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10/11/2009 - 19:18

Causos do Futebol – Carlos Alberto Torres, o Capitão da Sorte!

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Desde que surgiu nos juvenis do fluminense, Carlos Alberto, que ainda não era Torres, foi tratado como um dos possíveis novos craques da seleção brasileira.

 Era um monstro, jogava uma barbaridade. Jogava tanto que foi convocado em 1963, com apenas 19 anos, para uma Copa Roca, que seria jogada em São Paulo.

No jogo contra a Argentina, numa quarta-feira à noite, no Pacaembu, Carlos Alberto viveu um drama.

A Argentina tinha dois irmãos na ala esquerda do ataque: Oscar e Daniel Más. Os dois de muita qualidade. Malandros como só os argentinos sabem ser. Sabiam tirar partido de tudo, sobretudo da insegurança dos adversários.

O centroavante – o camisa 9 de hoje em dia – desse mesmo ataque era um cara chamado Luis Artime. Um goleador sensacional, que foi campeão mundial pelo Peñarol, do Uruguai, numa final contra o Panathinaikos, da Grécia; disputou a Copa de 66, na Inglaterra, e jogou em 1968 pelo Palmeiras, onde deixou seu nome gravado na história.

Nesse jogo entre Brasil e Argentina, de 1963, os argentinos venceram, 3 a 0, três gols de Artime, em jogadas tramadas pela esquerda pelos irmãos Más.

As jogadas dos irmãos Más exploravam as avançadas de Carlos Alberto no ataque. As três foram tramadas nas costas do lateral.

Naquela época, os avanços dos laterais não eram tão comuns como hoje em dia.

Carlos Alberto foi arrasado pela crítica. Era moderno demais para a época.

Onde já se viu! Só Nílton Santos é igual a ele, nunca iria surgir outro.

Imagine, perder para a Argentina, em pleno Pacaembu, logo depois do recém-conquistado bicampeonato do mundo no Chile.

Ali parecia que Carlos Alberto tinha enterrado sua passagem pela seleção.

Mas esse fracasso o protegeu de uma outra terrível tragédia.

Em 1966, Vicente Feola, recuperado da doença que o tinha afastado da seleção em 62, convocou nada menos do que 47 jogadores para os treinamentos no Rio de Janeiro. Eram quatro times inteiros do goleiro ao ponta-esquerda e mais três jogadores que foram chamados porque três dos prováveis titulares estavam machucados.

Os quatro convocados para a lateral pelo lado direito foram: Djalma Santos, do Palmeiras; Fidelis, do Vasco; Murilo, do Flamengo, e … Carlos Alberto, do Santos.

Murilo e Carlos Alberto – do qual só lembravam do jogo contra a Argentina – acabaram cortados e escaparam do fracasso total da seleção na Copa da Inglaterra – uma vitória, contra a Bulgária, 2 a 0, e duas derrotas para Hungria e Portugal pelo mesmo placar: 3 a 1.

E foi com esse golpe de sorte que Carlos Alberto se transformou em herói do tri, no México.

Ele e mais alguns jogadores – Gérson, Brito, Jairzinho, Tostão e até Pelé – foram recuperados nas convocações para as eliminatórias, formando nas “feras” de João Saldanha.

Foi assim também que, marcando o último gol do Brasil na vitória por 4 a 1 sobre a Itália, e como capitão do time, Carlos Alberto levantou pela última vez a taça Jules Rimet – o regulamento da Copa dizia que quem ganhasse por três vezes ficava com a posse definitiva do troféu.

Depois, a Jules Rimet foi roubada da CBF…. Bom, mas essa é outra história.

Autor: Michel Laurence - Categoria(s): Causos do Futebol Tags: ,
21/10/2009 - 19:08

Causos do Futebol – Saldanha e o Tenente Colombiano!

Foi em 1969.

Um ano rico.

A seleção estava em Bogotá para seu primeiro jogo pelas Eliminatórias da Copa de 1970, contra a seleção colombiana.

A gente tinha visto o homem chegar a Lua. Pisar nela, ficar a pegada de suas botas na terra fofa.

Era quase inacreditável. Tem gente que não acredita até hoje.

João Saldanha tinha brigado com Pelé, porque ele foi fotografado numa boate dançando com uma loira.

Mas a vitória sobre a Colômbia, 2 a 0, tinha acalmado os ânimos.

A história toda aconteceu no embarque logo depois do jogo, para Caracas, onde a seleção ia enfrentar a da Venezuela.

O embarque naquela época era a pé, andando pela pista até onde o avião estava estacionado.

