Por que Michael Jackson simbolizou uma época?
Lembram da história de “Pedro e o lobo”? É uma fábula muito antiga que meu avô contava para mim: a história de um menino que vivia gritando “olha o lobo” e sempre era mentira. Mas, certo dia, o lobo era verdadeiro, e ninguém acreditou. Quando entrei na net e um amigo me disse que Michael Jackson havia morrido ocorreu exatamente a mesma coisa. Só acreditei quando vi a notícia confirmada pela BBC de Londres, pela Reuters, pelo NY Times.
Acho que além de tanta boataria que cercou a vida de Michael Jackson pesou também o fato de que certas figuras pensamos que são imortais. Quando o Papa João Paulo II morreu eu estava numa escavação do centro do Mato Grosso e ouvi a notícia pelo rádio do carro, e mesmo tendo acompanhado as notícias de sua agonia demorou um tempo para a ficha cair. No caso de Michael foi um pouco mais demorado.
Isso não tem nada a ver com “admiração” ou algo do tipo, embora ele tenha sido uma referência da minha geração. Michael havia se tornado uma instituição apesar de toda decadência que viveu na última década. Se aquilo que chamamos de cultura “pop” tivesse um rosto certamente seria o de Michael Jackson (qual deles, aliás?).
Quando outros ídolos morreram a comoção foi igualmente profunda: Elvis, John Lennon, Carlos Gardel, Rodolfo Valentino, Francisco Alves, Marilyn Monroe, Elis Regina.
A morte trágica e prematura sempre provoca uma sensação de “coisa interrompida”, “história inconclusa”, mas a de Michael compôs – por mais absurdo e triste que isso seja – sua trajetória de modo absolutamente coerente.
Fiquei tentando entender porque a morte dele é um fato singular, diverso de outros ídolos tão amados e admirados quanto.
Michael Jackson sempre é lembrado como o artísta que revolucionou o show bizz. O video clip era uma coisa antes e foi outra depois de Thriller: até então os clips eram pouco mais do que os cantores ou as bandas tocando uma música. Thriller era um “blitzkrieg” cinema, uma história relâmpago com ares impactantes como um ataque. Uma história entrecortada, cheia de subentendidos que davam velocidade a narrativa, capaz de resumir uma história de duas horas em poucos minutos. Essa linguagem de videoclip tornou-se a grande referência de linguagem de toda a geração que veio a partir de então, foi o precursor da velocidade de navegação da internet, do hipertexto, dos games. Se ficasse somente nisso Michael já seria digno de ser lembrado, mas há mais.
Sua trajetória pessoal encarnou como nenhuma outra a tensão do mundo contemporâneo: menino negro, forçado pelo pai a jornadas intermináveis de ensaios, shows e gravações que lhe roubaram a infância. O sucesso financeiro cobrou dele parte de sua saúde física e mental. A chamada “Síndrome de Peter Pan”, que se disseminou em toda uma geração, teve nele o maior de seus expoentes.
Quantos – em medidas menos agressivas – vivem a mesma situação? Comprando brinquedos de criança aos quarenta anos, se recusando a envelhecer, procurando se relacionar com pessoas profundamente mais jovens, fugindo de compromissos sociais – com exceção do trabalho – que lhe atrelem a uma vida “adulta”.
O sucesso pessoal associado a uma profunda tristeza íntima, à uma tensão para que todos os dias continuasse a ser o “ídolo surpreendente”, demanda de um mercado cultural agressivo, devorador.
Poderíamos pensar: mas os Beatles sofreram algo semelhante, ou mesmo Elvis.
Mas Elvis não viveu esse mercado cultural plenamente configurado, suas crises pessoais eram de outra ordem. O que minou a unidade dos Beatles, por sua vez, foram as divergências por dinheiro e por estilo, depois, é claro, que já tinham fortuna suficiente para não fazerem nada pelo resto de suas vidas. E embora alguns deles tenham vindo de famílias pobres ou desestruturadas – Elvis e John Lennon – eram brancos e “se tornaram” ídolos, não foram transformados em “mercadorias culturais” a força como no caso de Michael.
Ninguém é capaz de calcular o que essa conjunção de fatores deve ter provocado na cabeça de uma criança (e que continuou, em boa medida, a se comportar assim até o fim).
Michael Jackson viveu até as últimas consequências o que Guy Debord chamou de “sociedade do espetáculo”, uma sociedade na qual ”parecer” é mais importante do que “ser” ou do que “ter”. Ele viveu para “parecer”, e teve dificuldades para “ser” e para “ter”. E não estou falando exclusivamente de questões materiais (embora até estas tenhas sido comprometidas no final). Sua morte foi absolutamente envolvida pela dimensão “espetacular” de nossas vidas: em tempo real, ao vivo, sem que ninguém conseguisse definir exatamente onde terminava a encenação e começava a realidade, até onde ia o “show”. Muitos, como eu, pensaram que era apenas mais um golpe de publicidade, sinal do quanto perdemos parte de nossa capacidade de definir as fronteiras entre o real e o imaginário. E a realidade somente se revela nas questões mais cruas, mais irrevogáveis, como a morte.
No palco também foi Michael a promover uma ruptura. Apesar de bandas de rock virem desde os anos de 1960 inovando em seus shows, foi o antigo menino do “Jackson 5″ que elevou a milhonésima potência o conceito de “show”. Depois dele tudo que estivesse no palco e não somasse música, luz, dança, representação, efeitos especiais passou a ser considerado um espetáculo de música, não mais um “show”.
E sem falar, é claro, na incorporação que fez de inúmeros traços da cultura negra estadunidense, sobretudo da black music da Motowm e do nascente hip-hop, como a inconfundível batida, o baixo proeminente, o balanço, os passos de break, o estilo “black is beautiful”. Enfim, se o rock foi o “embranquecimento” da música negra para que se tornasse comercialmente palatável ao público branco, a música de Michael meteu o pé na porta e se tornou um fenômeno mundial, popular entre os herdeiros do trono inglês, os presidiários de Formosa, entre os executivos japoneses (doentes por ele) ou entre as socialites brasileiras.
Lí nestes dias incontáveis textos de críticos rançosos insistindo no fato que nos últimos quinze anos Michael Jackson não havia feito nada a não ser se meter em escândalos. O fato é que se tivesse morrido no dia seguinte ao lançamento de Thriller já teria merecido o título de “artísta que simbolizou o pop”, mas depois disso ainda produziu coisas revolucionárias (como as tecnologias empregadas no clip de Black or White).
E não devemos esquecer que “pop” é a abreviação de “popular”, e ninguém jamais o foi – e dificilmente será – na dimensão que Michael Jackson foi.
Autor: indianasilva - Categoria(s): História contemporânea, História da Música, História da arte, História da cultura Tags: Michael Jackson, Pop, Thriller