Mauro Ramos de Oliveira, um central inacreditavelmente clássico, bicampeão do mundo com a seleção em 58 e 62, acabava de ser demitido como técnico do Santos. E eu, por ter publicado a notícia na revista Placar antes da demissão acontecer, estava sendo ameaçado de levar um tiro por parte de um dirigente santista.
Pelo menos é do que tinham me prevenido vários jogadores do time.
Assim, eu fazia questão de estar na Vila quase todos os dias.
Naquela manhã, cheguei mais cedo do que nunca em Santos. Ia ser apresentado o novo técnico: Jair Rosa Pinto, ao qual naquela época muitos ainda acrescentavam um “da” – Jair “da” Rosa Pinto – que não existia no nome de um dos maiores jogadores que já vi.
Entrei no vestiário e lá estava ele falando pela primeira vez ao grupo. Era um dos meus ídolos. Eu o tinha visto pela primeira vez jogar e ganhar, em 1951, com o Palmeiras, a Copa Rio (que hoje tentam transformar em competição igual ao mundial interclubes).
Antes do jogo final de 1951 jogo, eu fui com meu pai, Albert Laurence – que era jornalista do Jornal dos Sports, no Rio – ao vestiário da Juventus, da Itália. O time da Vecchia Signora era forte, tinha Boniperti – que depois foi presidente do clube – na ponta-direita. O goleiro era Viola, que perguntou ao meu pai:
- Alguém perigoso no time do Palmeiras? Alguém que eu tenha que tomar cuidado?
- Olha, acho que não vai adiantar muito – explicou meu pai –, porque o número 10 chuta uma barbaridade, e se ele acertar o chute não vai adiantar nada eu te avisar.
Viola saiu do papo sorrindo, e fiquei com a impressão que ele não tinha levado o aviso muito a sério. No jogo, Jair, com suas canelas finas, largou uma bomba. Viola se preparou para a defesa. A bola desviou em cima dele, resultado de um efeito inacreditável.
Então, deixei minhas recordações de lado e passei a prestar atenção ao que ele dizia. Foi aí que notei que ele estava mal vestido. Eu estava acostumado a técnico de paletó e gravata ou com o macacão do clube. Jair, enquanto falava, ia enrolando no peito a camisa “regata” (no Rio seria “de meia”) até chegar quase ao pescoço.
Depois do treino, cheguei perto do Afonsinho – o da música e da barba – e disse meio decepcionado:
- Afonso, “po”, o cara é meio desleixado!
- Por que? – perguntou Afonsinho.
- Não sei, o cara enrolou a camisa como um malandro!
- Ora, Michel – respondeu Afonsinho –, deixa de ser preconceituoso. O que interessa é se ele entende de bola!
Jair, o Jajá de Barra Mansa – que nasceu em Quatis, no Estado do Rio, no dia 21 de março de 1921 –, não durou muito como técnico do Santos.
Mas sua carreira como jogador foi brilhante.
Surgiu no Madureira formando um trio de ataque ao lado de Lelé e Isaias que ficou conhecido com “os três Patetas”, mas que jogavam tanto que os três foram contratados pelo Vasco. Foi campeão carioca invicto em 1945, com um time que ficou conhecido como “Expresso da Vitória”.
Em 1947, se transferiu para o Flamengo, onde depois de uma desastrosa derrota para o Vasco, por 5 a 2, foi acusado de ter “facilitado” as coisas, já que o Flamengo chegou a estar ganhando por 2 a 0.
Sua camisa foi queimada em praça pública pela torcida em frente ao estádio da Gávea, e Jair se transferiu para o Palmeiras.
Em 1956, se transferiu para o Santos, onde ajudou na conquista dos campeonatos de 1956, 1958 e 1960 e, principalmente, ajudou Pelé a ser Pelé.
As notícias que tive dele depois de sua passagem como técnico do Santos são de que ele, aos 70 anos, continuava jogando bola.
Jair Rosa Pinto, o Jajá de Barra Mansa, que durante muito tempo só foi conhecido como um dos jogadores que perdeu a Copa de 50, morreu no dia 21 de julho de 2005, aos 84 anos.
Sempre acho que vou ler uma noticiazinha garantindo que Jajá ainda está batendo uma bolinha numa pelada qualquer.