QUAIS SÃO OS FILMES ESSENCIAIS?
Em pré lançamento realizado no Centro Cultural da CPFL, em Campinas, foi lançado o projeto da ABRIL, patrocinado pela CPFL, com edições especiais da revista BRAVO. Desta vez foi o cinema, com a indicação de 100 filmes essenciais, escolhidos a dedo.
No belo encontro da CPFL Cultural, o redator chefe da Bravo, João Gabriel de Lima fez a defesa das listas culturais.
Disse ele que “listar é organizar um pouco o caos do conhecimento” .
Toda lista é arbitrária, mas geralmente correspondem à visão dos críticos e dos apreciadores das obras em avaliação.
Embora haja 3 filmes brasileiros na lista (Cidade de Deus, Pixote e Lavoura Arcaica), eles não estão entre os primeiros.
Vou antecipar apenas os dez primeiros e gostaria que o leitor enviasse a sua própria lista.
1o CIDADÃO KANE (ORSON WELLES)
2o O PODEROSO CHEFÃO (FRANCIS FORD COPPOLA0
3o SINDICATO DE LADRÕES (ELIA KAZAN)
4o UM CORPO QUE CAI (ALFRED HITHCOCK)
5o CASA BLANCA (MICHEL KURTIZ)
6o 8 ½ (FEDERICO FELLINI)
7o LAWRENCE DA ARÁBIA (DAVID LEAN)
8o A REGRA DO JOGO (JEAN RENOIR)
9o O ENCOURAÇADO PONTEMKIN (SERGEI EISENSTEIN)
10o RASTROS DE ÓDIO (JOHN FORD)
Os outros 90 estão na próxima edição de BRAVO, mas a sua lista será publicada aqui imediatamente
MORRE INGMAR BERGMAN
Para quem nasceu e viveu a plenitude do século XX e teve a oportunidade de gostar de cinema, Bergman faz parte da nossa vida, por nos ter ofertado outra. Vida que é a mesma vida mas num outro corpo, numa outra linguagem, num outro filamento da emoção e da inteligência.
Somos portugueses, indios, africanos e um pouco europeus, das europas peninsulares, a Ibérica e a bota italiana. E isso faz diferença.
Para nós a morte é festa e em qualquer bom terreiro os mortos dançam, mandam recados, atiçam a vida. Em Ingmar Bergman a morte é solene, joga xadrez, tem a profundidade da morte. O Sétimo Selo nos remete a uma idade média sombria e ao medo que temos do enlace. Mas faz isso com uma ironia nórdica. Ninguém esquece desse filme, nem dos outros.
Para nós, o sexo, ainda que explicito e exacerbado, vive cercado de culpas. Para Bergman o sexo, como um dia de verão é comemorado sem culpa, nos seleiros, em cima do feno cheiroso e de mulheres que levam algum tempo para se despirem.
Para nós o pai severo é uma caricatura freudiana. Para Bergman o pai protestante é quase cruel, é mesmo cruel, marca a vida para o resto dos tempos.Fanny e Alexander é o filme mais belo que se fez sobre crianças.
Entre nós, no cinema que fazemos, há sempre uma respeitosa distância entre a camera e o objeto filmado, sobretudo se for humano. Bergman arrisca o close, arrisca o corpo para revelar a alma. Filma de perto. E todo homem tem a cara que construiu, depois dos trinta anos. Bergman entra por ai em Persona e quase todos os filmes.
Somos capazes de diálogo. Nelson Rodriguez quebrou esse tabu de que não sabemos colocar diálogos no cinema e no teatro. Mas o diálogo brasileiro é impressisonista, expontâneo como a xita. O diálogo de Bergman é expressionista, denso e um pouco metafísico. Sonata de Outono contem o desafio de duas interpretações musicais. Mas a sonata mesmo se desenvolve quando nenhuma das duas, mãe e filha, estão no piano. É diálogo em carne viva.
Os atores de Bergman se confundem com os próprios personagens e com ele, que também representa em alguns filmes. São protagonistas de uma terceira realidade que é a obra de arte, um pouco como os atores nos filmes de Almodovar.
Feliz uma geração que conviveu com os oitenta filmes de Bergman e só não assistiu o último porque os distribuidores estão cada dia mais inteligentes.
ANTONIONI – A NOSSA MODERNIDADE VISUAL
Anos atrás, em uma fazenda no interior de São Paulo, fazia uma noite escura, sem luar. Persegui naquela noite algumas utopias da maturidade precoce. Cruzei uma quadra de tenis e, sem raquete nem bolas, iniciei uma partida delirante do fino esporte. Não percebi o olhar do acaso sobre o crime inocente. “BLOW UP” de iniciação.
Quando o jogo terminou, ouvi no silêncio da noite, um ruido de agua corrente. Era, por certo “A FONTE DA DONZELA” .
Hoje, quando os encontro mortos, quase na mesma página do jornal, estou convencido de que naquela noite, Antonioni e Bergman iniciaram minha modernidade psicológica, pois a modernidade estética já se iniciara antes, na Segunda Bienal de São Paulo
Antonioni pertencia a alta burguesia italiana e formou-se em economia, mas logo derivou seu caminho para a vocação: fazer cinema. Primeiro assistir. Segundo criticar. Depois estagiar com grandes diretores (Rosselini). Quarto, ser assistente de Marcel Carné no “muito além da realidade” Visitantes da Noite. Por fim fazer filmes.No primeiro descobriu a mulher mais bonita do mundo, Lucia Bosé, que depois casou-se com um famoso toureiro. Fez ” Crimes da Alma” . Em seguida mergulhou nas profundezas humanas, seus delírios singelos, suas angústias, num contraponto direto com a beleza e a discreção da natureza. A Aventura, A Eclipse e A Noite nô-lo testemunham. Monica Vitti substituiu para sempre a Bosé e Antonioni criou com ela mais um desses mitos performáticos.
Por fim consagrou-se com ” Blow Up” , quando a grande midia americana, com ele, enterrou o neo realismo. Agora está morto, para que nós continuemos modernos. Até quando?