Jorge da Cunha Lima – política, economia, Brasil, mundo, opinião e cultura
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21/05/2013 - 11:35

LEMINSKI

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Em São Paulo há duzentos locais de leitura de poesia. Na periferia e na burguesia. Tal cifra só em Nova York, onde há o hábito antigo de se ler poesia em público. Esse fato elimina nossa estranheza ao saber que o livro de Leminski vendeu 50 mil exemplares, tiragem excepcional para livros de poesia, em qualquer parte do mundo. Paulo Leminski, poeta paranaense, morto mais cedo do que devia, merece isso e muito mais. O livro, toda a poesia, poderia chamar-se toda a poesia de uma vida inteira de poesia. Leminski foi isso, uma vida inteira procurando, achando, escrevendo poesia. O contraponto com Alice Ruiz só enriqueceu sua busca e seus encontros. Passou pela poesia moderna captando todas as suas excelências. Conviveu com os Campos e a poesia concretista o que lhe aprimorou o saber, a síntese e os ideogramas. Ao contrario de muitos de nós, modernistas convencionais, fez poesias sintéticas, curtas no tamanho e profundas no significado. Todos os bons críticos o consagraram, porque no pequeno espaço que dedicava aos versos, só colocava poesia. É muito difícil essa sabedoria japonesa de colocar em três linhas todo o conteúdo da observação poética. O livro de Leminski é uma lição de poesia e devia ser lido em todos esses pontos de poesia, durante os saraus. Sua poesia serve para eruditos e iniciantes, para homens e mulheres, para jovens e para velhos. Serve até para quem nunca leu poesia. Quem quiser que faça o teste.

Autor: Jorge da Cunha Lima - Categoria(s): Sem categoria Tags:
13/05/2013 - 18:00

ANTONIO MEDINA

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A MORTE DO FILOSOFO

Perguntei à Marcia, filha do Professor Medina: -De que morreu seu pai? –Da absoluta falta de humanidade, respondeu. -Porque? -Sentiu-se mal, sem respiração e ficou quatro horas sem atendimento no Hospital da USP, depois de pequenos exames, mais quatro horas. Teve um enfarte, que se complicou por consequência.
Esse foi o tratamento desumano dado a um grande humanista.
Medina deu algumas aulas para nosso grupo de filosofia: eu, Glorinha Kalil, Teca Ionescu, Fabio Ionescu, Suzy Arida, Jabor, Joyce e até o Nizan que passou por lá.
Medina não era deste mundo, exatamente porque era deste mundo. Pobre, quando criança, ajudava o sustento da família lendo textos na porta das casas, na Penha, o que foi lembrado no singelo réquiem do seu sepultamento neste domingo. Com esforço formou-se, em grego, mas sabia tudo de cultura, poesia e filosofia. Lecionou no Anglo, onde todos se tornaram seus discípulos, alunos, professores e funcionários. Fez concurso para titular de Grego na USP. Nao era o maior linguista entre os candidatos. Assim mesmo, o presidente da bancada pediu que o escolhessem. Em dois anos, afirmou, ele saberá mais grego do que todos nós, e hoje já sabe mais filosofia , mais literatura, mais da vida. O dia seguinte já confirmou as previsões do presidente da banca. Suas aulas eram assistidas dentro da sala, pelas frestas da porta e pelas janelas, também soube no funeral. Em nossas aulas percebi que o Medina era diferente. Tinha uma narrativa pautada pela alegria: a alegria da vida e do conhecimento. Um só verso de Homero já o inspirava para falar de futebol, de sexo e até de rock. Suas molduras foram inesquecíveis, pois o que permanecia sempre era o conteúdo do quadro. Uma vez afirmou que o Viagra mudaria toda a literatura do Século XIX e começo do XX, muito inspiradas pela impotência. A nova literatura traria mais felicidade.
Sem perceber que a vida tem agenda caprichosa, no sábado, lendo Os Persas, de Esquilo, havia, ao lado do prefacio um texto de Medina sobre o tradutor, Junito Brandão, a tradução e o sentido da tragédia. Guardei, na cabeça, esse texto do Medina: “Mas, a medida que o bem nos fala ao coração, nos envolvemos em esfera de amor mais alta que os sentidos. Das aparências saem essências. Do amor vem o amor, quer dizer, o saber. Isso nos fará entender o mundo, um dia”.

