O FRIO CIVILIZA?
A COMPREENSÃO DAS ESTAÇÕES

Claro que esta é uma questão burguesa para nós que nos encantamos com gente vestida adequadamente, a que o frio sempre obriga. Lembro-me da grande crise econômica da Argentina. Estava na Calle Florida e um senhor muito bem vestido me perguntou se eu queria engraxar o sapato. Imediatamente sentei numa cadeira disponível e ofereci meus sapatos ao elegante senhor. Ele estava de blazer azul marinho, bem composto, e agradeceu muito quando lhe dei uma gorjeta de moeda forte ( que era a do Brasil).
Mas não podemos nos esquecer que as mais belas vestes femininas do mundo são de mulheres africanas que vivem num calor constante.
Isso posto, creio que o que civiliza mesmo é a divisão perceptível das estações. Esperar as estações, saber que há um tempo de frio e um tempo de calor, uma tempo de primavera e uma atmosfera de outono, e que é essa compreensão que dá à vida uma contagem mais delicada do tempo. Quando os dias são todos iguais temos a sensação de que morremos mais depressa.
Assim, estranhei que na Suissa, como acontece nos Estados Unidos, embora inverno, não encontrasse as frutas de verão, facilmente importáveis do Chile. Explicaram-me que o suisso não come frutas fora da estação. Eles esperaram meses para comer o primeiro pêssego da temporada, a primeira cereja. Assim a vida lhes proporciona expectativas e renovação. Tiram roupas alegres do guarda roupa quando chega o verão. A coisa é tão radical que fui uma vez a uma chocolateria e perguntei por um chocolate que eu tinha gostado muito. A moça pediu desculpa e me respondeu: -Esse chocolate é de primavera, nós só produziremos no ano que vem.
Essa questão de tempo não é portanto um simples questionamento burguês. É uma forma civilizada de envelhecer com a natureza. FELIZ ANO NOVO.


