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17/11/2009 - 14:51

Fábio Simplicio, e jogou hoje pela seleção brasileira.
Você já jogou em campo em cima de um morro?
Eu joguei, no Rio de Janeiro, era rapazote!
O campo era meio … inclinado!
Só quem atacava para baixo era o time da casa.
Não havia troca de campo no segundo tempo; nem sorteio para ver quem dava a saída ou escolhia o campo no início do jogo.
Quem ia discutir? Lá em cima, o campo cercado por gente olhando feio!
Era aceitar para sair de lá com vida.
Um dia me contaram uma história sobre um garotinho que aprendeu a jogar bola em cima de um morro, aqui em São Paulo.
Uma história emocionante que já foi checada e é verdadeira.
O garotinho vivia numa casa de pobre com a família. A mãe, o pai, a avô e muitas tias, irmão, irmã.
Pagavam para morar.
O dono do terreno – não se sabe até hoje se era realmente o dono – se divertia ameaçando a família. Era desumano.
Numa dessas idas até a casa para cobrar uma dívida, viu o garotinho jogando bola.
- De quem é esse menino?
- É meu neto! – respondeu a avó com aquele jeito humilde.
- Eu troco a casa por esse menino – falou o homem ameaçador – e a dívida de vocês está perdoada!
Já chorando a avó respondeu:
- O senhor não tem vergonha? Onde já se viu? Não estamos mais no tempo da escravidão!
O homem que certamente viu que o menino tinha futuro com uma bola nos pés, respondeu gritando:
- Então, tá! Não quero mais receber e vocês tem até amanhã para deixar a casa!
O menino mesmo pequeno daquele jeito, gritou de volta:
- Ainda vou comprar essa casa para a minha avó!
Foi um corre-corre danado. Dois dias depois estavam morando em outra casa. O menino crescendo, foi fazer teste no São Paulo.
Foi vivendo com uma ajuda de custo. Foi tratado com cuidado, dentista, médicos, fisioterapeutas, e principalmente comida.
Um dia teve uma chance no profissional.
Com o primeiro dinheiro que ganhou foi no homem da antiga casa. Sorrindo, comprou ‘a vista’ terreno e barraco.
- Uma pena que minha avó não esteja mais aqui para ver isso.
O homem envergonhado resmungou:
- Sabia que você ia ser bom de bola.
Hoje provavelmente depois de seis temporadas na Itália, Fábio Simplício construiu uma bela casa para a mãe e o pai e certamente deve ter um olho na pobreza dos que precisam ser ajudados.
Autor: Michel Laurence - Categoria(s): Causos do Futebol
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10/11/2009 - 19:18

Desde que surgiu nos juvenis do fluminense, Carlos Alberto, que ainda não era Torres, foi tratado como um dos possíveis novos craques da seleção brasileira.
Era um monstro, jogava uma barbaridade. Jogava tanto que foi convocado em 1963, com apenas 19 anos, para uma Copa Roca, que seria jogada em São Paulo.
No jogo contra a Argentina, numa quarta-feira à noite, no Pacaembu, Carlos Alberto viveu um drama.
A Argentina tinha dois irmãos na ala esquerda do ataque: Oscar e Daniel Más. Os dois de muita qualidade. Malandros como só os argentinos sabem ser. Sabiam tirar partido de tudo, sobretudo da insegurança dos adversários.
O centroavante – o camisa 9 de hoje em dia – desse mesmo ataque era um cara chamado Luis Artime. Um goleador sensacional, que foi campeão mundial pelo Peñarol, do Uruguai, numa final contra o Panathinaikos, da Grécia; disputou a Copa de 66, na Inglaterra, e jogou em 1968 pelo Palmeiras, onde deixou seu nome gravado na história.
Nesse jogo entre Brasil e Argentina, de 1963, os argentinos venceram, 3 a 0, três gols de Artime, em jogadas tramadas pela esquerda pelos irmãos Más.
As jogadas dos irmãos Más exploravam as avançadas de Carlos Alberto no ataque. As três foram tramadas nas costas do lateral.
Naquela época, os avanços dos laterais não eram tão comuns como hoje em dia.
Carlos Alberto foi arrasado pela crítica. Era moderno demais para a época.
Onde já se viu! Só Nílton Santos é igual a ele, nunca iria surgir outro.
Imagine, perder para a Argentina, em pleno Pacaembu, logo depois do recém-conquistado bicampeonato do mundo no Chile.
