16/10/2009 - 06:58

Quem é você? A qual grupo humano pertence? O que é esse grupo?
Respostas à perguntas aparentemente tão simples são em geral infinitamente mais complexas. Comece definindo: brasileira(o), morador(a) de tal lugar, adepto de um credo religioso. Cor de pele, profissão, ideologia política, praticante de algum esporte, interessado em alguma atividade adicional.
É isso tudo – e muito mais – suficiente para definir o que alguém é ou o que um grupo é? A impossibilidade em se reduzir o que um ser humano, ou um conjunto de seres humanos, é explica a dificuldade em encontrar e delinear o que habitualmente se chama de “identidade”.
O documento de identidade, o famoso RG, apenas nos reduz a um pequeno conjunto de informações burocráticas que nos ligam ao longo de nossas vidas ao Estado, à unidade política a qual estamos associados do nascimento à morte, mas jamais seria o suficiente para que pudessemos dizer quem é “alguém”.
A coisa apenas se complica quando ampliamos esse conceito de “identidade” para grupos formados por milhares ou milhões de indivíduos: o que é ser brasileiro? Chinês? Operário? Negro? Mulher? Ambientalista? Universitário? Militante partidário?
As ciências humanas – ou sociais – trabalham constantemente com o conceito de identidade, mas, na maioria das vezes incorrem numa espécie de pasteurização das relações humanas, da plasticidade das culturas e do livre arbítrio de cada ser humano.
Basta examinarmos alguém próximo a quem conheçamos razoavelmente bem, com pouco tempo observaremos uma série de posturas, atitudes que são contraditórias se colocadas frente a frente com a idéia de uma “identidade homogênea”.
Nem todas as atitudes do militante condizem com essa condição, o adepto do Partido Comunista que adora os jogos da NBA, a feminista que sempre sonhou em cuidar das crianças, o operário que adora música erudita e não suporta música popular, o universitário que prefere ir ao pagode do que ao show do Chico Buarque. Em verdade toda idéia de “identidade” esbarra no estereótipo e na prática histórica dos grupos humanos de buscar reduzir o diferente a meia dúzia de características, em geral opostas àquelas que imaginamos definirem o grupo ao qual pertencemos.
Todo diferente é um “bárbaro” em alguma medida como definiam parcialmente os gregos antigos, procedimento que carregamos ao longo dos milênios e que é tão difícil de ser vencido.
Recentemente o pensador francês Jean-Pierre Warnier propôs que o termo “identidade” seja substituido por “identificação”.
A diferença básica entre “identidade” e “identificação” é que o segundo conceito opera sobre o princípio da plasticidade e da volatividade das culturas, das relações humanas, dos gostos, das opções pessoais, situação que se ampliou – ou explodiu? – com o estreitamento das relações entre povos e grupos humanos diversos com as tecnologias da informação que avançaram a velocidade da luz na segunda metade do século XX.
Talvez por isso mesmo as situações que nos insinuam paradoxos tenham se multiplicado exponencialmente: japoneses que abraçaram a causa de grupos africanos ou que vêm ao Brasil tocar nas baterias de escolas de samba nos carnavais, jovens de periferias brasileiras que se identificam com ícones da política do mundo islâmico, palestinos que torcem para a seleção brasileira, alemães e holandeses que usam penteados iguais ao de Bob Marley, argelinos nos “banlieu” franceses que se identificam com os afegãos que tentam atravassar o Canal da Mancha em Calais. É claro, os grupos ainda mantêm conjuntos de valores e ítens (como bens materiais, origem étnica, nacional ou religiosa) que lhes garante a coesão, mas essa já não é vista como era há três ou quatro décadas. O mundo se complicou.
E essas “identificações”, elementos que são somados no interior de cada indivíduo e com intensidades diversas, que os ligam a outros indivíduos espalhados pelo globo através de uma rede de comunicação complexa e cheia de meandros e armadilhas (televisão, rádio, internet), se faz e desfaz o tempo todo, com volatilidade jamais vista ou imaginada. Apoios a governos, ONGs, grupos de ativismo podem se fortalecer ou ruir em espaços temporais diminutos com a divulgação de dados de uma balanço financeiro, de um escândalo, de uma atitude incorreta.