João “Sem Medo”, como era chamado, ia na frente com os jogadores. Nos da imprensa, um pouco atrás.

Eu ia conversando com meu grande amigo, Carlos Alberto Torres, o “Capita”, o que ainda não sabia e nem podia adivinhar, ia levantar a Taça Jules Rimet pela última vez.

Chegamos ao pé da escada e o Carlos Alberto se adiantou.

Eu ia seguindo o grande capitão quando senti uma mão no meio peito.

Olhei para o lado e um fardado me disse:

- Um momento, señor!

Olhei espantado e perguntei o que estava acontecendo.

- É uma averiguação – disse o militar – queira nos acompanhar!

Entrei numa de pavor. Naqueles tempos a ditadura militar mandava na Colômbia. As pessoas sumiam.

Gritei:

- Carlinhos, Carlinhos – que já ia sumindo pela porta do avião – estão me prendendo!

Minha sorte é que Carlos Alberto ouviu e gritou para o pessoal dentro o avião:

- Gente, estão prendendo o Michel.

Os militares queriam porque queriam que eu os acompanhasse e eu fazia de tudo para não sair dali.

Olhei para cima da escada e comecei a ver a seleção inteira descendo de volta. João entre eles.

O tenente insistia:

- Vamos, señor, vamos.

Foi quando João Saldanha chegou perto do tenente e perguntou:

- Desculpe, mas o senhor está prendendo este cidadão brasileiro por quê?

- Não estou prendendo ninguém. É apenas uma averiguação – respondeu o tenente.

- Se é só uma averiguação vamos juntos com ele!

O tenente vacilou mas respondeu:

- Não, não, os senhores podem seguir viagem, só ele tem que ficar!

- Então o senhor está prendendo esse “periodista” brasileiro! Vamos com ele – falou João.

- Mas não pode – balbuciou o tenente!

- Como não pode? – perguntou João Saldanha – O senhor já imaginou? Vai ficar famoso! A notícia que o senhor prendeu Pelé e toda a seleção brasileira vai correr o mundo!

O tenente fez uma carreta de dor e depois de alguns segundos que me pareceram séculos, disse falando comigo:

- Me desculpe, acho que houve um engano, não era o senhor! Por favor, o senhor pode seguir viagem e queira me desculpar.

Incontinente se virou para um dos soldados e gritou:

- Ta vendo! Eu disse que não era ele e você insistiu que era. Está vendo o papel que você me fez passar – o soldado não sabia o que responder, e o tenente virando-se para João Saldanha:

- O senhor está vendo o que é trabalhar com pessoas incompetentes!

João sorriu, olhou para mim piscou um olho e saiu andando com aquele andar que lembrava os malandros cariocas.

- Laurence, vamos lá que dessa você escapou.

Autor: Michel Laurence - Categoria(s): Causos do Futebol Tags: ,
29/09/2009 - 17:34

Causos do Futebol – Mais uma História Triste!

Casamento marcado.

Os convites sendo distribuídos.

Ele uma carreira promissora pela frente. Sonhava com a seleção. Comprar uma casa, ajeitar a vida para o futuro.

Ela uma moça maravilhosa, prendada – o que naquela época era valorizado – meiga, amiga, simpática.

No início a família dela tinha sido contra: jogador de bola era mal visto:

- Bando de vagabundos – grunhia o pai.

Mas aos poucos a família foi aceitando. Afinal ele era um rapaz decente, trabalhador.

Raul (vamos chamar ele assim) tinha um grande amigo, Virgílio (acabei de inventar esse nome também, para facilitar o relato) que fazia dupla de meio-de-campo com ele.

Os dois dividiam a vida desde os tempos de criança, moravam no mesmo quarto na concentração, tinham subido juntos do juvenil para o profissional.

Os dois as maiores promessas do time.

Justamente naquele ano o time dominava o campeonato.

Invicto, 26 jogos. 18 vitórias e 8 empates.

O técnico, seu Inocêncio (nome fictício), exigia cada vez mais.

Treino de manhã e de tarde e depois da décima oitava vitória ele reuniu o elenco no meio de campo e anunciou:

- Agora, vamos com tudo. Faltam quatro jogos. Vamos ser campeões invictos.

Todos bateram palmas entusiasmados.

Aí Inocêncio acrescentou:

- Concentração a partir de sexta a tarde.

Virgílio olhou para Raúl, concentração sexta a tarde…dureza. Mas valia a pena.

Foi justamente num desses dias decisivos que um dos jogadores do time chamou o Virgílio de lado e disse:

- Olha, não sei como te contar, mas o Silicato (outro nome inventado) viu o Inocêncio saindo do prédio da noiva do Raúl!