Ali parecia que Carlos Alberto tinha enterrado sua passagem pela seleção.
Mas esse fracasso o protegeu de uma outra terrível tragédia.
Em 1966, Vicente Feola, recuperado da doença que o tinha afastado da seleção em 62, convocou nada menos do que 47 jogadores para os treinamentos no Rio de Janeiro. Eram quatro times inteiros do goleiro ao ponta-esquerda e mais três jogadores que foram chamados porque três dos prováveis titulares estavam machucados.
Os quatro convocados para a lateral pelo lado direito foram: Djalma Santos, do Palmeiras; Fidelis, do Vasco; Murilo, do Flamengo, e … Carlos Alberto, do Santos.
Murilo e Carlos Alberto – do qual só lembravam do jogo contra a Argentina – acabaram cortados e escaparam do fracasso total da seleção na Copa da Inglaterra – uma vitória, contra a Bulgária, 2 a 0, e duas derrotas para Hungria e Portugal pelo mesmo placar: 3 a 1.
E foi com esse golpe de sorte que Carlos Alberto se transformou em herói do tri, no México.
Ele e mais alguns jogadores – Gérson, Brito, Jairzinho, Tostão e até Pelé – foram recuperados nas convocações para as eliminatórias, formando nas “feras” de João Saldanha.
Foi assim também que, marcando o último gol do Brasil na vitória por 4 a 1 sobre a Itália, e como capitão do time, Carlos Alberto levantou pela última vez a taça Jules Rimet – o regulamento da Copa dizia que quem ganhasse por três vezes ficava com a posse definitiva do troféu.
Depois, a Jules Rimet foi roubada da CBF…. Bom, mas essa é outra história.
Autor: Michel Laurence - Categoria(s): Causos do Futebol
Tags: Causos do Futebol, Seleção brasileira
03/11/2009 - 13:48

Silva Batuta
Eu era jovem, começando carreira no jornal Última Hora, do Rio.
Tudo era maravilhoso.
Entrava no Flamengo sem precisar mostrar minha carteirinha de jornalista. O porteiro já me conhecia.
Passava na lanchonete comia um misto quente que eu achava delicioso.
Passava pelo portão da grade que separava a área social da dos profissionais da bola, sentava na beira do campo e sentia o olhar dos torcedores me seguindo.

Cesar Maluco
Nesse dia cheguei quando os jogadores já estavam batendo bola no gramado. Tinha um bom relacionamento com eles. Principalmente com César, que ainda não era o “Maluco” do Palmeiras, mas já era o recordista de gols marcados no campeonato juvenil; com Almir, o Pernambuquinho, valente que só ele e jogador de um futebol refinado; com Paulo Henrique, o lateral esquerdo; com Osvaldo Ponte Aérea (depois dos jogos pegava a ponte-aérea para São Paulo, onde morava a mulher dele, daí o apelido) e com Silva, o Batuta, que dividia com Almir a idolatria dos torcedores.

Nelsinho (Esquerda), Almir Pernambuquinho (Meio), e Silva, Ataque do Flamengo em 1966
Eu mal tinha sentado a beira do campo quando vi o Silva vir em minha direção. Pelo jeito vi que não era uma atitude amiga.
E não foi. Ele explodiu:
- Pô, meu, você está querendo me complicar?
Sem entender o que ele estava reclamando, perguntei:
- O que foi?
E ele aos berros:
- Pô, rapaz, o que você escreveu no jornal!
Por sorte eu sempre ia aos treinos com a Última Hora embaixo do braço.
- O que eu escrevi? Nem falei de você – argumentei.
Nisso a arquibancada lotada de torcedores começou a se manifestar. Era véspera de clássico contra o Vasco. Começaram a me xingar e pela primeira vez eu tinha que enfrentar uma situação complicada. O ambiente fervia. Eu não sabia muito bem como agir, só sabia que eu não tinha escrito nada que pudesse ter deixado o Silva tão irritado.
- Nunca mais falo com você! – foram as últimas palavras que gritou antes de entrar no vestiário.
Levantei e entrei (o que era proibido, eu nem notei e também ninguém me impediu) atrás dele. O Batuta estava sentado no banco tomando água. Abri o jornal e disse:
- Oh, cara, aqui está o que escrevi! Me mostra o que te deixou com raiva!
- Não, não é aí – gritou – é na página de dentro!
Eu ainda nem tinha lido a página de dentro. Fiquei preocupado. Será que tinham escrito alguma coisa sem me avisar?
