25/10/2009 - 12:35
A prática das ”férias” é uma criação surgida após a Revolução Industrial e a subversão da relação tradicional dos homens com o tempo.
Se alguém perguntasse a um camponês da Idade Média se ele pensava em ter “férias” isso não lhe faria qualquer sentido. Para os homens até o momento da separação da força de trabalho (detentida pelos “trabalhadores”) dos chamados “meios de produção” (máquinas, terras, equipamentos em geral, capital, detentidos pelos proprietários) a vida decorria num contínuo circular, marcado pelo tempo natural (dos eventos da natureza, como as estações do ano) e pelo tempo religioso (das festas e comemorações, quase todas elas também ligadas ancestralmente ao tempo natural e aos fenômenos da natureza).
Com isso a vida decorria sem a expectativa de uma corrida em direção a um fim, a um ponto de chegada, ela era a manifestação humana de um ciclo de nascimento, morte e ressurreição. E isso muito antes do surgimento do cristianismo ou mesmo fora das fronteiras do cristianismo.
A infinidade de sepultamentos em posição fetal dos nossos ancestrais agricultores do período neolítico insinuam a idéia de que, assim como as sementes, nossos corpos eram depositados na Terra-mãe, para que morrendo pudéssemos renascer. E assim eternamente, sem um fim, sem um ponto de chegada.
No cotidiano dos povos trabalho, descanso, diversão, devoção eram práticas que não estavam marcadas, dissociadas umas das outras, fragmentadas, compartimentadas em dias ou horários específicos. Aliás, a própria vida era percebida como um todo e não como algo composto de “partes”: minhas horas de trabalho, minhas horas de descanso, minhas horas de lazer, meu momento de devoção, etc.
Isso tudo começa a se separar com mais clareza a partir do século XVIII quando a lógica do trabalho industrial começa a invadir e pressionar a vida das pessoas. O cotidiano dentro da fábrica independe dos eventos naturais. A noite é subvertida com a iluminação artificial, o trabalho não é mais voltado para a produção de elementos essenciais à vida, mas a produção de artigos comercializáveis, os trabalhadores não dominam mais todo o processo produtivo, mas se especializam em partes específicas dele.
Em contraposição a dilapidação da vida dessas pessoas o movimento trabalhador se organizou e passou a exigir direitos básicos, mas dentro da nova lógica de tempo, de trabalho e mesmo da vida como um todo.
E nisso se inicia uma longa luta que se extende até hoje: direito a descanso semanal remunerado, limite de horas trabalhadas, compensações por acidentes, aposentadoria, licensas de saúde e…férias.
Por isso não fazia sentido falar em férias a um trabalhador que não vivedsse na lógica moderna do trabalho e da organização temporal. Férias, em suma, é a utilização de “tempo acumulado” pelo trabalhador ao longo de períodos de ocupação, tempo este a ser “gasto” de modo concentrado e não distribuido ao longo do ano como nas folgas. Idéia maluca essa, é claro, de se “acumular” ou ”guardar tempo” para se gastar depois.
Mas é o mundo em que vivemos. E assim, usando meu “vale-tempo”, minha “bolsa-tempo”, estou saído de férias e retorno no fim de novembro. Neste intervalo vou tentar escrever de vez em quando de onde quer que eu esteja.
E como diriam lá pras bandas do sul de Minas Gerais: Inté.
Autor: indianasilva - Categoria(s): Direitos Humanos, História contemporânea, História da cultura
Tags: Férias, Origem, Revolução Industrial, Tempo, Trabalho
30/07/2009 - 07:04
Onde foram parar as toneladas e mais toneladas de ouro que a Coroa Portuguesa extraiu das Minas Gerais ao longo do século XVIII?
Quando era aluno no colégio ouvi a explicação clássica para o assunto, a qual a grande maioria dos alunos ainda ouve: as minas de ouro foram descobertas durante nosso período colonial e, portanto, o ouro extraído foi parar, primeiramente, nos cofres portugueses. Portugal, por sua vez, possuía um profundo desequilíbrio comercial com a Inglaterra – a qual já manufaturava tecidos. Assim, o ouro procedente do Brasil era empregado por Portugal para compensar o desvantajoso comércio entre os dois reinos, sendo que de Portugal para a Inglaterra seguiam quase que somente produtos agrícolas ou derivados, de pouco valor agregado, como o Vinho do Porto.
Isso explicaria porque Portugal se manteve como um reino de pouca importância e majoritariamente agrícola enquanto a Inglaterra teria utilizado o ouro oriundo dessas transações comerciais para “financiar” a sua “Revolução Industrial”.
Faz sentido. É uma explicação que possui lógica e relação causal. Soluciona uma série de problemas: Onde foi para o ouro brasileiro? Porque Portugal não se industrializou? De onde vieram os recursos para a Inglaterra investir em tecnologia? Porque o ouro brasileiro ao invés de ficar em Portugal desapareceu?
Infelizmente, ou felizmente, a história sempre é mais complexa do que parece e as relações de causa e efeito não são automáticas e simples como as de bolas se chocando numa mesa de bilhar.
De alguns anos para cá historiadores britânicos tem ficado relativamente espantados ao ver que essa tese ainda é difundida entre parte dos historiadores brasileiros e em quase todo o sistema de ensino. A contestação dessa tese não é nova, direta ou indiretamente. Autores como Charles Boxer, Kenneth Maxwell e E. P. Thompson – tratando, é claro, de aspectos diversos da história de Portugal e da Inglaterra revelam quadros bastante mais complexos e que desconstróem essa relação causal simplista.
