13/10/2009 - 07:07

Museu é um lugar onde são reunidos objetos de arte, históricos, arqueológicos, antropológicos ou de qualquer outra forma “colecionáveis”, os quais são expostos ao público com fins diversos, certo? Parcialmente certo, ou, melhor dizendo, cada vez menos certo.
Na realidade os museus vão continuar sendo “também” isso, mas não somente. Há muito os museus (”templo das Musas” do antigo grego) passaram a ser muito mais do que espaços onde se encontram coleções de coisas diversas (animais, obras de arte, objetos “históricos”) para serem também instituições de pesquisa, de ensino, de educação e, há menos tempo, talvez, de lazer.
Mas uma das constantes dos museus – a de serem instituições localizadas num único edifício ou num conjunto de edifícios associados, fechados e longe da luz do dia – está lentamente perdendo sua hegemonia para dar espaço, justamente, às áreas amplas, abertas, nas quais a própria paisagem e o ambiente fazem parte da “coleção” do museu.
No extremo sul de Portugal, a oeste, encontra-se o “Promontorium Sacrum”, faixa de Europa encastelada sobre penhascos que foi citada pela primeira vez nos textos gregos da antiguidade, há mais de 2500 anos. Para os romanos ali estava o ponto onde Hercules realizara um de seus 12 famosos trabalhos, abrindo com os braços uma passagem pelo Mediterrâneo. Para além de Gibraltar ergueram uma pedra cerimonial a qual batizou o local: O Promontório Sagrado, o qual já em tempos de portugueses passou a ser referenciado pela corruptela do nome romano e se tornou Sagres.
Em Sagres – no promontório, na imagem acima - foi erguido um farol, uma fortaleza e uma gigantesca Rosa dos Ventos já no século XV, muito provavelmente na época de Dom Henrique o Navegador, irmão do rei de Portugal e Mestre da Ordem de Cristo. Dom Henrique recebeu a alcunha de “O Navegador” justamente por ser o grande incentivador das navegações portuguesas, as quais gerenciava a partir da cidade de Lagos, próxima ao promontório.
Em torno de Sagres surgiu, inclusive, a história da lendária “Escola de Sagres”, núcleo formado por Dom Henrique reunindo os maiores especialistas em navegação conhecidos à sua época, de todas as etnias, credos e cores. Lenda popularizada e romantizada, mas que jamais se deu tal como nas histórias.
Como, então, colocar dentro de um museu um farol, uma cidade e um promontório, e mais ainda, um mar e um oceano, além da luminosidade, do vento, dos odores, componentes todos que trazem o visitante para uma experiência de instantes que o carregam para a história antiga ou para o século XV, como o Navegador olhando no horizonte seus navios se afastando rumo à África?
Os Museus a Céu Aberto, como vêm sendo chamados, buscam justamente essa dimensão “experiêncial” ampla que somente o contato com o ambiente é capaz de proporcionar. Nesses lugares edifícios, sítios arqueológicos, paisagens, elementos naturais, populações de animais selvagens e, até mesmo, comunidades locais compõem um todo que somente faz sentido se mantidos íntegros, no conjunto.
Na Europa são dezenas de experiências já, a maioria delas associada ou ao período neolítico ou à Idade Média (o que permite, inclusive, algumas ações de gosto questionável como a de colocar a população local empregada no museu vestida com trajes de época). Há, também, cidades que se tornaram quase inteiramente um conjunto de bens históricos ou arqueológicos, como Évora e Óbidos também em Portugal, exigindo uma mudança na forma de ver esses elementos e buscando integrá-los num mesmo plano, compondo, enfim, um museu a céu aberto não pensado dessa forma desde o início.
No Brasil algumas iniciativas começam a ganhar força, como o conjunto da Serra da Capivara no Piauí, de longe a melhor experiência brasileira (embora com vários problemas e desafios a serem vencidos), mas ainda não temos um projeto que pense desde o início o conjunto de bens, de patrimônios, móveis e imóveis, materiais e imateriais, culturais e naturais, como uma unidade e no qual nós mergulhamos em busca de uma experiência ampla e não apenas de informação.
Autor: indianasilva - Categoria(s): Arqueologia, História da cultura, Patrimônio histórico, Política ambiental, Política cultural
Tags: Céu Aberto, Museologia, Museus, Portugal, Sagres, Serra da Capivara
17/03/2009 - 18:27
Em 1994, na minha primeira ida à Bolívia, estava caminhando calmamente pelo gigantesco sítio arqueológico de Tiwanaku, nas proximidades de La Paz, quando fui interpelado por um camponês. Figura típica quechua (uma das etnias às quais a grande maioria da população boliviana pertence): baixinho, atarracado, muito moreno de sol, rosto enrugado, de chinelos, com um colete por cima de uma camisa surrada.
O camponês perguntou, sem maiores delongas, se eu estaria interessado em comprar uma legítima estatueta inca que el, ao cavar a sepultura de seu pai, encontrara no sopé das montanhas. Não, não estava, e na hora declinei delicadamente. Mas fiquei remoendo na mente a cena de Indiana Jones e a Ultima Cruzada, na qual ele – Indi - está no convés de um navio lutando pela posse da Cruz de Coronado e diz: Isto deve ficar em um museu.