Abri o jornal devagar e procurei. Silva já tinha levantado e estava se preparando para voltar ao campo. Encontrei e perguntei:
- É isso aqui?
- Claro – ele respondeu ainda mais irritado – não fiz nada disso. Não fui ao Corinthians para pedir para voltar? Fui pedir uns documentos, mais nada. Isso pega mal prá mim. Sacanagem!
- Silva – falei tranquilamente – olha aqui. Essa reportagem veio de São Paulo. Olha aqui, está escrito: São Paulo. Não tenho nada a ver com isso!
Ele ficou me olhando sem saber o que falar:
- Olha, cara, me desculpa! Eu não vi que era de lá! Me desculpa, sinceramente.
Aí foi minha vez de reclamar:
- Tudo bem, aceito suas desculpas, mas você vai ter que pedir essas desculpas lá fora, na frente dos torcedores!
Ouvi uma risadinha no fundo do vestiário. Olhei, era o Almir que tinha ouvido tudo enquanto se preparava para entrar em campo. Silva ainda acabrunhado, explicava:
- Cara, não posso fazer isso. E minha moral?
Autor: Michel Laurence - Categoria(s): Causos do Futebol, Sem categoria
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27/10/2009 - 14:10

Joao Saldanha
Em 1983 trabalhei no Jornal do Brasil, no Rio de Janeiro, com dois dos maiores jornalistas esportivos do Brasil: João Saldanha (com quem já havia trabalhado logo no início da minha carreira no jornal Ultima Hora, do Rio) e Sandro Moreyra, que foi talvez o maior historiador de Mané Garrincha e pai da repórter Sandra Moreyra, da Rede Globo.
Os dois tinham pertencido ao Partido Comunista nos tempos de Prestes e da clandestinidade.
Os dois de uma coragem como raramente vi.

Sandro Moreyra
João inclusive contava “ter participado da Grande Marcha, ao lado de Mao Tse-Tung (Mao Zedong – segundo a pronúncia chinesa) fundador da República Popular da China”.
Sandro Moreyra mais discreto preferia contar seu amor pelo Botafogo, e “causos” do Mané (ele divulgou histórias verdadeiras e inventou dezenas de outras).
Depois de algum tempo notei que os dois não se falavam. Estranhei afinal os dois tinham histórias paralelas de respeito. E os dois eram torcedores do Botafogo.
Mas os dois eram monstros sagrados e eu no máximo tinha que ter orgulho de trabalhar ao lado deles, mas sem o direito de me meter em seus problemas.
O tempo passou, saí do Jornal do Brasil e voltei para a Globo.
Acho que tudo aconteceu numa Copa América, em Assunção, no Paraguai, aí por volta de 1985.
Por coincidência várias equipes da mídia brasileira ficaram hospedadas num hotel que ao invés de quartos alugava casas que orlavam os dois lados de uma bela alameda.
A noite a gente se reunia na alameda, conversava, trocava idéias, tomava umas cervejinhas de onde saiam idéias maravilhosas. João Saldanha estava hospedado no hotel e participava das reuniões. Numa dessas cervejadas sem que ele soubesse ou depois de ele ter ido dormir, lancei a idéia de convidar Sandro Moreyra – sem que o João soubesse – para um churrasco e tentar reaproximar os dois.
Foi um evento.
No dia seguinte começamos a divulgar o dia do churrasco e fomos convidando várias pessoas entre elas o Sandro, que aceitou sem desconfiar de nada.
Combinamos que teríamos que distrair o Saldanha e fazer entrar o Sandro sem que um não soubesse da presença do outro.
Temeroso que pudesse acontecer alguma coisa, resolvi esperar a chegada do Sandro na porta do hotel e contei o que havíamos planejado.
Acho que ele não me deu uma porrada em respeito ao meu pai, que foi jornalista fundador da Última Hora e seu amigo. Brigou, gritou e virou as costas para ir embora.
Pedi para que ficasse. Apelei para os sentimentos dele, a amizade que sempre uniu os dois, as aventuras da mocidade, etc. Depois de muita conversa ele admitiu entrar, mas avisou:
- Se “ele” (um não fala o nome do outro) fizer qualquer grosseria, eu vou “engrossar” mais do que ele.
Temi. Eu conhecia João, sabia que ele tinha pavio curto e que era imprevisível. E também tinha visto o Sandro resolver uma parada com uma autoridade incrível.