Dias atrás o principal candidato a direção da Unesco – braço da ONU dedicado a Ciência, Educação e Cultura -, um embaixador egípcio, viu sua campanha ruir e sucumbir diante da embaixadora belga diante da divulgação de comentários a respeito dos judeus e de atos que teria cometido contra a liberdade de expressão quando ocupava o cargo de ministro da cultura do Egito. Grupos ligados aos direitos humanos, a liberdade de imprensa, ao patrimônio, entre outros, moveram suas peças no tabuleiro para forçar a derrota do egípcio, contrariando todos os prognósticos de três ou quatro semanas atrás.
De fato vivemos e veremos cada vez mais um mundo organizado pelas “identificações”, pela livre associação – e tentativa constante de manipulação – dos indivíduos, pelo envolvimento em ações, valores e princípios que, mesmo que mantenham características regionais fortes (como a causa indígena no Xingú ou na Amazônia), passam a compor um conjunto de “pautas” globais. O que não significa em absoluto o fim das especificidades locais, regionais, mas apenas uma ampliação e complexificação dos envolvimentos humanos.
Autor: indianasilva - Categoria(s): História contemporânea, História da cultura
Tags: Ativismo, Identidade, Identificações, Política, Populações
06/10/2009 - 07:04
Ouvi durante estes dias, desde a escolha do Rio de Janeiro como cidade sede dos Jogos Olímpicos de 2016, opiniões que vão de um extremo a outro. Uns acreditam que a vinda das Olimpíadas será um ótimo negócio para a cidade do Rio de Janeiro e para o Brasil em geral. Uma oportunidade singular para que problemas crônicos – como saúde, transporte, segurança – sejam resolvidos, uma injeção maciça de capitais no país, projeção internacional, etc. A outra parte pensa diametralmente o oposto: uma singular oportunidade para que a corrupção exploda, um desperdício de recursos e esforços, uma inversão da ordem das coisas, realizar uma Olímpiada num país que trata tão mal os esportes em geral e, especificamente, os amadores.
O fato essencial é que a campanha brasileira para trazer as Olímpiadas em 2016 era essencialmente um ato político amplo, uma ação no campo das relações internacionais e do posicionamento das nações no tabuleiro global.
Até então as candidaturas brasileiras haviam sido tratadas como risíveis – sobretudo a de Brasília – e o país como um todo tomado como um grande bananal. O que pesou para o resultado radicalmente diverso entre a primeira campanha e a atual Rio 2016, além da óbvia questão técnica envolvida, foi o posicionamento político do país, o qual se tornou muito mais agressivo (sem que isso implique, obviamente, em questões de “uso de força”).
Uma série de fatores corroboraram: a estabilidade política, a economia em desenvolvimento seguro e sustentado sobre pilares bastante ortodoxos, iniciativas (insuficientes, mas indicativas) para diminuir a exclusão e o abismo social brasileiro, a melhoria de índices de desenvolvimento humano, uma maior presença do país nas questões internacionais e de modo autônomo, sem rezar pela cartilha dos EUA, a aproximação com os países do BRIC (além de nós a Rússia, Índia e China), além do envolvimento com as nações africanas e da América do Sul, a criação do G20 com o Brasil a frente, a descoberta de reservas gigantescas de gás e petróleo na costa nacional.
Sem todas essas movimentações seria inimaginável pensar que o resultado das eleições do COI na sexta feira fosse diverso do que ocorrera até então: provavelmente Chicago vencendo (para não repetir o continente a receber os jogos) com um lobby fortíssimo dos EUA, tal como ocorreu na eleição de Atlanta, os europeus alinhados em torno da comodidade dos países ricos e desenvolvidos e olhando com muito desdém para as candidaturas fora do eixo América do Norte – Europa – Ásia rica.
Por sua vez o comentário de Lula a respeito da conquista da “cidadania mundial” com a vitória é absolutamente realista: depois do reconhecimento “material”, através da economia profundamente “pé no chão” do Brasil (diferente de muitos paises que continuam patinhando na crise), é necessário avançar com o país nos bens “simbólicos”, nas conquistas de valor estratégico, diplomático, como no caso da Copa do Mundo de 2014 e agora no das Olimpiadas de 2016.