Quando as primeiras minas foram descobertas, na década de 1690, a possibilidade de uma Revolução Industrial ainda era relativamente distante, embora as movimentações no campo na Inglaterra, que levaram a liberação de mão de obra para trabalhar nas fábricas (pequenos proprietários e lavradores livres perdendo suas terras e sustento para terem de vender seu “trabalho”), já havia começado a dar sinais.
O período no qual as minas de ouro mais deram lucro foi justamente o das primeiras décadas, até meados, do século XVIII, quando a Revolução Industrial ainda engatinhava. A segunda metade do século XVIII já foi marcada pelo crescente declínio da extração aurífera, o que culminou com o ensaio de rebelião que ficou conhecido como “Inconfidência Mineira”.
O comércio e a transferência de riquezas, ainda mais de metais preciosos, teria de ser absolutamente veloz a ponto deles serem extraidos, transferidos para Portugal, empenhados nas trocas com a Inglaterra, e chegarem aos capitalistas e ao investimento na produção.
Mas o argumento dos ingleses nem é o da cronologia apertada, ele está assentado na própria economia inglesa e em seu comércio.
Os ingleses também possuíam deficits comerciais com algumas regiões, entre elas o extremo oriente, de onde traziam o tão famoso chá. As contas do reino, para os ingleses, fechavam quase tão negativas quanto as dos portugueses, impedindo que uma acumulação de riquezas – de ouro – restasse nas mãos dos monarcas.
Por outro lado, se seguirmos os estudos de Thompson, a respeito da formação do operariado na Inglaterra, veremos que as matrizes empregadas para alavancar a Revolução Industrial foram outras bem diversas, principalmente no aperto aos pequenos agricultores, a um menor preconceito de parte da nobreza para com os trabalhos manuais, o que lhes possibilitou atuarem como investidores, no sucesso de determinadas lavouras, na existência de redes de transporte mais eficientes e bem como de jazidas de minerais fundamentais para o processo, como o carvão mineral (sobre esse universo carvoeiro e sua importância para a indústria nascente o livro de Emile Zola, Germinal, ainda é um relato visceral e impactante).
Para os portugueses alguns elementos contribuiram negativamente para a manutenção de riquezas e sua inserção na Revolução Industrial: o primeiro ítem é a mentalidade conservadora de boa parte da nobreza portuguesa, a qual via a classe proprietária sem origens nobres com péssimos olhos. Isso afastou a nobreza, a qual possuia recursos para investir, das atividades industriais nascentes. Além do mais a nobreza protuguesa via os trabalhos manuais como degradantes ou aviltantes, nisso inclui-se as tividades dos “industriais”. Em segundo lugar a própria Coroa criou sucessivamente restrições a iniciativa, tentando manter as estruturas que haviam sustentado o sistema colonial (com controles rígidos de comercio e exclusividades). Em terceiro lugar a Coroa portuguesa era extremamente perdulária, gastando horrores para manter um grupo de ociosos. Essa nobreza cortesã (de “viver na corte”) era em boa medida sustentada com os lucros da Coroa. Gastava-se muito com luxos, pompas, circunstâncias, com produtos do Oriente, enquanto as fontes de renda despencavam (entre elas o comércio oriental, perdido há muito tempo).
O dinheiro vazava por muitos ralos e não se ocupavam de criar nenhuma nova fonte de renda (nem em ingressar na economia nascente). O grande erro da Coroa Portuguesa foi o de se aferrar a tradição mais do que seus vizinhos europeus, ainda mais frente a Inglaterra.
As tentativas de modernização do reino, como a empreendida pelo Marquês de Pombal, esbarraram ou na resistência de grupos privilegiados, na corrupção de partes do sistema, ou na insistência em retornar ou manter a antiga situação (como ocorreu com a chamada “Viradeira”, a subida ao trono de D. Maria e a queda do ministro após a morte de D. José I).
Efetivamente algum ouro brasileiro foi para na Inglaterra, mas como estes não o seguraram acabou migrando para outros bolsos. No final, o provável é que o ouro brasileiro tenha se tornado parte da massa circulante que deu fluidez ao sistema comercial entre as nações, o qual ganhava agilidade e volume a cada dia. Vale lembrar que até o final da I Guerra Mundial o padrão empregado era o “ouro”, somente depois passou a ser o dólar, ou seja, até o século XX foi o ouro a dar lastro para a emissão de moedas, procedimento parcialmente responsável na aceleração e viabilização do capitalismo contemporâneo.
Culpar o famoso tratado dos “Panos e Vinhos” (aquele no qual Portugal vendia vinho para a Inglaterra e comprava tecidos destes) pelo escoamento da riqueza extraida do Brasil é insustentável. E haja vinho e haja pano, pois eram toneladas e toneladas de ouro extraidas todos os anos, sem contar o que saía de Goiás e Mato Grosso, além de diamantes do distrito de Serro Frio e outras pedras e metais preciosos.
O ouro brasileiro foi pesar em muitos bolsos – alguns ingleses -, mas não todo ele. A mentalidade conservadora, a estrutura social portuguesa e os gastos excessivos da Corte certamente foram mais responsáveis pelo vazamento de recursos do que um único tratado comercial.
PS: Texto escrito por sugestão de Carlos Alexandre Brasil.
Autor: indianasilva - Categoria(s): História Moderna, História contemporânea, História do Brasil
Tags: Comércio, Historiografia, Inglaterra, Minas Gerais, Ouro, Portugal, Revolução Industrial