
Claudio, Ex-Goleiro do Santos.
Conheci e conheço grandes goleiros.
Mas um em particular foi um grande amigo.
Cláudio foi goleiro do Santos. Talvez poucos se lembrem dele, apesar de ter sido convocado em 1969 por João Saldanha para os jogos das Eliminatórias da Copa de 70.
Jogou pouco no Santos como titular, pelo simples fato de ter Gilmar dos Santos Neves pela frente.
Antes tinha sido goleiro do Fluminense e do Bonsucesso, do Rio, de onde veio para o Santos.
Estudei com o Cláudio no Colégio Franco-Brasileiro, que era ali no início da rua das Laranjeiras, no Rio. Fizemos o admissão juntos quando a gente tinha 12 ou 13 anos.

Da direita para a esquerda: Pepe, Lima, Cláudio (No destaque), Pelé, (não indentificado), Turcão, Djalma Dias e Manuel Maria.
Só o reencontrei no Santos.
Ele sempre tinha se preocupado em estudar. O que era raro entre os jogadores de bola naquela época. Falava inglês fluentemente e sonhava se formar em arquitetura, coisa que jurava iria realizar quando parasse de jogar futebol.
Hoje Cláudio não teria a menor chance de jogar num grande clube. Não tinha mais de 1 metro e 77 de altura. Outros grandes nomes como Valdir Joaquim de Moraes (que criou a profissão de treinador de goleiros) e Aimoré Moreira (que foi goleiro da seleção e que era o técnico na conquista do bicampeonato mundial, em 62, no Chile) tinham feito carreira com aproximadamente a mesma altura. Hoje, com menos de 1 metro e 90, nem treina.
Quando eu ia a Santos, eu gostava de ficar conversando com o Cláudio.
Um dia falamos justamente sobre o problema da altura.
- Não sei se você já reparou – começou falando –, mas é tudo uma questão de adaptação.
- Eu sei – respondi –, mas nem sempre…
- Olha – ele me interrompeu – o campo de futebol é formado por figuras geométricas: retângulos, círculos, semi-círculos e mais nada.
- Sim, mas o que isso tem a ver com sua altura? – perguntei.
- Tudo! O gol tem 7 metros e 32 de largura, por 2 e 44 de altura. O goleiro, com qualquer altura que tiver, se ficar embaixo dos paus, vai ter dificuldades em defender uma bola. Se ele der dois ou três passos para fora do gol em direção ao atacante, diminui a largura e a altura.
- É. Quanto mais ele sair do gol, mais fecha o ângulo – completei. (Veja a figura)
- Isso mesmo – e ele continuou. Agora, se você traçar retas partindo das traves, passando pelos ângulos da pequena área, e prolongar essas retas, elas vão encontrar os ângulos da grande área.
- Sim, e daí?
- Isso quer dizer que o goleiro tomando a iniciativa e saindo dois ou três passos na hora da finalização de uma jogada pelos lados das laterais, vai ser muito difícil para o atacante fazer o gol. Os caras da rádio costumam dizer nessas horas: “o goleiro cresceu prá cima do …” ou “o goleiro fechou o ângulo na hora certa….”. E é isso mesmo, o goleiro cresce para cima do atacante, que fica atrapalhado.
Cláudio sorriu:
- Como você está vendo nessas horas a altura influi muito pouco. Precisa ser inteligente e saber jogar no gol para fazer tudo na hora certa.
Levantou, deu uma paradinha e concluiu:
- Agora, meu velho, quando você pega um Pelé pela frente, tudo isso que acabei de falar não adianta nada. Ele nem olha, antes de meter por cima de você!
E saiu rindo.
Cláudio sentia dores no joelho, até hoje não sei qual. Ele jogava de joelheiras para que os adversários também não soubessem. Morreu jovem, nos Estados Unidos, tentando se livrar da doença maldita que atacou seus dois joelhos.