Virgílio parecia não entender direito e perguntou:

- O que você está falando aí, rapaz? Você está louco?

O que contou o fato ficou com medo e quase pedindo desculpa repetiu:

- É, ele me disse que viu o Inocêncio saindo do prédio da noiva do Raul!

- Não acredito, ele só pode estar enganado.

Foram confirmar a história com o jogador que tinha visto Inocêncio.

Ele confirmou:

- Ué, se você está duvidando é só ir lá na próxima sexta-feira a noite, que é o dia em que ela fica sozinha no apartamento – o pai e a mãe vão ao cinema e depois comer uma pizza – e ficar escondido observando.

Virgílio queria sair fora dessa história, mas a amizade o empurrava a ver se aquilo tudo era verdade.

Ansioso, meio sem jeito sempre que encontrava o amigo, Virgílio aguardou a sexta-feira.

Foi com Silicato. Ficaram na sombra, atrás de um carro. Não viram ninguém chegando, mas viram Inocêncio saindo.

Silicato disse:

- Ta vendo, você tem que avisar ao Raúl!

- Eu, não – defendeu-se Virgílio – eu, não!

Teve uma reunião dos jogadores, sem a presença do Raúl. Decidiram que o capitão do time ia pedir a diretoria a demissão de Inocêncio “por desentendimentos com o diretor de futebol” e que Virgílio teria que contar a Raúl.

- Não vou conseguir dormir se o Raúl não for avisado.

Virgílio não sabia como fazer, não queria fazer, mas não teve jeito.

Os dois nunca mais se falaram. Na segunda-feira Inocêncio deixou o clube depois da décima nona vitória.

Autor: Michel Laurence - Categoria(s): Causos do Futebol Tags:
08/09/2009 - 17:44

Causos do Futebol – O Fla-Flu das Bolas na Lagoa!

Mário Filho, irmão mais velho de Nelson Rodrigues, criador do Jornal dos Sports e de textos maravilhosos, escreveu sobre o jogo que ficou conhecido como o Fla-Flu da Lagoa: “o campeonato se resumiu num match (sic), o match se resumiu em seis minutos”.

 

Só para situar a história, foi a decisão do Campeonato Carioca de 1941. Minha família e eu chegamos ao Brasil em 48, mas me lembro perfeitamente que os mais velhos ainda falavam do Fla-Flu da Lagoa. Alguns com uma mágoa danada. Outros como se fosse uma das maiores epopéias do futebol mundial.

 

Faltavam seis minutos para o jogo acabar quando o Flamengo, que precisava vencer, fez o gol de empate.

 

O empate dava o título ao Fluminense.

 

Segundo Mário Filho uma “multidão” de 15 mil pessoas se espremia no estádio da Gávea.

 

Naqueles tempos a Lagoa Rodrigo de Freitas chegava quase até os muros do Clube de Regatas do Flamengo. Só uma pista estreita para os carros entre o muro e a água.

 

Comparação da Lagoa Rodrigo de Freitas nos anos 40 e hoje em dia

 

Os jogadores do Fluminense entre eles vários da seleção terceira colocada na Copa de 38, o goleiro Batatais; os meias Romeu e Tim; e os ponta Pedro Amorim e Carreiro, começaram com último recurso para evitar o gol que daria a vitória ao Flamengo, a chutar a bola por cima do muro e para dentro da Lagoa.

 

Naquele tempo as bolas oficiais não eram tantas assim.

 

Os dirigentes do Flamengo temendo que as bolas acabassem apelaram para a turma de remadores – quase todos campeões carioca e brasileiro – que puseram seus barcos na água e pareciam querer bater recordes mundiais na tarefa de recolher as bolas e as mandar de volta para o campo.

 

Os jogadores do Flamengo liderados por Domingos da Guia, pai do Divino Ademir da Guia, e Zizinho, caçavam os jogadores do Fluminense que ficavam tocando a bola para passar o tempo, sob o olhar impassível do juiz Juca da Praia.

 

Domingos da Guia em pé e Zizinho agachado, ambos em destaque

 

Na verdade ele, o juiz, não podia fazer muita coisa.

 

Praticamente quem mandava no jogo era o cronometrista. Um senhor que ficava sentado numa mesa do lado de fora do campo, controlando o tempo.

 

Como salientei, faltavam seis minutos quando o Fluminense empatou o jogo.

 

Mas esse tempo ia se prolongando conforme os jogadores do Fluminense chutavam a bola para a Lagoa. O cronometrista parava o cronômetro esperando a bola voltar.

