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Arquivo da Categoria Causos do Futebol

sábado, 21 de março de 2009 Causos do Futebol, Contos do Futebol | 13:58

Imagens de um gênio chamado Pelé!

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Fazia frio em Santos naquela noite de 1974.

 

O gramado da Vila Belmiro ainda era aquele que empapava com a chuva. O campo estava meio enlameado.

 

O meu amigo José Maria de Aquino (meu parceiro no Prêmio Esso de Jornalismo Esportivo, que ganhamos em 1969, na Edição de Esportes de O Estado de S. Paulo), cobria o jogo pelo Placar, eu pelo jornal O Estado de São Paulo.

 

Não era bem o jogo que nos tinha levado até Santos.

 

Um jogo contra a Ponte Preta, como outro qualquer.

 

Era a despedida de Pelé.

 

Ele tinha resolvido abandonar o futebol ou como ele me garantiu “antes que o futebol o abandonasse” (como se o futebol algum dia teria sido capaz de tamanha heresia)!

 

De repente nos vimos Pelé agarrar a bola com as duas mãos, se ajoelhar no meio de campo, abrir os braços, e girar em cima dos joelhos para os quatro lados do estádio.

 

Pelé começou uma volta olímpica agradecendo ao público, uma corrida acompanhada por dezenas de jornalistas inclusive o Aquino e eu.

 

Na minha cabeça, enquanto corria tentando acompanhar Pelé até boca do túnel que naquela época era umverdadeiro alçapão, passava um filme quase interminável:

 

1284 gols,

 

1000 gols com 29 anos,

 

11 vezes artilheiro do Campeonato Paulista – sendo que 9 vezes seguidas,

 

58 gols em 37 jogos no Campeonato Paulista de 1958 – recorde mundial,

 

8 gols num único jogo, na vitória por 11 a 0 sobre o Botafogo, de Ribeirão Preto, em novembro de 1964,

 

3 vezes campeão do mundo pela seleção brasileira,

 

2 vezes campeão do mundo pelo Santos – sendo que na época 1962/63 a final era disputada em dois jogos, uma no país do adversário e outra aqui,

 

96 gols pela Seleção Brasileira – recorde até hoje,

 

5 vezes campeão da Copa do Brasil,

 

62 títulos conquistados em torneios pelo mundo inteiro,

 

Atleta do Século eleito em 12 de junho de 1980, superando mitos como Mohammad Ali, Jackie Stewart e outros.

 

Essa foi a única vez que vi um atleta agradecer de joelhos ao público, quando deveria ser o público a ficar de joelhos eternamente grato por Pelé ter nascido aqui.

 

 

Seria totalmente impossível relacionar todos os títulos conquistados por Pelé no exterior.

Autor: Michel Laurence Tags:

terça-feira, 17 de março de 2009 Causos do Futebol, Gênios do Passado | 15:59

CAUSOS DO FUTEBOL: A ESPERTEZA DE JOÃO SALDANHA!

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A Seleção Brasileira, remodelada por João Saldanha, começava a disputar as Eliminatórias de 69, para a Copa do Mundo de 70, no México, e acabava de derrotar a Colômbia, em Bogotá, por 2 a 0, dois gols de Tostão.

A rapaziada estava embarcando para o segundo jogo contra a Venezuela, no estádio Universitário, em Caracas.

Naquele tempo, as pessoas embarcavam caminhando pela pista até a escada do avião, e também a CBF facilitava – como os números de vôos ainda eram pequenos – para jornalistas viajarem no mesmo avião da seleção.

Eu estava na rabeira da fila, conversando com Carlos Alberto Torres, o maior lateral-direito que vi em minha vida.

De repente, quando chegamos quase ao pé da escada, um oficial do exército colombiano, acompanhado de três ou quatro soldados, se aproximou e, colocando a mão no meu peito, disse:

- O senhor não embarca!

Procurando ser o mais educado possível, e naqueles tempos de ditaduras por quase toda a América do Sul era preciso, perguntei:

- Por que? Qual é o problema?

O oficial nem pestanejou:

- O senhor vai ter que nos acompanhar!

Nisso, o Carlos Alberto já estava cegando na porta do avião, entrei em pânico e gritei:

- Carlinhos, Carlinhos – e ele olhou para trás. Estou sendo preso!

Carlos Alberto botou a cabeça para dentro do avião e avisou:

- Pessoal, estão prendendo o Michel!

Com o oficial surpreso, a delegação inteira de jogadores, dirigentes e jornalistas começou a descer do avião. O primeiro a chegar foi João Saldanha, que me explicou baixinho:

- Michel, fica calmo e deixa comigo que eu resolvo.

E, virando-se para o oficial, que ainda me segurava pelo braço, perguntou:

- Por que estão prendendo esse jornalista brasileiro?

- Não estamos prendendo, pedimos que ele nos acompanhasse para averiguação!

Aí, João, polidamente, explicou, no melhor castelhano que conhecia profundamente:

- Então, nós todos vamos junto com ele!

