30/10/2007 - 12:50
INFORMAÇÃO
Piaf nasceu em 1918, morreu com 46 anos. Billy Holliday morreu com 44. Elis Regina, com menos. Amália Rodrigues morreu com idade regulamentar. Marlene Dietrich sobreviveu, morreu inteira. Mercedes Sossa está viva.
Piaf nasceu na rua, viveu na rua, cantou na rua, foi espancada na rua, foi descoberta na rua e por toda a sua vida cantou a rua, rua que se transformou numa cidade: Paris.
Teve suas glórias. Cada vez que abria a boca produzia a glória. Mais que a glória, porém, conheceu a dor. Perdeu todos os afetos que passaram perto, desde a mais tenra infância. Morreu muito velha e sofrida, com 46 anos.
Billy Holliday, embora branca, é o próprio jazz. Seu tom de voz, sua dor, perpassaram todos os preconceitos dos teclados negros, para torná-la uma igual, no pavilhão do jazz. Imolou-se em vida como tantos de seus companheiros no orgasmo complementar da música e da droga.Morreu como um espectro, em plena glória e decadência.
Como elas, as outras melhores cantoras populares do Século XX não tiveram a vida fácil. Marlene Dietrich sublimava a ambivalência da guerra, com sua arte. Em cada lado das fronteiras, os soldados choravam, pensando que a canção era sua.
Amália Rodrigues é de um Portugal eterno, anterior a D. Sebastião. Tem na voz o Tejo, o mouro e o Além -Tejo. Mercedes Sossa vive para mostrar que a América Latina tem uma alma, além do subdesenvolvimento. Uma alma de revolta, por certo, mas alma.
AVALIAÇÃO
Ouvi Edith Piaf num concerto no Cultura Artística. Pequena, simplezinha, vestida de preto, dava impressão que ia limpar o piano. Depois dela cantar, senti que ela lavou toda a dor que envolvia meu coração ingênuo.
No Teatro Record, na rua da Consolação, vi e ouvi Marlene Dietrich. Já era uma senhora de duas guerras. Mostrou as pernas perfeitas e nos embalou no colo, como se fossemos meninos das fronteiras de Lili Marlene.
Elis, que sorte meu Deus, não a vi apenas passando pela 23 de maio num carro de bombeiros, em direção desconhecida. Assistí todos os seus shows em São Paulo, principalmente o do Teatro Maria Della Costa, toda de branco, e mais principalmente ainda o show com Tom Jobim, no Paratodos, se não me engano. Ví-a de perto, no João Sebastião Bar.Como o Caetano, ela me assustava. Confesso que pelo resto de minha vida senti saudade desse susto.
Amalia Rodrigues é um DNA perdido em minha alma. Impossível ouví-la sem que se sintam cócegas na memória de algo tão perdido. Tive o prazer de ouví-la algumas vêzes. Sei que “todo cais é uma memória de pedra”, mas Portugal é uma pedra no meio da memória.
Sossa está viva. Sempre que aparece estarei presente. Não quero avaliar os vivos.
Veja RECOMENDAÇÃO em Cinema.
Autor: Jorge da Cunha Lima - Categoria(s): Sem categoria
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23/10/2007 - 00:30
ESCOLHA DOS DIRETORES
O governo federal prometeu que a nova televisão nacional pública, seria editorialmente independente e controlada por um conselho, autônomo em suas decisões. A dificuldade estaria no processo de criação do primeiro conselho e da primeira diretoria.
De fato, seria quase impossível que o primeiro documento jurídico institucional não fosse editado pelo governo, que o concebeu, ainda que nos parâmetros do Forum Nacional de TV Pública. Difícil que não escolhesse a primeira diretoria e até mesmo estabelecesse um critério para constituição do primeiro conselho.
O que está assustando alguns setores da imprensa e dos partidos da oposição é a falta de uma definição para a constituição dos futuros conselhos e mesmo diretorias.
Na Fundação Padre Anchieta, os membros eletivos, são escolhidos por indicação prévia de alguns de seus membros, e submetidos eleição pela maioria absoluta dos membros do conselho. Da mesma forma se escolhem os diretores executivos, sem que o governo possa juridicamente intervir. Isso não exclui a possibilidade política de indicações e de pressões, mas a palavra final fica com o conselho.
