Foi logo no início de minha carreira, por volta de 1965/66. O América me convidou para ser o jornalista oficial da delegação que ia excursionar pela América do Norte e México.
Naqueles tempos os times não vendiam jogadores, excusionavam para fazer caixa e era obrigatório serem acompanhados de um jornalista.
Na volta o convidado tinha por obrigação fazer um relatório minucioso sobre os jogos do time e o comportamento da delegação em geral.
Eu ainda estava na Última Hora do Rio, um jornal de uma importância histórica maravilhosa, mas que andava muito mal financeiramente.
Seu dono era o jornalista Samuel Wainer, exilado na França depois de ter sido perseguido pelos militares e por outro jornalista, dono da Tribuna de Imprensa, Carlos Lacerda, que viria a ser governador do Estado do Rio.
Samuel foi o homem que modernizou a imprensa brasileira e que apoiou até seu suicídio o presidente Getúlio Vargas.
Bom, mas para você não pensar que tudo era uma maravilha: viajar e conhecer o mundo de graça, posso adiantar que tinha lá seus inconvenientes. Por exemplo: como o jornal estava quebrado, disseram que não poderiam me pagar uma diária. Além disso eu só poderia mandar via telegrama uma, duas ou três linhas relatando o que tinha sido o jogo e o América me oferecia apenas dois dólares e meio por dia, mas que pagaria os “bichos” por empate e vitória.
Galhardamente recusei os “bichos” dizendo que eu não ia jogar. Os dirigentes acharam ótimo. Eu nem tanto, afinal dois dólares e meio por dia mal davam para tomar uma cervejinha de vez em quando.
Bem, mas lá fui eu para uma viagem que deveria durar um mês, mas que o empresário ia “esticando” a cada vitória arrancada pelo time.
Numa dessas esticadas fomos parar no Haiti que era presidido naquela época pelo ditador François Duvalier, mais conhecido como Papa Doc.
O América para economizar viajava com apenas 17 jogadores, 11 titulares e 6 reservas. Entre os titulares dois garotos que faziam um sucesso danado: a ala esquerda Edu e Eduardo.
Edu, irmão de Zico – que era ainda muito menino e ninguém conhecia na época, e irmão também de mais dois outros jogadores: Antunes, que tinha sido artilheiro do campeonato carioca jogando pelo Fluminense e Nando, que jogou como lateral-esquerdo no Bahia.
Edu jogava uma barbaridade. Eduardo também. Tinha no centro e no chute suas principais armas. Economizava nos dribles, mas era um garoto fantástico, que adorava a Jovem Guarda de Roberto Carlos, cheio de anéis e gomalina nos cabelos. Algum tempo depois Eduardo foi vendido para o Corinthians e lamentavelmente faleceu, junto com o lateral Lidu, num acidente de automóvel, quando se dirigia para o Parque São Jorge.
Mas para fazer um rachão todo mundo entrava: o técnico, Wilson Santos, o médico, Santarosa, o massagista – que era também roupeiro, e eu.
No primeiro jogo contra a seleção do Haiti, o América venceu fácil, 4 a 0 – bons tempos aqueles, José Trajano – e o segundo se transformou numa questão de honra para a torcida do Haiti.
Num desses rachões joguei pela ponta-direita e com a colaboração do técnico Wilson Santos, que estava me “marcando”, fiz 3 gols.
Rapaz, quando acabou a brincadeira dois ou três jornalistas se
precipitaram brigando para me entrevistar. Eles nem raciocinaram que não era normal um jogador falar francês.
Eles me entrevistaram e eu expliquei que não era jogador, mas eles não acreditaram, acharam que eu estava tentando enganá-los.
Quando contei a história o pessoal ria pra burro, mas qual não foi nossa surpresa quando no dia seguinte minha foto saiu nos dois jornais dizendo que eu era “a arma secreta do América” para esse segundo jogo.
Por dentro me senti um verdadeiro Pelé.
Só para completar a história, foi a primeira vez que percebi a importância de um técnico. Antes do jogo, vi os jogadores do Haiti se aquecendo, e achei que eles estavam meio eufóricos demais.
Avisei Wilson Santos e ele reuniu o time para dar a seguinte instrução: “Se a gente ganhar o sorteio vamos escolher a bola. Miguel você toca para Edu, que atrasa para Sudaco. Eduardo ‘pica’ entre o lateral e o central deles. Sudaco lança e você, Eduardo, manda a bomba”.
Foi dito e feito. Logo depois de o Baby Doc filho do Papa Doc cercado por duas dezenas de guardas armados de metralhadoras apontadas para o povo entrou em campo para dar o ponta-pé inicial, Miguel tocou para Edu, que atrasou para Sudaco, que lançou para Eduardo e que acertou uma bomba sem defesa para o goleiro.
Um a zero e bola para o mato, que os homens corriam feito uns desesperados.
O chato é que ninguém me perguntou por que eu não estava jogando.