O oficial percebeu que estava diante de um problema sério. João Saldanha estava preparado para a estocada final:

- O senhor já pensou, tenente, vai sair nos jornais, nas rádios e TVs do mundo inteiro que o senhor prendeu Pelé e mais toda a seleção brasileira? O senhor vai ter problemas!

Foi quando o oficial, antevendo o que poderia acontecer, se virou e energicamente começou a repreender um dos soldados:
- Como é que o senhor faz isso comigo? O senhor me disse que esse senhor era o suspeito! E agora, o que eu faço?

E, virando-se para mim, quase continuou no mesmo tom:

- Desculpe, senhor. Por favor, queira prosseguir sua viagem!

Entramos todos no avião às gargalhadas.

João Saldanha era extremamente preparado para as situações mais difíceis.

Autor: Michel Laurence Tags: ,

terça-feira, 10 de março de 2009 Causos do Futebol | 16:13

CAUSOS DO FUTEBOL: O REI DAS EMBAIXADAS!

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Eu sou do tempo em que jogador profissional ia à praia, jogava pelada na areia, apostava caixas de cerveja, dando três ou quatro gols de vantagem, que iam ser tomadas no Petúnia – será que ainda existe? – um bar ali na rua do Catete, no Rio de Janeiro, entre brincadeiras e muitas risadas.

Entre os jogadores que freqüentavam a praia do Flamengo havia um chamado João Carlos, que tinha uma habilidade descomunal. Naquele tempo como quase todo mundo tinha muita habilidade com a bola, e o fato de João Carlos ser acima da média, não tinha muito destaque.

João Carlos tinha sido jogador do Fluminense, no time de aspirantes, ao lado de Paulinho Piston, Robson, Quincas e Larry, um centro-avante que estourou quando se transferiu para o Internacional, foi ídolo da torcida e graças a isso fez uma brilhante carreira como político.

Mas João Carlos no Fluminense tinha pela frente Mestre Didi – que seria bicampeão mundial e que ninguém imaginava que fosse se transferir para o Botafogo algum tempo depois. Por isso, João Carlos foi para o América, onde jogou por muitos anos, desfilando sua categoria.

Mas um dia a tarde cheguei na praia e o pessoal da pelada só tinha um assunto, um tal de um desafio que teria acontecido entre alguns peladeiros mais endinheirados.

A aposta era que João Carlos não seria capaz de fazer embaixadas controlando uma… laranja, da igreja do Largo do Machado até pisar na água da baia de Guanabara.

Depois de muita discussão, João Carlos perguntou:

- Quanto vou ganhar?

- Quarenta por cento do que apostamos!

- E quanto vocês apostaram?

- Até agora chegamos a mil cruzeiros, quinhentos cada um, mas daqui até o dia do desafio pode aumentar!

- Topei – respondeu João Carlos na mesma hora – desde que eu possa escolher a laranja.

Aí os apostadores definiram o “roteiro” a ser percorrido por João Carlos e acertaram o dia em que aconteceria o desafio: terça-feira as 10 horas da manhã, depois do jogo do América contra o Olaria, no domingo, o que daria um dia de descanso para o jogador se recuperar.

Fiquei sabendo naquela mesma tarde que João Carlos teria que sair da porta da igreja, descer as escadas, atravessar o Largo do Machado – uma praça enorme – tinha que cruzar a rua das Laranjeiras em frente ao Cine Politeama, atravessar a rua do Catete em frente ao restaurante Espaguetelândia; dobrar na rua Machado de Assis, descer até a praia do Flamengo, atravessar as três pistas – a primeira que era a dos bondes; a segunda bem mais larga que ia para Botafogo, Copacabana, etc e a terceira que ia no sentido centro. Ali teria que descer as escadas até a areia, atravessar a praia e molhar os pés nas águas da baia.

O Aterro ainda não tinha sido construído.

A aposta só seria ganha se João Carlos conseguisse chegar até a beira da
água com a laranja ainda controlada.

O grande problema não era João Carlos controlar a laranja até a água, mas sim a laranja não se… esbagaçar antes de chegar lá.

A aposta tomou conta do bairro do Flamengo e de muitos outros nos arredores e na terça-feira pela manhã o Largo do Machado estava tomado de curiosos e por muitos peladeiros.

Se a memória não me falha acho que até o dom Hélder Câmara, que mais tarde seria arcebispo emérito de Olinda e Recife, único brasileiro a ser indicado quatro vezes para o Prêmio Nobel da Paz e com quem eu vivia cruzando indo para a escola pela manhã, estava por lá.

João Carlos chegou e imediatamente foi até o saco de laranjas que os apostadores tinham comprado. Foi apalpando uma a uma e acabou escolhendo provavelmente a que ele achou mais dura, com a casca mais resistente.

Foi para a porta da igreja e quando o sino bateu a última badalada das 10 horas conforme tinha sido combinado com o padre, João Carlos ajeitou a laranja no dorso pé e com o maior cuidado possível, começou a descer as escadas.

O engraçado era ver os rostos dos que acompanhavam a prova, subindo e descendo no ritmo da laranja.

João atravessou o Largo do Machado no meio de um cordão de isolamento que impedia qualquer avanço de um torcedor ou apostador tentando desequilibrar o jogador.

