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17/08/2009 - 07:00

E se fossemos holandeses?

De tempos em tempos aparece alguém dizendo que uma das pragas de nossa formação histórica é justamente o fato de termos sido colonizados pelos portugueses e não por algum outro povo europeu não latino, como ingleses, alemães ou holandeses.

 

Esse tipo de argumentação tem ficado cada vez mais raro, mas ainda aparece aqui ou acolá. Reflete o que boa parte dos brasileiros aprendeu nas escolas nas últimas décadas, somado ao estado de “perplexidade”, de estagnação, que o país viveu durante anos, sobretudo durante o período da ditadura militar.

O cálculo dos que ensinavam, e de muitos que aprendiam, era o seguinte: os Estados Unidos da América também foram colônias (13 no começo) da Inglaterra, e se tornaram um país sólido, avançado, economicamente forte. Nós também fomos uma colônia, portanto não seria a colonização em si a responsável pelo atraso, mas a matriz, o povo que conduziu a colonização.

Essa argumentação também traz no bojo certo comodismo e dissimulação, pois joga na matriz colonial todas as mazelas pelas quais passamos ao longo de nossa história, inclusive aquelas ocorridas após a independência. Certa feita, num programa do Jô Soares (não me lembro se já era na atual emissora, mas, se não me engano, foi na época do lançamento do livro Terra do fotógrafo Sebastião Salgado), o entrevistador perguntou ao escritor português José Saramago se ele não pensava que parte de nossas deficiências eram de responsabilidade da colonização portuguesa. Saramago respondeu: “Bom, você culparam Portugal pela colonização, depois de independentes culparam a Inglaterra pela dominação no século XIX, depois vieram os americanos e os culparam também. Quando é que vocês vão assumir a responsabilidade pelo seu próprio futuro?”

Ao mesmo tempo, na interpretação de nossa história, surgiu a tese de força de que nossas mazelas nem eram decorrência da colonização em si, nem da nação que nos colonizou, mas da “forma” ou “modelo” de colonização. Lembram da história de “colonização de povoamento” X “colonização de exploração” (sinto arrepios só em citar essa história…)?

Essa linha de interpretação tomava os EUA como modelo ideal de colonização de povoamento – por isso teria “dado certo” – ao passo que nós – modelo de “colonização de exploração” – havíamos nos tornado a pátria das desigualdades e do atraso. Um dos grandes responsáveis pela difusão dessa tese foi o historiador Caio Prado Jr. a partir dos anos de 1940.

Mas, e o sul dos EUA? Escravismo, monocultura, latifúndio… E nossas “MInas Gerais”: exploração mineral, trabalhadores livres em boa medida, propriedades menores. O modelo de “povoamento” X “exploração” também não parece muito funcional.

Mas, mais do que “modelos” o que merece ser questionado é o conceito de “dar certo” ou “dar errado”, de “desenvolvimento” e de “justiça social”.

No meio dessa discussão sempre houve quem lembrasse da ocupação holandesa no nordeste como uma “incrível oportunidade perdida”  de termos tido uma “história ligada a uma nação desenvolvida”, como se fosse nossa chance de passar para o lado no qual os EUA supostamente estariam.

É claro que as argumentações em geral cortam aquilo que lhes é menos favorável. Mas, vamos lembrar um pouco o retrospecto da invasão holandesa.

Os “Países Baixos”, por questões sucessórias, estavam ligados a Espanha, mas se rebelaram, declarando-se independentes. No último quartel do século XVI a Espanha e os Países Baixos se encontravam em franco conflito.

Portugal era parceiro comercial dos holandeses no refino, transporte e distribuição do açúcar na Europa, bem como no financiamento da lavoura e até mesmo no tráfico de escravos africanos. Contudo, após a morte do herdeiro português Dom Sebastião, o jogo político e econômico europeu mudou.

Também por questões dinásticas o herdeiro do trono português era o rei de Espanha, Filipe II, o qual fez valer seus direitos. Em 1580 estava consolidada a chamada “União Ibérica”, com os dois reinos sob o controle do mesmo monarca (situação que se extenderia até 1640). Não seria tolerável que uma colônia pertencente a Portugal tivesse como parceiro comercial  principal inimigo da Espanha. Diante disso se ordenou a interrupção de todo o trato com os Países Baixos, representado nesses negócios pela Companhia das ìndias Ocidentais (a W.I.C.).

Os holandeses decidiram contratacar tomando as regiões produtoras de açúcar: Pernambuco, Bahia, Paraíba. A empreitada toda foi pensada como uma ação ecônomica, da qual, inclusive, se venderam ações na bolsa de Amsterdã.

A invasão – tarefa extremamente custosa – não foi nada fácil e em diversas regiões os holandeses foram expulsos, como da Bahia. Finalmente conseguiram se assentar em Olinda e Recife, controlando a produção da Zona da Mata pernambucana, não sem que os engenhos fossem severamente avariados (o que exigiu mais investimentos para recuperar a capacidade produtiva).

Excetuando os investimentos que foram realizados por ordem do homem forte da W.I.C., João Maurício de Nassau, e a liberação da pratica religiosa (os Países Baixos eram predominantemente compostos de protestantes calvinistas, com grande presença de judeus), pouco se alterou no regime: a escravidão e o tráfico continuaram sendo as bases do trabalho, o açúcar continuou sendo o principal produto, a monocultura extensiva permaneceu como a base da organização espacial e comercial.

Mas houve que visse na ocupação holandesa algo “especial”, como um período áureo da história regional.

Nassau foi diversas vezes acusado de corrupção e enriquecimento ilícito às custas da W.I.C., um dos fatos pelos quais foi retirado do cargo. Quando estourou a Guerra de Restauração, após o fim da União Ibérica e retomada da Independência por Portugal (1640), empreendida em sua maioria por colonos, praticamente sem ajuda do exército português, a resposta holandesa foi violetíssima e as propriedades novamente destruídas (o caos instaurado pelo conflito foi o fermento para o crescimento da confederação de quilombos de Palmares, na Serra da Barriga).

Depois da expulsão do holandeses – após, inclusive, o pagamento de “indenização” por Portugal – a região demorou muito a se reorganizar e retomar sua vida, e os antigos invasores foram desenvolver sua própria cultura do açúcar nas Antilhas, tornando o mercado do produto cada vez mais competitivo e com margens de lucro apertadas.

De qualquer modo os holandeses tiveram a oportunidade de fazer das Antilhas um “Canadá” ou um “EUA”, mas não fizeram. O fato é que cada região teve suas especificidades históricas, sociais, culturais, e como diria Marx “Os homens fazem a história, só não o sabem como”. Os “modelos explicativos” em geral mais empobrecem do que elucidam os problemas.

Mas numa coisa tivemos vantagem inquestionável: Jamais passamos pelo constrangimento de torcer numa copa pelo “Carrossel Holandês”.

Autor: indianasilva - Categoria(s): História Moderna, História da América Latina, História do Brasil Tags: , , , , , , ,
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