IMPRENSA ESCRITA – 4 SUITES, 5 GARAGENS E ALGUMA VIOLÊNCIA
ENTRE A PAUTA DA VIDA E A PAUTA DOS JORNAIS
Antigamente vendia-se muito mais jornais do que hoje. Compreensível: não havia televisão hegemônica, nem internet emergente. O mercado imobiliário andava aquecido e, nos domingos, editava-se um cadernos imobiliários que mais pareciam uma enciclopédia de oportunidades. Tudo devidamente no seu lugar: o noticiáriointernacional, o brasileiro, o cultural, o esportivo e os cadernos especiais, principalmente o imobiliário.
Antigamente havia noticiário policial.Não era bem um noticiário sobre a violência, mas sobre os feitos dos bandidos, alguns notórios, como Menegheti, na primeira metade do século XX e o Bandido da luz Vermelha, na segunda. Havia ainda a violência política, feita por policiais dos regimes fortes. E, alguns crimes retumbantes, sobretudo quando praticado por elementos da burguesia.
Samuel Wainer uma vez me disse, quando assumi a diretoria da “Ultima Hora” em São Paulo: Na primeira página, pela ordem, você precisa colocar: política, polícia e futebol.
Hoje vende-se muito pouco jornal. As tiragens são modestas. Quando dei um seminário sobre a coerência das primeiras páginas nos principais jornais do país, para um grupo de última série do curso de jornalismo da Anhembi Morumbi, o único problema com que me deparei foi o fato de que nenhum aluno lia jornal algum, diariamente.
Leio jornal, com avidez, diariamente. Gosto da palavra impressa. Aliás, só acredito na palavra impressa. Pois tenho notado que no primeiro caderno dos jornais, hierarquicamente o mais importante, uma página sim e uma página não, há um anúncio imobiliário, vendendo o Hyde Park em qualquer terreno da periferia. Oferecendo 4 suites decoradas em apartamentos de 100 ms.2. Ofertando terraços enormes, numa cidade fria e poluida, para vistas inesquecíveis. Parece que todo mundo tem mais de três carros. Parece que todos os pretendentes imobiliários nadam diariamente em raias aquecidas, que vão dos Jardins até Itaquera.
Há um “boom” , como já houve de flats e outra proezas do setor. Isso não me espanta, quando se tem tanto dinheiro solto para ser aquecido e investido e tanta gente precisando ocupar o espaço deficitário da moradia.
O que me espanta é ocupar-se as páginas nobres do jornal, com esse expediente publicitário. A gente perde a sequência da informação e de sua compreensão
Como se nã bastasse, entre uma e outra página de anúncio de lançamentos habitacionais, há uma notícia policial. NÃO NO CLÁSSICO SENTIDO DE BANDIDO PRESO COM A MÃO NA COMBUCA. Mas no sentido da violência institucional e institucionalizada em todas as camadas da sociedade. Político com a mão na combuca. Político com a mão na vaca. Juiz com a mão na sentença. Deputado com a mão no mensalão. Funcionário com a mão na propina. Ministro com a mão boba no orçamento. Crianças com as mãos ocupadas. Policiais com os dedos nos gatilhos. Bandidos, mais sofisticados, com a mão nas metralhadoras. Bicheiros, com a mão nos bingos. Tudo devidamente catalogado pela Policia Federal e anunciado quando conveniente. E essa, além dos anúncios publicitários, é a segunda grande pauta dos jornais. Ocupa, praticamente todo o primeiro caderno, enquanto a violência financeira ocupa ocupa todo o caderno econômico e a violência esportiva, o seu espaço específico. Sem contar o mundo, que se resume às guerras, às guerrilhas e ao terrorismo.
Infelizmente há uma pauta de fatos e de realidades que preenche todo o espaço dos jornais. Quem faz a pauta é a vida e o chamado mercado, intérprete oficial da vida no sistema em que vivemos. Como sair dessa meu caro comentarista?