Atravessou a rua em frente ao Politeama, que era um pulgueiro que passava três ou quatro filmes e mais um sem número de seriados de Tom Mix a Flash Gordon por dia, a partir das 10 da manhã. Acho que nesse dia, o dono teve um baita prejuízo.

A turba se manifestou quando a laranja começou a “suar”. Era o primeiro indício que ela estava acusando os efeitos do perequetar.

Mas João Carlos atravessou a rua do Catete, e dobrou na esquina a Machado de Assis sem grandes problemas.

A laranja subindo e descendo. Foi quando um homem mal encarado gritou:

- Aposto que não chega.

- Quanto? – perguntou um outro.

- 100 cruzeiros.

- Topei. “Casa” o dinheiro aqui na mão do seu Manuel.

- Só se eu puder segurar o seu Manuel pelo cinto para ele não fugir.

A rapaziada caiu na gargalhada e os dois continuaram discutindo. Pelo jeito devem ter chegado a um acordo.

No meio da Machado de Assis apareceu o primeiro “ferimento” na laranja.

João Carlos fazia a laranja rolar no dorso do pé para não bater sempre no mesmo lugar.

Mesmo assim quando ele chegou na esquina da Machado com a praia do Flamengo, a laranja já “sofria” bastante.

João atravessou a primeira pista, a dos bondes, e na calçada entre ela e a outra pista que ia no sentido Botafogo, teve que esperar o sinal (ou farol) fechar.

A laranja sofrendo.

Atravessou a segunda pista.

Chegou na calçada da segunda para a terceira, e aí deu para duvidar que a laranja fosse agüentar até a praia.

A gritaria era imensa. Os carros paravam para ver o que estava acontecendo e dificultavam ainda mais as coisas para João Carlos que teve que se desviar de alguns deles.

A laranja começou a “abrir” quando ele alcançou a escada.

Mesmo assim João continuou. Ele sabia que tinha que fazer o resto do trajeto o mais rápido possível.

Desceu as escadas, e começou a atravessar a faixa de areia.

- Não vai dar! – gritou um moleque, que logo levou uns cascudos para ficar quieto.

A laranja ia cedendo.

E quando João colocou os dois pés dentro da água, ela se abriu e ficou pendurada por um fio no dorso do pé de João Carlos, que aproveitou a perplexidade das pessoas para chutar a laranja partida ao meio, para longe.

- Perdeu! – gritou um dos apostadores.

- Ganhou! – gritou um outro.

Até hoje a discussão continua.

É bem verdade que diminuiu com o passar do tempo na mesma proporção em que sumiram ou morreram os freqüentadores da praia.

Mas uma coisa é certa: João Carlos sabia controlar uma bola.

Autor: Michel Laurence Tags: , ,

quarta-feira, 4 de março de 2009 Causos do Futebol, Gênios do Passado | 15:32

Causos do Futebol: A FEITICEIRA DO PELÉ!

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Ainda continuo com o América no Haiti.

Como o América tinha ganho o segundo jogo, ficamos esperando no vestiário o ambiente esfriar para sair do estádio. Só que a gente olhava por uma janelinha no alto da parede do vestiário e grande parte do povo continuava do lado de fora.

Naquela época não era como hoje com o ônibus encostando na porta dos vestiários, nosso ônibus estava praticamente fora do estádio. Atravessamos a pé com a “segurança” de dois Tonton Macute.

O povo, naquela época como hoje, gostava do futebol brasileiro, e os jogadores tinham que parar para atender os torcedores. Não sei bem como é isso, só que lá fora a gente consegue entender e se fazer entender mesmo sem falar o idioma. Eu não podia ajudar a todo mundo, e a chegada até o ônibus, apesar da boa vontade dos dois Tonton em abrir o caminho, foi vagarosa.

Foi quando de repente uma senhora meio fantasmagórica se aproximou de mim e perguntou:

- O senhor conhece o Pelé?

Fiquei olhando para aquela senhora negra, magra, cabelos quase lisos, desalinhados, oleosos, que vestia uma saia arrastando pelo chão, uma blusa de mangas curtas, tudo preto, um olhar meio transtornado, brilhante, se esforçando para sorrir um sorriso quase sem nenhum dente na boca.

Pessoas se aproximando, eu querendo entrar no ônibus, pensei em dizer que não, não conhecia, mas acabei dizendo:

- Sim, sim, conheço o Pelé!

A mulher ficou me olhando, com aqueles olhos que chegam a incomodar, até que perguntou:

- O senhor me faria um favor?

- Depende, minha senhora, depende do que se trata.

- Não, é uma coisa muito simples – e ela se esforçou mais uma vez para sorrir.

- Pois não, minha senhora, então diga logo!

- Bem – e os olhos se fixaram nos meus – é o seguinte: eu aqui em Port-au-Prince sou a feiticeira local. Atendo a todo mundo de graça, inclusive aos jogadores de futebol, e eu gostaria que o senhor me colocasse em contato com a feiticeira que cuida do Pelé.