Depois, vendo se afastar o pobre camponês, a idéia de desfez de tão absurda: Nem se tratava da Cruz de Coronado, nem o pequeno quechua era um bandido perigoso, um terrível colecionar ou contrabandista de objetos arqueológicos. Com o passar dos anos a reprimenda que me ensaiei ao boliviano foi se tornando cada vez mais estúpida.
Não que eu defenda o comércio ilegal de objetos arqueológicos, paleontológicos, históricos ou artísticos, patrimônios nacionais, mas um pouco de bom senso ajuda a interpretar as leis.
A questão é antiga. Basta uma pequena visita aos museus ingleses, franceses, estadosunidenses, alemães ou russos para ver o que é profissionalismo em questão de roubo, saque e contrabando. Pouquíssimas peças desses museus foram obtidas por permuta ou doação. Sem as guerras e as espoliações o British Museum ou o Louvre seriam menos atraentes aos turistas atuais.
Mas, dizem os defensores (a maioria desses países, é claro): São águas passadas. Não podemos culpabilizar o presente pelos erros do passado.
Cinismo. Puro cinismo, pois poderiam muito bem repatriar as peças e garantir, inclusive, uma melhoria no turismo cultural dos países saqueados (boa parte deles sempre num miserê danado).
Não é a toa que a arqueologia, até tempos recentes, era vista como atividade de saqueadores, ladrões de túmulos. Figuras como Heinrich Schliemann, Hiran Binguan, entre tantos outros, foram verdadeiros contrabandistas em larga escala, entulhando os museus de seus países com objetos peruanos, gregos, cretenses, etc.
Isso gerou um trauma tão grande em alguns países que a legislação que trata do assunto é um verdadeiro cipoal de leis. Na Turquia, por exemplo, qualquer ameaça ao patrimônio histórico e arqueológico é tratada com rigores de lei islâmica, o trânsito de pesquisadores e de objetos dentro do país é absolutamente vigiado.
O precedente que gerou isso é bastante ruim: Schliemann, ao escavar a suposta cidade de “Tróia” (ainda no final do século XIX) carregou para a Alemanha uma quantidade gigantesca de artefatos, a grande maioria feita de ouro e pedras preciosas (o que chamou de “Tesouro de Príamo”). Na invasão soviética a Alemanha, no fim da Segunda Guerra Mundial, o tesouro foi levado para Moscou e repousa no famoso museu Puschkin. Em décadas recentes esse “tesouro” gerou uma disputa internacional completamente maluca: os turcos exigem repatriação do tesouro, pois o sítio de Tróia fica no atual território da Turquia, contudo, quando a cidade era “viva” ela pertencia ao mundo grego, portanto os gregos também requerem a posse dos objetos. Os alemães, por sua vez, dizem que Schliemann escavou legalmente o tesouro e, portanto, tem o direito de ficar com ele, e os russo, por fim, argumentam que os objetos estão na conta das “indenizações de guerra”, pelo estrago causado pelos nazistas durante a invasão à União Soviética. E completam: quem quiser o tesouro que se atreva a ir buscá-lo em Moscou.
Está bom assim?
Mas há mais. Uma caravela portuguesa, indo para o Brasil quando afundou no final do século XVI, cheia de dobrões de ouro, encontrada em território maritimo internacional pertence a quem? Ao Brasil, a Portugal ou aos espanhóis (que controlavam Portugal naquela época)?
O caso é que a legislação não é simples e nem todos os países são partidários das convenções internacionais a respeito do patrimônio cultural, o que facilita o comércio e o contrabando de peças em determinadas regiões do mundo.
Um dos problemas que tornam o controle do tráfico de peças arqueológicas mais difícil do que o de arte é que cada “obra de arte” é absolutamente singular e conhecida, facilmente reconhecível. Mas os objetos arqueológicos não. Boa parte deles é relativamente “comum”, ou seja, existem dezenas, centenas de peças semelhantes, as quais, as vezes, até pertencem legalmente a coleções particulares. Mas, é claro, essas peças são menos cobiçadas pelos colecionadores. Por outro lado, parte dos objetos arqueológicos é difícil ou impossível de ser contrabandeada, como sarcófagos, portais, etc.
O Brasil sempre teve menos problemas do que países como o Perú, a Bolívia, Grécia, Turquia, China, Índia, México, no que diz respeito a cobiça pelos objetos arqueológicos, mas isso tem mudado e a recorrência de furtos a museus históricos e artísticos brasileiros nos últimos anos expôs nossa vulnerabilidade. Por sorte, em quase todos os casos, eram ladrões de galinha e foram facilmente pegos. Mas nem sempre será assim.
O pior de tudo é que quando pegam os bandidos, somente os ”executantes” vão para a cadeia, quando vão. Os grandes colecionadores, os “mandantes”, que chegam a ”encomendar” objetos para suas coleções, raramente são identificados e mais raramente são punidos. O motivo é simples: são donos de grandes fortunas, banqueiros, empresários, investidores, políticos.
Por isso, no final das contas, mesmo sendo errado, a venda de uma estatueta pelo camponês boliviano (encontrada ou não no enterro do pai) é uma gota d’água no oceano do contrabando internacional de patrimônio histórico, artístico e arqueológico.
Autor: indianasilva - Categoria(s): Arqueologia, História da cultura, Patrimônio histórico
Tags: Arqueologia, Artefatos, Bolívia, Contrabando, Museus