Para que os editoriais dos grandes jornais se acalmem assim como as bancadas da oposição, torna-se necessário deixar claro como serão essas renovações. E isso antes da votação da MP.
Autor: Jorge da Cunha Lima - Categoria(s): Sem categoria
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19/10/2007 - 10:55
THÉÂTRE DU SOLEIL:PASSARELA MUITO DELICADA
Nas lonjuras do Belenzinho, para quem não vai de METRO, o Teatro do SESC estava lotado, nos dias em que lá estive e em todos os outros, do espetáculo de Ariane Mnouchkine. Quatro horas, para quem assiste em duas récitas. Oito horas, para quem prefere assistí-lo de uma vez. Quando o anunciei neste BLOG, afirmei que era imperdível. Depois de vê-lo, direi que é inesquecível.
O Théâtre du Soleil é uma Uzina Uzona, sem zona. Propõe um arranjo cênico com pausas delicadas, o mesmo que em Bob Wilson é só movimento, a nos tirar o fôlego.
É um coletivo teatral, no qual empurrar praticáveis com rodinhas tem a mesma importância do que fazer o papel principal.
Chegamos ás seis horas. Descolamos da cadeira que escolhemos o número de nosso lugar. Depois, calmamente, fomos para a grande sala de espera, quase industrial. Caixas de containners, dos cenários realistas. A mágica no Théâtre du Soleil está exatamente no tempo real, nas coisas que se provam com o gosto e olhar.
Grandes mesas e grandes buffets, preparados pelos artistas, com pratos de queijos e endives, cordeiros com legumes e outras especiarias.Vinho tinto. Tudo muito barato. O ágape gatronômico já cria uma intimidade. As 7hs30 começaria o espetáculo. Demora, o público se inquieta. Ariane calmamente se desculpa. “-Há uma turma na fila de espera. Para acalmar os desesperados (muito jovens), eu resolvi abrir as portas. Agora vamos acomodá-los”. Aplausos gerais.
Duas platéias altas e um amplo corredor no meio, como no Teatro Oficina, mais próximo contudo, sem arquitetura delirante, apenas um palco longitudinal e duas entradas, uma de cada lado.
Jovens belos e fortes, homens e mulheres, empurram praticáveis redondos e os colocam em posições estratégicas nesse palco longo. A gente fica em cima das coisas. As coisas são cenários realistas que eles montam na frente do público: salas de estar, escritórios, clínicas, jardins, portas e portões. Ninguém entra no cenário de uma sala sem passar por uma porta. São vinte e nove quadros. Histórias da vida entremeadas. Tudo com uma delicadeza próxima do tempo real, não o tempo real da televisão, que é apenas simultaneidade. Um tempo que se cria na realidade do palco e se confunde com o tempo da platéia.
À esquerda uma porta fechada. Crianças espiam pelo buraco da fechadura. No outro extremo da passarela: uma inglesa de meia idade, com cabelos curtos, uma saia longa, prepara sua festa de aniversário: um só prato, um bolo, uma taça, uma garrafa de champagne. É um transexual que se transformara de homem em mulher. O telefone toca, uma esperança de alegria. “- Não , responde ao telefone, não preciso de mais nenhum plano para o meu celular. Obrigada.” Vive em Paris. Ouve um ruido na porta. Levanta-se elegantemente e flagra as crianças quando abre a porta. Todos fogem, menos um menina loirinha, muito linda. Ela deixa a porta aberta onde a menina se encosta e volta para o sofá. Convida a vizinha para entrar. A menina se aproxima e senta-se, ao lado do bolo de morango, cheio de velinhas apagadas. Toca o telefone. É a mãe da inglesa. Falam sobre as dificuldades da vida, Paris. “-Sim, mamãe, estou com uma amiga, comemorando meu aniversário.” Enquanto isso a menininha pega um fósforo e acende uma a uma as velas do bolo. O inglês pede licença a mãe pois precisa apagar as velinhas. Corta um grande pedaço do bolo. Real, de farinha,chocolate e morangos frescos. A menina, sempre em silêncio começa a comer. A aniversariante lhe oferece um sofá mais cômodo, em frente à televisão e começam a assistir um filme em branco e preto. Os ajudantes empurram, como gatos elegantes, o cenário lentamente para uma das extremidades da passarela. Jean-Jacques Lemetre, faz música, com harpa, guitarra e piano elétrico. A festa desaparece aos poucos. O público, com lágrima nos olhos, aplaude, até a mão doer.