Fomos andando pela alameda e avistamos João Saldanha no meio de uma roda. Sandro ficou ao meu lado, João percebeu a situação e deve ter tomado a decisão mais por instinto do que por raciocínio.
Davi um cinegrafista forte como o diabo e meu amigo, tinha sido avisado: “qualquer coisa você pula em cima do João e o arrasta para longe!”.
Só Deus sabe o que podia acontecer.
Os dois tinham fama de andar armados.
João olhou para o velho amigo, avançou uns passos, os dois se abraçaram e pela primeira vez depois de muitos anos começaram a conversar.
Autor: Michel Laurence - Categoria(s): Causos do Futebol
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21/10/2009 - 19:08
Foi em 1969.
Um ano rico.
A seleção estava em Bogotá para seu primeiro jogo pelas Eliminatórias da Copa de 1970, contra a seleção colombiana.
A gente tinha visto o homem chegar a Lua. Pisar nela, ficar a pegada de suas botas na terra fofa.
Era quase inacreditável. Tem gente que não acredita até hoje.
João Saldanha tinha brigado com Pelé, porque ele foi fotografado numa boate dançando com uma loira.
Mas a vitória sobre a Colômbia, 2 a 0, tinha acalmado os ânimos.
A história toda aconteceu no embarque logo depois do jogo, para Caracas, onde a seleção ia enfrentar a da Venezuela.
O embarque naquela época era a pé, andando pela pista até onde o avião estava estacionado.
João “Sem Medo”, como era chamado, ia na frente com os jogadores. Nos da imprensa, um pouco atrás.
Eu ia conversando com meu grande amigo, Carlos Alberto Torres, o “Capita”, o que ainda não sabia e nem podia adivinhar, ia levantar a Taça Jules Rimet pela última vez.
Chegamos ao pé da escada e o Carlos Alberto se adiantou.
Eu ia seguindo o grande capitão quando senti uma mão no meio peito.
Olhei para o lado e um fardado me disse:
- Um momento, señor!
Olhei espantado e perguntei o que estava acontecendo.
- É uma averiguação – disse o militar – queira nos acompanhar!
Entrei numa de pavor. Naqueles tempos a ditadura militar mandava na Colômbia. As pessoas sumiam.
Gritei:
- Carlinhos, Carlinhos – que já ia sumindo pela porta do avião – estão me prendendo!
Minha sorte é que Carlos Alberto ouviu e gritou para o pessoal dentro o avião:
- Gente, estão prendendo o Michel.
Os militares queriam porque queriam que eu os acompanhasse e eu fazia de tudo para não sair dali.
Olhei para cima da escada e comecei a ver a seleção inteira descendo de volta. João entre eles.
O tenente insistia:
- Vamos, señor, vamos.
Foi quando João Saldanha chegou perto do tenente e perguntou:
- Desculpe, mas o senhor está prendendo este cidadão brasileiro por quê?
- Não estou prendendo ninguém. É apenas uma averiguação – respondeu o tenente.
- Se é só uma averiguação vamos juntos com ele!
O tenente vacilou mas respondeu:
- Não, não, os senhores podem seguir viagem, só ele tem que ficar!
- Então o senhor está prendendo esse “periodista” brasileiro! Vamos com ele – falou João.
- Mas não pode – balbuciou o tenente!
- Como não pode? – perguntou João Saldanha – O senhor já imaginou? Vai ficar famoso! A notícia que o senhor prendeu Pelé e toda a seleção brasileira vai correr o mundo!
O tenente fez uma carreta de dor e depois de alguns segundos que me pareceram séculos, disse falando comigo:
- Me desculpe, acho que houve um engano, não era o senhor! Por favor, o senhor pode seguir viagem e queira me desculpar.
Incontinente se virou para um dos soldados e gritou:
- Ta vendo! Eu disse que não era ele e você insistiu que era. Está vendo o papel que você me fez passar – o soldado não sabia o que responder, e o tenente virando-se para João Saldanha:
- O senhor está vendo o que é trabalhar com pessoas incompetentes!
João sorriu, olhou para mim piscou um olho e saiu andando com aquele andar que lembrava os malandros cariocas.
- Laurence, vamos lá que dessa você escapou.
Autor: Michel Laurence - Categoria(s): Causos do Futebol
Tags: Causos do Futebol, João Saldanha
06/10/2009 - 14:21
Quando cheguei ao Brasil, em 1948, tinha um jogador que quem viu os dois garante “jogava mais do que Pelé”.
