EDITH PIAF – UM HINO AO AMOR
INFORMAÇÃO
Piaf nasceu em 1918, morreu com 46 anos. Billy Holliday morreu com 44. Elis Regina, com menos. Amália Rodrigues morreu com idade regulamentar. Marlene Dietrich sobreviveu, morreu inteira. Mercedes Sossa está viva.
Piaf nasceu na rua, viveu na rua, cantou na rua, foi espancada na rua, foi descoberta na rua e por toda a sua vida cantou a rua, rua que se transformou numa cidade: Paris.
Teve suas glórias. Cada vez que abria a boca produzia a glória. Mais que a glória, porém, conheceu a dor. Perdeu todos os afetos que passaram perto, desde a mais tenra infância. Morreu muito velha e sofrida, com 46 anos.
Billy Holliday, embora branca, é o próprio jazz. Seu tom de voz, sua dor, perpassaram todos os preconceitos dos teclados negros, para torná-la uma igual, no pavilhão do jazz. Imolou-se em vida como tantos de seus companheiros no orgasmo complementar da música e da droga.Morreu como um espectro, em plena glória e decadência.
Como elas, as outras melhores cantoras populares do Século XX não tiveram a vida fácil. Marlene Dietrich sublimava a ambivalência da guerra, com sua arte. Em cada lado das fronteiras, os soldados choravam, pensando que a canção era sua.
Amália Rodrigues é de um Portugal eterno, anterior a D. Sebastião. Tem na voz o Tejo, o mouro e o Além -Tejo. Mercedes Sossa vive para mostrar que a América Latina tem uma alma, além do subdesenvolvimento. Uma alma de revolta, por certo, mas alma.
AVALIAÇÃO
Ouvi Edith Piaf num concerto no Cultura Artística. Pequena, simplezinha, vestida de preto, dava impressão que ia limpar o piano. Depois dela cantar, senti que ela lavou toda a dor que envolvia meu coração ingênuo.
No Teatro Record, na rua da Consolação, vi e ouvi Marlene Dietrich. Já era uma senhora de duas guerras. Mostrou as pernas perfeitas e nos embalou no colo, como se fossemos meninos das fronteiras de Lili Marlene.
Elis, que sorte meu Deus, não a vi apenas passando pela 23 de maio num carro de bombeiros, em direção desconhecida. Assistí todos os seus shows em São Paulo, principalmente o do Teatro Maria Della Costa, toda de branco, e mais principalmente ainda o show com Tom Jobim, no Paratodos, se não me engano. Ví-a de perto, no João Sebastião Bar.Como o Caetano, ela me assustava. Confesso que pelo resto de minha vida senti saudade desse susto.
Amalia Rodrigues é um DNA perdido em minha alma. Impossível ouví-la sem que se sintam cócegas na memória de algo tão perdido. Tive o prazer de ouví-la algumas vêzes. Sei que “todo cais é uma memória de pedra”, mas Portugal é uma pedra no meio da memória.
Sossa está viva. Sempre que aparece estarei presente. Não quero avaliar os vivos.
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