A estratégia brasileira tem sido profundamente bem sucedida: cada vitória no cenário internacional alavanca a candidatura brasileira na próxima disputa, a se observar: o aumento de influência no FMI e uma cadeira permanente no Conselho de Segurança da ONU.
A história das Olímpiadas no século XX é um pouco também a própria história política do século. Além do caso “máximo” dos boicotes recíprocos entre os EUA e a URSS durante a Guerra Fria (nos jogos de 1980 em Moscou, sem os EUA, e em 1984, Los Angeles, sem a URSS), há que se lembrar da terrível Olímpiada de 1936 em Berlin, com a tentativa nazista de provar a suposta ”supremacia ariana”. Tentativa, aliás, fracassada diante dos passos do genial corredor negro estadosunidense Jesse Owens.
Em 1968 ficou marcada a imagem dos atletas negros dos EUA no pódio com os punhos levantados e a luva negra, símbolo dos Panteras Negras, protestando contra a discriminação racial em seu país, gesto que lhes custou as medalhas olímpicas. Anos depois, em Munique, na então Alemanha Ocidental, a politização dos jogos apareceu em frente as câmeras de TV no terrível desfecho do sequestro dos atletas israelenses pelo grupo terrorista palestino Setembro Negro.
Em geral apontam como diferença essencial entre as Olimpíadas Modernas e as da Antiguidade Grega a extrema politização das atuais. Sim, é fato que os jogos atuais são profundamente políticos, como é fácil perceber pelo histórico, mas, teriam sido os jogos da Grécia Antiga muito diferentes neste aspecto?
Nos acostumamos a imaginar a política como um universo a parte, autônomo, sem ligação com as demais atividades humanas. Essa divisão é recente na história do ocidente e, em verdade, é mais clara como “discurso”, como “área de estudo”, do que como elemento da vida humana.
Os jogos da Grécia antiga (e quando falamos Grécia antiga temos que pensar num “espaço cultural”, numa região que compartilhava parte de uma cultura, não num “país” como a Grécia atual) também traziam muito das relações políticas em seu interior. A vitória de um atleta nos jogos sagrados era uma afirmação da superioridade de sua cidade-estado sobre as demais naquele ramo de atividade, além de demonstrar o apreço dos Deuses por aquele mortal, que, a partir daquele instante, entrava para o panteão dos homens que seriam lembrados pelas gerações futuras, praticamente um herói.
A suspensão dos conflitos durante os jogos Olímpicos trazia para dentro destes as rivalidades estabelecidas fora, as guerras, pendengas comerciais, rixas históricas. Até mesmo a definição dos Deuses protetores de cada cidade-estado trazia essa dimensão política, visto que em diversos casos a escolha de um Deus por uma cidade previa uma disputa mitológica entre dois ou mais concorrentes.
Em Atenas, por exemplo, diz a lenda que a cidade seria dedicada a divindade que desse o presente mais útil aos homens. Palas Atena, disputando com seu tio Posseidon, enviou aos homens a oliveira, e com isso venceu a disputa. Disputa, vitória, honra, poder, influência, bens simbólicos, diversos elementos que estavam há dois mil e quinhentos anos do mundo grego antigo tanto quanto no nosso.
Por isso se há algo diverso entre as Olimpíadas Antigas e as Modernas esse elemento deve ser procurado no campo da economia, do mercado, não no das relações e valores políticos envolvidos no que, a princípio, é uma disputa “sagrada”.
Autor: indianasilva - Categoria(s): História antiga, História contemporânea, História da cultura
Tags: Grécia., Jogos Olimpicos, Olimpíadas, Política, Rio de Janeiro
25/09/2009 - 06:40
Quantas vezes você já ouviu dizer que o Brasil é um país pacífico? Que um dos elementos que diferenciam nosso processo de Independência do de outras nações é a ausência de conflitos armados? Que tendemos à acomodação e que países onde há processos mais “violentos” a política em geral é melhor?