Autor: Jorge da Cunha Lima - Categoria(s): Sem categoria Tags:
10/05/2013 - 11:41

o grande seriado inglês

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Downton Abbey

O seriado produzido pela televisão inglesa tem a grandeza dos grandes romances do Século XIX, Os Budenbrook e Guerra e Paz.
Trata-se de uma saga familiar, seu castelo e seus empregados, no começo do século, ainda no auge do Império Britânico. Contudo as delicias do império se desdobram, no decorrer, com as agruras da Primeira Grande Guerra e no decorrer dos anos vinte com as mudanças de comportamento e de parâmetros econômicos. Dowton Abbey resiste a tudo, inclusive a alguns abalos comportamentais, só não resiste às surpresas da tragédia.
A historia se desenvolve no contraponto das personalidades rigidamente fieis à aristocracia e seus modos e aos personagens internos ou externos à família que se contrapõem ao fluxo mais liberal da vida e da historia.
A velha matriarca, mão do herdeiro titular, não contem apenas todos o repertorio de sua classe, mas seu personagem é superiormente desempenhado por Maggie Smith. O senhor de Granthan é um homem de sua classe, inglês, Cora sua mulher é americana, tem o mesmo sentido de classe mas com o pragmatismo dos emigrantes que conquistaram os Estados Unidos. Mary é a filha mais velha da condessa, que não tem od direitos legais de suceder o pai, mas é a sucessora nata da grandeza de Grantham. Falta mais um na equipe aristocrática, que apesar de plebeu e de sua vida pretérita, defende a grandeza da casa com mais rigor que qualquer de seus proprietários. É o mordomo Carlson.

Mathew é própria etica e beleza, lembra o príncipe Andre, de Guerra e Paz e mesmo nobre Karenine, de Tolstoi, em outro contexto. Primo pobre, deve, pelas leis inglesas assumir Dowton Abbey. Escandaliza os primos com a pratica de ter um emprego e desfrutar os week-end, instituições desconhecidas pela velha patriarca. Acaba por assumir a herança, Mary e a salvação de Dowton Abbey. As irmãs da ala menos ortodoxa lutam pela sobrevivência e pelo amor, uma se apaixona por um velho aristocrata que a rejeita. A menor e mais bela se impem como noiva do chauffeur, ativista irlandez. A mãe de mathew, enfermeira com personalidade se contrapõem à velha matriarca, com a leveza da ironia inglesa.

O terceiro time é composto pelos empregados, onde a inveja, a deslealdade, a generosidade e demais componentes da dramaturgia humana se processam na reduzida escala do andar de baixo, mas com uma intensidade romanesca de fazer inveja a qualquer escritor.

Acompanhei os longos capítulos com mais fervor do que os acompanhadores das novelas da 9, na Globo. A nobreza do espirito sempre foi uma virtude que me tocou muito de perto. Ela se revela em alguns personagens superiores e inferiores, mas sempre com o recado paradoxal de Dostoievski, que a maldade e a bondade se abrigam as vezes num mesmo coração.

Assisti o ultimo capítulo da terceira série, que imaginei ser o ultimo. A ideia que as grandes tristezas precedem algumas alegrias é bastante aceitável. A vida é assim. Mas porque, de maneira tão cruel,
algumas alegrias indispensáveis sempre antecipam a tragédia na obra de Julian Fellowes?

Autor: Jorge da Cunha Lima - Categoria(s): Sem categoria Tags:
06/05/2013 - 10:45

