
Não sei bem por que, nós jornalistas não costumamos agradecer uns aos outros.
Certa vez na TV Globo do Rio, onde fui chefe de redação no esporte, e onde aprendi muito com um homem chamado Armando Nogueira, ele me disse duas coisas que marcaram a minha carreira.
A primeira é que o jornalista é por formação desde seu nascimento “um lobo solitário”. Para qualquer jornalista bastava a companhia naquela época de sua máquina de escrever.
A segunda é a de que para você escrever alguma coisa que presta, você tem que a reescrever dezenas de vezes “até sangrar pela ponta dos dedos!”.
Por sermos lobos solitários – você; o intolerável Juca Kfouri; o grande, que no meu tempo de Jornal do Brasil tinha por companheira além da máquina de escrever, uma bengala, Fernando Calazans: o assíduo da praia do Leme, dono de um dos textos mais brilhantes que já vi na minha longa carreira e recordista de Prêmios Esso, Márcio Guedes – vocês quebraram um tabu e me citaram como um dos criadores da Bola de Prata, ao que o Juca teria se apressado em acrescentar o nome do meu inesquecível parceiro de tantas reportagens e coberturas Manoel Motta Neto como sendo também um dos criadores. Nada mais justo.
Sabe, Trajano, quando me contaram isso ontem na mesa de um bar, veio um nó na garganta (na segunda-feira fui jantar com meu filho Felipe, que passou para o segundo ano no Mackenzie e por isso não vi o programa da noite sobre a Bola, o da entrega ao meio dia assisti) comecei a recordar coisas que estavam guardadas lá no fundo de minha memória. Por exemplo: a risada do Manoel (vou publicar uma foto dele dentro de mais alguns dias) que ria do meu nervosismo em ficar até altas horas da madrugada calculando numa máquina de somar dessas de puxar a manivela, a média dos jogadores; do Juca olhando para nós, principalmente para o Hedyl Valle Jr. com uma admiração danada.
Sabe, Trajano, descobri que esse tipo de coisa faz um bem danado a alma da gente. Não tem a companhia de um computador que dé jeito.
Sabe o que pensei também? É que a gente deveria homenagear grandes jornalistas como o Kotscho; o Mino Carta (que revolucionou duas vezes a imprensa brasileira com a criação de o Jornal da Tarde e a Veja); o Clóvis Rossi; o Villas-Boas Correa; o Armando Nogueira – já que não tivemos tempo de homenagear João Saldanha, Sandro Moreira, etc.
Escrevi isso tudo para te agradecer. Não sei se você vai ler, mas é que falando eu sou uma desgraça e você capaz de ficar chateado comigo. Então escrevi e reescrevi até sangrar pela ponta dos dedos.
Um grande beijo e um imenso muito obrigado (até para o Juca)!