Fernando Fernandes me liga:
- Vamos almoçar!
- Tenho gravação do programa – respondo – só se for depois das duas!
- Chega na hora que você puder, vamos te esperar!
Chego no restaurante bem tarde, o programa atrasou, acho que não vou encontrar mais ninguém.
Lá estão eles, falando em voz alta. O único jornalista que conheço que fala baixo… sou eu.
Chego na mesa e com o Fernando sorridente, estão Oliveira Andrade, um dos maiores narradores que conheço, de humor negro e constante; Juarez Soares que eu não via fazia muito tempo, jogamos muitas peladas um contra o outro, ele pelo time da Folha de São Paulo e eu pelo do Jornal da Tarde na década de 60; e o Zeca Maraston, um contador de histórias insuperável e um “fazedor” de programas de televisão como poucos. Na mesa umas sobras de várias feijoadas (foi na quarta-feira, dia tradicionalmente de feijoada em São Paulo, junto com a de sábado) e prováveis algumas caipirinhas e cervejas.
No teto do restaurante bandeiras para todos os gostos, até a de Cuba e a do Flamengo.
Fim de ano, almas em paz, sobram elogios e recordações.
Falamos de grandes amigos, Rivelino, Gérson – o Canhotinha de Ouro – Pelé, Tostão…
- Adoro o Tostão, convidei ele para trabalhar com a gente na Cultura, mas não deu – explico.
- Trabalhei com ele na Band – lembra Fernando – durante a Copa da França, em 98.
- Me lembro, ele até me entrevistou não para a Band, mas para uma rádio. Fiquei tão espantado que nem me lembro o que respondi – recordei.
- Olha – continua Fernando – uma vez a bola do treino da seleção caiu perto de mim e comecei a tocar com um colega. A bola batia na canela da gente e o Tostão olhando. Esperei um pouco e toquei pra ele. Ele me devolveu com um simples tapa na bola. Continuei com as caneladas com o companheiro, até que Tostão falou: vocês não jogam nada. Dá aqui!
Fernando sorri:
- Joguei a bola pra ele. Ele dominou na canhota e começou a fazer as embaixadas. A bola não caia e começou a juntar curiosos. O treino da seleção ficou em segundo plano, neguinho aplaudia a cada firula que Tostão fazia. Aí ele devolveu a bola para o roupeiro da seleção.
Fernando continuou:
- Fui lá e dei um abraço nele. Tostão parecia acordar de um sonho e me disse: “essa é a primeira vez que chuto uma bola depois que parei de jogar”! Ele parecia feliz.
- Pois é – emendou o Maraston – depois que ele se formou como médico ficou um tempão sem ir ao estádio, ou falar de futebol. Chegaram a dizer que ele tinha ódio do futebol. Ele me garantiu que ia ao estádio disfarçado, para não ser reconhecido. Vai ver que ia mesmo. Futebol tá no sangue.
- Esse negócio que futebol está no sangue é pura verdade – comecei a contar.
- Por que? – perguntou Oliveira.
- Bem – continuei – é que no fim da Copa de 86, no México, eu estava trabalhando na extinta TV Manchete, quando passei pelo corredor no centro de TV e lá estavam conversando o Gerson, o Rivelino e op Pelé. Rivelino e Gérson trabalhando na Band, Pelé na Globo. Cheguei e fiquei ouvindo. Sentamos no chão no corredor!
Enquanto tomava um fôlego, olhei para a turma e senti que o pessoal da mesa ao lado também estava prestando atenção.
- Chegou um cara, não sei de onde, e falando em inglês disse: “vocês três sem uma bola não existe”, jogou uma bola de papel enrolada com fita durex e continuou andando e rindo. Fiquei esperando para ver a reação dos três. De repente Gérson agarrou a bola e mesmo sentado no chão tocou para Rivelino, o Reizinho do Parque de prima tocou para Pelé e ficaram os três brincando com a bolinha de papel enquanto ela resistiu. Os três riam e tiravam sarro um do outro como crianças.
Parei e completei depois de reparar no efeito que a historinha tinha causado:
- Olha, tantas câmeras de televisão naquele prédio que reunia redes do mundo inteiro e nenhuma para registrar aquele momento mágico.
- É isso – falou Juarez – nos somos uns privilegiados!
- Na verdade somos os maiores fãs desses caras! – acrescentei.
- Uma vez na Europa – retomou Juarez – não me lembro se foi em 82, reuniram para um jogo beneficiente, o Puskas, um húngaro e um dos maiores jogadores do mundo de todos os tempos; o Just Fontaine, artilheiro da Copa de 58, e recordista até hoje com 13 gols; o Eusébio, o maior jogador português de todos os tempos, artilheiro da Copa de 66 com 9 gols e o Uwe Seeler, um alemão baixinho, fantástico, artilheiro e que rivaliza até hoje com Franz Beckenbauer como o maioor jogador alemão da história.
E naquele jeito malandro que só o Juarez sabe fazer, perguntou:
- Poucos deuses do futebol? Aí, esperei que tirassem a fotografia dos quatro juntos e quando estavam quase terminando, eu que ia fazer parte do outro time, corri, me coloquei na ponta-esquerda daquela fantástica linha e pedi: “tira a foto” para um grande amigo.
E ele sorriu com gosto.
- Esperei alguns meses antes que o “amigo” fotógrafo conseguisse me mandar a foto, mas valeu a pena. Eu mostrava a foto para os amigos e contava: “só joguei 15 minutos, fiz um gol e eles todos vieram me abraçar”. Acrescentar apenas uma mentirinha a uma foto dessas não é maldade nenhuma.
Oliveira riu, aquele sorriso triste dele, e explicou:
- Sabe, não tenho uma história dessas para contar. Locutor fica lá em cima na cabine e tem pouco contato com os jogadores. Uma vez o Galvão Bueno acho que foi narrar um grande prêmio de Fórmula-1, e sobrou pra mim a narração de um jogo da seleção na Paraíba se bem me lembro.
Todos nós ficamos esperando o fim da história.
- Eu estava feliz – continuou Oliveira Andrade – não era comum sobrar um jogo da seleção para eu narrar nos tempos da TV Globo. Eu estava já na cabine, pronto para narrar o jogo, quando bateram na porta, um homem risonho, colocou a cabeça para dentro da cabine e perguntou com aquele sotaque nordestino: “é Galvão, é?”.
Caimos na gargalhada.
Rachamos a conta. Levantamos e quando chegamos na calçada pedi ao Juarez:
- Escuta se a história for verdadeira – e sorri – me manda a foto que prometo devolver depois de publicar no meu blog!
Juarez prometeu:
- Pode deixar, mando, sim! E olha – acrescentou ele olhando para a minha pobre e velha bengala – vou te mandar de presente uma bengala. Eu coleciono bengalas… tenho umas 70 e poucas bengalas lá em casa. Vou mandar uma para você.
Meu Deus, final de ano é assim mesmo!
FELIZ ANO NOVO PARA TODOS (menos para “alguém, alguééémmmm”)