Os mais antigos devem se lembrar que esse era o título da coluna assinada por Nelson Rodrigues, primeiro na Última Hora do Rio e depois no O Globo.
Pedi emprestado porque ele se aplica ao que vou escrever, certamente sem o talento do Nelson Rodrigues, a quem peço desculpas onde estiver.

Paulo Roberto Falcão, de quem sou amigo, deixou o “conforto” de ser comentarista da Rede Globo ao aceitar dirigir o Internacional.
Esse provavelmente era um pensamento que o incomodava desde que não conseguiu dirigir a seleção brasileira com o mesmo sucesso que obteve em sua carreira de jogador.
Todo perfeccionista, e esse é o caso de Falcão, não consegue carregar durante sua vida um fracasso.
Ele chegou ao Internacional envolto pela áurea do grande craque que foi. O respeito dos torcedores e da imprensa acompanhando seus passos.
O início foi vacilante. Ele tinha que voltar a se acostumar com o ambiente que abandonou por muitos anos. Dar ordens, se fazer entender, tanto pelos jogadores quanto pela imprensa.

Os resultados no início não ajudaram. Falcão teve que tomar medidas drásticas e antipáticas:
- Não falo mais com a imprensa! – declarou.
Palavras estranhas para quem sempre teve uma postura e pensamentos elegantes.
Mas os resultados, que não chegaram no curto espaço de tempo em que foi o técnico da seleção, no Inter começaram a aparecer.
Um goleiro revelado num momento de extrema dificuldade impediu que a revolta de alguns torcedores contra o titular Renan ganhasse uma força incontrolável. E os gols aparecendo.
Paulo Roberto Falcão voltou a ter paz.
Quase a mesma história aconteceu com o também grande ídolo Renato Gaúcho, pelo lado do Grêmio.

Eu nunca simpatizei muito com o Renato, sempre o achei meio arrogante, apesar de seu sucesso como jogador ser inegável.
Alguns amigos me garantiam que ele, apesar de se achar o melhor de todos, é um bom homem.
- Olha, ele pagou do próprio bolso alguns salários atrasados de jogadores do Fluminense que estavam passando por tremenda dificuldade!
Mas, só faz isso quem pode, argumentei.
- E você se lembra do episódio com o Leandro, o lateral do Flamengo, antes da Copa de 86? Então, ele não deixou o Leandro sozinho, poderia ter deixado. Não deixou e foi cortado da seleção junto com o amigo, depois de ele ter acompanhado Leandro em uma noitada, que não chegou a ser uma balada, porque Leandro apenas tomou umas cervejas!
É verdade. Por pura amizade Renato deixou de jogar uma Copa do Mundo.
Mas, não sei!

A torcida do Grêmio o adorava. Campeão do Mundo com o Grêmio, herói dos dois gols na final contra o Hamburgo, da Alemanha, em 1983, era idolatrado.
Mas, mesmo assim, não resistiu. Os resultados não ajudaram, e, depois do empate com o Avaí, foi demitido.
Muita gente achou que quem deveria ter pedido demissão era o presidente do clube.
Mas raramente acontece de o patrão pedir perdão e praticar o “harakiri”, a não ser no Japão, onde os homens têm vergonha na cara! Apesar de achar o harakiri uma medida extremamente incompreensível.
Deve doer pra burro
A verdade é que no Inter, onde até o D’Alessandro está marcando gol, Paulo Roberto Falcão vai continuar à procura de uma perfeição apenas imaginável, enquanto Renato se arriscou e arranhou um pouco a armadura brilhante de um passado glorioso.