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Arquivo da Categoria Causos do Futebol

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012 Causos do Futebol | 13:24

Causos do Futebol – UM DIVINO QUASE ETERNO!

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Meu pai, Albert Laurence – um dos fundadores do jornal Última Hora, com Samuel Wayner e muitos outros grandes jornalistas, como os irmãos Paulo, Augusto e Nelson Rodrigues –, era apaixonado pelo futebol brasileiro. Nas conversas que ele tinha com os amigos e comigo quando já era rapaz, ele vivia afirmando:

- O Brasil só perdeu a Copa de 38 porque os jogadores não tinham total conhecimento da regras.

Ele se referia ao pênalti cometido por Domingos da Guia em Piola, no jogo pelas semifinais, quando o maravilhoso zagueiro segurou o goleador italiano dentro da área, com a bola já fora das quatro linhas.

- Domingos mais se “pendurou” em Piola porque estava perdendo o equilíbrio, e o juiz marcou o pênalti quando a bola já havia saído pela linha de fundo.

Foi com essas histórias que tomei conhecimento do grande Domingos da Guia, que foi apelidado pelos uruguaios, quando defendeu o Nacional, de Montevideu, de “O Divino Mestre”.

Sabe quantos anos tinha o Domingos?

20 anos!

Ser apelidado pelos uruguaios, campeões do mundo em 1930 e bicampeões olímpicos em 1924 e 1928, de Divino Mestre é uma deferência que poucos mereceram na história do futebol mundial.

Muito mais tarde, quando já trabalhava na Rede Globo, fui encarregado de fazer um Globo Repórter sobre os Monstros Sagrados do futebol brasileiro, e entre eles entrevistei Domingos da Guia em seu pequeno e humilde apartamento no subúrbio de Marechal Hermes, no Rio, se não me falha a memória.

Isso deve ter sido em 77 ou 78, e Domingos já era um senhor de 65 anos, que se mantinha orgulhosamente ereto, que encarava as pessoas de frente sem nenhum receio:

- Você não vai me perguntar sobre o pênalti em Piola?

O olhar era meio preguiçoso, como se estivesse pensando: “Esse menino não sabe quantas vezes já expliquei essa história!”.

Perguntei e fiquei sabendo que até aquele dia ele tinha certeza que o juiz havia “roubado” o Brasil e que ele não tinha feito pênalti nenhum.

- Me responsabilizaram pela derrota – suspirou ele, sentado numa imensa poltrona. Me responsabilizaram por cometer uma falta que não fiz.

O que mais me impressionou foi a postura de Domingos, exatamente a mesma dos grandes jogadores de hoje em dia, isso sem a mídia, que, nos tempos em que jogou, praticamente não existia, e também enfrentando um preconceito racial – que não há como negar – terrível nos anos 20 e 30.

Tentei quebrar a resistência e perguntei:

- Seu Domingos, e a “Domingada”?

- O que? – ele respondeu imediatamente – Você pensa que me ofenderam? Ora, nada disso, “eles” reconheceram que fui um grande zagueiro.

Atribui o “eles” à minha classe, os jornalistas.

- “Domingada” era porque, além de defender, eu saía jogando com  a bola nos pés. Acho que fui o primeiro a fazer isso. Falam (a conversa foi em 77/78) que o primeiro zagueiro a atacar foi o Nílton Santos. Ele foi grande e merece.

- Mas, seu Domingos, e a “Domingada”?

- Foi porque perdi uma única vez a bola querendo sair jogando! Não me lembro quem “tropeçou”, tirou sem querer a bola dos meus pés e fez o gol.

E quando olhei para Domingos ele estava com raiva, como se o lance tivesse acontecido no dia anterior.

Nunca mais esqueci aquela figura imponente, assim como já pensei algumas vezes que Domingos da Guia quase se perpetuou em seu filho Ademir da Guia, o segundo e último Divino da história.

Autor: Michel Laurence Tags:

terça-feira, 31 de janeiro de 2012 Causos do Futebol | 19:16

Causos do Futebol – Dida, Artilheiro até Morrer!

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- Eu me chamo Edvaldo!

- “Edi” o que? – perguntou o “professor” que procurava distribuir a garotada pelos dois times da “peneira”.

- Edvaldo! – respondeu o garoto quase com medo.

- Isso não é nome de jogador de bola! Como é teu apelido em casa?

O garoto ainda assustado falou:

- Dida…!

- Dida é legal! Curtinho, quatro letras, como Didi, Dudu, legal!

E Dida entrou no seu primeiro treino e fez 3 gols.

Edvaldo Alves de Santa Rosa vinha de uma família classe média de Maceió, Alagoas. O pai e os quatro irmãos jogaram bola. Nenhum foi profissional. Dida se destacava. Jogava muito. Começou a ser famoso nas peladas da Praça da Cadeia. A praça estava mais para um terreno baldio bem ao lado do xadrez da cidade. Os primeiros a aplaudirem o futebol de Dida foram os presos, que acompanhavam as peladas dos garotos através da grades e apostavam sempre no time do Dida. As apostas eram com maços de cigarros.

O diálogo com o “professor” foi no América, Dida tinha apenas 15 anos e tinha sido convencido pelos dirigentes a jogar uma única partida pelo clube. Dida não queria, queria estudar, ser médico. Mas os dirigentes acabaram convencendo o rapaz:

- É uma partida só! Só uma! Contra o Barroso, decidindo o campeonato de juvenis.

