
Devo boa parte da minha carreira como repórter a este senhor que nos deixou ontem pela manhã.
Uma manhã de domingo onde acontecem as coisas do futebol.
Como tinha que ser para um homem que só viveu por amor ao futebol e a família.
Graças a ele aprendi muito, sem que ele tivesse em momento nenhum um ar professoral.
Ao contrário. Júlio Mazzei parecia satisfeito quando via um de nós no vestiário ou no campo da Vila.
Abria um sorriso e começava uma verdadeira aula.
Era fácil compreender por que os jogadores o compreendiam.
Ele os compreendia primeiro.
O relacionamento era sua força máxima.
Sabia conquistar e se deixar conquistar.
Inventava exercícios. Foi o primeiro a quase sempre usar a bola no preparo físico.
Pelé deve muito do que foi ao “professor” como era chamado por todos.
Primeiro no Santos e depois no Cosmos de Nova Iorque.
Eu me lembro que quando eu chegava à Vila Belmiro sem idéia do que ia fazer, ele abria um sorriso e começava a falar. Falava baixinho para que a gente prestasse atenção:
- Olha, hoje cronometrei: Pelé fez 60 metros em 7 segundos e 48 centésimos. Isso quer dizer que se ele fosse um velocista correria os 100 metros em 11 segundos e pouco. Treinado seria um atleta olímpico.
Em outro dia:
- Você sabe – e abria um sorriso – que o Pelé ganha dois ou três centímetros pulando para cabecear uma bola com os braços levantados? É, quando ele chega ao máximo de seu salto, abaixa os braços com violência, desloca seu centro de gravidade e sobe mais dois ou três centímetros.
E mais uma vez num dia sol:
- Olha, Michel, o Pelé tem uma visão periférica melhor do que todo mundo. Ele consegue ver muito mais as coisas em volta dele, o que lhe permite se prevenir do bote dos marcadores.
E num dia de chuva sentava ao lado da gente durante o coletivo e:
- Repara só, como Pelé raciocina antes de todo mundo. Você viu? Ele já sabia o que ia fazer antes de receber a bola. Por isso que ele é gênio. Você viu? Quando ele “matou” a bola, ele já tirou um da jogada e estava pronto para chutar a gol.
Eu ficava admirado. Tudo isso que estou contando é a mais pura das verdades. Se desconfiarem é só ir no jornal O Estado de São Paulo e pedir a Edição de Esportes do Jornal da Tarde, entre 1967 e 1969.
Está tudo lá.
Ele era desafiador, talvez por isso nunca tenha sido chamado para servir à seleção brasileira.
Os cartolas não gostam de revolucionários, de pessoas independentes, inteligentes, de homens com idéias na cabeça.
Eu sei que nesses últimos anos não deram muita bola para o professor Júlio Mazzei. Ele ficou doente. Às vezes era tão lúcido e inteligente quanto antigamente. Abria o imenso sorriso e abraçava as pessoas que gostava com carinho.
Espero que ele não faça tanta falta ao futebol brasileiro quanto acho que ele vai fazer.
E que receba, onde estiver, meus agradecimentos, coisa que nunca tive coragem de fazer a ele pessoalmente.