Downton Abbey
O seriado produzido pela televisão inglesa tem a grandeza dos grandes romances do Século XIX, Os Budenbrook e Guerra e Paz.
Trata-se de uma saga familiar, seu castelo e seus empregados, no começo do século, ainda no auge do Império Britânico. Contudo as delicias do império se desdobram, no decorrer, com as agruras da Primeira Grande Guerra e no decorrer dos anos vinte com as mudanças de comportamento e de parâmetros econômicos. Dowton Abbey resiste a tudo, inclusive a alguns abalos comportamentais, só não resiste às surpresas da tragédia.
A historia se desenvolve no contraponto das personalidades rigidamente fieis à aristocracia e seus modos e aos personagens internos ou externos à família que se contrapõem ao fluxo mais liberal da vida e da historia.
A velha matriarca, mão do herdeiro titular, não contem apenas todos o repertorio de sua classe, mas seu personagem é superiormente desempenhado por Maggie Smith. O senhor de Granthan é um homem de sua classe, inglês, Cora sua mulher é americana, tem o mesmo sentido de classe mas com o pragmatismo dos emigrantes que conquistaram os Estados Unidos. Mary é a filha mais velha da condessa, que não tem od direitos legais de suceder o pai, mas é a sucessora nata da grandeza de Grantham. Falta mais um na equipe aristocrática, que apesar de plebeu e de sua vida pretérita, defende a grandeza da casa com mais rigor que qualquer de seus proprietários. É o mordomo Carlson.
Mathew é própria etica e beleza, lembra o príncipe Andre, de Guerra e Paz e mesmo nobre Karenine, de Tolstoi, em outro contexto. Primo pobre, deve, pelas leis inglesas assumir Dowton Abbey. Escandaliza os primos com a pratica de ter um emprego e desfrutar os week-end, instituições desconhecidas pela velha patriarca. Acaba por assumir a herança, Mary e a salvação de Dowton Abbey. As irmãs da ala menos ortodoxa lutam pela sobrevivência e pelo amor, uma se apaixona por um velho aristocrata que a rejeita. A menor e mais bela se impem como noiva do chauffeur, ativista irlandez. A mãe de mathew, enfermeira com personalidade se contrapõem à velha matriarca, com a leveza da ironia inglesa.
O terceiro time é composto pelos empregados, onde a inveja, a deslealdade, a generosidade e demais componentes da dramaturgia humana se processam na reduzida escala do andar de baixo, mas com uma intensidade romanesca de fazer inveja a qualquer escritor.
Acompanhei os longos capítulos com mais fervor do que os acompanhadores das novelas da 9, na Globo. A nobreza do espirito sempre foi uma virtude que me tocou muito de perto. Ela se revela em alguns personagens superiores e inferiores, mas sempre com o recado paradoxal de Dostoievski, que a maldade e a bondade se abrigam as vezes num mesmo coração.
Assisti o ultimo capítulo da terceira série, que imaginei ser o ultimo. A ideia que as grandes tristezas precedem algumas alegrias é bastante aceitável. A vida é assim. Mas porque, de maneira tão cruel,
algumas alegrias indispensáveis sempre antecipam a tragédia na obra de Julian Fellowes?