, fiquei impressionado com o veludo vermelho, bem convencional. Quando a cortina se abriu, ao primeiro acorde, e seguindo os passos do ballet urbano, mágico, dividindo o bem do bem, o mal do mal, as tribus de wasp e portoriquenhos, fiquei deslumbrado. Bernstein, como me explicou mais tarde o maestro Flavio Chamis, compunha música popular com o rigor clássico de uma ópera. Sua música continha povo e erudição. Os atores eram deslumbrantes e carismáticos. Maria nunca mais abandonou a minha lembrança nem os meus ouvidos. No João Sebastião Bar, a meca da Bossa Nova, quando retornei ao Brasil, as canções de West Side Story já eram cantadas em coro pelos frequentadores. Os candelabros do bar do Cotrim não tinham preconceitos musicais, nem qualquer outro.
Li, com uma certa emoção, o anúncio de que “West Side Story” será encenado no Brasil para uma curta temporada no Teatro Alpha em espetáculo de Jorge Takla. Espero que a emblemática disputa de tribos urbanas, hoje espalhadas pelo mundo, em Bagdá, na Palestina, na Georgia e na Rocinha, nos comova tanto quanto o espetáculo da Broodway. O Brasil já tem experiência em musicais. A inspiração da coreografia de Jerome Robbins e a música de Leonard Bernstein serão suficientes para que se produza um grande espetáculo. Só não entendi a “curtissima temporada”anunciada para o melhor musical de todos os tempos e espero que o
preço seja menor que cem dólares.

Autor: Jorge da Cunha Lima - Categoria(s): Sem categoria Tags:
10/02/2008 - 15:39

UMA AULA DE PINTURA

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PIERO della FRANCESCA

A análise de uma obra prima da pintura, feita por um bom crítico, nos alimenta como um curso de pós graduação. De fato, um bom pintor coloca em seus quadros uma síntese de seu tempo, visível a olho nú. Faz isso, com um sentido de eternidade, o que o cinema faz hoje, com uma inevitável transitoridade.
A Editora COSACNAIF reproduziu com muita coragem a obra de Roberto Longhi, um dos grandes historiadores da arte do século XX, sobre o pintor Piero della Francesca, publicado na Italia em 1927.
O livro contem um texto primoroso de Longhi, 156 ilustrações perfeitas em papel couché e um Apêndice, com a biografia e a bibliografia atualizada de Piero.
Longhi não tem medo de fazer uma descrição analítica de cada obra tratada, mostrando tudo o que Piero della Francesca inova, num século em que a arte já produzira Giotto, Fra Angélico, Ucello. Bruneleschi, enfim todos os que possibilitaram a eclosão do Renascimento. Longhi nos mostra, nos quadros ou nos afrescos de Piero, uma equação que foi definitiva para a pintura: a forma, a perspectiva e a cor. E tem a coragem de nos remeter diretamente ao maior pintor da modernidade Paul Cezanne, mostrando o quanto Piero está em Cezanne e o quanto Cezanne está em Piero. Mais ainda, cada rosto, cada traje solene, cada coluna, cada discreta paisagem comprovam que “em toda a composição não há uma simetria rítmica única, mas apenas figuras, primeiro gravadas profundamente com a relação de intervalo das mais impecáveis tabelas hieroglificas, e depois liberadas pela variação dos campos de fundo numa comensuração plena e profunda: fato que acontecia pela primeira vez na arte”.

Onde comprar: na Livraria Cultura, na Livraria da Vila e pela Amazon.