O SONHO DE WADJDA

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A VIDA DE WADJDA

Desde o atentado contra as Torres Gêmeas de New York o mundo demonizou o mundo árabe por causa do radicalismo islâmico. Entre os intelectuais, contudo, houve uma voz capaz de situar o mundo árabe, muito além desse atentado. Eduardo Said, ensaísta arabe, professor nos Estados Unidos, teve tempo de mostrar a grande contribuição islâmica no campo da cultura, da poesia e da ciência, além de mostrar o quanto a politica antí-arabe constitui uma ação e uma estratégia permanente de Israel, com apoio do stablishment republicano dos Estados Unidos.
Wadjda, o primeiro filme realizado por uma mulher, na Arabia Saudita, não é um filme politico no sentido estrito. É um filme de costumes. Mas nele se percebe o quanto a transformação dos costumes é um hábito revolucionário. A menina Wadjda vive e estuda num mundo ortodoxamente muçulmano. Sua bela mãe, por não gerar um filho homem, apesar de ser uma bela mulher, eximia cozinheira, capaz de cantar o Alcorão com entonações da alma, é mais que negligenciada pelo seu pai. Como as mulheres não podem dirigir, vivem todas na dependência de motoristas coletivos, grosseiros, o que acontecia com a mãe de Wadjda. A menina tinha obsessão por possuir uma bicicleta, o que a igualaria a um menino das vizinhanças que ela desafiava constantemente, apesar a nascente amizade. Faz o diabo para arranjar os mil realis necessários àquela aquisição. Inclusive candidatar-se num concurso escolar sobre quem mais e melhor conhecia o Alcoorão e cantava trechos importantes, apesar de não ser a mais piedosa nem a mais estudiosa das alunas do colégio. Sua obsessão pela bicicleta talvez fosse o primeiro gesto político de quem tem a necessidade se mover, de conquistar o “habeas corpus” e não necessitar de motoristas grosseiros como sua mãe. Não devo contar o filme, mas dizer da delicadeza com que a diretora coloca uma cultura em transição mas com profundos vínculos machistas e confessionais, tanto na vida como na política.
A vida de Wadjda nos encanta naquele paisagem tórrida e iluminada, sem verde, quase ouro, que vive de duas realidades contraditórias: Alá, iluminando a vida e o petróleo possibilitando a existência naquela aridez. Wadjda é a prova da existência humana entre essas duas realidades escatológicas.

Autor: Jorge da Cunha Lima - Categoria(s): Sem categoria Tags:
04/05/2013 - 17:57

CARABINAS PARA CRIANÇAS

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O que me espantou no crime praticado por uma criança de cinco anos, que matou sua irmãzinha de dois anos, com uma carabina feita especialmente para crianças, que o pai lhe deu de presente, não foi apenas a tragédia, foi a tranquilidade com que um tio da vitima afirmou que aquilo constituía um mero acidente, ocorrido com uma arma de fogo.
Esse tipo de carabina letal, vendida a pretexto de estimular a caça pelas crianças, é anunciado em diversas cores, inclusive para atrair as meninas, em catálogos de internet e, jornais e lojas especializadas.
A venda de armas nos Estados unidos é u principio constitucional, e, nesse caso, o principio pesa mais do que a razão prática. Desde Columbine, a tragédia se repete e se multiplica, mas nenhuma lei que contenha o disparate é aprovada pelo Congresso, nem mesmo a lei que proíbe a venda de armas aos ficha suja.
Obama é um cara legal, ninguém duvida, é um liberal politicamente falando, estudou leis, direito constitucional, é do partido democrático, foi eleito para substituir um fundamentalista perigoso, que foi Bush, mas em alguns casos esta se transformando num Belo Antonio. Refiro-me a dois fatos: Armas e Guantánamo. De armas já falamos. Não há raciocínio que ajude o presidente a proibir a venda de armas de fogo. De Guantánamo quem fala é o próprio presidente. Nas duas inaugurações de governo prometeu que iria fechar a vergonhosa prisão que os Estados unidos mantem em Cuba, onde mantem presos 11 mil cidadãos sem culpa formada, presos em qualquer parte do mundo e amontoados como um lixo humano na referida prisão.
Estes dois fatos depõem contra a decantada civilização cristã ocidental, de que os Estados Unidos se arvoram em defensores. Depõem contra a cultura americana e contra a carta de direitos humanos, produzida depois de tantos sofrimentos.
Nestes dois pontos Obama tem que se arriscar mais. Melhor perder a batalha no meio do que a honra para sempre.

Autor: Jorge da Cunha Lima - Categoria(s): Sem categoria Tags:
03/05/2013 - 10:48

VARILUX E O CINEMA FRANCES

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Desde sempre, incluindo Truffaut,o cinema francês retrata com muita sensibilidade os dramas da adolescência. Ainda no cinema,Dentro de Casa, Depois de maio, são dois filmes que focam o adolescente em duas perspectivas diferentes. Dentro de casa é um filme literario. Um jovem, estimulado por seu professor de literatura, conta a historia de sua curiosidade obcecada ao entrar na casa de um colega de classe social superior a dele O texto produzido pode ser real, mas como tudo o cinema atual, deixa a duvida para o espectador. Tudo pode ser apenas literatura. Depois de maio é u painel fantástico de todas as alienaçòes ideológicas que sucederam ao fenomeno 1968. Um jovem busca realizar sua vocação artistica, é pintor, mas sempre imantado pelo maioismo, pelo budismo, pela ação revolucionaria imediata e terrorista, e por todos os escapes socio psicológicos do seu tempo.
O Festival Varilux, anualmente oferecido ao publico brasileiro pela união da Varilux, da Aliança Francesa,da rede de cinemas do Itau, oferece uma semana de cinema francês inédito. O filme de abertura, Alem do Arco iris, também é um filme de juventude, quase de criança, pois situa o amor, a esperança, a vida , a morte e os presságios em fantasias que se sucedem aos tropeções. Agnes Jaoui, a diretora e intérprete, sabe que a população do mundo , hoje, é jovem, quase adolescente. Vive um conto fantástico de esperança e angústia, desviando-se dos drones, da Aids, do desemprego ou das simples vicissitudes do amor. O jovem, tão mal tratado pela televisão, da qual se tem distanciado, encontra no cinema um espaço artistico de si mesmo, um espelho, quase uma miragem, mas que lhe diz respeito e que o respeita.