Eu ouvi isso durante todos os meus anos escolares, e continuo ouvindo de muitas pessoas, sobretudo as de mais idade. Em geral compara-se a Independência do Brasil com a das antigas colônias da Espanha, onde a separação se deu apenas através de uma longa luta, ou mesmo no caso dos EUA e a Guerra de Independência contra a Inglaterra (culminando no ano de 1776). Comparam ainda a constituição do nosso Estado e dos nossos poderes políticos com a França, onde a Revolução Francesa (de 1789) estabeleceu um marco de rompimento e recriação parcial do país.
Em verdade essas comparações partem de dois conjuntos de desconhecimento e da construção de um mito: o desconhecimento da história dessas outras regiões, o desconhecimento de nossa própria história e a construção do mito do povo brasileiro como um povo pacífico, “afável”, tendendo sempre à acomodação.
A respeito da história desses países seria extenso e nem tão útil assim se extender, vale saber que conhecemos sempre fragmentos e que nem sempre esses povos resolveram suas disputas políticas pelo embate direto. Mesmo quando assim o fizeram as consequências foram desastrosas e traumáticas. A Guerra de Secessão dos EUA, em meados do século XIX, deixou marcas profundas no país e demorou décadas para ser superado o ódio entre o norte e o sul (e com o estabelecimento de uma grande vantagem política para o norte vencedor da guerra).
Da parte do Brasil, por outro lado, frequentemente se “esquecem” episódios que diriam algo bem diverso a respeito de nossa história. Logo após a declaração de Independência a região do Pará e do Maranhão não se posicionou imediatamente a favor da separação com Portugal (na época o Grão Pará e o Maranhão conformavam uma região autônoma em relação ao Brasil). A união com o Brasil somente foi possobilitada graças a força das armas apoiada com negociações políticas intensas. Depois da renúncia de Dom Pedro I, e antes que seu filho e herdeiro – Pedro II – pudesse ser coroado, teve início o que chamamos de “Período Regencial”, o qual o governo era formalmente exercido por um “regente” indicado para tal cargo. Nos anos da Regência pipocaram pelo Brasil movimentos que esperavam uma independência diversa daquela que se estava construíndo, o mais longo desses movimentos, a Farroupilha, somente se encerrou muitos anos depois.
Com o cenário de grande indefinição política que se instalou com a renúncia de Dom Pedro I, uma série de grupos que almejavam formas distintas de independência daquela que se havia estabelecido abriu fogo contra o governo do Império arrastando o Brasil para uma longa década de conflitos armados em praticamente todas as regiões do território.
Depois da relativa estabilidade que significou o II Reinado, com a coroação de Dom Pedro II, o país voltou a se envolver em sérios conflitos: Canudos, o Contestado, a Revolução de 1924, a Coluna Prestes, A Revolução de 1930, o Golpe Militar de 1964 e daí para diante.
Estivemos longe de ser um “povo pacífico”, bem como nos mantivemos distantes de uma democracia consolidada, construída e experimentada cotidianamente, a qual somente se efetivou coma eleição de Collor de Mello (e que deu no que deu).
Contudo, e apesar desse retrospecto, ficamos marcados como “povo pacífico” que não gosta de “embates”. Mito, é claro, que tem algo de razão quando também lembra que nossa incrível plasticidade é um traço cultural marcante, uma incrível adaptabilidade a situações e lugares (herança que herdamos dos portugueses em grande medida). Os mitos, em geral, não são “mentiras”, mas modelações de elementos reais de acordo com fins outros.
A idéia de “flexibilidade”, “pouca rigidez” veio desde tempos de colônia e das avaliações profundamente estereotipadas de viajantes europeus, parte disso herdamos também de Portugal, que entre os povos europeus – pelo fato de ter assimilado tão bem mouros e judeus e africanos e asiáticos em outros tempos – também gozava da fama de ser “meio flexível demais”.
Ingleses, bávaros, prussianos, tenderam a ser mais rigorosos no juízo dos brasileiros do que outros viajantes de raíz latina, como os franceses.
E essa idéia se transmitiu e encontrou difusores poderosos, como Gilberto Freyre e Paulo Prado, os quais viam como virtude e vício do povo brasileiro uma suposta “plasticidade”, uma “meiguice” que tendia a acomodação ao invés do embate.
Cada um deles escreveu isso e abraçou a idéia por motivos bem específicos, mas isso acabou penetrando também nas interpretações dos historiadores e - em consequência – nos livros didáticos, disseminando ainda mais a versão.