Quase caí na gargalhada, mas me lembrei a tempo de onde estava e procurando fazer a expressão mais sincera do mundo, respondi:

- Olha, a senhora me desculpa, mas eu não conheço essa tal feiticeira. Nem sei se o Pelé tem uma!

Aí foi a vez dela olhar para mim como se eu fosse o maior imbecil do mundo, e nervosamente falou:

- Mas é claro que tem. Todo mundo que nasce diferente dos outros tem uma feiticeira. Os chefes precisam de uma feiticeira; os grandes atletas têm uma feiticeira; todo mundo importante tem uma feiticeira.

Tentei acabar com a conversa que aquilo estava me deixando nervoso.

- Está bem, minha senhora, vou tentar descobrir. Mas o que devo fazer? Se eu descobrir como é que ela entra em contacto com a senhora?

- O senhor é um bom homem, meu jovem – e ela me fez com aquela mão magra um carinho no rosto – quando o senhor falar com ela o que pedi, ela vai pensar em mim, aí eu me entendo com ela.

Virou as costas, nada mais disse, foi andando sem olhar para trás, com as pessoas abrindo caminho como se dessem passagem a uma rainha.

Autor: Michel Laurence Tags: ,

terça-feira, 24 de fevereiro de 2009 Causos do Futebol | 14:45

Causos do Futebol – A Revanche!

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Ainda estamos no Haiti, em 1966.

 

Tempo de Papa Doc e de seu filho Baby Doc.

 

O América tinha ganho o primeiro jogo contra a seleção do Haiti, por 4 a 0, com uma dupla formando a ala esquerda do ataque lançada pelo técnico Wílson Santos, que faria muito sucesso: Edu – irmão de Antunes, Nando, e mais tarde de Zico – e Eduardo, um ponta-esquerda que chutava forte e era um  grande driblador. Eduardo era um garotão, de topete, brilhantina, anéis, e que adorava Elvis Presley e o Rock and Roll.

 

Depois dessa excursão Eduardo foi vendido ao Corinthians e lamentavelmente faleceu num desastre de automóvel, com o lateral-direito Lidu.

 

Os dirigentes locais logo perceberam que uma “revanche” encheria o estádio e acertaram com o médico-chefe da delegação, Oscar Santamaría, quanto o América levaria.

 

O ambiente começou a se transformar a partir do anúncio da revanche.

 

No portão de ferro do hotel onde a delegação estava hospedada, as meninas que vinham se oferecer a noite cederam o lugar a homens ameaçadores.

 

Comecei a perceber a louca paixão do povo local pelo futebol. Era coisa séria, a honra – que eu suspeitava não existir – estava em jogo.

 

Convidaram-me para dar uma entrevista na TV. O pessoal do hotel me avisou para tomar cuidado.

 

- Deixe seu dinheiro e seus documentos aqui no hotel. Vá sem nada nos bolsos.

 

Apesar da bondade dos homens fiquei receoso. A pobreza deles era imensa. A gente pedia algumas refeições a mais, sem o chefe da delegação saber, e dava para os garçons que, escondido, levavam para as famílias.

 

Deixar o meu “rico”  dinheiro no hotel, que não tinha cofre, era algo que poderia ser tentador. Botei dentro de um velho abajour do meu quarto e entreguei a Deus. Não o dinheiro, que era tão pouco que não faria diferença, mas o passaporte e os meus documentos.

 

Um carro veio me buscar e me deixou na calçada em frente a TV. Eram uns cinco metros, no máximo seis, até a porta. Pessoas, de todas as idades e de todos os lados, avançaram em cima de mim, gritando, pedindo esmola. Agarravam-me, me puxavam, e eu sentia mãos vasculhando os bolsos da minha calça, sem poder fazer nada.

 

Foi assustador.

 

Finalmente alcancei a porta, e alguns funcionários me puxaram para dentro.

 

Dei a entrevista e de lá, o presidente da Federação local me levou até a concentração da seleção do Haiti para que eu conhecesse os jogadores e o técnico.

 

Quando chegamos lá parecia que eu era uma autoridade.

 

Os jogadores se perfilaram formando uma linha, tendo a frente o técnico que ia me apresentando um a um.

 

Eles não conseguiam ficar parados, pulavam, exageravam nos gestos, sorriam como se fossem meus amigos.

 

Alegando cansaço, agradeci a gentileza e pedi que me levassem ao hotel.

 

Imediatamente procurei Wílson Santos e avisei:

 

- Amigo, o time deles está “dopado” até a alma. Vai ser uma guerra!

 

No meu quarto nada tinha sido mexido, meu dinheiro e meus documentos estavam dentro do abajur.

 

Desci a tempo de comer alguma coisa e ficar ouvindo a palestra.

 

Wílson Santos explicou aos jogadores em poucas palavras:

 

- Vou falar aqui o que eu falaria no vestiário. É que estou achando que eles podem ter “armado” alguma coisa.

 

O técnico sorriu e continuou:

 

- O Michel me informou que o time deles está dopado, se a gente deixar o jogo correr eles podem “engrossar”, então vamos fazer o seguinte: você Luciano (era o capitão do time) na hora de sortear a bola ou o campo se você ganhar pede a bola. Se eles ganharem na certa vão escolher como todo mundo faz, o campo. O nosso negócio é a bola.