Dida acabou aceitando, o América venceu, 4 a 1, com 3 gols do menino Edvaldo.

A partir daí estava decidido, Dida ia ser jogador de bola.

O CSA, que divide a torcida com o CRB, ofereceu um bom emprego ao rapaz.

Com 16 anos Dida foi convocado para a seleção alagoana. O presidente do Flamengo na época, 1953, era Gilberto Cardoso, um alagoano, ouviu falar de Dida e mandou um representante para observar o jogador. Foi um jogo entre as seleções de Alagoas e da Paraíba. No primeiro tempo venceu a Paraíba, 3 a 1. No segundo tempo Dida fez 3 gols e a seleção de Alagoas venceu, por 4 a 3. O emissário voltou ao Rio maravilhado. Custou convencer Dida a largar sua terra natal, mas finalmente em abril de 1954 ele chegou para o Flamengo.

Apesar da saudade Dida fazia furor entre os aspirantes. Nos coletivos, ele fazia 3, 4 gols na defesa titular, que formada por seus ídolos, Garcia, Tomires e Pavão; Jadir, Dequinha e Jordan. O problema é que os titulares no ataque eram o paraguaio Benitez e o fantástico Evaristo.

Na decisão do bicampeonato de 54, contra o Vasco, Benitez se machucou e Evaristo andava se queixando de uma dor na perna. Fleitas Solich, um técnico paraguaio de muita história e personalidade, Na manhã da grande decisão, Solich falou com Dida:

- Olha, você vai jogar. Mas não se preocupe, você não tem nenhuma responsabilidade. Vai lá, joga, como se estivesse nos aspirantes.

Tomado de súbita coragem Solich tirou Zagalo que era o titular e fez o parceiro de Dida nos aspirantes, o ponta-esquerda Babá entrar.

Os dois não fizeram gols por causa do grande Barbosa, que pegou tudo, ou quase tudo,, mas conquistaram a torcida. O Flamengo venceu, 2 a 1, com gols de Rubens, o doutor Rubis, e do centro-avante Indio.

No ano seguinte o Flamengo queria o tricampeonato, que seria o segundo de sua história.

Evaristo já estava de malas prontas para a Espanha, vendido ao Barcelona e Dida no segundo-turno, finalmente virou titular do Flamengo, se tornando também o artilheiro do campeonato. A decisão contra o América foi em um “melhor-de-três”. Mesmo assim no primeiro jogo, Evaristo ainda jogou e fez o gol da vitória, por 1 a 0.

No segundo jogo, o América com um timaço, venceu de goleada, 5 a 1.

Aí veio a “negra” e Solich colocou Dida no ataque ao lado de Evaristo.

A história conta que o América só perdeu a decisão porque o lateral Tomires, conhecido pelo apelido de Cangaceiro, quebrou a perna do meia Alarcon, do América. Naquela época não existia substituição, nem quando um jogador quebrava a perna.

Assim o meia Duca fez o primeiro gol do Flamengo e Dida os outros três na conquista do tricampeonato do Flamengo.

Dida foi o senhor absoluto da posição de titular do Flamengo por longos 11 anos.

Entre uma conquista e outro pelo Flamengo, foi campeão do mundo na Copa  da Suécia em 58, quando jogou as duas primeiras partidas e foi substituído por Pelé nas quatro últimas.

Dida com 244 gols foi o maior artilheiro da história do Flamengo por quase 3 décadas, até que apareceu Zico na década de 80, que quebrou todos as marcas do alagoano..

Dida, o homem que gostava de fazer 3 gols por partida, faleceu em 2002.

Autor: Michel Laurence Tags:

terça-feira, 24 de janeiro de 2012 Causos do Futebol | 14:01

Causos do Futebol – O DIA EM QUE O SANTOS “VENDEU” O TIME INTEIRO…

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…menos Pelé!

Foi logo em um dos primeiros números da revista Placar.

Cheguei na redação de Placar ali no antigo prédio da Abril, na marginal do rio Tietê, e avisei:

- Tenho uma matéria legal sobre o Santos (não me lembro o que era)!

- Guarda para a semana que vem – respondeu o chefe da redação, Woyle Guimarães (um dos maiores com quem trabalhei).

Como “guarda para a semana que vem”? E se alguém publicar o mesmo assunto antes da gente?

- Por que? – me arrisquei em perguntar.

- Porque já temos uma matéria muito legal sobre o Santos para a revista desta semana! – respondeu o Woyle.

- De quem é? – perguntei novamente com cuidado.

- Não posso dizer, é segredo, só posso falar que é muito legal e vai fazer um barulho danado.

Fiquei entre angustiado e curioso. Angustiado porque, desde 1967 na Edição de Esportes de O Estado de São Paulo, estava acostumado a ser o autor das matérias quentes do Santos; curioso (e furioso) por uma matéria tão legal e importante ter passado por mim sem que ao menos suspeitasse do que era.

Tive que esperar até o domingo, quando a gente “fechava” a revista que ia às bancas na terça-feira, para que o segredo fosse revelado,

E lá estava na capa: “Nosso repórter comprou meio time do Santos!”.