Autor: Jorge da Cunha Lima - Categoria(s): Sem categoria Tags:
24/04/2013 - 13:33

DEPOIS DO ACORDÃO

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O processo judicial foi concebido para oferecer ao réu todas as possibilidades de defesa para que não se consumam julgamentos e condenações precipitadas e injustas. E essa foi uma das grandes conquistas dos tempos modernos, depois que o absolutismo e os regimes totalitários ofereceram ao mundo o espetáculo das mais abomináveis condenações e de massacres e holocaustos.
Contudo, as filigranas processuais, bem urdidas por advogados competentes ou aceitas por tribunais complacentes, possibilita que o processo absolva o que os indícios condenam, liberte os que mereciam condenações.
Apesar disso, melhor um processo imperfeito do que um julgamento arbitrário.
O procedimento judiciário é uma das maiores conquistas da humanidade. Não podemos transigir com isso.
Essas questões, tão indiferentes para a opinião publica brasileira, constituem hoje uma preocupação da sociedade. Devemos isso ao julgamento do mensalão. Ao julgamento on line do mensalão. Ao desempenho esforçado dos ministros, principalmente do relator do processo. A participação da sociedade no processo do mensalão assemelha-se, mutatis mutandi, à participação política da sociedade na campanha das diretas.
Por isso mesmo a sociedade está atenta às oportunidades assim como a todas as manobras que envolvem os recursos posteriores ao acordão da sentença condenatória. Sociedade atenta aperfeiçoa o processo civilizatório. É obvio mas é assim.

Autor: Jorge da Cunha Lima - Categoria(s): Sem categoria Tags:
22/04/2013 - 12:53

AFINAL, PORQUE?

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Tudo o que um imigrante deseja nos Estados Unidos é um green-card ou uma nacionalização que o permita exercer a cidadania, trabalhar e viver como um cidadão comum, respeitado e se possível, amado. O primeiro irmão tinha green card, era lutador de box, o que nos Estados Unidos não é depreciativo, mas não possuía dotes de sociabilidade. O segundo irmão tinha nacionalidade americana, era estimado pelos colegas, gostava de frequentar boas famílias, onde era bem recebido. Nenhum dos dois tinha motivos visíveis para praticar a ação terrorista que dizimou a vida de pessoas inocentes e feriu uma centena de cidadãos que apenas assistiam o fim de uma maratona tradicional. Mas eram cidadãos armados. É quase incompreensível que o segundo irmão guardasse em casa um arsenal de armas e utensílios destrutivos a serem utilizados, além do ato já praticado no fim da maratona. Dá mesma forma, contudo, é incompreensível o destino humano. Por isso mesmo Riobaldo, herói do Grande Sertão, Veredas, dizia que viver é muito perigoso.
Depois da caçada monumental na qual foram disparados mais de 200 tiros contra o irmão menor, ilhado num barco no fundo de um quintalzinho burguês, e dos aplausos conferidos pela população amedrontada aos policiais que não lembravam os formosos agentes do seriado L.A., tudo o que desejamos saber é por que. Porque esses meninos agiram dessa forma? Seriam fundamentalistas enrustidos? Seriam chechenos revoltados, mas nesse caso melhor revoltarem-se contra a Rússia? Seriam apenas jovens, capazes de ferir o próprio coração, pela tristeza da vida? Seria o irmão menor apenas um marionete do irmão mais velho? Não sei responder. Não sei se o FBI conseguirá extrair alguma declaração de uma garganta destruída pela bala.
Temo que o silencio produza paranoias, o pior dos instrumentos judiciários.