 

Wílson olhou na cara de todo mundo, sério:

 

- Muito bem, você Miguel – era o camisa 9 – toca no Edu que recua para o Sudaco – um meia talentoso que jogou no São Paulo, mas que era chegado numa balada -  que domina e lança para o Eduardo. Você Eduardo tem que sair correndo na hora que o Miguel tocar para o Edu, e corra enviezado entre o lateral-direito e o central. Sudaco é ali que você tem que lançar.

 

Wílson tomou fôlego:

 

- Eduardo nada de travar a bola ou fugir do pau. Manda a bomba de prima conforme ela cair na sua frente. É o que a gente pode fazer. Depois é gastar o tempo e jogar a bola prá fora o mais que puder.

 

Sorriu:

 

- Acho que num país pobre como esse, não deve ter muitas bolas no campo.

 

O vestiário estava em ordem.

 

O América ganhou a bola.

 

O Miguel tocou no Edu, Eduardo saiu correndo feito um desesperado, Sudaco lançou, a bola quase desmanchou o topete do Eduardo e caiu à feição. A bomba foi direto no ângulo.

E foi só. Depois não teve mais jogo.

 

América 1 a 0.

 

(continua)

Autor: Michel Laurence Tags:

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009 Causos do Futebol | 16:03

Quem inventou comemorar gol?

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Pelé estava sendo xingado pela torcida adversária e de raiva, depois de fazer um gol, deu um soco no ar.

 

O “soco” virou marca registrada do Rei.

 

E a partir daí as “invenções” para assinar os gols não pararam mais.

 

Mas que eu me lembre, o primeiro jogador a marcar seus gols com uma comemoração particular, foi Ambrois, um atacante uruguaio, que jogou as copas de 54, na Suíça, e de 58 na Suécia, pela Celeste, e que defendeu o Fluminense na década de 50.

 

Ambrois – cujas pegadas perdi com o caminhar dos anos – era um artilheiro branquelo, sanguinolento – não no sentido da violência – mas daquele tipo de branco europeu que com o calor e o ardor de uma partida, tinha o rosto tomado pelo sangue e o “pintava” de vermelho.

 

Me lembro perfeitamente do chute colocado, no canto e da corridinha de Ambrois por trás do gol adversário, driblando os fotógrafos e que terminava num semi-círculo para voltar ao campo de jogo e comemorar abraçando os companheiros.

 

Antes dele não me lembro de nenhum outro.

 

Os jogadores só perceberam que os gols eram valiosos para firmarem suas imagens só depois de Pelé.

 

Escrevi isso porque é Carnaval e no carnaval todo mundo samba.

 

E também porque me esqueci como mal educado que sou, de agradecer ao meu amigo Celso Unzelte, comentarista do programa Loucos por Futebol, da ESPN Brasil e professor da Faculdade Cásper Líbero, por ter incluído em seu próximo livro um texto meu sobre o técnico Martim Francisco, que escrevi em Placar, em 1973.

 

Celso, pesquisei fotos do Ambrois mas não achei. E como eu sei que você gosta dessas histórias escrevi assim mesmo, sem ilustrar.

Autor: Michel Laurence Tags: , , , , ,

terça-feira, 17 de fevereiro de 2009 Causos do Futebol | 15:49

O HAITI DE PAPA DOC

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Foi no início de 1966.

O América, do Rio, como sempre precisando de dinheiro, me convidou para acompanhar o time numa excursão pela América Central e Antilhas. Naquela época era obrigatório por lei da CBD – ainda era Confederação Brasileira de Desportos – um jornalista acompanhar as delegações que viajavam. Era uma maneira de evitar que os clubes fizessem um jogo atrás do outro sem o intervalo de 72 horas estabelecido por lei.

A Última Hora, o jornal onde eu trabalhava, estava atravessando um período mais do que difícil. Carlos Lacerda, dono do jornal Tribuna de Imprensa, tentando de todos os jeitos colocar Samuel Wainer, dono da Última Hora, fora do mercado. Como era época de ditadura e Lacerda era parceiro dos militares, Samuel Wainer teve que se exilar na França.

Assim, com muito esforço, o jornal arrumou 100 dólares para que eu acompanhasse o time, e o América garantiu que me pagaria “2 dólares de diária”. Mal dava para comprar um maço de cigarros, que eu, como fumante inveterado naquela época, não podia deixar de comprar.

Mas a experiência de conviver com um time profissional, poder ouvir as palestras no vestiário, ver como o técnico lidava com os jogadores, falou mais alto.

Embarcamos e fomos direto para a Venezuela, na cidade de San Cristóbal, onde o América venceu o time local. Aconteceu um episódio engraçado quando, depois do jogo, o chefe da delegação, que, por motivos de economia, era também o médico, quis me pagar o bicho – 20 dólares – pela vitória. Eu mal conhecia o homem e fiquei meio sem jeito, mas acabei recusando, na tentativa de ser o mais educado possível, para não arrumar de cara uma desavença.