O jornalista Georges Bourdokan

O autor dessa maravilhosa façanha foi o jornalista Georges Bourdokan.

Ele fala armênio e se fantasiou de sheik árabe para negociar com o vice-presidente do Santos na época, o aposentado do Exército general Osman.

Era tempo de dificuldade financeira no Santos, principalmente devido ao chamado “Elefante Branco”, que era o apelido do Parque Balneário comprado pelo clube, na esquina da avenida Ana Costa com a praia do Gonzaga (acho que é isso), que hoje abriga o hotel Sheraton (ou será que o hotel já não está mais lá?).

Era tempo também do início da fortuna dos países árabes com o petróleo que rareava no mundo e abundava no Oriente Médio.

O diálogo entre Bourdokan e o general Osman foi mais ou menos esse.

- Quanto o senhor quer pelo Carlos Alberto? (o Torres, capitão do Tri).

E o presidente do Santos estipulou um preço.

- E pelo Lima? ( o “Coringa” que jogava em todas).

- “Tanto”, respondeu o presidente.

E assim foi até chegar a Pelé.

- Não, esse não vendo – disse o general.

- Como assim, “não vende”? – reclamou Bourdokan.

- Esse não tem preço – afirmou o vice-presidente.

- Tá bom, ta bom, mas ainda vamos voltar a esse assunto. Agora, quanto o senhor quer por todo o time titular do Santos, menos o Pelé? – foi o cheque mate de Bourdokan.

O pobre do vice-presidente, que nem suspeitava da farsa, pensou, pensou e finalmente deu o preço. 600.000 dólares, um grande dinheiro na época.

Bourdokan se levantou e disse:

- Está bem, vou comunicar aos meus sócios que o senhor não vende o Pelé e que quer essa quantia pelos outros titulares! – cumprimentou o vice-presidente, que com seus assessores já alcançava a porta do gabinete quando ouviu a pergunta:

- E quando terei notícias suas novamente? – perguntava o general Osman!

Bourdokan vacilou um pouco, mas conseguiu responder contendo o riso:

- Terça-feira, presidente. Terça-feira!

O dia em que Placar estaria nas bancas.

PS - Georges Bourdokan é um dos maiores jornalistas que conheci na minha vida.

Autor: Michel Laurence Tags: , , ,

terça-feira, 17 de janeiro de 2012 Causos do Futebol | 18:52

Causos do Futebol – A Excursão da Morte!

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Este causo real foi contado pelo jornalista Lenivaldo Aragão, no número 505, da revista PLACAR, de 28 de dezembro de 1979,

Tudo começou na madrugada do dia 2 de janeiro de 1943.

A Segunda Guerra Mundial está em seu pior momento.

O Brasil aderiu aos Aliados contra as forças do Eixo, e submarinos alemães rondam ameaçadoramente a costa brasileira.

Com as luzes apagadas, o vapor Pará, do Lloyd Brasileiro, zarpa do porto de Recife.

O vapor viaja em comboio protegido por dois navios da Marinha de Guerra.

Seus passageiros, temendo um ataque, trocam os camarotes pelo convés. Dormem em grupos, armados de facas e foices, com os salva-vidas à mão. Se os alemães atacarem vão encontrar resistência.

Os passageiros são os jogadores do Santa Cruz, de Recife, que saem em excursão pelo Norte do País para amealhar alguns trocados. O clube está em dificuldade financeira.

Dois dias depois o vapor atraca no porto de Natal, capital do Rio Grande do Norte.

Uma hora depois o time já está em campo no antigo estádio Juvenal Lamartine, onde derrota a seleção potiguar, por 6 a 0.

Os jornais no dia seguinte falam da Guerra, da grande vitória do Santa Cruz, mas principalmente elogiam a coragem dos jogadores que viajam em plena guerra, mesmo sabendo que uns 5 ou 6 dias antes, um submarino alemão tinha posto a pique o navio Araranguá, da Companhia Costeira de Navegação, no litoral de Sergipe.

O time viaja para Fortaleza, onde é recebido com grande festa e fica sabendo pelos jornais que Adolf Hitler pede que os italianos desocupem a Sicília.

 

Submarino alemão

No dia 10 de janeiro o Santa Cruz é recebido em Belém do Pará e ganha de 7 a 2 do Tranviário.

Mais uma vitória, por 3 a 2 contra o Tuna Luso, dois empates – 2 a 2 com a seleção Paraense e 4 a 4 com o Paysandu – e a primeira derrota, para o Remo, por 5 a 3.

E num vapor gaiola, o time sobe o Amazonas, rumo a Manaus, rebocando uma alvarenga carregada de alimentos para o Acre. A 10 milhas por dia, a gaiola leva duas semanas para chegar a Manaus. No início da viagem tudo bem, mas sem o que fazer a bordo, e com a demora da viagem, os jogadores desciam para a casa das máquinas do vapor, onde tomavam verdadeiros pileques com alguns membros da tripulação.

Na Guerra os Aliados somam vitórias.

Os jogadores desembarcam em Manaus cansados e com saudade de casa, e no primeiro jogo perdem para o Olímpico, por 3 a 2. Mas no segundo jogo o time reage e derrota o Nacional, por 6 a 1. Mas é justamente depois desse jogo que uma terrível disenteria ataca o chefe da delegação, o jornalista Aristófanes da Trindade e os jogadores Pinhegas, Guaberinha, França, King, Edésio e Papeira.