Em suma, nossa história não foi menos ou mais sangrenta do que a de outros povos, embora tenhamos – certamente – nossas especificidades culturais e históricas, e como na letra de Fado Tropical de Chico Buarque temos a capacidade de misturar no mesmo gesto o golpe duro e presto com uma alma que instantaneamente se ressente, verdadeira ou falsamente.
Autor: indianasilva - Categoria(s): História da cultura, História do Brasil
Tags: Brasil, Cultura, Mito, Política
07/08/2009 - 06:32
Boa parte da população brasileira, nos últimos tempos, gostaria de registrar um B.O. (Boletim de Ocorrência) contra o Congresso Nacional e, especificamente, contra o Senado (o qual, junto com a Câmara, forma o Congresso). A quantidade de “artigos” nos quais poderiam ser enquadradas as nossas “excelências” os(as) senadores(as) seria espantosa, mas, principalmente, pesaria a acusação de má fé e estelionato. Ou seja, o ato de enganar outrem e aplicar golpes contra aquele que lhe faz alguma espécie de pagamento. Como somos nós que pagamos os salários deles (bem como é nosso o dinheiro que desperdiçam ou que surrupiam direta ou indiretamente) somos os “lesados” da história, as vítimas e, portanto, portadores do direito de realizar uma queixa policial.
O mais impressionante disso tudo é que até então o Senado havia se resguardado da bandalheira que corria solta na Câmara. Não que fossem mais honestos, ou mais responsáveis, mas, certamente, eram mais discretos e metidos em encrencas mais grossas. Contudo a perseguição a José Sarney desencadeou um efeito dominó que – muito provavelmente irá ser arquivado, como sempre ocorreu – mas que, também, custará, que, sabe até quando, a nesga de credibilidade que ainda restava ao legislativo brasileiro.
No meio dessa barafunda, muitos se perguntam: Qual é a função do Senado se já existe a Câmara? Não é uma sobreposição de funções?
É, pelo que se tornou, mas não deveria ser, pelo que já foi.
A instituição ”Senado” é atiquíssima, embora tenha passado por inúmeras transformações ao longo do tempo. Talvez o Senado mais famoso da história tenha sido o de Roma, sobretudo em seu período Republicano. O Senado era o lugar onde os representantes das famílias de cidadãos, de patrícios, se reuniam e decidiam os rumos da cidade, da República. Sua origem ocorreu em uma sociedade absolutamente dividida entre os “cidadãos” (aqueles que eram livres, com posses, nascidos no local, pertencente a uma das famílias de originais, portanto com direito políticos) e uma massa de excluídos políticos (plebeus, estrangeiros e escravos).
Esse sistema se manteve enquanto a sociedade antiga se sustentou, e enquanto as cidades eram menores e a representação política era absolutamente pessoal e presencial. O crescimento das cidades, dos impérios, provocou mudanças nessa forma de organização, levando a ampliação do conceito de cidadania (e portanto de representação política), como no caso de Roma, que passou a aceitar homens nascidos nas províncias e nas colônias.
Com o fim do Império Romano, no século V, a “instituição” do Senado praticamente desapareceu no ocidente até o período moderno (depois do século XV), quando uma nova classe social começou a ganhar importância e força política, através do seu enriquecimento.
Essa classe social, a burguesia, paulatinamente granjeou força e forçou a concessão de direitos políticos a eles (os quais eram vedados pelo fato de não serem de origem nobre). Por mais ricos que fossem os burgueses, na maior parte da Europa, o acesso ao poder direto estava praticamente vedado pelo sistema monárquico. Contudo, na Inglaterra, a situação começou a mudar.
Lá a figura do monarca era acompanhada do conselho de nobres, mas a Revolução Inglesa, do século XVII, colocou a burguesia definitivamente no tabuleiro do jogo e o conselho de nobres teve de aceitar a existência de um segundo lugar de representação, um conselho de homens “comuns”. Daí surgiu o sistema chamado de “bicameral”, com uma ”Câmara Baixa” (dos “comuns”, dos burgueses) e outra, denominada ”Câmara Alta” (formada pelos Lords), sistema que ainda vigora na Inglaterra.
