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20/12/2008 - 21:29

O Natal e os nascimentos mitológicos

 Imagem de Afrodite com a pomba numa das mãos.

Uma pesquisa feita com a população inglesa revelou que 70% dela não crê que Jesus Cristo tenha nascido do modo que a Bíblia relata. A informação era dada na reportagem como uma insinuação a respeito de um suposto “ateísmo” dos ingleses, interpretação que creio ser simplista e longe da realidade.

Em verdade não perguntaram se a população acreditava ou não em Jesus Cristo, nem se seu nascimento estava relacionado a manifestação do divino, mas apenas se acreditavam que havia nascido “exatamente” como a Bíblia relata.

Oras, as duas coisas não tem necessariamente uma a ver com a outra.

E, na realidade, nem mesmo penso que seja essencial para a maioria dos cristãos crer no nascimento de Cristo tal como é descrito. Boa parte das pessoas tem a percepção, consciente ou inconsciente, de que os significados profundos trazidos pela história de Cristo estão além da necessidade da comprovação da “veracidade” dos fatos, como se fosse necessário que a Polícia Científica fizesse uma reconstituição do evento.

A história do nascimento de Cristo, desde a concepção mágica, pelo Espírito Santo, representado por uma pomba, até sua morte e ressurreição, seguida da ascenção aos céus, recupera elementos imemoriais das religiões do oriente próximo e do mundo grego.

 O judaísmo, religião da qual nasceu o cristianismo, se formou a partir da influência de várias religiões orientais, como o mazdaísmo, o maniqueísmo e elementos até mesmo oriundos dos gregos.

Entre estes últimos os nascimentos míticos eram componentes essenciais de sua religião. Deuses e heróis nasciam de modo especial, era um traço distintivo que marcava desde a primeira infância a vida dos mesmos. De Zeus à Hércules todos tinham nascimentos especiais, cercados de anúncios, presságios, profeciais.

Mas, dentre todos estes, o nascimento que parece ter mais influenciado o cristianismo é o de Dionisio, filho de Zeus, conhecido como Baco entre os latinos.

Para muitos Dionisio é apenas o Deus do Vinho, mas, entre os gregos, seu culto era de importância enorme, complexo e profundamente místico, daí os chamados “mistérios dionisíacos”.

O centro do culto a Dionísio ocorria justamente na celebração de seu nascimento, ocorrido de modo absolutamente fantástico. Hera, a esposa ciumenta de Zeus, ao saber que seu esposo teria um filho com outra mulher preparou uma de suas armadilhas. Foi até a mãe de Dionisio, que ainda o gestava no ventre, e, disfarçada, incitou-lhe a exigir, como prova de amor, que Zeus se mostrasse a ela tal como era.

Sendo ela uma mortal, jamais poderia ver Zeus em sua forma real, pois assim seria imediatamente desintegrada. Mas ela, não sabendo disso, pediu a Zeus que ele lhe prometesse cumprir um desejo seu, fosse ele qual fosse. Zeus prometeu. Ela, então, lhe pediu para que se mostrasse tal como era.

Sendo um deus e não podendo descuprir uma promessa, mas, ao mesmo tempo, sabendo que a mulher morreria imediatamente, Zeus, ao se mostrar, arrancou a criança do ventre da mãe e a alojou em sua coxa. Com a morte da mãe, Zeus terminou de gestar o filho em sua própria coxa.

Mas, mesmo assim, Hera não se satisfez e durante a vida da criança tentou lhe matar de todas as formas. Numa delas perseguidores foram atras de Dionisio que, para fugir, foi se transformando em diversos animais, até que, transformado em touro foi cercado, morto e esquartejado. Mas Zeus reuniu seus pedaços e Dionisio reviveu.

Osíris entre os egípcios também foi esquartejado per seu inimigo, Set, e reunido por sua esposa/irmã, Isis, renascendo. Cristo, seviciado e morto também renasceu pela graça de seu Pai/Deus. Homem e Deus, tal como Dionísio e Osíris. 

