iG
iBest BrTurbo

Publicidade

Publicidade
19/10/2007 - 10:55

UM TEATRO AINDA MAIS BELO DO QUE A VIDA

THÉÂTRE DU SOLEIL:PASSARELA MUITO DELICADA

Nas lonjuras do Belenzinho, para quem não vai de METRO, o Teatro do SESC estava lotado, nos dias em que lá estive e em todos os outros, do espetáculo de Ariane Mnouchkine. Quatro horas, para quem assiste em duas récitas. Oito horas, para quem prefere assistí-lo de uma vez. Quando o anunciei neste BLOG, afirmei que era imperdível. Depois de vê-lo, direi que é inesquecível.
O Théâtre du Soleil é uma Uzina Uzona, sem zona. Propõe um arranjo cênico com pausas delicadas, o mesmo que em Bob Wilson é só movimento, a nos tirar o fôlego.
É um coletivo teatral, no qual empurrar praticáveis com rodinhas tem a mesma importância do que fazer o papel principal.
Chegamos ás seis horas. Descolamos da cadeira que escolhemos o número de nosso lugar. Depois, calmamente, fomos para a grande sala de espera, quase industrial. Caixas de containners, dos cenários realistas. A mágica no Théâtre du Soleil está exatamente no tempo real, nas coisas que se provam com o gosto e olhar.
Grandes mesas e grandes buffets, preparados pelos artistas, com pratos de queijos e endives, cordeiros com legumes e outras especiarias.Vinho tinto. Tudo muito barato. O ágape gatronômico já cria uma intimidade. As 7hs30 começaria o espetáculo. Demora, o público se inquieta. Ariane calmamente se desculpa. “-Há uma turma na fila de espera. Para acalmar os desesperados (muito jovens), eu resolvi abrir as portas. Agora vamos acomodá-los”. Aplausos gerais.
Duas platéias altas e um amplo corredor no meio, como no Teatro Oficina, mais próximo contudo, sem arquitetura delirante, apenas um palco longitudinal e duas entradas, uma de cada lado.
Jovens belos e fortes, homens e mulheres, empurram praticáveis redondos e os colocam em posições estratégicas nesse palco longo. A gente fica em cima das coisas. As coisas são cenários realistas que eles montam na frente do público: salas de estar, escritórios, clínicas, jardins, portas e portões. Ninguém entra no cenário de uma sala sem passar por uma porta. São vinte e nove quadros. Histórias da vida entremeadas. Tudo com uma delicadeza próxima do tempo real, não o tempo real da televisão, que é apenas simultaneidade. Um tempo que se cria na realidade do palco e se confunde com o tempo da platéia.
À esquerda uma porta fechada. Crianças espiam pelo buraco da fechadura. No outro extremo da passarela: uma inglesa de meia idade, com cabelos curtos, uma saia longa, prepara sua festa de aniversário: um só prato, um bolo, uma taça, uma garrafa de champagne. É um transexual que se transformara de homem em mulher. O telefone toca, uma esperança de alegria. “- Não , responde ao telefone, não preciso de mais nenhum plano para o meu celular. Obrigada.” Vive em Paris. Ouve um ruido na porta. Levanta-se elegantemente e flagra as crianças quando abre a porta. Todos fogem, menos um menina loirinha, muito linda. Ela deixa a porta aberta onde a menina se encosta e volta para o sofá. Convida a vizinha para entrar. A menina se aproxima e senta-se, ao lado do bolo de morango, cheio de velinhas apagadas. Toca o telefone. É a mãe da inglesa. Falam sobre as dificuldades da vida, Paris. “-Sim, mamãe, estou com uma amiga, comemorando meu aniversário.” Enquanto isso a menininha pega um fósforo e acende uma a uma as velas do bolo. O inglês pede licença a mãe pois precisa apagar as velinhas. Corta um grande pedaço do bolo. Real, de farinha,chocolate e morangos frescos. A menina, sempre em silêncio começa a comer. A aniversariante lhe oferece um sofá mais cômodo, em frente à televisão e começam a assistir um filme em branco e preto. Os ajudantes empurram, como gatos elegantes, o cenário lentamente para uma das extremidades da passarela. Jean-Jacques Lemetre, faz música, com harpa, guitarra e piano elétrico. A festa desaparece aos poucos. O público, com lágrima nos olhos, aplaude, até a mão doer.

Autor: Jorge da Cunha Lima - Categoria(s): Sem categoria Tags:

1 comentário para “UM TEATRO AINDA MAIS BELO DO QUE A VIDA”

  1. Ana Lúcia disse:

    Adoro seus textos, acabei de criar um blog dedicado a Literatura, seria uma honra ter um comentário seu.
    Um abraço.

Deixe um comentário:

Antes de escrever seu comentário, lembre-se: o iG não publica comentários ofensivos, obscenos, que vão contra a lei, que não tenham o remetente identificado ou que não tenham relação com o conteúdo comentado. Dê sua opinião com responsabilidade!

Os campos com * são de preenchimento obrigatório






Voltar ao topo