- Como você não quer? – perguntou o médico, cujo nome era Oscar Santamaría – É praxe, a gente sempre paga para todos os jornalistas que acompanham as delegações.

- Mas eu não joguei bola! – respondi meio arrependido, já antevendo que ia ter uma discussão das brabas.

Mas os jogadores começaram a rir e ficou por isso mesmo.

Da Venezuela seguimos para Aruba e Curaçao (assim mesmo, sem o til), que hoje são verdadeiros paraísos do turismo, mas que naquela época eram terríveis.

O América venceu mais três jogos, dois em Aruba, um em Curaçao.

E o empresário, que era o famoso José da Gama, encarregado de arrumar os jogos, levou o time para o Haiti.

Papa DocO país naquela época era pior – se isso é possível – do que hoje em dia. Vivia sob o comando implacável de um ditador, François Duvalier, mais conhecido pelo apelido de Papa Doc. Um carniceiro que subjugava o povo graças a uma polícia impiedosa conhecida como Tonton Macute.

Essa polícia tinha um poder incomparável, andava com um fardamento impecável, cáqui, calças vincadas, camisas engomadas e o principal, óculos Rayban, enquanto o povo mais cobria o corpo com panos rotos.

Era um terror. Até as autoridades, que fiquei conhecendo por falar francês, língua oficial do país, tinham medo dos Tonton Macutes.

Uma noite, depois de conhecer o cassino da capital, Port-au-Prince, dois dirigentes da Federação de Futebol do Haiti me contaram dentro do carro o que acontecia.

- Papa Doc está velho, mas faz algum tempo que está preparando o filho, o Baby Doc, que é pior do que o pai, para assumir o poder. Eles são tão ricos que o país vai afundar mais ainda se eles deixarem o poder.

Continuamos conversando até chegar ao hotel onde estávamos hospedados. No lado de fora do imenso portão de ferro que protegia a entrada para os jardins bem tratados do hotel, meninas nos chamavam se oferecendo, levantando as saias.

Foi quando um dos dirigentes me segurou pelo braço antes que eu saísse do carro e falou:

- Se você quer saber, nós nunca tivemos essa conversa.

Na noite do jogo em que o América enfrentou a seleção local e ganhou por 4 a 0, esse mesmo estádio que vimos pela televisão no jogo da seleção brasileira contra a do Haiti estava lotado, tinha gente em tudo que era lugar.

O locutor oficial do estádio anunciou que Baby Doc ia dar o pontapé inicial da partida.

Depois de aparecerem uns 20 Tonton Macutes, surgiu Baby Doc, baixinho, gordinho, cara de menino levado, uma farda impecável meio marrom escuro, um quepezinho, botas brilhando. Tendo em volta os Macutes apontando metralhadoras para o povo, Baby Doc, no meio do círculo, foi até o meio de campo e chutou, desengonçado, a bola novinha.

Assim como entrou, saiu, crente que era mesmo respeitado pelo silêncio da torcida, que era… ensurdecedor.

PS: Esse “causo” continua, com outras histórias

Autor: Michel Laurence Tags: , , ,

terça-feira, 10 de fevereiro de 2009 Causos do Futebol | 22:41

Causos do Futebol – Argentina campeã do mundo, culpa do Pelé!

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Esse “causo” é verdadeiro. É só consultar os alfarrábios do futebol paulista.

 

O Santos de Pelé vivia excursionando pelo mundo para não ter que vender seus grandes jogadores, inclusive Pelé que rejeitava todo ano propostas milionárias principalmente do futebol italiano. Tinha até um milionário alemão que depois se tornou amigo do Rei, que vivia tentando seduzir Peké com propostas inacreditáveis. Numa dessas ele chegou a dar um Mercedes Benz de presente para Pelé, que por muitos anos andou com esse belo carro pelas ruas de Santos e de São Paulo.

 

Não sei se ele ainda o tem.

 

Mas numa dessas excursões no início dos anos 70, o Santos jogou nos Estados Unidos, contra um time que tinha um argentino alto, magro, e habilidoso com a bola.

 

No fim do jogo o argentino fez uma proposta inusitada ao Pelé:

 

- Me hace um favor. Estoy sin dinero para volver a Buenos Aires. Juego para o Santos por seis meses gratuitamente em câmbio del boleto de avion!

 

Pelé quase caiu para trás com a proposta, mas penalizado falou com o chefe da delegação, que consultou o presidente no Brasil, e trouxe de volta o argentino.

 

O argentino jogou algumas partidas durante os seis meses em que ficou quase de graça no Peixe. Afinal tinha que ganhar algum para ter onde morar e comer.

 

Ao final se transferiu para o Juventus da capital, onde também jogou por uns bons seis meses como titular. Juntou um dinheiro que deu para comprar a passagem de volta para Buenos Aires e foi embora.

 

Uns cinco ou seis anos depois, não me recordo com precisão, o jogador alto, magro, jeitoso com a bola, foi campeão do mundo dirigindo a seleção da Argentina.

 

Seu nome: César Luís Menotti.