Eu só conheci Leônidas da Silva quando vim para São Paulo, em 1967.
Era o Diamante Negro, o Homem Borracha, apelidos conquistados lá fora, na Europa. Ele era comentarista na Jovem Pan. Sério, cabelos sempre penteados com gomalina, terno e gravata, não sorria, parecia ignorar o mundo, olhava lá de cima na cabine para nós na Tribuna da Imprensa, no Pacaembu, nem cumprimentava.
Passava no olhar o que queria passar: mágoa.
Joseval Peixoto, naquela rampa que avançava para dentro das cadeiras cobertas, duelava com Fiori Gigliotti qie ocupava a outra rampa. Joseval narrava e mal olhava para Leônidas, que parecia tambném ignorá-lo.
Eu era louco para conversar com ele.
Saber como tinha sido sua carreira, os tempos em que “inventou a bicicleta”. Como e de quem tinha ganho o apelido de Diamante Negro (que existe até hoje nos chocolates de capa negra e letras prateadas. Leônidas ganhou dois contos de reis para a Lacta usar o apelido e nunca mais cobrou nada).
Depois acompanhei sua doença, o Mal de Alzheimer.
Passou quase sem dar entrevistas.
Morreu sempre com a mulher Albertina, a seu lado.
Me lembro que uma vez Vital Battaglia entrou pela redação do Jornal da Tarde dizendo que o Leônidas estava doente.
Acho que ele foi o último jornalista a falar com Lerônidas ainda lúcido.

Só algum tempo depois fui entender por que Leônidas tinha certo rancor com os jornalista. Tudo começou na Copa de 38, na França, quando a seleção brasileira foi a terceira colocada, com Leônidas sendo o artilheiro do certame com 8 gols e eleito “o melhor jogador da Copa”.
Por contusão, Leônidas não jogou contra a Itália, que conquistou o bicampeonato mundial. Niginho, que substituiu Leônidas, anos mais tarde o acusou de ter forjado a lesão depois de ter recebido uma certa quantia do ditador italiano na época, Benito Mussolini. Leônidas processou Niginho por calúnia, e ganhou a causa.
Mas o que mais magoou Leônidas foi o que falaram quando de sua transferência para São Paulo.
10 mil pessoas foram receber Leônidas na Estação da Luz.
Alguém publicou que ele só tinha aceitado a proposta do São Paulo para “fugir da segunda Guerra Mundial”.
Ele teria sido convocado pelo exército brasileiro.
Teria se negado e fugido de trem para São Paulo.
Mais tarde acrescentaram que sua sorte – não ter sido preso – tinha sido a guerra terminar logo depois.
A mágoa que o Diamante carregou não tinha tamanho.
Quando Pelé surgiu ele quase o ignorou, como ele quase tinha sido ignorado quando surgiu e Friedenteich ainda era o monstro sagrado do futebol brasileiro.
Autor: Michel Laurence - Categoria(s): Causos do Futebol
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29/09/2009 - 17:34
Casamento marcado.
Os convites sendo distribuídos.
Ele uma carreira promissora pela frente. Sonhava com a seleção. Comprar uma casa, ajeitar a vida para o futuro.
Ela uma moça maravilhosa, prendada – o que naquela época era valorizado – meiga, amiga, simpática.
No início a família dela tinha sido contra: jogador de bola era mal visto:
- Bando de vagabundos – grunhia o pai.
Mas aos poucos a família foi aceitando. Afinal ele era um rapaz decente, trabalhador.
Raul (vamos chamar ele assim) tinha um grande amigo, Virgílio (acabei de inventar esse nome também, para facilitar o relato) que fazia dupla de meio-de-campo com ele.
Os dois dividiam a vida desde os tempos de criança, moravam no mesmo quarto na concentração, tinham subido juntos do juvenil para o profissional.
Os dois as maiores promessas do time.
Justamente naquele ano o time dominava o campeonato.
Invicto, 26 jogos. 18 vitórias e 8 empates.
O técnico, seu Inocêncio (nome fictício), exigia cada vez mais.
Treino de manhã e de tarde e depois da décima oitava vitória ele reuniu o elenco no meio de campo e anunciou:
- Agora, vamos com tudo. Faltam quatro jogos. Vamos ser campeões invictos.
Todos bateram palmas entusiasmados.
Aí Inocêncio acrescentou:
- Concentração a partir de sexta a tarde.