Nesse sistema o monarca passou a ter seus poderes – até então absolutos – delimitados por uma carta constitucional e pelas “câmaras”. Mas a Câmara Alta, por ser formada por nobres, geralmente estava mais próxima da figura do monarca, e mais aderente a suas perspectivas.
Deste modo a Câmara Alta servia de intermediária nas discussões cotidianas entre os “comuns” e a figura do monarca, era um braço independente, porém ligado pelas origens sociais ao rei ou rainha.
Esse sistema – depois do século das Revoluções Burguesas, o XVIII – se manteve com ou sem monarquias, e passou a ser copiado em várias regiões, principalmente nos países recém independentes das Américas.
No Brasil o sistema foi adotado desde o período monárquico. No Império Brasileiro os senadores eram nomeados pelo Imperador, e tidos como os homens mais próximos e de confiança. Em geral um político somente era nomeado senador depois de uma longa carreira, de grande destaque na política da Corte, e, também, de fortuna considerável. Era o coroamento de uma carreira política, geralmente começada muito cedo na província de origem.
Boa parte dos ministros do Império eram oriundos do Senado (e seus cargos de senador eram vitalícios).
Com o fim da monarquia o sistema teve novamente que se adequar, mas a idéia de duas câmaras, uma mais popular e outra mais restrita, foi preservada e se manteve assim até hoje.
Por isso, em geral, os senadores são políticos de grande destaque em seus estados (posto que agora tais cargos são eletivos). Basta ver a trajetória deles e se verá a quantidade de ex-governadores(as) que agora ocupa assento no Senado.
Mas, diante dos rumos que a política brasileira tomou nas últimas décadas o Senado foi paulatinamente perdendo seu caráter mais “elevado”, de discussões mais profundas, de lugar não de políticos, mas de “estadistas”. O Senado foi se tornando o depósito das raposas velhas, de políticos que acumularam fortunas e controlam grupos enormes, como o caso do falecido ACM, ou mesmo de José Sarney.
Esse esvaziamento das funções do Senado (que justamente por teóricamente ter um perfil mais reflexivo, mais adensado de discussão, tem mandatos de oito anos, sem renovação total da casa a cada pleito) gera a constante dúvida: O que o Senado faz que a Câmara não faz?
Atualmente muito pouco, por conta desse esvaziamento e precarização dos quadros políticos que ocupam suas vagas.
E entre os senados da antiguidade ou da modernidade e o nosso há ainda uma diferença essencial: Neles a função era exercida sem que isso se configurasse como um “emprego”, embora desde a antiga Roma senadores utilizassem suas funções para enriquecerem ainda mais (talvez com mais elegância e menor avidez, mas o faziam, inclusive com desvio de espólios de guerra, ocupação de terras em áreas conquistadas e afins). Não sendo funcionários, não tendo acesso a “administração” imediata da cidade, da República, do Reino, não podiam se valer tanto de seus cargos para situações bizarras como o favorecimento de namorados de netas e nomeações secretas.
De qualquer forma o que vemos é que o sistema de duas casas legislativas foi pensado para ter uma baixa e outra alta, mas hoje, no Brasil, temos duas casas baixas, baixíssimas aliás.
Autor: indianasilva - Categoria(s): História Moderna, História antiga, História contemporânea, História do Brasil
Tags: Brasil, Império, Inglaterra, Política, Regime, Roma, Senado
14/03/2009 - 15:20
Há umas duas semanas fui com alguns amigos assistir no auditório do Ibirapuera a apresentação da Orquestra Típica Fernandez Fierro, com abertura do Arbolito.
A Orquestra encontra-se no movimento de ressurgimento do tango em Buenos Aires, interpretado visceralmente por jovens músicos. A Fernandez Fierro está justamente nesse ambiente. Jovens músicos que muito bem poderiam estar tocando rock, reggae ou qualquer outro ritmo menos “tradicional”, mas tocam tango, com “atitude” como definiu um crítico musical na turnê do ano passado.
A orquestra possui seu “bunker” no bairro tangueiro de Abasto, em Buenos Aires, no que passaram a chamar de “CAFF”, o Clube Atlético Fernandez Fierro, onde quase toda semana ocorrem apresentações do que há de melhor da música argentina contemporânea (lugar que eu faria acompanhar do La Peña del Colorado, em Palermo). Uma vez por semana a Orquestra Típica também se apresenta no CAFF.