Autor: Jorge da Cunha Lima - Categoria(s): Sem categoria Tags:
19/04/2013 - 15:21

A MORTE DE PEDRO RAMIREZ VASQUEZ

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O arquiteto da poesia

Para mim os dois edifícios contemporâneos mais belos do mundo são a sede do Itamaraty, em Brasília, e o Museu Nacional de Antropologia, no México.
Quando visitei o museu de antropologia pela primeira vez, porque nunca voltei à Cidade do México sem revisitar aquele museu, fiquei tão maravilhado com a arquitetura que procurei em todas as paredes o nome de seu autor. Encontrei uma grande placa com o nome de Pedro Ramirez Vasquez, nascido em abril de 1019. Hoje poderíamos acrescentar: morto com 94 anos, no mesmo dia de seu aniversário.
Talvez, a exceção de obras da arquitetura islâmica, que tem a palavra como elemento ornamental da própria obra, Ramirez gravou nas paredes externas do museu, poesias de Popol, o grande poeta azteca, nas quais afirma que o maior espetáculo da civilização é “ el hombre formado “ . Mas a sensibilidade do arquiteto não se resume nessas colagens no concreto. No pátio, um grande guarda chuva de concreto abriga os visitantes do sol e das intempéries, mas deixando escorregar a água até um espelho d’ agua, não sei se um elogio à vida ou uma lágrima de tristeza.
Mas a vida mesmo e a tristeza estão nos pavilhões distribuídos entre Incas, Aztecas e Mayas. Coleções magnificas, bem expostas, com indicações museológicas perfeitas, nos conduzem à compreensão de civilizações paralelas ao mundo ocidental conhecido, mas com suas grandezas peculiares seja no culto a deus, à ciência e às artes, e também às guerras e à sobrevivência. Civilizações infelizmente destruídas pelos colonizadores espanhóis que não souberam respeitar o presente, nem o passado, pois capazes de destruir gentes e documentos com a mesma ignorância. Cada edifício é um primor de forma e função. Nada é gratuito na obra de Ramirez e tudo é beleza. O uso abundante da pedra evoca, mas não imita as pirâmides. Está, contudo presente, como a geografia e a astronomia.
Se a vida um dia lhe oferecer essa oportunidade, não deixe de visitar o Museu de Antropologia do Mexico, obra de Pedro Ramirez Vasquez. Se a política externa brasileira o estiver desagradando, vá a Brasilia para ver a obra de Niemayer, o Palacio do Itamaraty.

Autor: Jorge da Cunha Lima - Categoria(s): Sem categoria Tags:
16/04/2013 - 13:22

BOSTON

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Meus filhos, genros e netos são vidrados em Maratonas. Eu mesmo, que não me dedico ao ramo, fui com eles a uma maratona de Chicago e encantei-me com o espetáculo. Havia brasileiros por toda parte, sobretudo na competição, e muito deles sócios, como eu, do Paulistano. Interessante é que estavam inscritos na Maratona tanto os maridos quanto as mulheres.
Fotografei tudo o que pude, na vã tentativa de captar os afins para a eternidade dos álbuns de família. Para melhor fotografar a chegada subi no roof do edifício da Sears, o mais alto de Chicago, e deparei com um espetáculo maravilhoso, a cidade vista por cima e aquelas atléticas formiguinhas suando a camisa para chegar ao ponto final. Quando voltei ao Hotel, todo mundo se refestelava numa sauna para compensar as agruras do percurso. Notei que alguns concorrentes estavam com a cara amarrada. O problema é que eles amarelaram no meio da disputa enquanto suas mulheres chegaram atleticamente ao fim do percurso. Felizmente isso não aconteceu com meu genro.
Nessa lembrança maravilhosa não houve nenhum atentado, nenhuma violência contra a alegre inocência do ser humano. Afinal ninguém participa de uma Maratona para ser abatido na chegada, nem se enfileira nas calçadas para aplaudir, e se ver envolvido em fumaça mortal.
Infelizmente algumas pessoas insistem em que o sentido da vida está na crueldade, por razoes de insânia, solidão, ideologia ou que outra patologia os envolva. Escolhem sempre, como alvo, aqueles que não tem nada a ver com sua insânia, sua solidão ou sua ideologia. Vingam-se dos culpados imaginários matando os inocentes concretos. E nisso está a base da violência, do terrorismo e da guerra.
Conheci Boston num dia alegre das bruxas. As crianças distribuíam e pediam balas de porta em porta. No dia frio todos pareciam acolhedores. A cidade estava em festa, mesmo uns querendo assustar os outros com caveiras de abóboras furadas. Ontem também era um dia de festa, mas Boston estava menos generosa.

Autor: Jorge da Cunha Lima - Categoria(s): Sem categoria Tags:
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