Eu tinha um sonho!
De um dia surgir um cara que me obrigasse a compará-lo com Pelé.
Eu tinha esse sonho de verdade.
Eu sabia que não seria fácil. Afinal fazer o que Pelé fez é quase impossível.
Mas aí vi Pelé socando o ar na festa dos meninos da Vila.
Olhei para Neymar ajoelhado chorando.
Me lembrei de Pelé ajoelhado chorando, na Vila, no dia de sua despedida.
Imaginei que o cara que eu fosse comparar com Pelé fosse um homem forte, veloz, hábil, inteligente, matreiro, que tivesse o poder de adivinhar o que ia acontecer, que tivesse uma áurea que fizesse as pessoas acreditar que ele tinha algo incomum.
É isso!
Bem, e mais, que soubesse cabecear como ninguém, que chutasse igual com a canhota e a destra, que fosse bom e mau, que tivesse a grandeza de um atleta superior, e a humildade daqueles que sabem o que são.
Descrevi bem o Pelé?
Nunca imaginei que pudesse ser o Neymar.
O Neymar tem muito do que descrevi do Pelé, e ao mesmo tempo pouco das virtudes e defeitos que consegui reunir do Pelé.
Sabem por quê?
Porque o tempo passou.
O homem de hoje não é mais como Pelé.
É como Neymar!
Pelé se ajoelhou ereto, Neymar se ajoelhou num abandono total.
Pelé resolvia as dificuldades de uma partida e esperava o mundo o reverenciar; Neymar soluciona um jogo e obriga o mundo a reverenciá-lo!
Pelé nunca foi o Neymar.
Neymar nunca será o Pelé.

Em tudo o que os dois tem de bom.
Em tudo o que os dois tem de defeitos.
O tempo constrói e destrói.
Faz e desfaz!
Talvez até refaça com aquilo que juntou através das décadas, dos anos, dos meses, dos dias, dos minutos e segundos que são cada vez mais rápidos.
A partir de ontem, tenho um outro sonho: ver até onde vai o Neymar.
Não vou esperar que faça mais de mil gols; que seja o artilheiro desumano que Pelé foi, porque isso não pode mais acontecer.
Mas sei que vou ver Neymar com seu jeito moderno por mais alguns anos, conquistar e sorrir, com o mesmo olhar desafiador daqueles que foram forjados na dificuldade, inventando um novo futebol.



Parecia que estava diante de um “serial killer”!
mas desta vez custaram caro.




