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Arquivo de agosto, 2007

12/08/2007 - 19:04

COETZEE – O MAIOR ROMANCISTA VIVO DO SÉCULO XXI

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COETZEE NO SANGUE DE DOSTOIEVSKI

Quando J.M.Coetzee violou alguns hábitos da FLIP, em Paraty, falando de um púlpito, sem interlocutores, algumas pessoas o acharam pretensioso.
Quando fez sua leitura do próximo livro com reflexões duras e reflexões brandas, já se pôde perceber tratar-se de algo muito especial.
Quando J.M participou democraticamente da mesa final, anunciando o autor que levaria para ler numa ilha deserta, tornou-se até simpático.

Estou lendo O Mestre de Petersburgo, de J.M. Coetzee, editado no Brasil pela Companhia das Letras. Faltam poucas páginas. Não importa.Estou tomado.
Imagine um personagem nas ruas de Petesburgo, desesperado com a notíca da morte de um afilhado, querido obssessivamente como um filho. Diante da morte encarnada. Náo importa se da parte da polícia repressiva ou de revolucionários idealistas.

Constate que esse personagem é Fiodor Dostoievski e o jovem anarquista Nietchaiév, que engajara seu filho Pavel para a morte é um jovem arrebatador, apesar de sua aparência, insignificante para os cânones russos da força e da masculinidade.

Coetzee não concebe o ser humano sem a dor, o desejo, a vingança e a piedade. Coetzee torna-se mais Dostoievski do que o próprio. Aplica uma linguagem que nos confunde. No quarto de Matryona, o diálogo patético e o desejo incontrolável pela mãe e pela filha, não apenas nos dão a certeza de que é mesmo Dostoievski que está alí, mas de que é ele que está relatando a si mesmo com a caneta de Coetzee.

Quando Nietschaiév o leva para a torre de onde suspostamente haviam atirado o jovem Pavel, o diálogo sobre o direito e o gozo de matar, atingem um momento singular em toda a literatura do ocidente.

Nunca vi tanta dor, tratada, contudo, com o comedimento de um gênio. Não é o diálogo entre um grande escritor já pavimentado pela existência, discutindo com um jovem radical e impertinente, daqueles que fermentaram a Russia por cinquenta anos antes da Revolução Bolchevique.

Trata-se de um incêndio da alma russa. Como se as duas lenhas produzissem a mesma chama, ora vermelha, ora amarela.

“Perdi meu lugar em minha alma”. Constata finalmente o autor, o personagem ou o leitor?

E nós, continuamos a buscar um lugar para a alma, se é que ainda a temos.

Autor: Jorge da Cunha Lima - Categoria(s): Sem categoria Tags:
08/08/2007 - 23:45

TEATRO PAULO AUTRAN

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LÁGRIMAS DE JUSTA EMOÇÃO

Já havia sentido isso antes. Uma incontida emoção estética diante da arte e da vida. Foi também num teatro do SESC, quando assiti KAZUO OHNO. O velho mestre do Buto nas máscaras de uma dansarina, com movimentos suaves e um rosto que paralizou até a respiração da gente, num espaço repleto. Um momento de veneração inesquecível, como aquele, em Paris, que fez Murilo Mendes tornar-se poeta, quando Nijinski dansava o Pássaro de Fogo.
Esta noite foi a vez de Paulo Autran.
Tudo, desde a iniciativa de batizar o Teatro do SESC Pinheiros com o nome do grande ator. Cada depoimento, com o rigor e o respeito daquela legenda de 84 anos, sentada na primeira fila ao lado de sua Karen. Beth expressou lindamente o significado artístico do Paulo. Nanini disse o ator com o texto do ator: “Eu sou um homem de teatro” , em toda extensão daquele tablado. E um filme, dElicado e explicito, com representações de Paulo Autran, no palco e no cinema. Os trechos de ¨Terra em Transe” são eletrizantes. Glauber se encarnou em Visconti, enquanto Paulo dansa com Danuza Leão, no foyer do Municipal do Rio.
Chamam Paulo Autran ao palco. Ele se afasta do microfone. Fica sozinho no meio do tablado. E diz: -Quando eu era criança recitava poemas. Recitei-os por toda a vida. Este aqui todos voces conhecem: Meus oito anos, de Casemiro de Abreu” . E Paulo começou, mas deixou que o público recitasse os primeiros versos: Oh! Que saudades que eu tenho…
Um silêncio calmo e contagioso. Paulo disse: “Agora eu vou recitar esse poema como eu sei recitar com meus oitenta e quatro anos” .
Uma entonação que saia da alma e reverenciava a própria morte, produziu num instante a dor coletiva da infância, deixada na distância da vida. Qualquer pessoa adulta, naquele momento teria chorado. Oh! Que saudades que eu tenho, da aurora da minha vida, da minha infância querida, que os anos não trazem mais…Paulo disse o poema inteiro num rosto inesquecível, com uma voz inebriante, até repetir: ” Que os anos não trazem mais!”

Autor: Jorge da Cunha Lima - Categoria(s): Sem categoria Tags:
01/08/2007 - 16:06

O CINEMA DE QUATRO GERAÇÕES

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QUAIS SÃO OS FILMES ESSENCIAIS?

Em pré lançamento realizado no Centro Cultural da CPFL, em Campinas, foi lançado o projeto da ABRIL, patrocinado pela CPFL, com edições especiais da revista BRAVO. Desta vez foi o cinema, com a indicação de 100 filmes essenciais, escolhidos a dedo.
No belo encontro da CPFL Cultural, o redator chefe da Bravo, João Gabriel de Lima fez a defesa das listas culturais.
Disse ele que “listar é organizar um pouco o caos do conhecimento” .
Toda lista é arbitrária, mas geralmente correspondem à visão dos críticos e dos apreciadores das obras em avaliação.
Embora haja 3 filmes brasileiros na lista (Cidade de Deus, Pixote e Lavoura Arcaica), eles não estão entre os primeiros.
Vou antecipar apenas os dez primeiros e gostaria que o leitor enviasse a sua própria lista.