Virgílio olhou para Raúl, concentração sexta a tarde…dureza. Mas valia a pena.
Foi justamente num desses dias decisivos que um dos jogadores do time chamou o Virgílio de lado e disse:
- Olha, não sei como te contar, mas o Silicato (outro nome inventado) viu o Inocêncio saindo do prédio da noiva do Raúl!
Virgílio parecia não entender direito e perguntou:
- O que você está falando aí, rapaz? Você está louco?
O que contou o fato ficou com medo e quase pedindo desculpa repetiu:
- É, ele me disse que viu o Inocêncio saindo do prédio da noiva do Raul!
- Não acredito, ele só pode estar enganado.
Foram confirmar a história com o jogador que tinha visto Inocêncio.
Ele confirmou:
- Ué, se você está duvidando é só ir lá na próxima sexta-feira a noite, que é o dia em que ela fica sozinha no apartamento – o pai e a mãe vão ao cinema e depois comer uma pizza – e ficar escondido observando.
Virgílio queria sair fora dessa história, mas a amizade o empurrava a ver se aquilo tudo era verdade.
Ansioso, meio sem jeito sempre que encontrava o amigo, Virgílio aguardou a sexta-feira.
Foi com Silicato. Ficaram na sombra, atrás de um carro. Não viram ninguém chegando, mas viram Inocêncio saindo.
Silicato disse:
- Ta vendo, você tem que avisar ao Raúl!
- Eu, não – defendeu-se Virgílio – eu, não!
Teve uma reunião dos jogadores, sem a presença do Raúl. Decidiram que o capitão do time ia pedir a diretoria a demissão de Inocêncio “por desentendimentos com o diretor de futebol” e que Virgílio teria que contar a Raúl.
- Não vou conseguir dormir se o Raúl não for avisado.
Virgílio não sabia como fazer, não queria fazer, mas não teve jeito.
Os dois nunca mais se falaram. Na segunda-feira Inocêncio deixou o clube depois da décima nona vitória.
Autor: Michel Laurence - Categoria(s): Causos do Futebol
Tags: Causos do Futebol
22/09/2009 - 12:59
Conheci e conheço grandes jogadores de futebol.
Alguns foram e são grandes amigos.
Tive o prazer, como “peladeiro”, de jogar com alguns.
Joguei com um que talvez poucos se recordem. Um central chamado Edson, que era do América, jogou na Seleção e foi fazer a vida no Boca Juniors, onde, naquela época, pagavam mais.
Joguei com Jairzinho, que viria a ser o Furacão da Copa, ainda garoto e com Nei, que nem sonhava em ser pai do Dinei, que jogou principalmente no Corinthians.
Joguei com Simões, um centro-avante do Bonsucesso que, depois, defendeu o Fluminense e vários outros clubes do Rio.
Joguei com Edu, um meia fantástico, irmão de Antunes e Zico, durante uma excursão interminável pelo Caribe e América Central, onde eu e o doutor Oscar Santamaría completávamos o time reserva nos treinos do América. Um time que tinha Wílson Santos – um zagueiro de qualidade, campeão em 60, e que estava iniciando carreira como técnico; Eduardo, um ponta-esquerda que veio para o Corinthians e, infelizmente,morreu com o lateral Lidu num acidente de automóvel na marginal do Tietê; Alemão, um zagueiro,irmão do goleiro Manga; aprendi muito com o goleiro Ari, que tinha o apelido de “Caroço”; Farah; Ica, que não sabia se era uruguaio ou brasileiro porque tinha nascido na fronteira dos dois países; Luciano, um pastor evangélico e lateral duro na marcação. Sudaco, que hoje seria considerado um antiatleta, mas que jogava uma barbaridade.
Bati bola com João Carlos, um meia que foi do Fluminense e defendeu o América por muitos anos, nas peladas da praia do Flamengo.
Joguei com Cané, um ponta-direita do Olaria, que foi um dos primeiros a ir para a Itália. Jogava muito, por onde será que anda? Joguei com Rodarte, que também foi para a Itália. Drumond, um centro-médio elegante como poucos.
Joguei com Orlando Pingo de Ouro, com Ademir Menezes, artilheiro da Copa do Mundo de 50 com 9 gols.
Com todos eles aprendi um pouco ou muito, principalmente depois dos jogos, quando a gente ia tomar uma cervejinha e vibrar com a vitória ou chorar a derrota.
