iG
iBest BrTurbo

Publicidade

Publicidade

12/10/2008 - 07:26

Nossa Senhora Aparecida e a religiosidade do Vale do Paraíba

Em setembro do ano passado eu e minha equipe fomos enviados ao Vale do Paraíba, a fim de produzir um diagnóstico do universo cultural da região. Passamos por quase três dezenas de cidade, entre elas Areias, Arapeí, São José do Barreiro, São José dos Campos, Taubaté, Guaratinguetá e Aparecida.

Uma das tarefas imprescindíveis era registrar a religiosidade vale paraibana, ainda tão forte e tão plural em suas manifestações. Varremos a região em busca dos cultos a Santa Cruz, a cerimônia da Carpição, os santuários da Santa Cabeça e da Santa Perna, o casa de São Frei Galvão, as capelinhas de Santa Cruz nas estradas e, é claro, o culto a Nossa Senhora da Conceição Aparecida.

Fomos à Aparecida num domingo, visitamos o santuário, o qual parecia um formigueiro e nem era 12 de outubro. Ficamos profundamente decepcionados com o mercado de fé que se estabeleceu em frente ao santuário. Voltamos bastante chateados.

Mas, apesar disso, foi uma experiência fantástica ir e observar a religiosidade dos brasileiros no maior centro de peregrinação do país.

A história do culto a Nossa Senhora Aparecida é um exemplo das singularidades culturais do Brasil e da região do Vale do Paraíba especificamente.

No começo do século XVIII três pescadores – Filipe Pedroso, João Alves e Domingos Garcia – estavam a pescar no rio Paraíba do Sul, com o intuito de obter alguns peixes dignos de serem presenteados ao governador da Capitania na ocasião, o Conde de Assumar, que deveria passar pela região rumo às Minas Gerais.

Depois de inúmeras tentativas infrutíferas na rede veio o corpo de uma santa, sem a cabeça. No lanço seguinte da rede de pesca veio a parte faltante. Filipe Pedroso levou a santa para casa, que se tornou ao longo dos 15 anos seguintes local de peregrinação e oração. Em 1734 o culto se tornou oficialmente público com a construção de uma capela. Um século depois começou a ser erguida a primeira basílica, a qual ainda existe e é ligada a Basílica Nova pela famosa ponte.

A coroa de ouro que adorna a santa foi presente de Princesa Isabel, em novembro de 1888. Em 1929, finalmente, foi reconhecida como padroeira do Brasil.

Além da história reconhecida pela Igreja Católica há ainda uma série de lendas paralelas que se espalharam pela região. Uma delas que diz que a santa, depois de “pescada” foi lançada novamente ao rio, porém retornou na rede, até que os pescadores entenderam seu desejo em ser resgatada das águas.

Curiosamente no Vale do Paraíba existem vários registros de santos ou objetos de devoção que são pedaços de imagens sacras ou outros objetos sagrados. Além da igreja da Santa Cabeça (na realidade a cabeça de uma imagem que teria sido encontrada por tropeiros há séculos) há a Santa Perna, um culto não reconhecido pela Igreja Católica, mas com expressão significativa na região de São José dos Campos. A perna que ocupa uma pequena capela provavelmente era um ex-voto (objeto depositado em lembrança a uma graça alcançada, como pernas, cabeças, braços de madeira, velas no tamanho das pessoas ou em formato de órgãos, fotos, etc.) que foi encontrado no meio do caminho.

Mesmo as famosas pílulas de Frei Galvão, distribuídas no Mosteiro da Luz, tem sua origem na região, uma vez que o Santo era de lá. E isso nos faz perguntar o porquê desse tipo de manifestação religiosa no Vale do Paraíba.

A primeira penetração do catolicismo na região foi realizada através dos jesuítas, os quais, para difundirem o cristianismo, adotaram e reinterpretaram diversos procedimentos mágico-religiosos dos povos tupis que ocupavam a região.

A religião tupi sempre teve um componente mágico muito pronunciado, com curas, com práticas religiosas ligadas a materialidade. Em boa parte o catolicismo vale paraibano absorveu essas características.

Também o fato de várias imagens sagradas terem sido encontradas a beira dos caminhos ou nos rios justifica-se pelo fato de que acreditava-se que uma imagem quebrada não podia ser descartada de qualquer modo. Ou depositava-se numa capela de Santa Cruz, a beira de um caminho, ou lançava-se em águas correntes. Provavelmente foi aí que começou a história da imagem de Nossa Senhora da Conceição Aparecida.

De acordo com especialistas em arte sacra a imagem pertence ao século XVII e é feita em terracota colhida na própria região. A escuridão da imagem seria decorrente da permanência no fundo do rio e da queima de velas e incensos ao longo de séculos.

Independente de qualquer questão material, o culto a Nossa Senhora Aparecida é uma fantástica mistura dos princípios católicos com doses da religiosidade regional do Vale do Paraíba, matizada pela forte presença histórica dos povos tupis.

Autor: indianasilva - Categoria(s): História contemporânea, História da cultura, História do Brasil Tags: , , , ,
Voltar ao topo