Prontamente medicados os jogadores se recuperam mas recebem uma recomendação médica de comer muita verdura e frutas, tomar apenas água mineral, e evitar ovos e crustáceos.

Na despedida de Manaus, o Santa Cruz vence o Rio Negro, por 5 a 1.

Entusiasmados os dirigentes pensam em alcançar pelo rio Amazonas, o Peru, para mais alguns jogos, mas o CND proíbe o batismo internacional do clube devido a Guerra que está cada vez mais próxima do fim e por isso mesmo, terrível. O Itamaraty recomenda que os clubes brasileiros não deixem o território nacional.

 

2ª Guerra Mundial

Agora, a bordo do Fortaleza, um vapor que liga Quito, no Peru, à capital do Pará, o Santa Cruz desce o Amazonas em direção à Belém. Só que agora, o time está desfalcado: Cidinho, Pelado e Osmar ficaram em Manaus, contratados por times amazonenses. O plano é ao chegar em Belém, pegar um Ita e descer o mais rápido possível para Recife.

Mas, no caminho, em Santarém, começam as complicações.

Numa madrugada, King e Papeira têm uma violenta recaída da disenteria, e a médica à bordo diagnostica: os dois contraíram a terrível “terçã maligna”, uma febre da família do tifo. Desobedecendo as ordens da médica, Papeira jogara descalço, tomara banho frio e tinha bebido alguns tragos a mais. King, bom de garfo, tinha se excedido num jantar com fígado e ovos, duas coisas proibidíssimas pela médica.

Na chegada a Belém, no dia 28 de fevereiro, a má sorte continua perseguindo os pernambucanos, A 1º de março, o Governo decreta a paralisação do tráfego marítimo… O Santa é obrigado a ir arranjando jogos para pagar a alimentação e o hospital dos dois jogadores. A hospedagem não é problema, os jogadores ficam alojados na garagem náutica do Clube do Remo.

No dia seguinte, 2 de março, o chefe de polícia de Belém aparece na concentração do Santa com um telegrama de Manaus solicitando a prisão do jogador Pedrinho, que segundo o relato teria “feito mal a uma menor de 17 anos”.

Pedrinho jurou que nem namorada tinha em Manaus e logo foi descoberto que tudo era uma “armação” de um clube que estava interessado no futebol de Pedrinho.Tudo caiu no esquecimento.

Enquanto na Guerra no norte da África, as tropas inglesas e americanas fechavam o cerco em torno do general alemão, Rommel, apelidado de “a Raposa do Deserto”, em Belém, o Santa derrotava o Remo, por 4 a 2.

Dois dias depois a fatídica excursão ganha seu primeiro mártir: na madrugada do dia 4 de março, a febre terçã mata o jogador King.

De luto, no dia 7 de março, domingo de Carnaval, jogadores do Santa e do Paysandu entram em campo de luto e antes do fim da partida recebem outra terrível notícia: Papeira também tinha falecido devido a terrível febre.

Abatidos e emocionados os dirigentes tentam promover a volta por avião, mas descobrem que não tem o dinheiro suficiente para a compra das passagens e por isso o time continua jogando recebendo como pagamento 50 por cento da renda.

Finalmente, reaberto o tráfego marítimo, os dirigente do Santa Cruz conseguem passagens num navio para Recife. A caminho do navio o time recebe uma contra-ordem e tem que voltar porque a carga da embarcação é inflamável.

Até foi tentado arrumar o barco a vela para chegar até São Luis do Maranhão. Mas ia ficar muito caro porque o time teria que pagar a alimentação dos jogadores e da tripulação, além do preço do frete do barco.

No dia 28 de março finalmente, o time embarca rumo a Recife, com uma parada prevista de 4 dias em São Luis. Para arrumar algum dinheiro os jogadores trocam as passagens de primeira para as de terceira classe e são obrigados a viajar na companhia de 35 ladrões que a polícia do Pará está mandando de volta para o Maranhão. Todas as precauções são tomadas para que ninguém seja roubado, mas nem precisava, antes do fim da viagem jogadores e ladrões já eram bons amigos.

Mas antes que tudo terminasse mais um contra-tempo: o navio ficou retido e sóm poderia continuar a viagem erm comboio.

O jeito é jogar com o faturamento distribuído entre os jogadores. No jogo contra o Moto Clube, o cozinheiro do navio entrou na ponta-esquerda, porque com Edésio e Capuco machucados não tinha onze jogadores para ser escalados. Ainda bem que o tal cozinheiro tinha jogado nos juvenis do Vasco e não fez feio.

Mas continuam as loucuras. O comandante comunica que o navio irá partir logo depois de outro jogo em São Luis, de madrugada, com destino à Fortaleza. No início da viagem desaba um temporal e sem visibilidade, o navio começa a andar em ziguezague. O comandante resolve voltar ao porto de São Luis, inclusive porque o radar acusava a presença de submarinos alemães.

Desesperados os jogadores resolvem ir de trem para Teresina que descarrila duas vezes. Sem vítimas, graças a Deus.

Mais jogos dessa vez em Teresina, e o time completa 28 partidas na excursão que já dura perto de 4 meses.