E aprendi a ouvir, ouvir histórias maravilhosas. Algumas alegres, outras muito tristes.
De um grande jogador – que vou esconder o nome pelo imenso respeito que tenho por ele – ouvi a mais terrível de todas.
Feliz, um dia ele chegou em casa e disse para a esposa – uma moça fina, de boa família, que acabava de lhe dar o segundo filho:
- Parei com a bola – sorriu um sorriso sem graça e completou – antes que ela parasse comigo. Cheguei a um acordo com a diretoria. Foi tudo tranqüilo, tudo amigo.
A mulher sabia o quanto devia ter custado ao marido a decisão de deixar de ser jogador.
Sabia, mas não disse nada.
Era o certo, ele tinha que parar antes de ser ridicularizado, em respeito a tudo o que tinha realizado.
A partir daquele dia, o ex-jogador mal saía de casa. Quando saía, algumas vezes voltava com o cheiro do uísque que tinha tomado com os amigos.
Viveu uma experiência terrível. Alguns “amigos”, quando cruzavam com ele pelas ruas, mudavam de calçada achando – como era comum – que ele estava em péssima situação financeira e que ia pedir dinheiro emprestado.
Não era o caso.
Ele tinha feito um bom pé-de-meia e iria certamente viver sem muitas dificuldades o resto de sua vida.
Um dia, passados uns cinco meses desde que tinha encerrado a carreira, ele chegou em casa sem ter bebido um pingo de álcool quando a esposa o chamou:
- Fulano, vem cá, preciso conversar com você.
Pelo tom de voz ele suspeitou que não era coisa boa.
Beijou a mulher e sentou pronto para ouvir uma das costumeiras reclamações. Reclamações educadas, mas reclamações.
- Olha, quero me separar de você – disse ela secamente.
Ele tomou um susto, como se tivesse levado um soco no peito.
- O que é isso? O que eu fiz? Não diga uma coisa dessas!
Ela já chorando, mas decidida, continuou:
- Não quero mais viver com você.
Ele estava completamente tonto, não conseguia raciocinar direito, e apenas perguntava:
- O que eu fiz?
- Você não fez nada – respondeu a mulher chorando –, não fez nada… mas … eu não casei com você! Casei com aquele homem que jogava bola, você é outro homem. Um homem que não conheci… que só estou conhecendo agora e que não é o homem com quem casei…
Autor: Michel Laurence - Categoria(s): Causos do Futebol
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15/09/2009 - 14:10

Luizinho, o Pequeno Polegar
Luizinho tinha apenas 1,64 m de altura.
Mas segundo contam era corajoso e folgado como poucos.
Driblava com uma facilidade incrível, logo ganhou o apelido de Pequeno Polegar – a história infantil de um menino que nasceu fraco e pequeno, mas com uma inteligência que o fez superar todos os obstáculos – e virou um dos maiores ídolos da história do Corinthians.
Foi campeão paulista no ano do Quarto Centenário da cidade de São Paulo, ao lado de Cláudio, um ponta direita com “um cruza” tão perfeito que permitiu a Baltazar com seus inúmeros gols de cabeça ganhar o apelido de Cabecinha de Ouro.
Os três chegaram a seleção brasileira, mas sempre foram ofuscados pelos “cariocas” Zizinho – que era fluminense de Niterói – Ademir – que era pernambucano – Heleno – que era mineiro, de São João Nepomuceno e Jair Rosa Pinto, o Jajá de Barra Mansa – também Fluminense da cidade de Quatis. Naquela época São Paulo e Rio viviam as turras, e o Rio tinha o comando da seleção e do futebol brasileiro.
Mesmo assim os três construíram história.

Assinalados na foto, Claudio, Luizinho e Baltazar
Contam que Maurinho, um grande ponta direita que era do São Paulo na época, e que virou ídolo defendendo o Fluminense, quebrou a perna de Alfredo Ramos, num clássico Corinthians e São Paulo.
Luizinho foi ao hospital visitar seu desafortunado companheiro. Na saída do hospital cruzou com Gino Orlandi – um centro avante do São Paulo, alto e forte, goleador, que por muitos anos foi administrador do estádio do Morumbi. Dizem e é bom salientar isso, que Gino teria desacatado Luizinho (há quem afirme que foi Luizinho quem provocou Gino).
O ídolo do Corinthians, corajoso e folgado, ficou de tocaia esperando a saída do jogador do São Paulo. Quando ele saiu pela porta, Luizinho pulou de seu esconderijo e acertou a cabeça de Gino com um tijolo.