Valia tudo, inclusive que as bolas molhadas fossem rejeitadas pelo goleiro Batatais.

 

Aliás foi Batatais quem serviu de inspiração a seus companheiros. Ele deslocou o ombro numa defesa, e como naquela época não havia substituição, ele continuou jogando como um verdadeiro herói.

 

Juca da Praia acabou determinando o fim da partida quando mais de 15 minutos tinham se passado além do tempo regulamentar.

 

Para Mário Filho, que viu pessoas desmaiando e outras gritando de desespero, sem que se pudesse identificar se eram torcedores do Fla ou do Flu, foi nesse jogo que se firmou a força do clássico Fla-Flu, como o maior do nosso futebol.

Autor: Michel Laurence - Categoria(s): Causos do Futebol Tags: , ,
11/08/2009 - 13:47

Fotos de Riberto (Carlovich)!

Tem na internet um “louco” que coleciona fotos dos times do São Paulo através dos anos desde os primórdios.

 

Aí fui nas fotos da década de 50 e encontrei o Riberto, que me lembro muito bem ter visto quando o São Paulo ia ao Rio jogar contra os clubes de lá pelo Torneio Rio-São Paulo.

 

Teu homônimo está assinlado.

 

Riberto assinalado

 

 

Essa foto de 1960 tem uma série de coisas interessantes:

 

 

1 – a primeira é que é uma seleção paulista jogando com a camisa do São Paulo (eu nunca tinha ouvido falar nesse detalhe); foi a segunda partida da inauguração do Morumbi.

 

2 – a segunda que o meio esquerda entre Gino e Canhoteiro é quase uma lenda do futebol paulista. É o tal de Gonçalo, que quem viu jogar afirma ter sido um dos maiores craques do futebol brasileiro de todos os tempos. Contam também que ele se formou como médico-dentista e abandonou o futebol, indo exercer a profissão no Recife. Na época em que jogou era do Santos;

 

3 – a terceira coisa interessante é que o outro meia é Almir Pernambuquinho bem jovem, cabeludo, que devia nesse ano de 1960 estar jogando no Corinthians;

 

4 – o time da foto era; Djalma Santos, Poy (um goleiro argentino que depois foi técnico do próprio São Paulo e viveu o resto de sua vida aqui mesmo), Fernando Sátiro, Gildésio, Riberto e Vitor. Agachados: o grande Julinho Botelho, Almir Pernambuquinho, Gino, Gonçalo e Canhoteiro (que só não foi campeão do mundo em 58 porque gostava mais de uma balada do que as glórias que a bola lhe trazia – jogava uma barbaridade!).

 

Que coisa, hein! Você nunca me disse que teu pai (ou será tua mãe?) gostava de futebol – e muito menos do São Paulo.

 

Espero que meu trabalho seja recompensado com um belo suco de laranja ou um milkshake!

 

Um grande abraço.

Autor: Michel Laurence - Categoria(s): Causos do Futebol Tags: , ,
04/08/2009 - 17:52

Causos do Futebol – A Maior Vaia do Mundo!

O Brasil ainda respirava a glória de ter conquistado pela primeira vez a copa do mundo.

Era um belo domingo de maio de 1959, ensolarado, Maracanã lotado.

A seleção brasileira ia enfrentar a da Inglaterra, de Billy Right, considerado pelos europeus, até surgir Djalma Santos, o maior lateral direito do mundo.

Era uma espécie de comemoração.

Os heróis da Suécia eram vistos como semideuses.

Pelé, que apenas começava a ser rei, Vavá – o primeiro “peito de aço”, Zito, Belini – O grande capitão, Nílton Santos – a enciclopédia, Gilmar dos Santos Neves – o nome tinha que ser declinado por inteiro, Didi – o príncipe etíope, a elegância em pessoa, eleito o maior jogador da copa de 58, Djalma Santos “o nariz de ferro”, Orlando Peçanha, Zagalo – naqueles tempos com um “ele” só, e claro, Mané Garrincha, o das pernas tortas, o que inventou o caminho mais longo e bonito até o gol.

Uns cinco ou seis minutos antes dos times entrarem em campo, o serviço de alto-falantes do Maracanã anunciou a escalação do Brasil: “Gilmar; Djalma Santos, Belini, Orlando e Nílton Santos; Zito e Didi; “Julinho” – a partir daí ninguém mais ouviu a escalaçao do resto do ataque. O povo estava ali para homenagear Garrincha. A vaia  ensurdecedora foi a maior que já ouvi em toda a minha vida.

Para se ter uma ideia, cinco ou seis minutos depois, quando o time surgiu pela boca do túnel, a vaia continuava.

