Quando comecei a disputar minhas peladas, garoto com 11 anos, ainda peguei a “bola de capotão” como chamavam aqui em São Paulo. No Rio era “bola de couro” mesmo. Sou mais a definição de “capotão” porque era como vestir uma bexiga de borracha com um capote de couro.
Muito bem, dentro do capotão você enfiava uma “bexiga de boi” que enchia com o ar de seus pulmões, dava um nó no caninho (não me lembro mas acho que era “bigurrilho”), enfiava no capotão e fechava a abertura do capotão com um cadarço de couro. O nó a gente procurava botar para baixo do couro do capotão, mas não poucas vezes o nó escapava durante as peladas.
Para jogar as peladas, quando não era na praia, a gente entrava pela garagem de um prédio, pulava o muro que dava para os fundos de uma grande empresa que ficava no Largo do Machado. Montamos duas traves, limpamos o terreno entre elas, e ali era o nosso Maracanã.
Não sei se o dono da empresa chegou a desconfiar, porque entre ela e o campinho, era um terreno baldio, uma verdadeira floresta. Sei que no bairro o nosso campinho ficou famoso, vinham times da Bento Lisboa, da Machado de Assis, de um conjunto de prédios bacana que ficava na esquina da Almirante Tamandaré, da Paysandu. Mas quando não vinha ninguém, o jogo era entre nos mesmos.
Aí, surgiu com a Copa do Mundo de 50 ou terá sido com a Copa Rio de 51 ganha pelo Palmeiras? A bola G18 (ou terá sido a G16?), que correspondia ao número de gomos de couro que formavam a bola. Meu pai Albert Laurence como jornalista, ganhou uma. Aí, foi uma festa. A bola tinha um furinho onde se enfiava uma agulha e enchia com o jato de ar do posto de gasolina. Também ninguém mais se machucava com o cadarço que ficava marcado no peito e na testa da gente.

Quando começamos a jogar em gramados com chuteiras (o time alugava o campo da Escola de Educação Física quase em frente ao campo do Botafogo na rua General Severiano, e ali ao lado do Túnel Novo que passou a ligar Copacabana com o centro do Rio e os bairros e subúrbios da zona norte.
A chuteira era de couro de vaca, duro feito pau. Todas negras. O bico delas era mais duro ainda. Tinha técnico de time profissional que não admitia zagueiro que não tivesse chuteira de “bico duro”.
O couro das chuteiras era tão duro que a gente passava nos açougues, pegava cebo de boi e ficava “engraxando” as chuteiras até amolecer o couro. Levava meses, as vezes a chuteira acabava antes do couro amolecer. As traves era “pregadas” na sola com pregos. Redundância? Não apenas para você perceber que com o uso, os pregos que prendiam as traves na sola da chuteira, entravam pela sola dos pés.
Não tinha sunga por baixo do calção (que os europeus do leste nunca usaram, o que originou várias histórias escabrosas). Tinha uma espécie de “tapa sexo” ou “protege sexo”, cujo nome grosseiro não vou escrever aqui, mas que era feito de uma espécie de borracha e terminava com um cinto largo, que os profissionais achavam elegante dobrar por cima da cintura do calção.
Os uniformes feitos em pano de algodão, quando suados ou molhados pela chuva se transformavam num peso extra que os jogadores carregavam por 90 minutos.
Não pense você que isso foi há 500 anos atrás. Não, as traves dos gols em 1970 ainda eram quadradas.
Aliás foi na Copa de 70 que as grandes marcas de material esportivo surgiram, inclusive quase originando um racha na seleção brasileira, quando duas delas brigaram seriamente para calçar alguns de nossos jogadores. Alguns até pintaram de preto as marcas das fábricas que não quiseram pagar o que os jogadores exigiam.
Mas estou contando isso tudo porque ontem a noite, depois do “Bem, Amigos…” fui encontrar Galvão Bueno que vai escrever o prefácio do nosso livro. O livro vai se chamar “Senhor Michel” na capa e “Monsieur Laurence” na contra-capa, idéia do meu editor, que achei legal.

Galvão me disse que quer “narrar o prefácio”:
- Eu sou um contador de histórias, Michel, não sou escritor!
Lá estavam o Renato Maurício Prado, o Alberto Helena Jr, o Paulo César Vasconcelos, o Caio Ribeiro, o diretor do programa meu amigo Ingo Ostrowsky, e o ator Rodrigo Santoro que foi no programa divulgar o filme “Heleno”, que ele interpreta e que conta a glória e a desgraça desse grande personagem, e que estréia sexta-feira em todo o Brasil.
Santoro deu de presente para Galvão a bola de capotão que foi usada na filmagem, daí esse meu causo de hoje. O “trailer” que foi exibido no programa dá bem uma idéia da loucura que tomou conta de Heleno, mostrando ele treinando no Boca Júniors – onde foi ídolo – vestindo um chiquérrimo sobre-tudo, devido ao frio, matando a bola no peito e chutando de voleio antes dela tocar o gramado.
Rodrigo Santoro encarnou de tal forma o personagem Heleno de Freitas que confessou estar tendo dificuldade para se “livrar dele”.
Que jantar, rapaz, que jantar!