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19/08/2009 - 06:40

Arqueologia mito e Arqueologia ciência

A arqueologia é um dos campos do conhecimento onde os mitos se aglutinam. Algumas ciências possuem essa característica – como a física, sobretudo a nuclear, a genética -, mas a arqueologia, certamente, é a que mais alimenta e acolhe mitos.

 

Há vários exemplos, desde os mais delirantes, como a busca por “Atlântida”, as inscrições supostamente fenícias da Pedra da Gávea no Rio de Janeiro, a cidade perdida de Eldorado na Amazônia, até coisas relativamente mais “simples” como certas interpretações a respeito de Tróia e das pirâmides do Egito.

Sobre Tróia a história de sua busca é quase tão interessante quanto a da própria cidade.

No século XIX um jovem alemão, que lera a Ilíada (a história da guerra de Tróia) e que se fascinara com ela, Heinrich Schliemann, empreendeu praticamente toda sua vida para encontrar a cidade na qual se desenrolara todos os eventos narrados no livro atribuído a Homero, e onde brilharam as figuras de Heitor, Ulisses, Pátroclo, Aquiles, Ajax, Agamenôm, Helena.

Hoje, um século e meio de pesquisas depois, sabemos que a própria autoria do texto da Ilíada – bem como o da Odisséia – dificilmente pode ser atribuída a um único autor, e que quase com toda a certeza suas origens remontam poesias orais, recitadas por poetas populares – tais como nossos repentistas e cantadores -, transmitidas oralmente de geração à geração.

A história da Guerra de Tróia se remete ao passado arcaico do mundo grego e seus conteúdo é uma construção mítica muito particular a respeito de acontecimentos ocorridos na região.

Mas Schliemann e seus contemporâneos não pensavam assim. Pelo contrário, imaginavam – seguindo a corrente comum na época – que a Ilíada era um texto passível de ser seguido, como um guia para um mundo antigo, desaparecido, mas que deixara sob a terra seus últimos vestígios.

O pesquisador investiu em sua busca por Tróia parte significativa de sua fortuna, amealhada a duras penas ao longo de uma vida de privações e alguma sorte (na infância Schliemann fora acentuadamente pobre).

Concluiu, finalmente, que o sítio indicado a ele por camponeses turcos condizia com a descrição de Tróia contida na Ilíada. Arregimentou dezenas de trabalhadores e iniciou uma escavação no local quase sem critérios metodológicos como os entendemos hoje. Esse período, antes da consolidação das modernas técnicas de escavação, faziam com que a arqueologia se parecesse muito mais com uma caça ao tesouro do que com ciência.

Mas o que se buscava era em grande medida um tesouro, e nem tanto o conhecimento a respeito de um passado específico. As escavações conduzidas pelo alemão abriram valas terríveis em sua “Tróia” e objetos tidos como de menor valor (cerâmicas, telhas, tijolos) foram desprezados em benefício das buscas por objetos de ouro ou pedras preciosas, estátuas, armas.

Durante muito tempo a idéia de que se encontrara Tróia permaneceu. Mas, nas primeiras décadas do século XX, a cidadela escavada pelo alemão foi revisitada por uma equipe estadosunidense de arqueólogos – cujo chefe havia composto a equipe de Schliemann. Com outros objetivos – que não o de caçar tesouros – e municiado de uma metodologia muito mais consistente um novo cenário começou a se delinear.

O próprio Schliemann notara em suas escavações que havia uma sequencia de “estratos” que provavelmente revelavam cidades que foram se sucedendo como camadas de um bolo. Escolheu entre elas aquela que mais se assemelhava a idéia que havia composto em sua mente sobre Tróia e a batizou como a “Tróia Homérica”. Todas as demais foram descartadas.

Contudo, para as novas equipes de arqueólogos, o interesse se alterara e todas as “Tróias” (quantas seriam?) lhes eram importantes. Sete momentos distintos foram identificados, sete Tróias, que acompanharam a história da ocupação humana no Oriente próximo, ao longo das idades do metal (bronze, ferro).

Nessas “Tróias” não se buscava os túmulos de Príamo, de Heitor, nem o Cavalo de Madeira, mas restos de comida, ossos, tijolos, pedaços de potes e tijelas, qualquer coisa que revelasse os cotidiano dessas sociedades.

Talvez para o grande público a história acreditada por Schliemann seja mais cativante, mais sedutora, e ados arqueólogos contemporâneos “excessivamente” técnica. O mesmo ocorreu com as escavações no Egito, sobretudo no contexto da descoberta da tumba de Tutankamon por Howard Carter. Os mitos excedem em muito a capacidade de difusão da ciência arqueologia, mas, ao mesmo tempo, realimentam o interesse do público, sobretudo das crianças e jovens, pela área. E não vejo isso como algo ruim, são dimensões diversas e cada uma tem seu lugar, seu espaço e sua função.

E sempre é o sonho que move primeiro, depois os interesses “técnicos”. Alguns arqueólogos se sentem desconfortáveis com isso, e criam verdadeiros “cavalos de batalha” (sem qualquer alusão ao cavalo de madeira troiano) na defesa de uma “ciência asséptica”, sem contaminações dos mitos ou dos sonhos. A mim isso só empobrece, diminui o interesse, e nada acrescenta a ciência, nada traz de novo, nem melhor, nem a mais.

Sorte da ciência que consegue atrair para si pessoas movidas pela imaginação e não apenas pela satisfação financeira.

Autor: indianasilva - Categoria(s): Arqueologia, História antiga Tags: , , ,
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