Eu tinha acabado de ser contratado pela revista Placar. Início do ano de 1970. Na primeira reunião de pauta ficou decidido que a capa da revista número 1 seria Pelé erguendo a Taça Jules Rimet. Afinal, se a seleção, que tinha passado feito um furacão pelas eliminatórias seis jogos, seis vitórias fosse tri o Brasil ficaria com a posse definitiva do troféu.
Pela minha facilidade com Pelé ficou também decidido que eu faria a entrevista. Lá fui eu para o Retiro dos Padres, no Rio, onde a seleção, ainda sob comando de João Saldanha, estava concentrada. A entrevista deu certo, mas as fotografias não foram do agrado de Woyle Guimarães, editor-chefe da revista na época. As fotos de Pelé erguendo uma réplica da Jules Rimet não ficaram legais.
Só que logo a seguir a seleção foi dispensada e Pelé viajou com o Santos para Santiago do Chile, onde ia disputar um torneio internacional. Fui para Santiago, onde tinha que encontrar um fotógrafo chileno contratado pela revista. Pelé pacientemente posou com a réplica da Taça e eu fui encontrar com uma moça que facilitaria meu trabalho, inclusive com uma credencial para os jogos do Santos.
No fim do dia ela me explicou que uma família brasileira exilada no Chile (é preciso lembrar que em setenta o Brasil vivia a ditadura militar sob o “governo” do general Emílio Garrastazu Médici) me convidava para um jantar. Eu aceitei, mas é óbvio que estava muito mais preocupado com o trabalho para a revista do que com qualquer outra coisa. No fim do jantar, quando a gente já estava se despedindo, o chefe da família me perguntou se “eu podia levar uma bolsa para o filho dele em São Paulo”. Respondi que sim, desde que não fosse uma mala muito grande.
Não, é uma maletinha de mão explicou o homem.
Ficou combinado que ele deixaria a maleta na portaria do hotel.
Continuei meu trabalho, numa das sessões de fotos colocamos o Pelé sobre a marquise do hotel. Parou o trânsito, um engarrafamento monstro se formou nas ruas em volta do hotel. O Santos, à noite, foi campeão e eu no dia seguinte voltei para o Brasil carregando vários rolos de filmes e a maleta que o porteiro do hotel me entregou gentilmente.
Eu tinha que fazer baldeação em Montevidéu. A diferença de horário entre um vôo e outro era de duas horas. Fui para o bar do aeroporto de Carrasco onde se formava um pequeno tumulto. Muitos jovens gritavam loucamente, principalmente as mocinhas, pedindo autógrafos.
Passei de lado pela confusão, peguei uma mesa e pedi uma cerveja. A uruguaia é boa! O tumulto foi se acalmando e quando olhei para o lado achei o cara muito parecido com o rei Roberto Carlos. Aliás, ele se levantou veio até minha mesa e pediu uma caneta emprestada. Aí, quando ele falou “bicho” tive certeza que era o ROBERTO CARLOS em pessoa.
Começamos a conversar, embarcamos conversando e o RC7 se juntou a nós dentro do avião. Roberto Carlos queria saber tudo a respeito da minha profissão. Imagine! Eu sentado ao lado de Roberto Carlos e ele querendo saber da minha vida.
De repente o comandante do avião anunciou pelo alto-falante que estávamos entrando em território brasileiro e que íamos descer em Porto Alegre para fazer alfândega. Gelei! A maleta! O que será que tinha dentro da maldita maleta? Já me imaginei sendo preso, ninguém acreditando na minha história, principalmente pela minha ingenuidade.
Descemos do avião, chegamos na alfândega e eu me imaginava com a maior cara de terrorista, o medo estampado no rosto. Eu já estava pensando em largar a maleta como se não estivesse comigo. Aí, veio o chefe da alfândega que gritou:
Ei, Roberto, quanta honra! Quais são suas malas?
Roberto Carlos apontou toda a sua imensa bagagem, se virou pra mim e perguntou:
Bicho, quais são as suas?
Apontei e o chefe, com um giz, fez um xis em todas as malas.
Até hoje não sei o que tinha na maleta.
Só sei que o filho se realmente era o filho do homem veio buscar a maleta as “três horas da madrugada”!
Obrigado, Roberto, 37 anos depois, muito obrigado, Roberto!