A viagem até Recife foi completada de ônibus, não sem que o ônibus fosse parado pela polícia!

Mas quando viram que era o time do Santa deixaram seguir.

Quase meia noite, do dia 2 de maio, quando o Santa entra em Recife. Quatro meses de excursão, jogadores exaustos, nervosos, emocionalmente abatidos. O filho de Guaberinha de 6 anos, custa a reconhecer o pai.

A mala de Papeira foi entregue a família.

A de King caiu ao mar no desembarque em São Luís.

PS – relutei muito tempo em contar essa história levantada pelo Lenivaldo, mas acho que é importante as novas gerações saber como era difícil o futebol naquele tempo e que o trabalho de Lenivaldo Aragão foi da maior importância.

Autor: Michel Laurence Tags:

terça-feira, 10 de janeiro de 2012 Causos do Futebol | 14:32

Causos do Futebol – O MADUREIRA FEZ HISTÓRIA!

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Guevara recebendo a bola do empresário José da Gama.

Foi em 1966, alguns meses antes da Copa da Inglaterra.
O América, do Rio, me convidou para acompanhar o time numa excursão ao exterior (naquele tempo era obrigatório o clube que fosse excursionar convidar um jornalista para acompanhar a delegação).
Foi uma experiência incrível que durou cerca de 3 meses, aprendi muito. Vi que jogador de time mediano como era o América, ganhava bem pouco – o bicho de vitória era de 20 dólares, 10 pelo empate – e sofria muito com a distância da família.
Um dos jogadores do América era o meio campo Farah, que no ano anterior como jogador do Madureira, tinha participado de uma excursão histórica e pouco conhecida.
Em 1965 o mundo vivia a incerteza de uma guerra nuclear, a chamada “Guerra Fria” com a ex-União Soviética ameaçando os Estados Unidos colocando seus foguetes em Cuba.
Fidel Castro liderava ao lado de Ernesto “Che” Guevara o início de uma revolução que transformaria por completo a história de Cuba.

Farah cumprimenta o capitao de Cuba.

“Che” Guevara em 1965, depois da vitória, tinha feito uma viagem ao Brasil, onde foi recepcionado pelo então presidente Jânio Quadros, o que contrariou os militares brasileiros e provavelmente foi uma das causas da queda do ex-presidente.
Quando de repente, furando o bloqueio a Cuba, imposto pelos Estados Unidos, desembarcou em Havana o Madureira, ninguém acreditou nas notícias que divulgavam a história.
O feito foi obra do primeiro empresário que o futebol brasileiro teve conhecimento: José da Gama, um português que viveu muito mais no Brasil do que em Portugal e que era famoso por organizar e facilitar excursões e jogos para quase todos os clubes brasileiros.
E “Che” devolveu as gentilezas recebidas no Brasil, visitando o Madureira e oferecendo a delegação caixas de charutos – os melhores do mundo – e de rum – um dos melhores do mundo.
As fotos que ilustram esse “causo” são do arquivo particular de Farah, que também esclareceu que em uma das paradas do clube depois de Cuba, as caixas de rum desapareceram misteriosamente.
Fonte consultada – revista TRIP, n° 189, de junho de 2010.

Autor: Michel Laurence Tags:

terça-feira, 3 de janeiro de 2012 Causos do Futebol | 12:06

Causos do Futebol – JOÃO AVELINO, O 71, ERA ESPERTO!

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Joao avelino a direita e jogadores do Abc, onde foi campeão em 1976.

Vou contar dois causos de um grande amigo que tive no futebol. Apesar do folclore que sempre existiu em torno de João Avelino, ele era um conhecedor do futebol e sabia todas as malandragens também. Pequeno, agitado, falante, sempre andava de paletó e gravata porque segundo ele “impressionava”. Mas marcante na maneira de ser de João Avelino era o chapéu, um chapeuzinho de aba curta, que nunca foi abandonado e que lhe dava uma aparência dos anos 40.

João Avelino começou sua carreira como assistente de vários grandes técnicos como Osvaldo Brandão e muitos outros. Depois de algum tempo começou sua carreira, principalmente dirigindo clubes da segunda divisão do futebol paulista.

Só não me perguntem por que o apelido de 71. Sobre isso o João Avelino nunca quis falar.

Certa vez Avelino foi contratado pelo Ceará. Chegando lá foi apresentado ao elenco e ficou visivelmente preocupado quando lhe mostraram o goleiro, cujo nome realmente esqueci. Avelino chamou o presidente de lado e disse:

- Presidente manda o goleiro embora, ele é muito baixo. Vamos contratar um mais alto.

- Não dá – respondeu o presidente – acabou a grana!

Avelino tirou o chapéu, coçou a cabeça e perguntou:

- Presidente, e jardineiro temos?

- Temos, um grande jardineiro, olha que beleza de gramado!

O jardineiro foi chamado e Avelino foi conversar com ele num canto:

Joao Avelino, Oswaldo Brandao, Professor Jose Teixeira e não indentificado

- Olha, preciso que você faça o seguinte: da marca do pênalti até a linha do gol vai aterrando suavemente, suavemente para que ninguém note de cara a diferença. Bem suave vai aterrando e vai subindo o gramado até uns 10 centímetros até chegar bem na linha do gol!