 

Imagine se o Pelé não tivesse pedido à diretoria do Santos para repatriar Menotti. Talvez a Argentina não tivesse sido campeã do mundo.

 

(PS – vou esclarecer uma coisa, não gosto de argentinos, acho arrogantes demais, mas gosto muito de 4: Agustin Mário Cejas, que foi um dos maiores goleiros que vi em minha vida, que jogou no Santos e no Grêmio; Ramos Delgado, que foi um dos maior centrais que quase não precisava se mexer em campo porque adivinhava por onde a bola ia passar e que vi jogar por muito tempo no Santos; Perfumo, que era a elegância em pessoa jogando bola no Cruzeiro e que conheci melhor na Copa da Alemanha, em 74, depois de uma campanha horrorosa da seleção argentina, e César Luís Menotti, que além de ser um dos homens mais inteligentes que conheci, sempre me brindou com uma amizade honesta e sincera).    

Autor: Michel Laurence Tags: , ,

terça-feira, 27 de janeiro de 2009 Causos do Futebol | 15:43

Causos do Futebol – Aventuras de um Pobre Goleiro!

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Passei minha juventude jogando bola.

 

Ganhando um dinheirinho aqui, outro ali.

 

Mas a minha paixão sempre foi a bola.

 

Meus melhores amigos fiz nos campos de futebol.

 

Bem jovem fizemos um time na rua Almirante Tamandaré, na Praia do Flamengo, no Rio, que tinha um uniforme igualzinho ao do Corinthians, camisas brancas, calções pretos, meias brancas.

 

Só que mesmo batendo na porta de gente mais abastada, como o repórter Amaral Neto – um grande sucesso da TV Tupi na época – que morava num prédio dos mais bonitos da rua, não arranjamos dinheiro suficiente para comprar as camisas numa loja.

 

Mandamos fazer numa costureira.

 

Claro, ela fez as camisas como se fossem para ir a missa aos domingos.

 

Então era um time bem “arrumadinho”, que espantava os adversários pela qualidade do uniforme.

 

Só que aos poucos o time foi ganhando fama e a gente conseguia com facilidade marcar um jogo por semana aos sábados.

 

Até que um dia apareceu um convite que dividiu a rapaziada.

 

O convite, em papel timbrado, vinha de um time cuja sede era na temida Barreira do Vasco.

 

Na época, mil novecentos cinqüenta e qualquer coisa, a Barreira do Vasco era o bairro de pior fama no Rio.

 

- Se a gente ganhar não vai sair vivo de lá – rosnou Pelôpidas, cujo pai era como se pode adivinhar, admirador da história grega.

 

- Vai, também não é assim, os caras tem até papel timbrado! Melhor do que a gente! – garantiu Ruy, um meia de grande habilidade.

 

As moças que sempre acompanhavam o time afirmaram que “na Barreira do Vasco a gente não vai!”.

 

Mas como a maioria foi a favor do jogo, respondemos ao convite garantindo que no próximo sábado estaríamos lá, as três da tarde.

 

O campo era o deles.

 

No sábado chegamos ao local do campo depois de mesmo andando a pé, nos perdermos umas três vezes. O bairro era assustador. Casas pequenas, ruas de terra, gente mal encarada. Mas chegamos ao campo sem maiores problemas. Foi quando um gurizinho chegou perto de mim e perguntou:

 

- São vocês que vão jogar contra o Barreira?

 

- Sim – respondi.

 

- Olha, moço, não sei se o senhor já sabe, mas esse time não perde aqui há mais de três anos!

 

Sorri amarelo para o menino, enquanto um dos “diretores” do time da Barreira, dizia quea gente podia trocar de roupa ali mesmo e deixar segundo ele “nossos pertences” numa vala bem ao lado de uma das laterais do campo.

 

- Pode ficar tranqüilo, ninguém vai tocar em nada de vocês. O pessoal é da paz.

 

Ficamos meio desconfiados, mas não tinha outro jeito ou trocava de roupa ali mesmo ou íamos embora, o que provavelmente não seria muito “saudável”.

 

- Não falei, não falei – rosnava Pelô.

 

Mal começou o jogo e na cobrança de um escanteio Ronaldo (que não era o Fenômeno, mas jogava direitinho) de cabeça fez 1 a 0.

 

O campo até aquele momento estava praticamente vazio. Mas foi marcar o gol para começar a chegar gente de todos os lados. Em poucos minutos o campo estava completamente cercado.

Foi quando ouvi uma voz atrás do meu gol.

 

- Goleirinho, ó goleirinho, dá uma olhada aqui, dá!

 

Andei até a marca do pênalti, para ver se o cara parava de me azucrinar.

 

Mas ele era persistente.

 

- Goleiro, esse time não perde aqui, acho bom você dar um jeito, porque não sei o que pode acontecer se o time daqui perder!

 

Mas o time da Barreira nem chegava perto do meu gol. Foi quando resolvi desafiar o cara.

 

Olhei para trás e gritei:

 

- Ora, meu amigo, não enche o saco, vai se…

 

O cara apenas levantou a camisa de meia, mostrando a barriga, onde vi a coronha de um revólver, tipo Mauser, presa ao calção.

