Capítulo 16. PERFIL CULTURAL DO EMPRESÁRIO PAULSTANO – DE CARAMURÚ AO CANSEI
O “cansei” produz ainda outros riscos. Se uma pessoa com a experiÊncia da Marta, pela simples exuberância de classe dominante, acha que pode fazer qualquer afirmação, sem avaliar os danos, imagine um presidente de multinacional, sem nenhuma experiÊncia política, sem nenhum conhecimento intelectual mais profundo, que prejuízos não pode causar? Posar ao lado da Hebe, deitar fala na Mônica Bérgamo, é qualquer coisa imponderável, no perigoso capítulo da ingenuidade.
Náo quero proibí-los de falar. Temos até direitos constitucionais de falar. Admiro o profissionalismo da Hebe, não admiro o primarismo de alguns entrevistados. Mas até que o empresariado paulistano assuma suas responsabilidades e participe efetivamente da vida política e se comprometa com os projetos culturais e com essa necessidade de se criar uma nação e não simplesmente uma economia de mercado, esses movimentos tornam-se monótonos e retóricos. E a retórica nunca foi o forte desse elenco tão modesto em recursos verbais e mesmo intelectuais.
Os ricos sempre se manifestaram por baixo do pano. Têm todo o direito de se manifestarem publicamente, como afirmou João Dória , nas amarelinhas da Veja. Essa abertura é mesmo boa, para que todo mundo saiba o que eles estão pensando.
Na “Marcha com Deus pela Família…”, a maioria deles foi para a rua e todos sabemos o que eles estavam pensando. O pensamento durou 26 anos.
Na ” Campanha das Diretas”, uma parte deles foi para a rua, inclusive o Jõao Dória, que me ajudou muito na organização do Comício da Sé. Como queríamos uma coisa muito simples: eleições diretas para presidente, um dia a coisa emplacou,
Nas ” Campanhas do Lula” , a quase maioria deles foi contra. Na primeira, apoiaram maciçamente o Collor, com ameaças até de fecharem a luz do aeroporto no caso de sua derrota. Meses depois da vitória de Collor, participaram do “Fora Collor” , junto com os meninos da cara pintada,da UNE e da Globo. Depois, apoiaram Fernando Henrique, os mesmos que comemoraram sua expulsão da USP nos coqueteis da vitória, realizados na casa do General Kruel, entre champagnes e tapetes persas. Na segunda campanha do FHC, já então eram fernandistas devotos. Na última campanha aceitaram a vitória de Lula, desestabilizaram a Bolsa por pouco tempo, mas acabaram encantados com dois fatos incríveis: o PT não desestabilizava mais o país, os contratos no campo econômico e financeiro seriam respeitados e a macro economia continuaria a mesma e ainda mais ortodoxa. Henrique Meirelles era um fiador de gabarito nacional e internacional.O mundo começava um período de ceú de brigadeiro apesar da estagnação do Brasil por vinte anos. A democracia era recomendada até pelo Pentágono como um atributo do neoliberalismo vigente. Os movimentos sociais, aguerridos e temidos, mantiveram-se num equilíbrio confortável para o governo, apesar de algumas ações de efeito.
Valeriodutos, sanguessugas, contas declaradas no exterior e outras porcarias do gênero abalaram a credibilidade. É verdade. Quase se esboçou uma campanha de derrubada, mais dos políticos do que da sociedade. Mas a estabilidade é sempre mais forte do que a corrupção. Os empresários paulistas sabem disso. Desde o primeiro jesuita sabem que a ordem é o único atributo indispensável do estado.