Diante da cara de espanto do jardineiro, João Avelino explicou:

- Nosso goleiro é baixinho e a gente não vai conseguir fazer ele crescer! Então, põe terra por baixo do gramado, bem suavemente para quem notar pensar que é “ilusão de ótica”!

Este outro causo acho que foi o J.Hawilla quem me contou quando a gente trabalhava na TV Globo de São Paulo.

João Avelino dirigia  o América, de Rio Preto, terra natal do J.Hawilla.

Só não me lembro quem era o adversário, mas J.Hawilla de férias em Rio Preto, entrou no vestiário do América e viu o time todo ajoelhado, Avelino inclusive, rezando diante de um monte de velas acesas.

Hawilla esperou o Avelino levantar e disse:

- João, superstição não ganha jogo. Veja a Argentina foi campeã do mundo jogando bola, na raça e na técnica!

João Avelino olhou para o jovem e já ilustre apresentador da Rede Globo, e perguntou:

- Quem é o meia da Argentina?

- Maradona … – respondeu J.Hawilla.

- Pois é … o meu é Niquinha… Niquinha!

Autor: Michel Laurence Tags:

terça-feira, 27 de dezembro de 2011 Causos do Futebol | 12:39

Causos do Futebol – A FAMÍLIA GRAEL É DA VELA!

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A família Grael é de Dois Corrego, no interior de São Paulo, onde o coronel Dikson Grael se destacou em defesa da democracia no tempo da ditadura de Getúlio Vargas, na década de 40 e depois contra a de 1964.

Só para esclarecer a paixão da família pela vela veio com a família do patriarca dinamarquês Preben Schmidt, cuja filha Ingrid Schmidt, casou com o coronel Grael, com quem teve os filhos Axel, Torben e Lars que se apaixonaram e são campeões da vela quando foram morar com a família Schmidt em Niterói, no Estado do Rio.

Quando a família Grael ainda vivia em Dois Corregos , que por sinal é também a cidade onde nasceu o jornalista e apresentador Carlos Nascimento,  aconteceu este causo.

Um dos irmãos do coronel Grael – que chegou a ser prefeito de Dois Corregos – tomava conta do time da cidade, o Mocoembu – Dois Corregos em tupiguarani – ainda amador mas que tinha pretensões em chegar à Segunda Divisão.

Muitos clubes menores do interior de São Paulo mandavam suas “revelações” para fazer teste no Mocoembu.

Numa dessas levas, vieram uns guris da cidade de Baurú.

Um deles magrinho foi logo rejeitado e o técnico se interessou um pouco mais pelos grandalhões.

Algum tempo depois sopraram no ouvido do técnico que o magrinho que ele tinha rejeitado era … Pelé.

Talvez essa possa ser considerada a única derrota da fantástica família Grael em sua história no esporte.

PS – esse “causo” me foi contado pelo meu sogro Nelson Guirro, que é também da cidade de Dois Corregos e viveu a época do coronel Grael.

Autor: Michel Laurence Tags:

terça-feira, 20 de dezembro de 2011 Causos do Futebol | 17:48

Causos do Futebol – GALVÃO BUENO E EU!

