O Destino Brinca com Dois Amigos!

Eles nasceram juntos para o futebol.
Brincavam de serem homens e viviam como meninos.
Dividiam o mesmo quarto embaixo da arquibancada.
Ouviam o jogo, sem vê-lo. Sabiam o que acontecia pelo som da torcida.
Aprenderam juntos a dominar a ansiedade de entrar em campo como os que estavam jogando, provocando aqueles sons que eles sabiam que um dia, seriam provocados por eles.
Um certo dia apareceu alguém com uma varinha de condão e bateu na cabeça deles.
Os dois subiram garotinhos para o time principal.
Estouraram.
O negro mais do que o branco.
O negro era um artista capaz de criar na hora jogadas que maravilhavam os que amam o futebol.
O branco mais calculista, mais realizador, surgia apenas vez por outra brilhando intensamente.
Os dois andavam no fusca do branco.
Os dois sonhavam em ter uma Mercedez, um Porshe, um Jaguar desses que refletiam a luz do Sol ou da Lua, e que sumiam velozes como num passe de mágica.
Não demorou muito. Um foi para a Espanha por uma verdadeira fortuna. O outro para Portugal por uma fortuna menor.
Um é chamado a toda hora para a seleção. O outro só de vez em quando.
O artista, o que provocava risos com seus dribles e suas pedaladas, risos que só Garrincha tinha provocado antes, era apontado pelo mundo como o próximo eleito da FIFA.
O realizador enfrentava um “professor” que como muita gente enfrenta nos colégios, não gostava dele. Foi para a Alemanha. Parecia um destino cruel.
O negro, eleito de Zidane & Cia, foi se perdendo em meio aos imensos elogios.
Dinheiro, mulheres nem sempre amigas, a vida boa e bela, que engana.
O amigo fez coisas na Alemanha que o transformaram no melhor do ano. Aos poucos a beleza do futebol dos tempos de garoto foi ressurgindo de seus pés. A beleza de um futebol seguro, agora maduro, e cada vez mais inteligente.
Os dribles continuavam não sendo tão bonitos e festivos quanto os do amigo, que começava a lhe causar preocupações. As notícias não eram boas. Elas diziam que o talento em forma de gente queria deixar o paraíso das “pesetas” de ouro.
Foi embora pensando no ouro dos ricos piratas russos e acabou nas garras dos ricos piratas russos menos famosos.
O futebol foi minguando. As jogadas se tornando mais difíceis, a ponto do que era unanimidade nacional se transformar em pomo de discórdia.
A vida é engraçada.
Ao mesmo tempo em que o talento em forma de gente ia decaindo, o amigo se transformava numa atração mundial. A sua transferência para a Juventus, da Itália, por uma pequena fortuna, provocou uma questão: se ele é tão bom para o milionário futebol italiano, por que ele não é tão bom para a seleção que precisa como nunca, de um meia?
A destino as vezes parece querer ensinar.
O talento está a procura de suas origens. Pede para voltar e para tentar reencontrar o futebol que um dia o fez mais feliz do que todos.
Talvez até deixar a mansão de muitos quartos em que vive com um cachorro de raça, e retornar para o beliche no quarto acanhado debaixo da arquibancada.
Talvez até a se reacostumar a identificar os sons que vem do estádio.
Sons que já o fizeram sonhar em ser o melhor do mundo.