Não se sabe como Julinho teve coragem de entrar em campo.

Foi uma rejeição incomparável, insuportável, terrível.

“Terrível”, foi essa palavra que o grande Nelson Rodrigues usou em sua crônica na revista “Manchete Esportiva” e que resume bem o que aconteceu:

“Parecia-me que o escrete sem o seu Mané era mutilado… a memória é uma vigarista… recebemos Julinho como se ele fosse um gringo (Julinho acabava de voltar da itália), ou pior do que isso -  um perna de pau… ao ouvir o apupo vaticinei para mim mesmo – o Julinho vai comer a bola!”.

E foi o que aconteceu.

O público continuava vaiando quando o jogo começou.

Nelson Rodrigues descreve a atuação de Julinho ainda no primeiro tempo, da seguinte maneira:

“O que ele fez com o adversário foi pior do que xingar a mãe!”.

E realmente foi.

Julinho driblou seu marcador centenas de vezes e quando ele partiu da direita driblando um adversário atrás do outro até chegar na cara do goleiro e, mesmo sem ângulo, mandou uma bomba que estufou a rede.

Houve um certo silêncio!

Dava até para ouvir os jogadores gritando gol, abraçando Julinho o “senhor tristeza”, como era chamado na Itália, onde levantou o título de campeão italiano da temporada 55/56, não sorriu.

Foi caminhando até o meio de campo quando começaram os aplausos.

O mesmo público que o tinha vaiado impiedosamente o aplaudiu… de pé… durante mais de 10 minutos.

Foi nesse jogo que se cunhou a máxima de que “Julinho era capaz de transformar um pedaço de grama do tamanho de um lenço em um verdadeiro… latifúndio”.

Passaram 50 anos, mas a figura de Julinho Botelho, com seu bigodinho fino, continua viva na “vigarista” da minha memória.

PS – os italianos colocaram o apelido de “signore tristeza” em Julinho devido ao aspecto de seu rosto que, segundo eles, só era desse jeito pela saudade que o grande jogador sentia do Brasil.

 

Autor: Michel Laurence - Categoria(s): Causos do Futebol Tags: ,
21/07/2009 - 12:39

Causos do Futebol – As Vítimas de 1950!

Durante a Copa de 1974, na Alemanha, conheci melhor um dos maiores narradores do futebol brasileiro: Geraldo José de Almeida, aquele que inventou dezenas de bordões que viraram chavões: “ponta de bota”; “Ja-ir-zi-nho, o Furacão da Copa”, etc. Geraldo era um homem extremamente elegante; cuidava da aparência com orgulho. Falava bonito e era extremamente simpático. Era um personagem.

 

Trabalhei com o filho dele Luiz Alfredo, que herdou do pai grande parte do seu talento para narrar lances do futebol.

 

Mas voltando ao Geraldo na Copa de 74, que foi na Alemanha, eu cobria pela revista Placar o grupo do Brasil. Ficava em Frankfurt e de vez em quando ia para Stuttgart ver os jogos dos adversários da seleção brasileira.

 

                                                                     Geraldo José de Almeida

 

Numa dessas idas e voltas cruzei com o Geraldo José de Almeida e ele me confessou que estava “morrendo de saudade de um feijãozinho preto”!

 

Eu estava hospedado num hotelzinho muito bom perto da estação de trem de Frankfurt. Tinha um bar muito legal, de um iugoslavo imenso e risonho, com quem eu me entendia perfeitamente através de uma linguagem que não saberia aqui explicar. Na cozinha faziam um feijão preto quando a gente pedia. Não era uma feijoada, mas a gente pedia para fritar uma lingüiça, um carré de porco, juntava tudo e dava a sensação de estar em casa.

 

Convidei o Geraldo a passar no meu hotel e almoçar comigo.

 

Ele ficou freguês e foi num desses almoços que ele me contou uma história fabulosa sobre o Zizinho, o Thomaz Soares da Silva, também apelidado de Mestre Ziza, ídolo de Pelé, e o Bauer, o Monstro do Maracanã, acontecida no dia em que o Brasil perdeu a final da Copa de 50, para o Uruguai, no dia 16 de julho.

 

“O Zizinho me contou certa vez que na rua em que morava em Niterói tinham montado uma mesa imensa e toda a vizinhança tinha preparado uma festa fabulosa com Zizinhojantar e bebidas para receber ele, o grande herói, depois da vitória.

 

BauerZizinho saiu do Maracanã a pé depois do jogo, se misturou ao povo e foi andando até a Praça Onze, onde pegou a barca para Niterói.