Mas até chegar lá se apresentavam aos domingos na feira de San Telmo, como se apresentam tantas outras “orquestras típicas” (como a El Afronte), para vender discos e ganhar unos trocaditos a más.
O grupo que antecedeu a Orquestra no Ibirapuera, o Arbolito (nome emprestado de um antigo e mítico lider indígena dos pampas argentinos), encontra-se num outro movimento da música argentina e latino-americana.
O Arbolito é um tributário contemporâneo de Violeta Parra, Victor Jara, Inti Illimani, Atahualpa Yupanqui, Mercedes Sosa, Raices de América, Tarancón, Liliana Herrero e tantos outros. É uma mistura dos inúmeros ritmos tradicionais da América do Sul – as chacareras, milongas, guaranias, sikureadas, carnavalitos – com pitadas de rock, reggae, ska, como já haviam feitos os grupos brasileiros Raices de América e Tarancón.
E sempre com grandes doses de engajamento político e social.
Devo reconhecer que fiquei pensando: Esse tipo de música fez bastante sucesso nos anos de 1960, 1970, quando a América Latina estava afundada na escuridão de toda sorte de ditadura e nas mãos de fascistas da pior espécie (alguns dos quais ainda tentam se livrar de processos por violação dos direitos humanos). Mas, ainda terá essa música lugar nos dias de hoje?
Parte da fama desses músicos nasceu das sinas que cumpriram nas mãos dos regimes ditatoriais. O Inti Illimani fazia turnê na Itália quando ocorreu o golpe de estado no Chile, que culminou na morte de Salvador Allende. Não puderam sequer voltar para casa. Assim como os hebreus o Inti viveu décadas “no deserto”, esperandoa volta para casa. Mercedes Sosa igualmente teve de se refugiar diante da barbárie dos militares argentinos. Victor Jara, que não teve a mesma sorte, morreu na mão de covardes.
No Brasil a perseguição a músicos foi mais sensível no caso de Geraldo Vandré, mas nenhum chegou a ser assassinado. Caetano e Gil foram exilados, Chico teve de “dar um tempo”. Mas, no final dos anos de 1970, com a distenção do regime ditatorial no Brasil o cenário musical pode mudar e houve um renascimento do interesse pela música latina.
Quando Milton Nascimento lançou “Clube da Esquina 2″ inseriu algumas músicas latinas, como uma composição do cubano Pablo Milanés e Casamiento de Negros de Violeta Parra. Chico Buarque, que havia participado da gravação se fez parceiro de Milanés e fez a versão para o português de Yolanda do cubano.
Com essa aproximação com os músicos cubanos também passou a ser gravado Silvio Rodrigues, violonista da ilha, genial, que teve diversas canções suas gravadas por Milton e Sosa, como Sueño con serpientes. Aproveitando a aproximação Sosa também gravou em espanhol Maria, Maria e sua “herdeira”, Liliana Herrero, gravou mais recentemente Romaria de Renato Teixeira.
Elis Regina, no seu inesquecível “Falso Brilhante”, de 1976, gravou Gracias a la vida de Violeta Parra (um hino da música latino-americana) e Los Hermanos de Atahualpa Yupanqui, outro marco.
Lembrando dessas referências todas abandonei a idéia de que esse tipo de música havia “perdido o bonde da história”, porque, em verdade, isso se tornou um substrato da música latino-americana, que transcende os grupos de bolivianos tocando Yesterday com zampoñas (ou quenas, como seria o nome correto) na Praça da República.
E essa troca e intensa criatividade da música latina faz com que aqui ainda seja um gigantesco celeiro de ritmos e canções, que representam a grande renovação musical do mundo.
Basta lembrar que o tango é uma derivação da milonga, que é uma derivação do candombe uruguaio, que é uma criação nas Américas de um ritmo de matriz africana. Ou que os ritmos do altiplano ganharam nova dimensão quando receberam o toque acelerado do charango, um instrumento de cordas criado na improvisão e imitação das guitarras de origem ibérica.