Contam também que no Palmeiras jogava um grande craque argentino chamado Luís Villa, um cavalheiro conhecido por sua educação.
Num clássico entre os dois maiores rivais do futebol paulista, Luizinho provocou Luis Villa com a bola nos pés. O argentino ficou parado olhando para o jogador do Corinthians. Quando Luizinho viu que o palmeirense não ia aceitar o desafio,,, sentou na bola.
Mas como sempre uma mesma história tem tuas versões: os palmeirenses juram que Luizinho “escorregou” ao tentar driblar e… caiu com o bumbum em cima da bola.
Mas a cena causou tanto impacto e vibração na torcida que ele teria repetido o feito, dessa vez “por querer” em vários outros jogos.
De qualquer forma Luizinho jogava muito e dizem que depois de encerrar a carreira nunca mais deu entrevistas (a não ser quando foi técnico do Corinthians) de desgosto por não ter sido reconhecido como um jogador de seleção brasileira.
Autor: Michel Laurence - Categoria(s): Causos do Futebol
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08/09/2009 - 17:44
Mário Filho, irmão mais velho de Nelson Rodrigues, criador do Jornal dos Sports e de textos maravilhosos, escreveu sobre o jogo que ficou conhecido como o Fla-Flu da Lagoa: “o campeonato se resumiu num match (sic), o match se resumiu em seis minutos”.
Só para situar a história, foi a decisão do Campeonato Carioca de 1941. Minha família e eu chegamos ao Brasil em 48, mas me lembro perfeitamente que os mais velhos ainda falavam do Fla-Flu da Lagoa. Alguns com uma mágoa danada. Outros como se fosse uma das maiores epopéias do futebol mundial.
Faltavam seis minutos para o jogo acabar quando o Flamengo, que precisava vencer, fez o gol de empate.
O empate dava o título ao Fluminense.
Segundo Mário Filho uma “multidão” de 15 mil pessoas se espremia no estádio da Gávea.
Naqueles tempos a Lagoa Rodrigo de Freitas chegava quase até os muros do Clube de Regatas do Flamengo. Só uma pista estreita para os carros entre o muro e a água.

Os jogadores do Fluminense entre eles vários da seleção terceira colocada na Copa de 38, o goleiro Batatais; os meias Romeu e Tim; e os ponta Pedro Amorim e Carreiro, começaram com último recurso para evitar o gol que daria a vitória ao Flamengo, a chutar a bola por cima do muro e para dentro da Lagoa.
Naquele tempo as bolas oficiais não eram tantas assim.
Os dirigentes do Flamengo temendo que as bolas acabassem apelaram para a turma de remadores – quase todos campeões carioca e brasileiro – que puseram seus barcos na água e pareciam querer bater recordes mundiais na tarefa de recolher as bolas e as mandar de volta para o campo.
Os jogadores do Flamengo liderados por Domingos da Guia, pai do Divino Ademir da Guia, e Zizinho, caçavam os jogadores do Fluminense que ficavam tocando a bola para passar o tempo, sob o olhar impassível do juiz Juca da Praia.

Na verdade ele, o juiz, não podia fazer muita coisa.
Praticamente quem mandava no jogo era o cronometrista. Um senhor que ficava sentado numa mesa do lado de fora do campo, controlando o tempo.
Como salientei, faltavam seis minutos quando o Fluminense empatou o jogo.
Mas esse tempo ia se prolongando conforme os jogadores do Fluminense chutavam a bola para a Lagoa. O cronometrista parava o cronômetro esperando a bola voltar.
Valia tudo, inclusive que as bolas molhadas fossem rejeitadas pelo goleiro Batatais.
Aliás foi Batatais quem serviu de inspiração a seus companheiros. Ele deslocou o ombro numa defesa, e como naquela época não havia substituição, ele continuou jogando como um verdadeiro herói.
Juca da Praia acabou determinando o fim da partida quando mais de 15 minutos tinham se passado além do tempo regulamentar.
Para Mário Filho, que viu pessoas desmaiando e outras gritando de desespero, sem que se pudesse identificar se eram torcedores do Fla ou do Flu, foi nesse jogo que se firmou a força do clássico Fla-Flu, como o maior do nosso futebol.
Autor: Michel Laurence - Categoria(s): Causos do Futebol
Tags: Causos do Futebol, flamengo, fluminense
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