Autor: Jorge da Cunha Lima - Categoria(s): Sem categoria Tags:
08/02/2008 - 12:00

AS LIÇÕES DA CRISE DO MASP

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A GESTÀO CULTURAL PRIVADA

A demonização do estado promovida com êxito no Brasil nos últimos trinta anos teve como pior consequência a privatização da gestão cultural.
Com raras exceções, e mesmo estas, realizadas com ampla ajuda das leis de incentivo fiscal, a administração privada de instituições culturais tem sido um desastre.
As razões são muitas, mas principalmente o caráter político e a frivolidade com que alguns empresários se dedicam à administração artística. Numa sociedade afluente, cujas elites surgem do dia para a noite, bafejadas pelos negócios da ocasião, pela corrupção e até mesmo pelas oportunidades do desenvolvimento, fica muito claro que a cultura e as artes propiciam um acesso social mais fácil até do que a conta bancária. Um presidente da Bienal é recebido pelo presidente da República. Um presidente de banco médio não terá nunca uma audiência. Assim, de uns tempos para cá ficou interessante ocupar a presidência de instituições culturais públicas ou privadas (estas sempre auxiliadas pelos governos). Além disso, há outro inconveniente na escolha desse tipo de gestor.Uma instituição cultural, que não tem finalidade de lucro, mas cuja finalidade é promover as artes e contribuir para o desenvolvimento do gosto e da inteligência, não pode ser administrada como um super mercado. E a visão desses administradores é principalmente contábil. Além disso, até agora, nem a FGV, Fundação Getulo Vargas em São Paulo, nem o IBEMEC criaram um MBA para administradores culturais. A terceira questão é que, ao contrário dos Estados Unidos, não há no Brasil verdadeiros mecenas. Tirando os quatrocentões dos anos vinte e os imigrantes italianos bem sucedidos dos anos cinquenta, nenhum empresário brasileiro deu um tostão do seu bolso para as artes. E ponto.
Mas gostam de controlar as instituições culturais. Uma vez, encontrei o ex-governador Abreu Sodré na Av. Paulista, nas imediações do seu escritório, em frente ao MASP (Museu de Arte de S.P..Carregando uma pasta ele me afirmou com uma certa ironia. “- Aqui está a reforma dos estatutos do MASP. Durante cem anos ninguém conseguirá nos tirar de lá.” Não entendi bem quem era o nós, mas desconfiei. Hoje, decorridos uns catorze anos desse encontro, está claro quem era o “nós”. Numa época em que até os ministros se sucedem com a maior facilidade, é incompreensível a resistência de um empresário realista e bem sucedido como o arquiteto Julio Neves, em aceitar um sucessor. É verdade que as instituições culturais permitem mandatos longos para que se possa realizar um projeto completo, mas não recomendam que ninguém se eternize no cargo. Nas crises se revelam a grandeza e a generosidade das pessoas. Ainda não decorreram cem anos, mas o MASP pede renovação.

Autor: Jorge da Cunha Lima - Categoria(s): Sem categoria Tags:
07/02/2008 - 12:04

“NA PRAIA” – SEM CARNAVAL

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“NA PRAIA”

AUTOR: IAN MC EWAN
EDITORA Companhia das Letras

Florence e Edward se casaram unindo a força e a ingenuidade de um camponês erudito com a sofisticação e a estética de uma menina inglesa da burguesia industrial. Eram dois bairros, dois contextos, e uma única razão a uní-los: o amor recíproco.
Eram dois seres humanos na mesma cama, com a receita da vida e o despreparo do corpo. E o corpo tem sua própria partitura. Na ilha, o impulso majestoso do macho e, no caso, a rejeição enojada da fêmea, apesar do amor.
Em torno a isso, Mc Ewan serve a mesa farta das distâncias sociais, a profecia ignorada dos anos sessenta, já tão perto.
A pujança medrosa do homem do campo, intruso no quarteto casto de Mozart.
A impaciência do tesão que destrói o tempo da espera.
Não há nada mais triste do que o fim de um amor que existe, indiscutível.
O destino resultante é a vida opaca que o autor reserva ao emigrante pródigo que retorna ao campo para ser infeliz.
O carnaval é uma boa ocasião para se ver filmes antigos e ler coisas eternas.

