A VIDA DOS OUTROS
A VIDA DOS OUTROS
Uma das funções da obra de arte sempre foi nos tornar maiores. Uma grande obra nos faz sentir o privilégio que é a oportunidade da vida. “A VIDA DOS OUTROS” é um filme extraordinário, nem mais nem menos. Situado nos horrores do lado de lá do Muro de Berlim desperta um certo heroísmo, o que significa essa oportunidade de sermos mais que as circunstâncias. Mais do que isso o filme desperta uma consciência do que somos hoje, na calmaria democrática do século XXI, e nos cobra alguma coisa que não percebemos nesta sociedade de consumo, filosoficamente atrofiada pelo “iluminismo”do FMI.
Como todas as utopias andam perdidas, o que há de melhor em nossas agendas ainda são as manifestações artísticas. O cinema dá de dez em todas as outras. Sinto pena das artes plásticas que se deblateram no “non sense” das instalações e se distanciaram por longo tempo da humanidade. O romance vai bem, sobretudo na geografia anglo-saxã e no mundo árabe. Algumas séries da televisão remontam a Dickens e Balzac, no mundo da alta tecnologia.
Mas “Vida dos Outros” tem atmosfera e desempenho, sem qualquer vislumbre de melodrama. Tudo se passa como deve ser e se supera como não deve ser. Sobretudo os comportamentos políticos e morais. A caça surprende os caçadores, tornando-os cúmplices da liberdade. O alemão sempre será uma contradição: uns trogloditas políticos, seduzidos pela música e pela filosofia.
Cada ator tem a contenção que recomenda aquele período no qual a contenção era condição de sobrevivência. Sebastian Koch lembra fisicamente o Antonio Banderas mas com anos de sofrimento e de teatro nas costas. Ulrich Muehe faz o papel impressionante do agente seduzido pelo outro enredo da vida.
As premiações já concedidas constituem um pálido reconhecimento da grandeza deste filme.

Jorge, que análise da cultura… que interessante saber que… perdemos, essa a sensação que tenho, após trabalhar 12 deliciosos anos em galeria de arte em goiania… agora tudo mudou