Desaparecimento do folclore??
Durante esses últimos anos tive o privilégio de poder viajar pelas mais diversas regiões do país. Estive no sertão nordestino, em várias de suas regiões litorâneas, no centro-oeste durante quase um ano todo, nos vales do Paraíba e do Ribeira em São Paulo, nas Minas Gerais, na região serrana do Rio de Janeiro, no extremo sul e no extremo oeste, desci os rios Negro e Amazonas.
Muitas vezes, às vésperas de sair a campo, nas regiões mais remotas do país, eu ouvia alguém dizer que ou eu ia encontrar uma realidade muito rústica, quase um retrato de um tempo passado, ou que encontraria uma situação plenamente desconfigurada, uma imitação de segunda categoria das grandes cidades brasileiras. Em resumo, que eu encontraria culturas em processo de desagregação ou, senão, materializações das histórias de Monteiro Lobato.
Ariano Suassuna, o grande escritor, disse certa vez que viu durante décadas pesquisadores irem ao nordeste e dizerem que o cordel estava morrendo. Pois todos eles haviam morrido e o cordel continuava vivo. Ariano é um defensor ferrenho das culturas populares e um fiel de sua capacidade de sobrevivência.
Tal defesa de Ariano não vem de uma questão somente ideológica, mas de uma ideologia constituida a partir da observação cotidiana das culturas populares.
E nisso concordo plenamente com ele.
Jamais encontrei por onde andei nem uma coisa nem outra das que me diziam que eu encontraria: nem lugares onde a cultura popular havia morrido, nem lugares onde estivesse congelada no tempo.
As culturas são dinâmicas, isso é a essência delas e sua garantia de sobrevivência. Se não fosse assim ainda estaríamos a lascar pedras como nossos ancestrais de centenas de milhares de anos. Cultura é essencialmente uma arte de mudar. Mas, apesar das mudanças, as culturas são capazes de manter o essencial, o que ainda serve, é útil e faz sentido.
O problema para aqueles que vêem o tempo todo uma “morte das culturas populares” é que aprenderam em manuais antigos “como” eram essas culturas e não “porque” ou “de que modo” essas culturas se processavam diariamente. Se prenderam as formas e não aos coteúdos. Ai ficaram a procurar gente que crê em Caiporas e Curupiras, que ainda tem as maleitas descritas por Monteiro Lobato para seu Jeca Tatú.
Talvez para o imaginário os espaços tenham ficado mais estreitos. Hoje há mais luz, mais televisão, menos fé em alguns aspectos, mais ciência e sobrou menos espaço para as chamadas “crenças populares”. Mesmo assim sempre vi nas comunidades uma fé tradicional muito arraigada, mesmo quando as pessoas mudam de igreja ou de religião.
Conheci gente também que mora em grandes cidades, que estudou, que trabalha em indústrias e vê televisão, mas morre de medo das “visagens” que ocorrem aos viajantes noturnos no extremo norte ou no centro-oeste.
Como Ariano Suassuna tenho certeza que as culturas populares, ou se quisermos chamar de “folclore”, jamais desaparecerá. Simplesmente porque é a essência da sobrevivência das culturas, daquilo que faz os humanos serem humanos.
Autor: indianasilva - Categoria(s): História contemporânea, História da cultura, Patrimônio histórico Tags: Culturas tradicionais, Folclore, Patrimônio cultural, Preservação