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02/07/2009 - 07:16

“Nova Luz” é golpe na cidade de São Paulo

Em breve começará um dos mais escancarados golpes envolvendo o poder público e grupos inescrupulosos (para não dizer mais do que isso) do setor imobiliário em São Paulo. Esse golpe vem disfarçado, vem com embalagem para presente e cheio de pirotecnias envolvendo a “revitalização” do bairro da Luz, ou da Cracolândia como conhecemos mais claramente.

 

Já escrevi aqui em algumas outras ocasiões, mas vou repetir: o modelo de “requalificação”, “reurbanização” ou seja lá como desejem chamar, do bairro da Luz é elitista, voltado para a criação de um conjunto de monumentos para o usufruto de uma parcela irrisória da população paulista, não reintegra a região à cidade, não propõe usos cotidianos para a mesma, exclui e acentua a marginalização da população local e incentiva a saída daqueles que já estão lá de modo organizado e produtivo, como comerciantes e alguns moradores remanescentes. Em suma, é um fracasso em termos de política de gestão do patrimônio cultural, de reurbanização, de gestão pública.

É claro, se você deseja uma cidade cenográfica, mantida a custos astronômicos pelo poder público e dedicada a menos de 10% da população, ok, este é o seu modelo. Não é o que eu, particularmente, acredito.

Depois das obras da Pinacoteca, da Sala São Paulo, da Estação Pinacoteca, da Estação da Luz e do Museu da Língua Portuguesa, agora prefeitura e governo do estado promovem novo avanço no processo de espoliação da cidade através das iniciativas da chamada “Nova Luz” e do “Palácio da Dança”.

Antes que alguém pense algo equivocado vou ser direto: acho que temos sim que ter cada um desses bens na cidade, o estado deve sim investir em música erudita, artes plásticas, dança, etc, etc. Não sou contra a participação da iniciativa privada. Mas tudo tem que ter um “como” e um “porque”.

O fato é que depois de milhões e milhões de reais em investimento a região continua sendo um bolsão de miséria e degradação humana, ampliado graças ao efeito “sinuca”. O primeiro choque promovido pelo estado nos usuários de drogas e traficantes da região não só não extinguiu o problema como o espalhou pelas ruas do entorno, aumentando a área da Cracolândia. As obras executadas na região – como os museus e salas de espetáculo – não promoveram uma reocupação do bairro, mas somente um uso exclusivista dos muros para dentro. Do lado de dentro da Sala São Paulo você tem taças de champagne, os melhores músicos do mundo, e janelas com vedação para que o “público” não veja o que há do lado de fora. Evita que o pivete cole seu rosto na vidraça ou que afronte a “moral e os bons costumes” que imperam do lado de dentro. Ao final de cada espetáculo a audiência desce ao subsolo e pega seus carros, indo embora sem ter tido qualquer forma de interação com o bairro. A Sala São Paulo, tal como foi pensada e como opera, poderia ser até em Marte que nenhuma diferença faria.

Em doses maiores ou menores a mesma situação se repete com cada uma das demais obras que custaram as burras aos cofres públicos. Menos mal o Museu da Língua que é fantástico e foi bancado em parte significativa pela iniciativa privada, além de atender ao público escolar.

O projeto “Nova Luz” deveria ter o complemento: “velha especulação imobiliária”.

De novo não tem nada, o oportunismo e a prevaricação do poder público são tão velhos quanto o próprio estado.

O projeto simplesmente transfere à iniciativa privada o direito de exploração de um enorme quadrilátero privilegiadíssimo, incluindo o direito a desapropriação de imóveis. Quando este bloco urbano estiver “requalificado” ou “revitalizado” ele terá, nada mais, nada menos, do que duas estações de metrô de linhas distintas (azul e amarela), duas linhas de trem, dezenas de linhas de ônibus, acesso fácil à marginal Tietê e a avenida do Estado, a vizinhança da Sala São Paulo, da Pinacoteca, do Museu da Língua e do futuro Palácio da Dança. Estará a dez minutos de metrô da avenida Paulista, cinco de São Bento ou da Liberdade, vinte da USP e da Faria Lima, e quinze do Mackenzie, da Vila Madalena ou da Oscar Freire. Quase nada não é?

Mas a prefeitura está trantando o assunto como “uma questão social”, de “inclusão”, de “revitalização”. Nomes outros para pura especulação imobiliária e para o assalto dos contribuintes paulistas e paulistanos.

E a que preço para a iniciativa privada que fará essa “grande caridade” para a cidade de São Paulo? Quase nada, pois comprará os direitos de “revitalização” da Cracolândia, a região mais mal afamada da cidade. Ou seja, o poder público estará passando a região que mais atraiu investimentos estatais em cultura e transporte para a iniciativa privada pelo preço de um “bolsão de miséria, violência e dependência química”. Ouro a preço de lixo.

Mas isso tudo tem passado sem qualquer maior rumor da sociedade ou da mídia. Tudo em nome da cultura, das artes e da recuperação da Cracolândia.

Os comerciantes do bairro estão parcialmente divididos: quem está fora da zona delimitada está mais otimista, quem está dentro teme que sejam” desapropriados” em nome da revitalização. O mais terrível é que a prefeitura alega que ela “fiscalizará” e “determinará” os rumos da região, isso mais me assusta do que tranquiliza. Afinal os interesses das pessoas se misturam na confusão e na prevaricação do poder público com a iniciativa privada. Em nenhum momento a sociedade civil foi chamada a opinar ou a questionar o processo ou os méritos dele.

O governo do estado de São Paulo entrará com sua parcela, construíndo o Palácio da Dança, em frente a Sala São Paulo, investindo outras tantas dezenas de milhões.

Enquanto isso varrerão os “indesejáveis” para alguma periferia, ou outro recanto do centro. Se vierem moradores para a Luz serão de altíssimo padrão, e não da enorme parcela que luta para que seja dada uma destinação social aos imóveis trancados e emparedados há décadas.

A massa de ”indesejáveis” irá servir novamente aos interesses da especulação imobiliária, pois irão colaborar para formar a má fama de alguma outra região, a qual poderá ser igualmente loteada a iniciativa privada em prol da “recuperação urbana”. E utilizarão a Luz como “exemplo” de boa solução, de “sucesso”, assim como Puerto Madero na Argentina.

Com tudo isso nem a  cidade ganhará nada, nem o patrimônio cultural será valorizado, nem haverá inclusão social, nem o término do tráfico e do consumo de crack. Quem já tem muito terá ainda mais, quem não tem continuará não tendo, ou terá ainda menos, pois se trata de desvio do bem público, e a cidade continuará com suas áreas degradadas, por incompetência, por descaso ou por puro maquiavelismo diabólico de gente voraz por dinheiro sujo.

Não é isso que chamo de “revitalização”. Revitalização significa trazer novamente a vida, não decretar definitivamente a morte de uma região.   

Autor: indianasilva - Categoria(s): Direitos Humanos, História da cultura, História de São Paulo, Patrimônio histórico, Política cultural Tags: , , , , , , , ,
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