Anualmente as sacerdotisas de Dionisio – as quais eram vegetarianas rituais – matavam um touro, esquartejavam-no e partilhavam sua carne e seu sangue, em memória ao sacrifício de Dionísio, celebrando, assim, seu renascimento. Quando não havia um touro para o sacrifício, as sacerdotisas partilhavam pão, rasgando o com as mãos, e bebiam vinho, símbolos da carne e do sangue de Dionísio.

Também durante o inverno, a população grega, devota de Dionísio, pindurava nos pinheiros daquela região, durante as festas dionisíacas, no inverno, réplicas de brinquedos de criança nos pinheiros da região, como forma de lembrar a infância do deus. Debaixo das árvores depositavam excedentes de comida, para quem precisasse durante o inverno. 

A figura de Afrodite, deusa da fertilidade, era comumente representada carregando uma pomba numa das mãos – tal como na figura acima -, um símbolo tão antigo quanto o da serpente, outro animal associado a sua figura.

Mas, isso tudo, não é para dizer que o cristianismo “copiou” os gregos, os egípcios ou os antigos persas, mas para lembrar da força de certas crenças, do valor simbólico que elas tem, da força do mito do nascimento, morte e ressurreição, ciclos da terra e da vida, mais antigos do o homem e que acompanham desde sempre nossa existência como espécie.

Autor: indianasilva - Categoria(s): História antiga, História da cultura, História do oriente Tags: , , , ,
01/12/2008 - 19:48

Feliz Natal…o filme

Capa do filme Feliz Natal

Feliz Natal…

Por enquanto, ao menos até o dia 25, é o nome de um filme fantástico, um dos mais belos que vi nos últimos tempos.

Em 1914 eclodiu a Primeira Guerra Mundial colocando em lados opostos austríacos e alemães de um lado, ingleses e franceses de outro. Mesmo com ingleses e franceses sendo adversários históricos, curiosamente, nas duas guerra mundiais (ou na Grande Guerra – 1914 a 1945, de acordo com alguns historiadores) eles lutaram lado a lado.

Mas o mundo, no final do ano de 1914, ainda era o mundo do século XIX, das antigas convenções, das antigas etiquetas e da antiga guerra, muito diferente do que apareceria depois.

Apesar de toda guerra ser brutal, até 1914 um código de conduta quase cavalheiresco imperava nos exércitos. Estar nos exércitos, ao menos para os oficiais – muitos deles nobres – era uma honra e uma tradição secular familiar.

Nas trincheiras da Primeira Guerra Mundial, no final do ano de 1914, um fato que hoje soa quase surreal ocorreu entre os exércitos inimigos.

Na noite de natal o exércitos acordaram uma trégua festiva, afinal, como escreveu o historiador Jacques Le Goff, se há algo que pode ser identificado como fundador e unificador da cultura européia, este algo é o cristianismo.

Independentemente do lado que defendiam na guerra todos, ou quase todos, eram cristãos.

Durante a trégua os soldados de ambos os lados sairam das trincheiras para confraternizar com os adversários, com quem, até há pouco, trocavam balas. Cantaram canções natalinas, compartilharam o pouco que tinham, mostraram fotos de família.

No dia seguinte ainda disputaram partidas de futebol até que, lembrados pelos seus superiores – em seus quartéis generais aquecidos e perto de suas famílias – foram obrigados a voltar para a carnificina. A sequencia da história foi horrível e inaugurou a era da guerra total, na qual dizimar o adversário é sinônimo de vitória.

O filme Feliz Natal conta esta história de um modo sensível. É um filme de guerra contra a guerra, bem ao gosto dos europeus.

Sem grandes cenas de batalha, sem cenários gigantescos e sequências interminaveis de balas e explosões como O Resgate do soldado Ryan, Feliz Natal (Joyeux Nöel no original, produção de um monte de países) investe na qualidade da história e na sensibilidade do público. Lindo demais, e um ótimo filme para ver e perceber como os sentimentos podem ser tão contraditórios na vida.

  

Autor: indianasilva - Categoria(s): História contemporânea, História e cinema, Sem categoria Tags: , , ,
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