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Conheci Galvão Bueno em 1981.
Véspera da Copa da Espanha, em 1982.
Luciano do Valle, narrador principal da Rede Globo naqueles tempos, tinha anunciado que ia voar com as próprias asas como o faz até hoje, e abrir uma empresa: a Luki (dele LUciano e KIko, filho do imortal apresentador Blota Jr) depois da Copa, e vender seu trabalho para a TV Record.
Ciro José, diretor de esportes da Globo, me perguntou quem eu indicaria. Falei que tinha visto o Galvão numa mesa redonda da TV Bandeirantes e que ele parecia ser o cara certo.
Fui encarregado de contratar Galvão. A partir daí trabalhamos juntos várias vezes e ficamos amigos para semp´re. Em uma delas pouco antes da Copa de 82, Armando Nogueira, diretor do Jornalismo da Globo, me mandou fazer um jogo da Escócia contra a Inglaterra, em Glasgow… como comentarista. Eu era chefe do Esporte, nunca tinha comentado, mas Armando tinha dessas coisas: ele queria que a gente soubesse fazer tudo numa televisão.
Em 82 a Inglaterra estava em guerra contra a Argentina pelas ilhas Malvinas. O nosso vôo de Londres para Glasgow atrasou. Compramos umas revistas com o jogo Guerra Naval, aquele de acertar hidro-avião, cruzador, submarino do outro. Ficamos em dois bancos no hall do aeroporto, de frente um para outro e começamos:
- A-27…
- Água!
- B-28…
- Água!
- C-29…
- Parte do Cruzador atingido.
Tudo foi bem até eu gritar:
- Distroyer atingido!
Distroyer é palavra inglesa, a guerra era mais na água do que no ar, o povo em volta começou a nos olhar diferente.
- Galvão, acho melhor a gente parar com isso e ir tomar uma cerveja.
Quando finalmente chegamos em Glasgow numa sexta-feira a noite - o jogo era no sábado a tarde - pegamos um táxi para ir do aeroporto até o hotel. O inglês da Escócia é dificílimo. Um sotaque danado e Galvão se esforçou muito para entender o que o motorista dizia. O homem notou e ficou quieto, mas de repente ele falou também se esforçando para ser entendido:
- Voces são de onde?
- Brasil – respondeu Galvão.
- Oh, Brasil, enbtão vocês precisam ser orientados quando voces ficarem bêbados hoje a noite…
- Como bêbados? – interrompeu Galvão - A gente não pretende ficar bêbados hoje a noite!
O homem, olhando para trás, arregalou os olhos e quase gritou:
- Não? Voces não vão ficar bêbados hoje a noite?
Notando o espanto e a decepção do motorista Galvão tentou consertar:
- Bom, a gente vai tomar uns uisques, mas não vamos ficar bêbados!
O motorista ficou realmente decepcionado e não falou mais conosco. Galvão me disse:
- Acho que a tradição por aqui é beber muito as sextas à noite!
Chegamos no hotel, o motorista fazendo questão de mostrar um desgosto profundo, quase jogou nossas malas no chão..
O hotel era de primeiríssima qualidade. Tomamos um banho e descemos para tomar uisque.
Entramos no bar do hotel, pegamos uma mesa e veio um garçom uniformizado, engomado e perguntou:
- O que senhores desejam?
- Uisque – respondeu Galvão.
- Pois não, qual uisque os senhores querem?
- Qual o uisque que o senhor tem?
A pergunta que no Brasil é comum saiu quase sem querer.
O homem sorriu, não disse palavra, apenas apontou para as paredes do bar… as quatro… completamente cobertas do chão até o teto com garrafas de uisque.
Na terra do uisque a pergunta foi meio inconveniente.
O bar estava vazio e a gente já estava planejando sair, quando começou a chegar gente aos montes. Os homens de smoking, as mulheres de longo – poucas mulheres, muitos homens.
Resolvemos ficar mais um pouco para “aprender” como a população ficava bêbada na sexta-feira à noite.
Uma meia hora depois os homens começaram a tirar os paletós e arregaçaram as mangas das camisas.
Mais um pouco, abaixaram os suspensórios e tiraram as camisas, ficando apenas de regatas. As conversas antes cavalheirescas, se transformaram em discussões acaloradas e daí para a briga foi um pulo.
Mas não pensem que era briga de empurrões, não… era um socando o outro e o outro socando mais forte ainda. Cortes nos supercílios, dentes pelo chão, sangue sujando as camisetas.
De uma selvageria inacreditável em um ambiente de alta classe.
Falei para o Galvão:
- Vamos embora antes que sobre pra nós!
Mal terminei a frase e dois dos mais ensanguentados se abraçaram, as gargalhadas. Aí não entendemos mais nada.
Saimos. Na rua era uma loucura só. Gente bebendo, caindo pelos bares e pelas ruas repletas.
Gente fazendo xixi no meio das ruas. As pessoas pouco se importando.
E brigas, muitas brigas, daquelas que vimos no bar fino e que se prolongavam pelos bares bem mais populares das ruas de Glasgow.
Aí entendemos o que o motorista do taxi quis dizer com: “quando vocês ficarem bêbados hoje a noite”!
Estou contando esse causo porque no “Bem, amigos…” de segunda-feira, na Sportv, Galvão me fez uma homenagem. Uma homenagem de amigo, de grande amigo, que estou contando para que você passe a ver que o Galvão é uma pessoa como qualquer outra, com seus momentos maravilhosos como tantos, e que é principalmente um grande amigo.
Autor: Michel Laurence Tags:

terça-feira, 13 de dezembro de 2011 Causos do Futebol | 13:33

Causos do Futebol – JOÃO “SEM MEDO” ERA TERRÍVEL!

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Copa de 86, a segunda Copa do Mundo do México.

A TV Manchete inaugurada em 83, fazia a cobertura de sua primeira Copa do Mundo.

Tinha uma ótima equipe de esporte comandada pelo jornalista e narrador Paulo Stein, um grande profissional, meu amigo de longa data; tinha João Saldanha como comentarista; vários bons repórteres e um coordenador-jornalista da melhor qualidade, Nélson Hoineff, que depois dessa Copa produziu inúmeros documentários, que deram início a cobertura policial da televisão.

Paulo Stein me convidou (eu tinha acabado de sair da Rede Globo) para comandar a parte jornalística da cobertura em Guadalajara, enquanto Hoineff se encarregava de tudo na cidade do México e o Paulo se dedicava inteiramente às transmissões e narrações dos jogos.

João Saldanha fazia parte da equipe de Guadalajara, que estava alojada em um hotel no meio do nada, a uns 30 quilómetros da cidade de Guadalajara, mas pertinho da concentração e do campo de treinamento da seleção brasileira.

O hotel uma construção tipicamente espanhola, era imenso, um retângulo com um grande vão interno e três andares acima do térreo, com apartamentos nos quatro lados internos do retângulo. Não tinha elevador. Mas esse não era um grande problema, o problema era o acesso ao próprio hotel. Para chegar tinha que sair da moderna auto-estrada, pegar um caminhozinho de terra, atravessar um riacho meio seco – a ponte de madeira tinha desabado na última enxurrada – e continuar pelo caminho até a entrada do hotel.