 

Calei a boca e quando terminou o primeiro tempo, juntei a rapaziada e falei:

 

- Escuta, tem um cara atrás do meu gol com um revólver do tamanho de um bonde, me ameaçando. Vamos perder esse jogo de qualquer jeito!

 

Todo mundo, claro, concordou, só o Pelô aproveitou para humilhar:

 

- Ta vendo, agora você deixou de ser o valentão, não é? Avisei!

 

A gente tinha que falar baixinho para as pessoas em volta não ouvissem. Sei lá o que poderia acontecer se soubessem que a gente estava tramando perder o jogo de propósito. Mas uma coisa estava certa, não faltava nada de ninguém dentro da vala.

 

Quase pedimos licença ao povo para entrar no campo.

 

Só que o adversário mal atacava. Eu já estava ficando desesperado e o cara atrás do gol falando:

 

- Goleirinho, vê lá o que você está arrumando. Você não tem família. Não tem pai, não tem mãe. Você não gosta deles?

 

Até que finalmente um atacante deles chutou de longe, meu zagueiro furou de propósito, a bola veio pererecando, eu corri, bati na trave oposta e voei para não alcançar.

 

Só ouvi a voz atrás do meu gol:

 

- Boa, goleirinho, boa, Agora só falta mais um.

 

Só que os caras não chutaram mais nenhuma.

 

E quando faltavam uns 2 minutos para terminar, Jorginho, um ponta-direita arisco, driblador e veloz,cruzou da direita. O vento foi empurrando a bola para o gol. Eu já previ o que ia acontecer. O goleiro pulou, mas a bola morreu dentro do gol.

 

Nem olhei para trás.

 

Saí correndo, pulei no meio do povo, peguei o que pude da minha roupa e saí numa desabalada carreira em direção a avenida Brasil. Eu só ouvia a voz gritando lá longe:

 

- Vou pegar você, goleirinho, vou pegar você!

 

Rapaz, atravessei a pista mais estreita da avenida em dois pulos e me agarrei ao balaustre de um ônibus que acabava de sair do ponto. Finalmente, olhei para trás, vi alguns rapazes do time correndo, mas não vi o cara do revólver.

 

Foi só aí que notei o pessoal do ônibus rindo de mim, principalmente o cobrador, que perguntou as gargalhadas:

 

- Você estava jogando aí na Barreira do Vasco?

 

Balancei a cabeça timidamente:

 

- É, meu amigo, todo sábado e todo domingo é a mesma coisa!

 

Palavra de honra, o Pelôpidas até hoje me cobra!

Autor: Michel Laurence Tags:

segunda-feira, 26 de janeiro de 2009 Causos do Futebol | 14:01

O Homem que Apelidou o Rei de “Rei”!

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Meu pai Albert à esquerda e Gabriel Hanot à direita

 

Hoje é fácil.

 

Por onde ele passa esticam um tapete vermelho. Se for possível o cobrem com um manto e uma coroa.

 

Só não “sir” porque graças a Deus, não nasceu na Inglaterra.

 

Hoje todo mundo sabe o que o Rei fez: mais de mil e trezentos gols; 11 vezes campeão paulista; 10 vezes seguidas artilheiro do campeonato paulista – sendo que em 1958 fez 58 gols, provavelmente um recorde mundial ainda não reconhecido; cinco vezes campeão da Copa do Brasil; bicampeão da Libertadores; bicampeão mundial interclubes; tricampeão mundial pela seleção brasileira.

 

Mas quando o Rei tinha apenas 17 anos, alguém teria a coragem de afirmar que Pelé era “o Rei do futebol”?

 

Um jornalista teve essa coragem.

 

Em 1958, na Copa da Suécia, o Brasil acabava de derrotar o País de Gales, por 1 a 0, gol de Pelé, um gol lindo, com direito a um mini chapéu, e um certo Gabriel Hanot, editor chefe do jornal L´Equipe, da França, escreveu uma página inteira afirmando que tinha surgido “o Rei do futebol”, um certo Pelé da seleção brasileira.

 

Nascido em 1889, Gabriel Hanot foi jogador de clubes, da seleção francesa e eventualmente se tornou seu técnico na década de 40. Foi soldado na Primeira Guerra Mundial e foi preso pelos alemães. Conseguiu fugir e terminar a guerra como piloto de caças.

 

Mas não saiu ileso. Um ferimento o impediu de continuar sua carreira como jogador.

 

Foi aí que iniciou uma carreira tão brilhante quanto a de jogador como jornalista. Primeiro no jornal Miroir des Sports (Espelho dos Esportes) e depois no L´Equipe (A Equipe).

 

Foi no L´Equipe que Hanot criou a hoje famosa Bola de Ouro premiando o melhor jogador Europeu da temporada; e depois o Campeonato Europeu dos Clubes Campeões.

 

Gabriel Hanot morreu em 1968 e hoje pouca gente sabe que ele deve ter tido como maior orgulho ter apelidado Pelé de Rei. 

Autor: Michel Laurence Tags:

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