
Depois de Garrincha, que morreu de tanto amor pelo futebol, o “caso Adriano” é, para mim, o mais surpreendente dos últimos tempos.
Surpreendente porque não era o tipo do jogador que eu esperava ver pirar completamente.
Depois de passar dois dias e duas noites numa favela do Rio, onde nasceu, foi preso pela polícia na companhia de um suposto traficante.
Depois de quase ter sido mandado para a prisão de Bangu-1, onde estão alguns do presos mais perigosos do Brasil, Adriano acabou sendo identificado e entregue à família.
Soube ontem que, completamente desorientado, ele teria se negado, depois de colocar o uniforme, a ficar no banco da seleção brasileira no jogo contra o Peru, em Porto Alegre, na companhia do técnico Dunga. Não era uma afronta ao treinador, mas um momento de instabilidade emocional.
E hoje leio no diário Lance! que Adriano estaria decidido a abandonar o futebol.
Não quer mais jogar de jeito nenhum. Nem na Inter, nem na seleção — Dunga, diz o jornal, já teria desistido dele. Não quer disputar o Campeonato Italiano, não quer jogar num clube brasileiro e nem mesmo disputar a Copa Mundo do ano que vem na África do Sul.
Sabe-se que ele estaria enfrentando um problema de saúde da mãe.
Uma senhora que sempre representou tudo na vida de Adriano e que teve a coragem de lhe mostrar o caminho quando, numa das primeiras entrevistas feita com seu filho, ainda no Flamengo, afirmou:
— Eu criei esse menino com leite de mandioca! (E não precisou explicar que não tinha dinheiro para comprar leite de vaca).
Junte tudo, inclusive as baladas na Itália e no Brasil, e você têm o retrato de um homem massacrado pelos tempos modernos.
Dinheiro, fama, mulheres, filho inesperado porém amado, “amigos” desqualificados, morar em Milão, uma das cidades mais imponentes da Europa.
Viver muita coisa que nunca entendeu.
Gastar com medo que venha no futuro a faltar.
O temor de voltar a pobreza e morar onde morou.
Adriano que é descrito por Dunga, pelos jogadores da seleção e da Inter, e também pelo técnico da Internazionale, José Mourinho, “como um bom rapaz, que nunca deu trabalho tanto na Inter quanto na Seleção”, não agüentou.
A pressão é demais. Esperam demais das pessoas.
Explodiu!
Tomara que não lhe arranquem o pouco que lhe resta, e que ele possa viver daqui para frente – se realmente largar o futebol – de forma digna e honesta.