Passei minha juventude jogando bola.
Ganhando um dinheirinho aqui, outro ali.
Mas a minha paixão sempre foi a bola.
Meus melhores amigos fiz nos campos de futebol.
Bem jovem fizemos um time na rua Almirante Tamandaré, na Praia do Flamengo, no Rio, que tinha um uniforme igualzinho ao do Corinthians, camisas brancas, calções pretos, meias brancas.
Só que mesmo batendo na porta de gente mais abastada, como o repórter Amaral Neto – um grande sucesso da TV Tupi na época – que morava num prédio dos mais bonitos da rua, não arranjamos dinheiro suficiente para comprar as camisas numa loja.
Mandamos fazer numa costureira.
Claro, ela fez as camisas como se fossem para ir a missa aos domingos.
Então era um time bem “arrumadinho”, que espantava os adversários pela qualidade do uniforme.
Só que aos poucos o time foi ganhando fama e a gente conseguia com facilidade marcar um jogo por semana aos sábados.
Até que um dia apareceu um convite que dividiu a rapaziada.
O convite, em papel timbrado, vinha de um time cuja sede era na temida Barreira do Vasco.
Na época, mil novecentos cinqüenta e qualquer coisa, a Barreira do Vasco era o bairro de pior fama no Rio.
- Se a gente ganhar não vai sair vivo de lá – rosnou Pelôpidas, cujo pai era como se pode adivinhar, admirador da história grega.
- Vai, também não é assim, os caras tem até papel timbrado! Melhor do que a gente! – garantiu Ruy, um meia de grande habilidade.
As moças que sempre acompanhavam o time afirmaram que “na Barreira do Vasco a gente não vai!”.
Mas como a maioria foi a favor do jogo, respondemos ao convite garantindo que no próximo sábado estaríamos lá, as três da tarde.
O campo era o deles.
No sábado chegamos ao local do campo depois de mesmo andando a pé, nos perdermos umas três vezes. O bairro era assustador. Casas pequenas, ruas de terra, gente mal encarada. Mas chegamos ao campo sem maiores problemas. Foi quando um gurizinho chegou perto de mim e perguntou:
- São vocês que vão jogar contra o Barreira?
- Sim – respondi.
- Olha, moço, não sei se o senhor já sabe, mas esse time não perde aqui há mais de três anos!
Sorri amarelo para o menino, enquanto um dos “diretores” do time da Barreira, dizia quea gente podia trocar de roupa ali mesmo e deixar segundo ele “nossos pertences” numa vala bem ao lado de uma das laterais do campo.
- Pode ficar tranqüilo, ninguém vai tocar em nada de vocês. O pessoal é da paz.
Ficamos meio desconfiados, mas não tinha outro jeito ou trocava de roupa ali mesmo ou íamos embora, o que provavelmente não seria muito “saudável”.
- Não falei, não falei – rosnava Pelô.
Mal começou o jogo e na cobrança de um escanteio Ronaldo (que não era o Fenômeno, mas jogava direitinho) de cabeça fez 1 a 0.
O campo até aquele momento estava praticamente vazio. Mas foi marcar o gol para começar a chegar gente de todos os lados. Em poucos minutos o campo estava completamente cercado.
Foi quando ouvi uma voz atrás do meu gol.
- Goleirinho, ó goleirinho, dá uma olhada aqui, dá!
Andei até a marca do pênalti, para ver se o cara parava de me azucrinar.
Mas ele era persistente.
- Goleiro, esse time não perde aqui, acho bom você dar um jeito, porque não sei o que pode acontecer se o time daqui perder!
Mas o time da Barreira nem chegava perto do meu gol. Foi quando resolvi desafiar o cara.
Olhei para trás e gritei:
- Ora, meu amigo, não enche o saco, vai se…
O cara apenas levantou a camisa de meia, mostrando a barriga, onde vi a coronha de um revólver, tipo Mauser, presa ao calção.
Calei a boca e quando terminou o primeiro tempo, juntei a rapaziada e falei:
- Escuta, tem um cara atrás do meu gol com um revólver do tamanho de um bonde, me ameaçando. Vamos perder esse jogo de qualquer jeito!
Todo mundo, claro, concordou, só o Pelô aproveitou para humilhar:
- Ta vendo, agora você deixou de ser o valentão, não é? Avisei!
A gente tinha que falar baixinho para as pessoas em volta não ouvissem. Sei lá o que poderia acontecer se soubessem que a gente estava tramando perder o jogo de propósito. Mas uma coisa estava certa, não faltava nada de ninguém dentro da vala.
Quase pedimos licença ao povo para entrar no campo.
Só que o adversário mal atacava. Eu já estava ficando desesperado e o cara atrás do gol falando:
- Goleirinho, vê lá o que você está arrumando. Você não tem família. Não tem pai, não tem mãe. Você não gosta deles?
Até que finalmente um atacante deles chutou de longe, meu zagueiro furou de propósito, a bola veio pererecando, eu corri, bati na trave oposta e voei para não alcançar.
Só ouvi a voz atrás do meu gol:
- Boa, goleirinho, boa, Agora só falta mais um.
Só que os caras não chutaram mais nenhuma.
E quando faltavam uns 2 minutos para terminar, Jorginho, um ponta-direita arisco, driblador e veloz,cruzou da direita. O vento foi empurrando a bola para o gol. Eu já previ o que ia acontecer. O goleiro pulou, mas a bola morreu dentro do gol.
Nem olhei para trás.
Saí correndo, pulei no meio do povo, peguei o que pude da minha roupa e saí numa desabalada carreira em direção a avenida Brasil. Eu só ouvia a voz gritando lá longe:
- Vou pegar você, goleirinho, vou pegar você!
Rapaz, atravessei a pista mais estreita da avenida em dois pulos e me agarrei ao balaustre de um ônibus que acabava de sair do ponto. Finalmente, olhei para trás, vi alguns rapazes do time correndo, mas não vi o cara do revólver.
Foi só aí que notei o pessoal do ônibus rindo de mim, principalmente o cobrador, que perguntou as gargalhadas:
- Você estava jogando aí na Barreira do Vasco?
Balancei a cabeça timidamente:
- É, meu amigo, todo sábado e todo domingo é a mesma coisa!
Palavra de honra, o Pelôpidas até hoje me cobra!