Uma noite voltando de um jantar em Guadalajara, o riacho “meio seco” tinha virado um rio caudaloso, com uma correnteza fortíssima que lembrava aquelas das competições de caiaques. Bem no meio do rio, um carro atolado, meio submerso, com uma moça em cima da capota gritando por socorro, que só chegou algumas horas depois quando o rio tinha baixado e voltado a ser um riacho “semi-seco” e a moça resgatada pelos hóspedes do hotel.

Estou contando isso tudo para você ter idéia de como era a situação.

Depois de uma semana naquele deserto, em um hotel sem o menor conforto, que por dentro mais lembrava as prisões dos filmes americanos, todo mundo estava com os nervos à flor da pele.

Foi nesse ambiente que no dia da nossa primeira transmissão “ao vivo” de Guadalajara, aconteceu o pior.

Tínhamos programado uma mesa redonda por volta das 9 horas da manhã, hora do México, mais ou menos uma da tarde no Brasil. O caminhão já mandando sinal para a Manchete no Rio, quando João Saldanha se virou para mim e disse tranquilamente:

- Não participo da mesa com esse sujeito!

E nem se deu ao trabalho de apontar quem era o “sujeito”.

Sem saber o que fazer, a hora de entrar no ar se aproximando, argumentei:

- Mas, João, o que você quer que eu faça?

- Ou ele ou eu! – foi a resposta.

- Por que, João, o que ele fez? – e eu já estava fazendo uma idéia de quem se tratava poir pura dedução.

- Nada! – respondeu João – Mas ele é “reaça”, foi a favor desse terrível regime militar brasileiro, e eu não vou compartilhar de nada com esse sujeito!

Todo mundo sabe que João Saldanha pertenceu ao Partido Comunista Brasileiro e em conseqüência muito perseguido pelo regime militar que durou de 1964 a 1985.

Faltavam 2 minutos para o programa entrar no ar e o pessoal do Rio gritando pela caixa de comunicação:

- Michel, cadê o pessoal? Manda esses caras sentarem!

Cheguei para o “sujeito” e falei:

- Me desculpa, mas não vai ser dessa vez que você vai virar comentarista.

E pedi que ele fosse fazer plantão na porta da concentração da seleção.

Ele não reclamou, mas nunca mais falou comigo a não ser assuntos de trabalho.

(((Não revelei o nome do “sujeito” em consideração ao tempo que já é de mais de 25 anos)))

Autor: Michel Laurence Tags:

terça-feira, 6 de dezembro de 2011 Causos do Futebol | 20:10

Saldanha x Yustrich

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Dorival Knipel, conhecido pelo apelido de Yustrich, devido a seu avantajado porte europeu, teve uma longa história no futebol brasileiro. Era um goleiro imenso, de boas qualidades, jogou no Atlético Mineiro e em vários outros clubes, até passar a ser técnico.

Era um técnico controvertido, alguns afirmavam ser do tipo mandão, comandante duro, que distribuía tapas de mão aberta – e as mãos dele eram enormes. Mas outros o chamavam de técnico paternal, carinhoso, um coração imenso que procurava ajudar a todos.

Yustrich no ano de 1973, em SP

Uma das histórias folclóricas a respeito de Yustrich conta que ele criava porcos em seu sítio, perto de Belo Horizonte. E que cada porco tinha um nome, geralmente o nome de uma pessoa que o técnico detestava. Contam as más línguas que uma das fêmeas tinha o nome de uma mulher que tinha tido um caso com o treinador.

Para dizer a verdade, Yustrich impunha respeito e temor devido a seu tamanho.

Em quase toda a sua carreira de treinador, foi acompanhado por um assistente chamado Zezinho. Era uma espécie de faz tudo, principalmente das coisas que Yustrich não queria fazer.

Um dia, ele foi contratado pelo Flamengo, quase na mesma época em que João Saldanha assumiu a seleção brasileira.

Os dias foram correndo, e a seleção, que estava um caos antes de Saldanha, passou a ser quase imbatível. Classificou-se para a Copa de 70, no México, vencendo suas seis partidas contra Colômbia, Venezuela e Paraguai. Eram as 11 feras do Saldanha contra o mundo.

Mas quando João reassumiu a seleção na preparação para a Copa, as coisas já não foram tão bem.

Uma derrota para a Argentina, em Porto Alegre, 2 a 0, e uma série de resultados negativos contra equipes sem muita história, provocaram algumas críticas, entre elas uma de Yustrich, que afirmava João Saldanha não ter condição para dirigir uma seleção brasileira. E acrescentava:

- Quase perdemos o último jogo contra o Paraguai, no Maracanã!

A verdade é que o goleiro Aguilera fechou o gol, e o Brasil só venceu com um gol salvador marcado por Pelé.

João Saldanha foi se irritando com os comentários, principalmente com o de Yustrich.

Os boatos diziam que Saldanha, que não tinha medo de nada nem de ninguém, queria tomar satisfações com Yustrich.

Uma tarde, João Saldanha, armado de um revólver, invadiu a concentração do Flamengo, uma casa em São Conrado, gritando:

- Cadé você, canalha – com o revólver na mão.

A sorte é que, apesar dos cuidados de Saldanha, alguém o viu sair de casa e tomar a direção da Barra da Tijuca, que naquela época era quase deserta. A testemunha teria ligado para a concentração e avisado Yustrich.

O “Homão” precavido fugiu pelos fundos da casa, evitando o encontro com João.

Autor: Michel Laurence Tags: ,

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