1o CIDADÃO KANE (ORSON WELLES)
2o O PODEROSO CHEFÃO (FRANCIS FORD COPPOLA0
3o SINDICATO DE LADRÕES (ELIA KAZAN)
4o UM CORPO QUE CAI (ALFRED HITHCOCK)
5o CASA BLANCA (MICHEL KURTIZ)
6o 8 ½ (FEDERICO FELLINI)
7o LAWRENCE DA ARÁBIA (DAVID LEAN)
8o A REGRA DO JOGO (JEAN RENOIR)
9o O ENCOURAÇADO PONTEMKIN (SERGEI EISENSTEIN)
10o RASTROS DE ÓDIO (JOHN FORD)

Os outros 90 estão na próxima edição de BRAVO, mas a sua lista será publicada aqui imediatamente

MORRE INGMAR BERGMAN

Para quem nasceu e viveu a plenitude do século XX e teve a oportunidade de gostar de cinema, Bergman faz parte da nossa vida, por nos ter ofertado outra. Vida que é a mesma vida mas num outro corpo, numa outra linguagem, num outro filamento da emoção e da inteligência.
Somos portugueses, indios, africanos e um pouco europeus, das europas peninsulares, a Ibérica e a bota italiana. E isso faz diferença.
Para nós a morte é festa e em qualquer bom terreiro os mortos dançam, mandam recados, atiçam a vida. Em Ingmar Bergman a morte é solene, joga xadrez, tem a profundidade da morte. O Sétimo Selo nos remete a uma idade média sombria e ao medo que temos do enlace. Mas faz isso com uma ironia nórdica. Ninguém esquece desse filme, nem dos outros.
Para nós, o sexo, ainda que explicito e exacerbado, vive cercado de culpas. Para Bergman o sexo, como um dia de verão é comemorado sem culpa, nos seleiros, em cima do feno cheiroso e de mulheres que levam algum tempo para se despirem.
Para nós o pai severo é uma caricatura freudiana. Para Bergman o pai protestante é quase cruel, é mesmo cruel, marca a vida para o resto dos tempos.Fanny e Alexander é o filme mais belo que se fez sobre crianças.
Entre nós, no cinema que fazemos, há sempre uma respeitosa distância entre a camera e o objeto filmado, sobretudo se for humano. Bergman arrisca o close, arrisca o corpo para revelar a alma. Filma de perto. E todo homem tem a cara que construiu, depois dos trinta anos. Bergman entra por ai em Persona e quase todos os filmes.
Somos capazes de diálogo. Nelson Rodriguez quebrou esse tabu de que não sabemos colocar diálogos no cinema e no teatro. Mas o diálogo brasileiro é impressisonista, expontâneo como a xita. O diálogo de Bergman é expressionista, denso e um pouco metafísico. Sonata de Outono contem o desafio de duas interpretações musicais. Mas a sonata mesmo se desenvolve quando nenhuma das duas, mãe e filha, estão no piano. É diálogo em carne viva.
Os atores de Bergman se confundem com os próprios personagens e com ele, que também representa em alguns filmes. São protagonistas de uma terceira realidade que é a obra de arte, um pouco como os atores nos filmes de Almodovar.
Feliz uma geração que conviveu com os oitenta filmes de Bergman e só não assistiu o último porque os distribuidores estão cada dia mais inteligentes.

ANTONIONI – A NOSSA MODERNIDADE VISUAL

Anos atrás, em uma fazenda no interior de São Paulo, fazia uma noite escura, sem luar. Persegui naquela noite algumas utopias da maturidade precoce. Cruzei uma quadra de tenis e, sem raquete nem bolas, iniciei uma partida delirante do fino esporte. Não percebi o olhar do acaso sobre o crime inocente. “BLOW UP” de iniciação.
Quando o jogo terminou, ouvi no silêncio da noite, um ruido de agua corrente. Era, por certo “A FONTE DA DONZELA” .
Hoje, quando os encontro mortos, quase na mesma página do jornal, estou convencido de que naquela noite, Antonioni e Bergman iniciaram minha modernidade psicológica, pois a modernidade estética já se iniciara antes, na Segunda Bienal de São Paulo
Antonioni pertencia a alta burguesia italiana e formou-se em economia, mas logo derivou seu caminho para a vocação: fazer cinema. Primeiro assistir. Segundo criticar. Depois estagiar com grandes diretores (Rosselini). Quarto, ser assistente de Marcel Carné no “muito além da realidade” Visitantes da Noite. Por fim fazer filmes.No primeiro descobriu a mulher mais bonita do mundo, Lucia Bosé, que depois casou-se com um famoso toureiro. Fez ” Crimes da Alma” . Em seguida mergulhou nas profundezas humanas, seus delírios singelos, suas angústias, num contraponto direto com a beleza e a discreção da natureza. A Aventura, A Eclipse e A Noite nô-lo testemunham. Monica Vitti substituiu para sempre a Bosé e Antonioni criou com ela mais um desses mitos performáticos.
Por fim consagrou-se com ” Blow Up” , quando a grande midia americana, com ele, enterrou o neo realismo. Agora está morto, para que nós continuemos modernos. Até quando?

Autor: Jorge da Cunha Lima - Categoria(s): Sem categoria Tags:
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