Autor: Jorge da Cunha Lima - Categoria(s): Sem categoria Tags:
06/02/2008 - 12:00

EM PARIS TUDO PODE ACONTECER

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EM PARIS (DANS PARIS)

Entrei domingo no Reserva Cultural, atraido pelo filme de Christophe Honoré, “Dans Paris”. Não conheço o diretor e fui atrás das “estrelinhas” que os críticos conferiram ao filme. Além disso, Paris é sempre uma atração para aquela geração que tem no francês a sua segunda lingua. Não era nenhuma estréia solene, mas estavam lá ex-exilados, intelectuais da USP, liberais de esquerda e a direita capaz de apreciar bons vinhos.
Todo mundo quer rever e se rever em Paris. Mesmo que seja num cartão postal.
Mas o filme não é nada disso. É uma estranha história apoiada numa narrativa cinematográfica muito original. Um filho deixado pela mulher, em grande depressão, volta à casa do pai, cuja mulher também o abandonou para fugir com um lenhador canadense. O filho tem, a consolá-lo o irmão, um jovem adolescente, belo e inconsequente. Paris está às portas do drama, com sua beleza noturna e suas vitrines sedutoras. O jovem, além de consolar o irmão, aproveita um mesmo dia para transar com tres mulheres que encontra no caminho do Bon Marché.
O pai faz o papel da mãe. Quer curar a dor do filho com uma canja caseira que ele mesmo cozinha. Quer emblematizar a tal familia em torno de uma árvore de natal que ele carrega nas costas até o apartamento. O filho abandonado, além de atirar-se no Sena, volta para casa e se arrepende nos braços do irmão dentro da banheira quente. Logo após, o casal separado se ama pelo telefone numa canção comovente, capela a duas vozes.
Na boa narrativa se consola a dor. Não a dor de corno, mas a dor da perda, da irmã que se suicidou aos dezessete anos.

Autor: Jorge da Cunha Lima - Categoria(s): Sem categoria Tags:
02/02/2008 - 15:00

SEGUNDA FEIRA NEGRA

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CONVERSA DE BOTEQUIM FINO

Só há três assuntos em algumas rodas. Crise. Eleições. Corrupção.

A crise é patética na medida em que ninguém consegue dizer coisa com coisa que nos esclareça, pobres mortais, sobre a realidade do mundo. O que estamos assistindo é uma crise financeira. Afeta mercados, bancos, ações, aplicadores, tomadores etc. É uma crise do sistema financeiro e de todos os princípios que o sustentavam. O que está por vir é a crise econômica, que afeta toda a sociedade, produção, desemprego, consumo, lazer, estudo e cultura. O empréstimo ainda não aprovado pelo Senado Americano pode salvar a Bolsa, mas não sabemos se evita a recessão econômica. E o pior. O mundo está sem liderança e sem crença. O século XX acabou com a utopia comunista. O Século XXI acabará com a utopia capitalista. Tudo bem, desde que haja uma nova utopia, guardada na biblioteca.

As eleições são caricatas, posto que nenhum candidato tenha apresentado nenhum projeto urbanístico para São Paulo. A crise moral decorrente do desconcerto entre os candidatos do PSDB e do DEM, deixará uma lacuna profunda, só recuperável quando houver uma verdadeira reforma política no país, capaz de revalorizar o voto e a escolha prévia dos candidatos, pelas bases partidárias e não pelos caciques. Até agora qualquer um pode ser prefeito, dos três melhor colocados. Mas qual seria a diferença mesmo?

A corrupção é tema redundante. Parece ocioso falar dela. Mas, outro dia conversando com Paulo Egydio ele me disse: Se é verdade que sempre houve corrupção na política, nunca houve uma corrupção tão alastrada e consentida como hoje. Concluímos que a corrupção que era uma instituição verticalizada, hoje horizontalizou, abrange o fundo e a superfície da sociedade.
Os três temas se parecem com os personagens do Walter Salles, sem qualquer saída para nenhum deles.

Autor: Jorge da Cunha Lima - Categoria(s): Sem categoria Tags:
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