 

Ele me disse – contava Geraldo – que não sabe como chegou lá, nem se em algum momento chegou a ser reconhecido.

 

Ele só me disse que a pé e por puro instinto chegou na rua em que morava, toda enfeitada com bandeiras, flores, e…completamente vazia. Não tinha uma pessoa sequer. Nem nas janelas, de dentro das casas não saia nenhum som, nada. Nem choro, nem lamentação. Parecia uma rua de uma cidade fantasma. O jantar estava em cima da imensa mesa…sendo comido pelos…cachorros”!

 

Na voz de Geraldo esse relato tinha um tom de dramaticidade que parecia penetrar na cabeça da gente. E ele continuou.

 

Com Bauer – que morava em São Paulo – a história foi outra, mas igualmente terrível. No dia em que se apresentou na seleção no Rio, ele comprou a passagem de trem de volta para o dia da final.

 

Um repórter o convenceu a ficar no Rio depois da grande vitória. Ia fazer uma reportagem maravilhosa com ele depois do jogo. Bauer não queria, mas segundo o que ele me contou – dizia Geraldo José de Almeida – acabou aceitando de tanto o repórter insistir.

 

Foi até a Central do Brasil, devolveu a passagem e o homem do guichê, devolveu o dinheiro.

Depois da derrota não encontrou mais ninguém. Foi a pé até a Central do Brasil, onde eu, arrasado pela derrota, e um amigo queríamos deixar o Rio o mais depressa possível. E o mais rápido naquela época era o trem. Sem passagem, tivemos que convencer o fiscal a deixar o Bauer viajar conosco na nossa cabine. Era para dois, mas a gente dava um jeito. Acho que o fiscal estava com raiva da derrota e fez jogo duro. Acabou cedendo, mas foi difícil.

 

                                       Seleção de 1950 com Bauer (em pé) e Zizinho (agachado) em destaque

 

Bauer pegou um cobertor, deitou no chão, apesar de termos oferecido uma das camas. Ele não aceitou. Parecia um zumbi, não falava coisa com coisa. Deitou, dormiu quase que instantaneamente. Provavelmente sonhou com o jogo, resmungou a noite inteira.

 

Fiquei olhando para aquele homem – continuou Geraldo José de Almeida com a voz embargada – que era considerado um gênio da bola e um gentleman por todo mundo, ali deitado no chão da minha cabine. Pensei no que ele ia sofrer. Tenho a certeza que não cheguei a imaginar um décimo do que ele realmente sofreu por todos esses anos.

Autor: Michel Laurence - Categoria(s): Causos do Futebol Tags: ,
14/07/2009 - 13:10

Causos do Futebol – Heleno Era Terrível!

Heleno de Freitas

 

Ele era tremendamente elegante.   

                                                                                   

Só vestia ternos feitos sob medida.                                 

Cabelos lisos, penteados à Rodolfo Valentino, repartidos no meio, com muito Gumex (uma espécie de brilhantina, que seria o gel daquela época) para estar sempre penteado.

 

Andava ao volante de um Cadillac branco, rabo de peixe, conversível.   Rodolfo Valentino

Advogado formado, anel no dedo médio da mão direita.

 

Era venerado pelas mulheres e invejado pelos homens.

 

Mas – era obrigatório ter um “mas” -, quando calçava as chuteiras, se transformava.

 

Jogava muito, muito mesmo – na minha juventude, os mais antigos me afirmavam que ele tinha sido o maior camisa 9 de todos os tempos – só que perdia a razão com a maior facilidade. Se irritava tanto com os adversários quanto com seus companheiros.

 

Por causa dessa irritabilidade, Heleno de Freitas foi apelidado de “Gilda”, isso porque os cinemas exibiam um filme estrelado por Rita Hayworth – uma ruiva lindíssima – que vivia o personagem Gilda, uma mulher altamente explosiva.

Era Heleno reclamar de qualquer coisa para o povo começar a gritar “Gilda, Gilda!”, o que enfurecia o pobre Heleno cada vez mais. Aí, ele perdia a razão. Xingava quem estivesse pela frente.

 

Um domingo, jogando em General Severiano, a social do Botafogo, que supostamente deveria apoiar o time, começou a chamar Heleno de “Gilda”, que levando o dedo a boca pediu silêncio aos sócios. A reação foi terrível. A social não parou mais de chamar o maior ídolo do Botafogo, naquela época, de Gilda.

 

Era o pobre do Heleno pegar na bola e lá vinha o coro de “Gilda, Gilda”.

