O DIA EM QUE O REI VIROU MOLEQUE!
O Santos de Pelé ia jogar por
100 mil dólares a partida, na Bolívia, primeiro em Santa Cruz de La Sierra e depois em La Paz.
A Igreja Católica protestava
veementemente achando que esses 200 mil dólares poderiam ser melhor empregados
diante das dificuldades que assolavam o País.
A revista Placar me mandou
fazer “o time milionário jogando num dos países mais pobres do planeta”.
Naquele tempo, 1972/73, os
times que excursionavam tinham obrigatoriamente, era lei, que ser acompanhados
por um jornalista.
O convidado do Santos não
compareceu ao embarque – a Bolívia naqueles tempos não chegava a ser uma
atração turística – e o vice-presidente de futebol do Santos, Clayton
Bittencourt, me pediu já que estava acompanhando o time para substituir o
jornalista ausente.
- Isso te dá direito a hotel
pago, bichos e diárias – acrescentou.
- Obrigado, mas a revista já
está pagando tudo. Não precisa se preocupar.
Contei isso tudo para
explicar por que eu e o fotógrafo Manoel Motta tivemos o direito a ficar no
mesmo hotel que o Santos, a acompanhar o time dentro do ônibus alugado para o
clube, ir ao vestiário depois dos jogos, etc…
Quando chegamos a Santa Cruz
de La Sierra
foi algo inesquecível. Milhares e milhares de pessoas invadiram a pista do
aeroporto, a ponto de as autoridades temendo pela segurança, retiraram Pelé do
avião e o levaram até o hotel dentro de um carro tanque.
Quando chegamos tinha uma
fila que dava três ou quatro voltas no quarteirão do hotel, que era cercado por
um muro. Esse muro apesar de ser encimado por cacos de vidro, estava apinhado
de torcedores.
Eu nunca tinha visto coisa
igual.
Tinha uma espécie de um
cântico que parecia de igreja, entoado pelo povo:
- Pelé, Pelé, Pelé! – era
igual a um murmúrio que ia crescendo, crescendo, diminuía e recomeçava.
Minha geração venerou Pelé. Só
quando surgiram jornalistas de esquerda, durante a ditadura militar, é que
começaram algumas críticas a Pelé. Mas eu nunca tinha visto nada parecido com
isso.
Pelé nem almoçou, mandou
colocar uma mesa e cadeiras no portão dos fundos do hotel, dois guardas faziam
a fila ser respeitada, e ele foi atendendo aos torcedores.
Na maioria eram pessoas
humildes que não pediam nada. Ao contrário traziam “presentes” ao Rei. Um casco
de tartaruga envernizado; um barquinho esculpido num galho de árvore; um
retrato amarelado da família; uma imagem de um santo.
Sinceramente fiquei
observando aquela cena que mais parecia um filme relatando um momento bíblico,
ou medieval, com os súditos homenageando reis, imperadores, papas.
Lá pelas cinco da tarde, Pelé
pediu um descanso. O portão foi fechado e Pelé veio se sentar ao meu lado numa
mesa em que Motta,
Cejas, Ramos Delgado e eu jogávamos uma animada partida de canastra.
Foi quando um homem moreno,
forte, sorridente se aproximou da mesa, se curvou e quase cochichou no ouvido
de Pelé.
- Rei, olha, eu sou
brasileiro e estou aqui com meus filhos e minha mulher, será que você poderia
nos atender?
Pelé respondeu na hora:
- Claro, estou descansando,
mas na hora que reabrir o portão, atendo você e sua família, ok?
Aí o homem retrucou:
- Acho que você não entendeu
direito: estou aqui com minha mulher e meus dois filhos e quero – o “quero” foi
veemente – que você nos atenda agora!
Pelé educadamente respondeu:
- Olha, vou atender assim que
reabrir o portão. Estamos na Bolívia e não seria legal eu atender você enquanto
povo daqui espera lá fora!
Provavelmente o moreno,
forte, se sentiu humilhado diante da mulher e dos filhos e perdeu a linha:
- Olha, seu negro f.d.p., eu sou o adido militar do Brasil aqui na Bolívia e
estou mandando que você nos atenda agora.
Eu nunca tinha visto e nunca
mais vi Pelé perder completamente a compostura.
Pelé pulou da cadeira,
enfiando os chinelos nas mãos, feito um malandro, pronto para se defender dos
golpes de uma navalha imaginária. O time, claro, caiu em cima do militar, que
levou algumas pancadas.
Surgiu a turma do “deixa
disso” e os ânimos se acalmaram.
As crianças e a mulher do
adido militar choravam, quando ele novamente se aproximou de Pelé que tinha
retomado seu lugar na mesa, e disse:
- Pelé, me desculpe, eu sou
um estabanado, me desculpe!
Pelé nem levantou os olhos da
mesa e respondeu:
- Aceito suas desculpas, vou
atender sua senhora e seus filhos assim que o portão for reaberto – e
acrescentou numa voz cheia de raiva – agora, não quero mais ver o senhor por
perto!
O homem se retirou e logo a
seguir Pelé atendeu as dua crianças.