O FRIO CIVILIZA?
A COMPREENSÃO DAS ESTAÇÕES

Claro que esta é uma questão burguesa para nós que nos encantamos com gente vestida adequadamente, a que o frio sempre obriga. Lembro-me da grande crise econômica da Argentina. Estava na Calle Florida e um senhor muito bem vestido me perguntou se eu queria engraxar o sapato. Imediatamente sentei numa cadeira disponível e ofereci meus sapatos ao elegante senhor. Ele estava de blazer azul marinho, bem composto, e agradeceu muito quando lhe dei uma gorjeta de moeda forte ( que era a do Brasil).
Mas não podemos nos esquecer que as mais belas vestes femininas do mundo são de mulheres africanas que vivem num calor constante.
Isso posto, creio que o que civiliza mesmo é a divisão perceptível das estações. Esperar as estações, saber que há um tempo de frio e um tempo de calor, uma tempo de primavera e uma atmosfera de outono, e que é essa compreensão que dá à vida uma contagem mais delicada do tempo. Quando os dias são todos iguais temos a sensação de que morremos mais depressa.
Assim, estranhei que na Suissa, como acontece nos Estados Unidos, embora inverno, não encontrasse as frutas de verão, facilmente importáveis do Chile. Explicaram-me que o suisso não come frutas fora da estação. Eles esperaram meses para comer o primeiro pêssego da temporada, a primeira cereja. Assim a vida lhes proporciona expectativas e renovação. Tiram roupas alegres do guarda roupa quando chega o verão. A coisa é tão radical que fui uma vez a uma chocolateria e perguntei por um chocolate que eu tinha gostado muito. A moça pediu desculpa e me respondeu: -Esse chocolate é de primavera, nós só produziremos no ano que vem.
Essa questão de tempo não é portanto um simples questionamento burguês. É uma forma civilizada de envelhecer com a natureza. FELIZ ANO NOVO.

Caro blogueiro
Feliz 2008 para vc tbm. A respeito do seu ultimo post sobre a importancia das estações, me lembro da mulher de um executivo que veio para SP acompanhando o marido. Ela não aguentou 2 anos aqui: dizia que ia morrer de tedio, que não aguentava tanto sol, queria mudança de estações, chorava e clamava o tempo “plumbeo” tipico de Milão. Foi embora antes que morresse, segundo ela. Pois é, tem gente que não se acostuma ao nosso tropicalismo.
O RENASCER DO AMOR. Prezado Jorge Cunha, o que civiliza mesmo é ter amor no coração. Aproveito o tema civilizar, para lembrar, neste primeiro dia de ano, um simbolo inesquecível do amor, Lana Carnevalle de Melo. Nela podemos encontrar o verdadeiro sentido do amor. Você talvez se lembre, há pouco tempo, que manchetes na imprensa escrita e televisiva, inclusive do exterior, deram destaque à morte de Lana Carnevalle de Melo, que recebeu honrarias e homenagens póstumas no Rio de Janeiro, local da tragédia, mas também do renascer do amor. Lana era uma anônima motorista, que trasportava oito crianças, entre elas, sua filha, após o dia de aula em escola no Rio de Janeiro, quando um posto de gasolina explodiu e, por infelicidade, a perua Van que conduzia pegou fogo. De imediato, embora com o corpo em chamas, Lana passou a gritar: ” salvem as crianças, pelo amor de Deus!”. E entrava e saia do veículo, adoidadamente, também em chamas, aguentando a dor de ser queimada viva, até retirar, não só sua filha, mas todas essas crianças sãs e salvas. Lana teve queimaduras no tórax, braços, pernas, mãos e pé, aproximadamente 80% de seu corpo. Quando acordou, no hospital, suas primeira palavras ainda foram de preocupação com as crianças: ” como estão as crianças?”, disse ela. Depois de 43 dias de agonia em estado de plena lucidez, Lana faleceu, vítima de infecções generalizadas, pela perda de imunidade, face às suas queimaduras. Enquanto lutava pela sua vida, o seu gesto de amor virou sementes, e abriu em rosas, plantadas nos corações de todos os seus familiares, dos parentes das crianças, dos pais e alunos da escola que todas as crianças salvas frequentavam, dos funcionários e médicos do hospital, onde se tratava, de todos os que tomaram conhecimento das matérias, a ela dedicada, pelos jornais, rádio e televisão. Todos, durante a agonia de Lana, puderam, no seu exemplo, meditar que só podemos ter a paz, através do amor. Tínhamos, em nosso conceito, a idéia de que o amor ao proximo como a si mesmo era apenas uma meta, um ditame cristão, cheio de boas intenções, mas irrealizável pela natureza humana, tão egoísta e apegada ao materialismo. De fato, era inimaginável que alguém pudesse amar o próximo como a si mesmo. Entretanto, Lana foi além, amou o proximo acima de sua própria vida, a qual doou, ao preço de dores horrorosas da queimadura, para salvar as crianças que amava, entre elas, a sua filha. O amor de Lana, tal como as sementes, levadas pelos ventos ou pelos pássaros, espalhou-se pelo mundo, abriu em rosas, e deve ter chegado aí na Suíssa ou mesmo em New York, para talvez fazer esquecer tantas guerras que esparramaram o ódio e tristeza em todo mundo. Hoje, o primeiro dia do ano, quero lembrar a todos que o amor renasceu, no sacrifício de Lana. E este ato que não gosto de chamar de heroísmo, mas de renascimento do amor, merece ser lembrado. Penso que Carlos Drummond de Andrade, ao escrever o poema ” Nascer de Novo” alcançou, sim, com notável fidelidade, principalmente na sua segunda parte, o verdadeiro sentido do amor. E ele pode ser sentido, refletindo sobre Lana Carnevalle de Mello e o poema daquele cujos pensamentos nos levam ao infinito na reflexão. Cada expressão, cada frase deste poema, parece que foi feito para o ato de amor de Lana: ” Eis que um segundo nascimento, não adivinhado, sem anúncio, resgata o sofrimento do primeiro, e o tempo se redoura. Amor, este seu nome. Amor, a descoberta de sentido no absurdo de existir. O real veste nova realidade. A linguagem escontra seu motivo até mesmo nos lances do silêncio. A explicação rompe as nuvens, das águas, das mais vagas circunstâncias: não sou eu, sou o outro que em mim procurava seu destino. Em outro alguém estou nascendo. A minha festa, o meu nascer poreja a cada instante em cada gesto meu que se reduz a ser retrato, espelho, semelhança do gesto alheio aberto em rosa”. Jorge, um feliz ano novo, repleto de felicidades e com muito, mais muito amor mesmo.
Suíça é com Ç
Thiago. Suissa pode se escrever com C ou com dois SS.
Chadad. Seu comentário é belíssimo. Esquecemo-nos frequentemente desses heróis que se sacrificam pelos outros.Sobretudo os que dão vida aos outros. Parabéns. jorge