
Silva Batuta
Eu era jovem, começando carreira no jornal Última Hora, do Rio.
Tudo era maravilhoso.
Entrava no Flamengo sem precisar mostrar minha carteirinha de jornalista. O porteiro já me conhecia.
Passava na lanchonete comia um misto quente que eu achava delicioso.
Passava pelo portão da grade que separava a área social da dos profissionais da bola, sentava na beira do campo e sentia o olhar dos torcedores me seguindo.

Cesar Maluco
Nesse dia cheguei quando os jogadores já estavam batendo bola no gramado. Tinha um bom relacionamento com eles. Principalmente com César, que ainda não era o “Maluco” do Palmeiras, mas já era o recordista de gols marcados no campeonato juvenil; com Almir, o Pernambuquinho, valente que só ele e jogador de um futebol refinado; com Paulo Henrique, o lateral esquerdo; com Osvaldo Ponte Aérea (depois dos jogos pegava a ponte-aérea para São Paulo, onde morava a mulher dele, daí o apelido) e com Silva, o Batuta, que dividia com Almir a idolatria dos torcedores.

Nelsinho (Esquerda), Almir Pernambuquinho (Meio), e Silva, Ataque do Flamengo em 1966
Eu mal tinha sentado a beira do campo quando vi o Silva vir em minha direção. Pelo jeito vi que não era uma atitude amiga.
E não foi. Ele explodiu:
- Pô, meu, você está querendo me complicar?
Sem entender o que ele estava reclamando, perguntei:
- O que foi?
E ele aos berros:
- Pô, rapaz, o que você escreveu no jornal!
Por sorte eu sempre ia aos treinos com a Última Hora embaixo do braço.
- O que eu escrevi? Nem falei de você – argumentei.
Nisso a arquibancada lotada de torcedores começou a se manifestar. Era véspera de clássico contra o Vasco. Começaram a me xingar e pela primeira vez eu tinha que enfrentar uma situação complicada. O ambiente fervia. Eu não sabia muito bem como agir, só sabia que eu não tinha escrito nada que pudesse ter deixado o Silva tão irritado.
- Nunca mais falo com você! – foram as últimas palavras que gritou antes de entrar no vestiário.
Levantei e entrei (o que era proibido, eu nem notei e também ninguém me impediu) atrás dele. O Batuta estava sentado no banco tomando água. Abri o jornal e disse:
- Oh, cara, aqui está o que escrevi! Me mostra o que te deixou com raiva!
- Não, não é aí – gritou – é na página de dentro!
Eu ainda nem tinha lido a página de dentro. Fiquei preocupado. Será que tinham escrito alguma coisa sem me avisar?
Abri o jornal devagar e procurei. Silva já tinha levantado e estava se preparando para voltar ao campo. Encontrei e perguntei:
- É isso aqui?
- Claro – ele respondeu ainda mais irritado – não fiz nada disso. Não fui ao Corinthians para pedir para voltar? Fui pedir uns documentos, mais nada. Isso pega mal prá mim. Sacanagem!
- Silva – falei tranquilamente – olha aqui. Essa reportagem veio de São Paulo. Olha aqui, está escrito: São Paulo. Não tenho nada a ver com isso!
Ele ficou me olhando sem saber o que falar:
- Olha, cara, me desculpa! Eu não vi que era de lá! Me desculpa, sinceramente.
Aí foi minha vez de reclamar:
- Tudo bem, aceito suas desculpas, mas você vai ter que pedir essas desculpas lá fora, na frente dos torcedores!
Ouvi uma risadinha no fundo do vestiário. Olhei, era o Almir que tinha ouvido tudo enquanto se preparava para entrar em campo. Silva ainda acabrunhado, explicava:
- Cara, não posso fazer isso. E minha moral?