E, no Brasil, nossa música se fez utilizando toda sorte de referência musical africana, indígena e européia. E mesmo sendo oriundos de tradições diferentes as alfaias de maracatu, tocadas na zona da mata pernambucana, conseguem dialogar perfeitamente com os bombos legueros dos pampas.
O fato é que em nenhuma outra região do planeta se criaram tantos ritmos em tão pouco tempo quanto nas Américas. O rock, o blues, o jazz, a rumba, o tango, o mambo, a salsa, o forró, o xote, o samba, o rasqueado, o carimbó, a milonga, as chacareras, etc, etc. E cada um desses ritmos com infinitas variações, como o samba canção, o samba de roda, o semba, o tambor de crioula, o samba de umbigada, a bossa nova, o pagode.
E a dedicação dos jovens cabeludos porteños ao tango – como na Fernandez Fierro – ou às chacareras – como o Arbolito – é prenamente compreensível, pois esses ritmos, originários de referências ancestrais, estão no subconsciente musical dos latino-americanos, e são a eles que retornamos recorrentemente.
E para quem não conhece recomendo que urgentemente vá ouvir algo a respeito desses musicos dos quais tratei, e será realmente mais feliz…
Autor: indianasilva - Categoria(s): História contemporânea, História da América Latina, História da Música, História da cultura
Tags: Fernandez Fierro, Mercedes Sosa, Milton Nascimento, musica brasileira, Musica latino-americana, Política
11/08/2008 - 10:13
Uma coisa é o discurso, outra é a prática.
Em todas aberturas de Jogos Olimpicos o presidente do Comitê Mundial, bem como dos comitês organizadores, chefes de estado, etc, insistem que as Olimpiadas são um momento de confraternização dos povos, um disputa pela superação humana, a celebração do esporte como agregador da humanidade. Quase ninguém acredita nisso, principalmente os que discursam dizendo isso.
Ao longo dos mais de 100 anos das Olimpiadas da era moderna ficou mais do que comprovado o caráter político de tais jogos. Seja nos boicotes estadunidense e soviético durante os anos de Guerra Fria (boicotaram-se mutuamente em Moscou 1980 e Los Angeles 1984), seja pelo trágico sequestro e assassinato dos atletas israelenses em Munique, ou pela raiva provocada em Adolf Hitler quando o corredor negro estadunidense Jesse Owens venceu em Berlim, 1936, os corredores brancos, os jogos ganharam cores políticas cada vez mais fortes.
Nas últimas décadas as Olimpiadas demonstraram ainda uma outra face da política, num mundo não mais polarizado entre os EUA e a URSS: a disputa econômica.
Escândalos de suborno foram abafados para não manchar o “espírito olímpico”, mas é público e notório, por exemplo, o investimento que o Comitê Organizador dos jogos de Atlanta fez em gordas propinas pagas aos presidentes de muitas associações desportivas internacionais e delegados que votariam na escolha da cidade sede.
Receber uma Olimpiada, além da dor de cabeça, significa investimento de bilhões e outros tantos em gastos com turismo e deslocamento das delegações, sem contar no licenciamento de produtos.
Não acho isso um problema, mas deve ser dito, pois são fatores mais importantes do que a poluição de Beijing ou a violência do Rio de Janeiro na escolha de uma cidade sede.
O fato é que os Jogos Olimpicos mesmo no mundo grego antigo tinham um caráter político acentuado. Um das diferenças entre os jogos antigos e os modernos é o caráter religioso que os primeiros possuiam, não a ausência da política.
Ter um vencedor numa das provas em homenagem a Zeus significa glorificar a cidade de origem do mesmo, era uma prova da superioridade de seus cidadãos. A guerra, lá como cá, não se fazia apenas de armas em punho, mas com a criação do imaginário de “super-potências”, manifestadas na habilidade de seus representantes.
Nenhuma alusão direta ao que os EUA fazem com jovens como Michael Phelps, mas apenas direta. As coincidências não existem em absoluto.
Em suma: não é possível dissociar as Olímpiadas do caráter político que as acompanham, tanto no mundo grego antigo quanto hoje. Que o digam, agora, os chineses.
Autor: indianasilva - Categoria(s): História antiga, História contemporânea, História da cultura
Tags: Grécia., Guerra Fria, Olimpíadas, Política
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