 

Calmamente, Heleno veio caminhando em direção à social – é preciso dizer que a social dos clubes naqueles anos 30 e 40, era o único lugar nos estádios frequentados por senhoras acompanhando seus maridos -, se postou bem em frente, fez como se fosse agradecer e, repentinamente…abaixou o calção.

 

Foi terrível.

 

Acho que foi só a partir desse episódio que os jogadores foram obrigados a usar uma espécie de sunga elástica por baixo do calção.

 

Heleno de Freitas

 

O escândalo foi tamanho que o Botafogo se viu na obrigação de vender Heleno para o Boca Juniors, da Argentina.

 

No ano seguinte: 1948, sem Heleno, o Botafogo foi campeão carioca.

 

Do Boca, Heleno se transferiu para o Milionários, da Colômbia, onde uma liga pirata  pagava rios de dinheiro aos jogadores, inclusive ao argentino Alfredo Di Stéfano, que seria personagem da história no Real Madrid.

 

Heleno voltou ao Brasil em 1950. Tentou jogar pelo Santos. Tentou mais uma vez em 51 pelo América.

 

Estava irreconhecível. Cabelos desgrenhados, andar vacilante. Olhos mirando o infinito.

Apenas subiu os degraus do Maracanã, em direção ao gramado, com a linda camisa do América.

 

Acabou sendo internado em um sanatório de Barbacena, onde faleceu no dia 8 de novembro de 1958, de sífilis cerebral, com apenas 39 anos. Tal e qual Rodolfo Valentino, que também não agüentou o peso da vida e morreu com apenas 31 anos;

Autor: Michel Laurence - Categoria(s): Causos do Futebol Tags: ,
07/07/2009 - 17:39

Causos do Futebol – Tudo começou com Carlito Rocha!

Se o Botafogo é o clube mais supersticioso do Brasil deve a um homem chamado Carlos Martins da Rocha ou apenas Carlito Rocha, ex-jogador, que chegou a presidente do clube.

Por coincidência ou não Carlito nasceu exatamente no ano da fundação do Club de Regatas Botafogo, 1894. Carlito Rocha e Biriba

 

Como jogador teve a carreira terminada cedo devido a uma pneumonia braba, em 1918.

 

Mesmo assim foi campeão carioca em 1912 e depois como técnico em 1935.

 

Mas como cartola virou mito.

 

Como presidente seu reinado foi curto de 1948 a 1951. O bastante para ele conquistar o Campeonato Carioca de 48 e criar toda a mística que envolve o clube até os dias de hoje.

 

A frase “Tem coisa que só acontece com o Botafogo” vem desde aqueles tempos.

 

O Botafogo em 48 tinha um timaço: Osvaldo Baliza (”Baliza” pelo tamanho, mais de um metro e noventa); Gérson (irmão de Zezé e Aimoré Moreira e mais tarde técnico do Cruzeiro) e Sarno (ex-técnico do Corinthians, que escreveu o livro A Dança do Diabo – o melhor retrato do futebol brasileiro daquelas época); Marinho, Nílton e Juvenal; Paraguaio (um dos primeiros estrangeiros a jogar no Brasil); Geninho (que depois virou técnico); Zezinho (que jogou muitos anos no São Paulo); Otávio (jogava muito) e Braguinha (que infelizmente era o mais fraco do ataque e vivia sendo achincalhado por Heleno de Freitas).

 

Livro "A Dança do Diabo"

 

Mas para Carlito não bastava um time forte.

 

Ele pregou e divulgou que seus jogadores tomavam gemada (gema de ovo batida com açucar) para criarem resistência e força.

 

Um dia um cachorro branco com manchas pretas – típico vira lata – entrou no vestiário do Botafogo, e nessa tarde o time ganhou. Carlito fez questão de adotar o cachorro que acompanhava o time em todos os jogos.

 

Certa vez o cachorro que passou a se chamar de Biriba e chegou a criar uma fama as vezes superior a dos jogadores, fez xixi no pé de Juvenal, já pronto para entrar em campo. No jogo Juvenal – que teria ficado brabo com o Biriba – fez um gol que deu a vitória ao time. A partir daí Carlito Rocha não deixava o time entrar em campo sem que antes Biriba tivesse feito xixi no pé de Juvenal.

 

Heleno de FreitasVenerado pela torcida Carlito não se importou em vender Heleno de Freitas – que vivia brigando com torcida e jogadores – para o Boca Júniors, da Argentina.

 

Mesmo quando deixou de ser o presidente do Botafogo, Carlito Rocha nunca deixou de participar da história do clube.

 

Deus foi bondoso com ele. Viveu muito repartindo seu amor entre a família e o clube. Morreu em 1981 aos 87 anos.