Autor: Jorge da Cunha Lima - Categoria(s): Sem categoria
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13/10/2007 - 19:41
Oh. Que saudades que eu tenho.
Tenho a certeza de que a cultura tem sempre uma porta de entrada, que nos recolhe do tédio, da indiferença ou até mesmo da singela ignorância para nos introduzir no inigualável mundo da arte.
Um livro, um bom fime, uma tela, uma escultura, uma peça de teatro.
Paulo Autran, com uma tenacidade incomparável, nos ofereceu 90 portas de entrada.Minha geração o conhece desde o TBC e em todas as encenações que produziu com Tonia Carrero e todos os bons artistas brasileiros. Para mim, contudo, seu palco mais extraordinário foi uma tela de cinema. “Terra em Transe” não é apenas o melhor filme brasileiro de todos os tempos, mas a oportunidade de nos mostrar o ator completo, maduro, convincente, em qualquer papel que se lhe oferecesse. Sobretudo naquele retrato igualzinho do Brasil, que serve para qualquer data, antes e depois de sua morte.
Mais recentemente, e isso foi o que mais me comoveu, foi o diálogo aberto que Paulo travou com a morte, quando lhe conferiram o nome, no teatro do SESC-Butantã.
Paulo Autran não buscou mais nada do que recitar o poema de Álvares de Azevedo. Disse que não o faria como fez quando era criança, mas na interpretação de hoje. Diria o poema o homem maduro, flertado pela morte, diante de Karen e de nós todos. Disse o poema completo e nos arrancou de todas as saudades, a mais profunda, do homem inteiro, que só existe na infância. Catarse das catarses, Paulo nos abandonou diante do espelho, cada um de nós perdido no gerúndio do verbo chorar. Morreria logo depois, deixando cada um de nós contemplado no seu testamento.
Autor: Jorge da Cunha Lima - Categoria(s): Sem categoria
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04/10/2007 - 13:59
MENSALÃO,LOTEAMENTO E MACROECONOMIA
Sempre achei que o mensalão era o último estágio de esgarçamento da ética na política, com grandes prejuizos para as instituições. De fato, buscar a governabilidade a partir da cooptação remunerada dos representantes do povo não recomenda nenhum regime político que se preza. Contudo essa nova forma de cooptação, realizada através de nomeações de membros de partidos para cargos públicos, até mesmo de ministro, me parece ainda mais danosa do que o próprio mensalão. Porque? Vejamos. O mensalão tem verba fixa, prevista como uma mesada. O rombo do erário é prédeterminado e o prejuizo conhecido. No caso das nomeações o cheque é em branco. Ministros e nomeados administram verbas públicas de infraestrutura, de compras de materiais, de encomenda de serviços, num valor astronômico segundo o orçamento. Obras inúteis podem ser propostas. Compras desnecessárias ou superfaturadas. Enfim, tudo isso que está enchendo os processos do Tribunal de Contas e carimbados com a avaliação de “irregulares”.
Pois bem, segundo o ex-ministro Bresser Pereira, há ainda uma praga pior: os ganhos absurdos que o sistema neoliberal proporciona aos rentistas, aos agentes financeiros, aos setores monopolistas etc, pelos desvios inerentes a uma macroeconomia que impossibilita o desenvolvimento sustentado e uma mínima redistribuição de rendas. Enquanto o mensalão proporciona um gasto inútil de centenas de milhões, o sistema econômico proporciona um ganho inescrupuloso de bilhões de reais e impossibilita qualquer tentativa de superação da miséria a partir de um desenvolvimento real.
Somadas, essas pragas impedem um projeto de nação.
Autor: Jorge da Cunha Lima - Categoria(s): Sem categoria
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