Autor: Michel Laurence - Categoria(s): Causos do Futebol Tags: ,
30/06/2009 - 19:45

Causos do Futebol – Um Goleiro Chamado Marujo!

Eu devia ter uns treze/catorze anos.

 

Meu pai era chefe de esportes da Última Hora, do Rio, nos tempos de Samuel Wainer e sempre dava um jeito de levar para casa uns dois ou três ingressos grátis para que meu irmão, Phellipe, e eu fôssemos ver um jogo no fim de semana. Geralmente a gente ia ao Estádio das Laranjeiras assistir o jogo do Fluminense, pertinho de casa, não precisava gastar dinheiro – que nós não tínhamos – com as passagens.

 

Num desses domingos – que eram de pura felicidade – fomos ver Fluminense e Canto do Rio, pelo Campeonato Carioca, que estava apenas começando.

 

Você não sabia que existia um clube chamado Canto do Rio?

 

Existiu!

 

Alias existe até hoje em Niterói, só que está na Quarta Divisão, praticamente abandonado ao seu destino.

 

O Canto do Rio pertencia aquela faixa de clubes pobres: Bonsucesso – que também sumiu – Madureira – que está voltando – Olaria – que recebeu agora um impulso por parte de um grupo financeiro – São Cristovão – que lamentavelmente também tende a desaparecer – Bangu e América que sempre andaram no fio da navalha desde esses tempos.

 

Meu irmão e eu sempre dávamos um jeito de arranjar um lugarzinho na social do Fluminense.

 

A gente ficava quietinhos e os fiscais fingiam não estar nos vendo.

 

Aí entrou o Fluminense com o uniforme branco, ornado de grená e verde nas mangas e na gola.

 

Eu nunca tinha visto o Canto do Rio e quando o time saiu pela porta de ferro trabalhado, atravessou a pista de atletismo negra pelo pó de carvão e pisou o gramado, fiquei surpreso primeiro pelas camisas: azul e branco quadriculadas – nunca tinha visto camisa de futebol quadriculadas; e depois pelo goleiro do time, baixo para a posição e…gordo.

 

As pessoas em volta começaram a rir. Um goleiro baixo, gordo e que foi anunciado na escalação pelos alto-falantes do estádio com o nome de “Marujo”- certamente um apelido (ninguém se chama Marujo) vindo de sua profissão fora do futebol. Naquela época isso acontecia: os jogadores exerciam outra profissão além de jogar bola.

 

 

O Fluminense tinha um timaço: Castilho (que foi bicampeão do mundo em 58 e 62 e depois técnico), Píndaro (que era dono de uma farmácia) e Pinheiro (que também foi seleção brasileira em 54 e técnico); Vítor, Edson e Bigode (aquele que foi driblado por Gighia na Copa do Mundo de 50) ou Lafayette; Telê (o inesquecível Telê Santana, que era dono na época de uma sorveteria), Didi (o grande bicampeão do mundo em 58 e 62), Carlyle (que só tinha uma orelha e foi jornalista depois de abandonar o futebol), Orlando Pingo de Ouro (ídolo do Fluminense) e Quincas (que só não era Berro D’Água porque Deus não quis).

 

Aí todo mundo começou a achar que o Tricolor ia vencer de goleada, com aquele goleiro e um time fraquinho, era o que os jogadores do Canto do Rio também deviam estar pensando.

Começa o jogo e o Fluminense não parava de atacar.

 

Era beque salvando em cima da linha; bola batendo nas traves e principalmente Marujo fazendo verdadeiros milagres.

 

Terminou o primeiro tempo 0 a 0 e todo mundo comentava com espanto o feito de Marujo.

- Mas agora no segundo tempo o Fluminense vai fazer um montão de gols – comentou o senhor elegante ao nosso lado.

 

Começa o segundo tempo e o ex-gordinho Marujo continuou fazendo milagres (ex-gordinho pelas defesas porque no peso continuava o mesmo).

 

Até que aí pelos 20 minutos, a torcida começou a pegar no pé do time. Nem Telê, nem Didi, nem Carlyle conseguiam superar a perícia de Marujo.

 

Bem, depois desse dramático 0 a 0, nunca mais ouvi falar em Marujo.

 

Certamente ele virou herói da Marinha brasileira; deve ter sido promovido rapidamente a primeiro tenente, e ter se retirado da marinha alguns anos mais tarde com uma bela aposentadoria.

 

Um destino bem melhor do aquele que lhe era certamente reservado jogando pelo Canto do Rio. 

Autor: Michel Laurence - Categoria(s): Causos do Futebol Tags: ,
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